“Je suis partout” – um sticker antimaçónico

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A simbologia nos trilhos dos movimentos antimaçónicos: Um sticker que invadiu Lisboa (e a Europa)

Je suis partout, a “boleia” de um jornal nazi

O transeunte atento que deambule pelas ruas do Bairro Alto, por exemplo, verá dezenas de um pequeno autocolante, a preto e branco, com um grupo de símbolos que facilmente identificará com um certo sabor maçónico – a base da figura é um triângulo no qual estão inscritos, entre outros, um olho. A reforçar a ideia, a legenda do autocolante diz “Je suis partout”, remetendo a leitura mais rápida e menos esclarecida para a visão popular da Maçonaria que tudo controla, uma visão tão ao gosto das teorias da conspiração.

Contudo, este sticker é um exemplo perfeito de um trabalho sistemático e muito bem delineado de discurso antimaçónico que através da cultura popular vai injetando na população mais jovem o gérmen contra a maçonaria, manuseando a simbologia de forma completamente errada e, acima de tudo, propositadamente fora da sua correta leitura.

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Fig. 1: Autocolante, sticker (c. 5x5cm), colado recentemente aos milhares nas paredes, postes de sinalização, caixas elétricas, etc., em muitas cidades europeias

De facto, a ideia “Je suis partout” nada tem de maçónico, mas resulta de uma mitologia, de uma narrativa construída pelos movimentos antijudaicos e antimaçónicos de finais do século XIX e inícios do século XX. Je suis partout era o nome de um dos principais jornais franceses antissemitas e antimaçónicos, criado em 1930 e extinto apenas em 1944.

Com um olhar rápido, verificamos que, para além do uso da frase que era o título deste jornal, é o próprio lettering usado nos stickers atuais que copia literalmente o jornal fascista e nazi da década de trinta e da II Guerra Mundial.

O jornal Je suis partout e a Maçonaria

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Fig. 2: cabeçalho do jornal Je suis partout, criado em 1930, em França

Com o seu primeiro número publicado a 29 de Novembro de 1930, o Je suis partout foi fundado por Jean Fayard, neto do fundador da casa editorial homónima, e escritor de grande destaque no início do século XX, tendo recebido o Prémio Goncourt in 1931. O jornal teve como diretor, até 1939, Pierre Gaxotte, próximo da Action Française, historiador eleito para a Académie française em 1953. A partir de Junho de 1937, o redator principal seria Robert Brassilach, outro vencedor do Prémio Goncourt, que acabaria por ser fuzilado após o fim da guerra por colaboracionismo com os nazis.

A 24 de Junho de 1935, Pierre Gaxotte assinava um artigo, na primeira página, sobre a Franco-Maçonaria, onde recuperava a sua investigação sobre a Revolução Francesa, que o colocara como uma das referências na temática, para caracterizar de forma nada positiva a Maçonaria.

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Fig. 3: Primeira página do número de 24 de Junho de 1935, com destaque do artigo de Pierre Gaxotte sobre a Maçonaria

Até ao último número, a tónica antimaçónica e antissemita foi uma constante. Jean-Noël Jeanneney, em Novembro de 2010, lembrava o último número, de 16 de Agosto de 1944, da seguinte forma no artigo “Le fiel ultime de «Je suis partout»” (nº 358, Novembro de 2010, da revista L’Histoire):

“1944, 16 août. Une grande heure dans l’histoire de notre presse ? Ce jour là, l’une des publications les plus sombres qui y ait jamais prospéré achevait la course de son déshonneur.

La caricature de Ralph Soupault, en première page de l’ultime numéro de l’hebdomadaire Je suis partout , daté du 16 août 1944, résume parfaitement le ton de cette feuille. On y voit Roosevelt enlaçant un gros Juif au nez crochu, fumant cigare et portant gibus, et lui murmurant, à propos de Camille Chautemps – un leader important de la IIIe République auquel on prête le projet de jouer sa carte après la Libération – affublé ici des insignes de la franc-maçonnerie : « Ce Chautemps fera tout à fait notre affaire. » Ce qui lui vaut, bien entendu, cette réplique satisfaite : « Et nos affaires… »

Ralph Soupault, dessinateur au talent dévoyé, continue jusqu’au bout de porter le credo de cette équipe avec une violence à laquelle l’écrit peut parfois moins bien parvenir : haine des « Anglo-Saxons enjuivés » , fureur contre tous les « attentistes » , ceux de Vichy au premier rang, détestation de la démocratie, appel au meur …”

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Fig. 4: Imagem em destaque na primeira página do último número do jornal Je suis partout

Andalltha: Je suis partout na street art

Após o anonimato de alguns anos, Thierry Jaspart, uma das figuras centras do grupo / movimento Andalltha, assumiu a paternidade do sticker “Je suis partout”. Numa das raríssimas entrevistas dadas pelo artista plástico [1], Jaspart, questonado sobre a ligação ao “principal journal collaborationniste et antisémite français sous l’occupation nazie”, respondia:

Mais ça n’a politiquement rien à voir, même si ça m’amuse que les gens fassent le lien, […]. Je n’ai jamais lu une ligne de ce magazine, d’ailleurs je n’aime pas tout ce qui divise“.

