Livre e de Bons Costumes

Querido Venerável Mestre,

Queridos Irmãos em todos os graus e qualidades,

“Livre e de bons costumes” é uma expressão que se usa com bastante frequência para descrever um maçon. É igualmente usada em determinadas circunstâncias quando pretendemos acentuar a nossa condição de maçons, e como tal dizemos:

“sou livre e de bons costumes”.

Livre… provém de liberdade, ou seja um homem livre será aquele que pode fazer uso da sua liberdade. E como pode ser entendida a liberdade?

Costumes… o que são bons costumes?

Para compreender um pouco melhor o sentido destas palavras importa que nos debrucemos um pouco sobre os seus significados possíveis. A possibilidade de fazer o que se quiser, de realizar sem impedimentos externos, os próprios desejos e aspirações dá-nos a perspectiva política da liberdade.

Sob um ponto de vista histórico a liberdade designa a condição oposta à escravidão. Mas, os defensores da liberdade racional reconhecem a existência de um outro “cativeiro” – o exercido pelas tendências inferiores, que impedem o homem de realizar a sua verdadeira natureza de ser racional – o que nos leva a uma nova concepção de liberdade, em que predomina o domínio da razão, do eu superior, e nos leva à liberdade do sábio (Espinosa) ou, em regime cristão, à do santo. No limite desta concepção a vontade humana coincide com a ordem da razão (ou com a vontade de Deus).

Mas, Aristóteles não concorda com os princípios anteriores, rejeita o intelectualismo excessivo e afirma que o homem pode, conhecendo o bem, praticar o mal vencido pela paixão.

“Diz-se “costume”, “costumes” a prática repetida de um ou mais actos ou acções humanas que tendem a generalizar-se, por força do hábito e da imitação, e a perdurar indefinidamente, constituindo-se em princípio, regra ou norma de conduta para os indivíduos da mesma sociedade”.

Os costumes são assim uma das fontes de Direito e passam a ser consagrados em Lei.

Podem ser também entendidos como uma “maneira de agir estabelecida pelo uso num povo ou grupo social”, ou como “uma forma de comportamento socialmente prescrita mantida pela tradição, e reforçada pela reprovação social da sua violação” (Fairchild). Estas abordagens dão-nos a perspectiva sociológica.

Refere a primeira definição “prática de actos ou acções humanas que tendem a generalizar-se”, assim como “a perdurar indefinidamente”.
A força dos costumes é tal que podem ser consagrados na própria lei, e a sua não observância ser reprovada socialmente.

Mas a expressão “livre e de bons costumes” é explicita acerca de quais os costumes que são determinantes para se ser Maçon: os bons.

Mas interrogo-me… os bons costumes poderão ser assim considerados apesar das diferenças culturais existentes entre as várias sociedades?

E interrogo-me novamente, os bons costumes poderão persistir enquanto tal apesar das mudanças sociais, culturais, económicas e políticas que nos dias de hoje ocorrem a um ritmo alucinante?

Não será que as práticas repetidas e generalizadas que tendem a se perpetuar no tempo o são cada vez menos?

Como podemos verificar esta pequena frase é grande nos seus significados. Leva-nos a campos tão diversos como os da História, Filosofia, Política, Sociologia e da Moral, pelo que as respostas não são fáceis de encontrar sem um estudo
aprofundado acompanhado de uma ponderada reflexão.

Por isto não vou concluir esta prancha, mas deixá-la em aberto para que cada um de vós a possa concluir e encontrar o significado de “Livre e de bons costumes” no íntimo do vosso coração.

Para terminar gostaria apenas de vos ler um trecho de um momento da Iniciação em que o Venerável Mestre realiza algumas advertências ao profano antes de este ser submetido às provas iniciáticas, assim diz:

“É para conter a tendência para as paixões mais indignas, que por vezes a razão não consegue evitar; é para nos libertarmos dos desprezíveis interesses que escravizam muitos homens, que nos constituímos em Sociedade. Nós trabalhamos em conjunto
e sem descanso para o nosso aperfeiçoamento; procuramos habituar o nosso coração a entregar – se apenas a objectivos nobres e o nosso espírito a conceber somente sólidas ideias de valor e de virtude. É regulando assim as próprias atitudes pelos princípios da moral que se pode dar, à própria alma, o justo equilíbrio de força e sensibilidade que constitui a sabedoria, isto é, a ciência da própria vida.”

Disse!

Prancha de Autor não Identificado (M:.M:.) – Lisboa, Janeiro de 6005

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