O artista radica o nome do projeto na dimensão natural da street art:

C’est le principe du street art, de pouvoir se retrouver partout où sont les gens, d’inonder la vie de ses créations. Mais ici, plus qu’une volonté de créer, l’important, c’était de le reproduire un maximum. C’est une sorte de matraquage, pour où qu’on aille, qu’on le retrouve“.

O significado da simbologia associada a esta frase já icónica da street art manter-se-á reservado ou, melhor, na fechada nterpretação do autor que se recusa a apresentar a sua leitura, deixando um espaço total ao “leitor” dos símbolos:

Oui, mais ça je ne l’explique jamais. Si on dévoile tout, c’est un peu décevant. On le sait et puis on passe à autre chose. Je trouve que c’est mieux de continuer à imaginer

No seu blog, Esoteric Newspaper Thierry Jaspart’s blog [2], o artista nada mais apresenta sobre a leitura ou justificação desta sua obra, deixando ao transeunte a total liberdade de interpretação. Neste momento, o seu trabalho centra-se já numa outra fase, no sticker J’EXISTE.

Nous sommes partout, a publicação anti-maçónica online

O site, a publicação online Nous sommes partout [3], publicado em francês e tendo como centro a vida social, cultural, política e religiosa francesa, encontra-se acolhido em servidores na Suíça.

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Fig. 5: cabeçalho da publicação online Nous sommes partout

O seu objetivo é afirmar-se como «un site de réinformation de la droite nationale, traditionnaliste, monarchiste, contre-révolutionnaire». Recuperando o design da publicação pró-nazi dos anos 30 e 40 do século passado, esta nova revista inspira-se diretamente nesse jornal. Com um discurso de ódio contra o multiculturalismo, o islão e o judaísmo, tem também na maçonaria um dos seus principais alvos.

Num longo artigo, “11 bonnes raisons pour ne pas entrer en maçonnerie”, o jornal afirma, de forma bastante interessante sobre os blogues maçónicos, lançando a sua lista das ditas razões falsas ara aderir à maçonaria:

“Pourquoi ne pas entrer dans la franc-maçonnerie ? La toile regorge de blogs de propagande vantant les prétendues merveilles de l’appartenance à la franc-maçonnerie et les immenses bienfaits de «l’initiation». Naturellement, ces blogs ne sont que le reflet d’une pensée inversée propagée, la plupart du temps, par des initiés que la charité chrétienne qualifiera au mieux de «naïfs», au pire «d’imbéciles heureux.» Les malheureux, au cerveau lavé par la secte, croient visiblement ce qu’ils écrivent ou s’ils n’y croient pas réellement sont les suppôts éclairés et intéressés de la subversion des valeurs européennes.”

Naturalmente, este site e esta publicação não passou despercebida aos meios maçónicos franceses. A publicação online / blog Hiram.be – Le Blog Maçonnique [4], dedicou uma publicação a esta publicação e aos seus conteúdos antimaçónicos:

“Ce « Nous sommes partout » a bien sûr ouvert un chapitre «franc-maçonnerie». Encore peu fourni vu la jeunesse du site, mais dont les articles ont évidemment vocation à être élogieux. «Révélons, révélons, révélons» qu’ils disent. Ce qui n’est pas sans rappeler un autre site anti-maçonnique, «La Lumière» de François Koch, site qui, selon son auteur, a pour objectif de «jette[r] de  La Lumière sur ce qui demeure caché ou camouflé, confidentiel ou discret» dans la franc-maçonnerie. Pour l’instant dans «Nous sommes partout», après un inévitable article sur le révisionnisme du GODF et une invitation à redécouvrir le film «Forces occultes», on trouve un «petit glossaire maçonnique» publié le 18 mai, et un article publié le 28 mai consacré à un inventaire des obédiences maçonniques françaises. Rien de bien nouveau, du copié/collé de tout ce qui se trouve …partout.”

São complexos os caminhos da radicalização da sociedade e o uso da memória e dos símbolos. Com este caso, viajamos até aos movimentos pró-nazis do século XX, desaguamos nos movimentos fascistas atuais e, pelo meio, encontramos um movimento artístico que não sabemos como catalogar. Tantas vezes a adesão ou o uso de simbologias é naif, é descontextualizado, é buçal mas, perigoso, criador de leituras populistas e, inevitavelmente, perigosos.

Paulo Mendes Pinto

Notas

[1] Xavier Lambert, “Qui est derrière ces symboles en triangle avec un oeil qu’on retrouve partout en Belgique et en Europe?”, RTBF, 18 de Maio de 2017: https://www.rtbf.be/info/insolites/detail_c-est-quoi-ces-symboles-qu-on-retrouve-dans-toute-la-belgique-en-europe-et-au-cambodge?id=9608470

[2] https://thierryjaspart.wordpress.com/

[3] https://noussommespartout.com/

[4] https://www.hiram.be/a-propos/

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