De uma Loja de S. João

Liberto, pelo silêncio, da obrigação de intervir, e reduzida a minha participação a um mínimo essencial, tenho sido em Loja quase só olhos e ouvidos. A boca, uso-a – fora de Loja – essencialmente para perguntar. Tenho aprendido muito e, impercetivelmente, em função daquilo que vou interiorizando, vou mudando alguma coisa sempre que o faço – espero que para melhor. Se hoje quebro, pela primeira vez, o silêncio próprio do grau em que me encontro, não o faço para ensinar (o que não me compete), mas tão somente para que possa prestar contas do meu trabalho, mostrando onde cheguei e o que aprendi. Procurei, não obstante, que o que apresento pudesse inspirar-vos qualquer coisa, mesmo que pequenina, em que não tivésseis pensado antes, e que vos aproveite. Se tal suceder, ficarei contente.

Fui desafiado a escolher um símbolo, estudá-lo e escrever quer sobre ele que sobre a minha interpretação do mesmo. Uma vez que a dualidade é frequente na simbologia maçónica (que insistentemente nos aponta pares que podemos interpretar ora como extremados antagonistas, ora como aliados complementares) encetei este meu percurso por debruçar-me sobre as pedras já polidas e gastas de quantos pés as pisaram: o Esquadro e o Compasso, o Sol e a Lua, o Branco e o Negro, os Solstícios de Verão e de Inverno, o Prumo e o Nível. Após interiorizar, como pude, o seu significado, procurei uma vereda mais sossegada, uma paisagem menos fotografada, algo menos evidente que me proporcionasse maior latitude interpretativa e validasse o que eu tinha aprendido. O par que me pareceu mais interessante, por se encontrar velado sob uma aparência de singularidade, foi S. João, padroeiro da Loja de que dizemos provir. É o símbolo que vos trago hoje.

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Temos, por vezes, que falar primeiro de coisas antigas para falar depois de coisas mais recentes. Neste caso, peço-vos que recuemos até ao tempo em que a Humanidade era ainda criança e tudo era causa de deslumbramento – e de temor. Desde cedo que os Homens, tentando entrever um propósito nas caprichosas forças da Natureza, deram interpretações antropomórficas aos fenómenos naturais. Da chuva caindo como lágrimas aos bramidos de ira e olhares faiscantes de raiva dos relâmpagos e trovões, do ronronar de prazer de um solarengo e florido dia de Primavera aos uivos de dor e desalento do vento ou às impiedosas chicotadas do frio e da neve, tudo indicava serem os fenómenos da Natureza a manifestação de uma poderosa Presença Oculta.

O Sol, presente durante o dia para logo se esvair em sangue, trazendo à Terra o frio da morte, mas sempre renascendo, devolvendo o calor que fazia brotar a vida, suscitou no Homem emoções que conduziriam à sua divinização. Com o decorrer dos séculos, porém, o Homem foi-se apercebendo de repetições, desvendando padrões, e o misterioso, colérico e imprevisível deus-Sol que precisava de ser pacificado com sacrifícios passava a mera matéria de estudo. Daí em diante, mais do que serenar e venerar, impunha-se estudar e tentar prever o comportamento dessa poderosa entidade. Com o estudo do Sol veio a quantificação dos períodos anuais e a descoberta dos solstícios, fundamentais para o surgimento da agricultura, que veio, por sua vez, criar as condições para o estabelecimento dos primeiros povoamentos permanentes e, logo depois, das primeiras civilizações.

Os solstícios – que ocorrem um no Verão e outro no Inverno – são importantes momentos de mudança. Ao longo do Inverno e da Primavera os dias vão-se tornando mais longos, o Sol sobe cada dia mais alto no céu, até que, por volta de 21 de Junho, pelo início do Verão, este movimento aparente atinge o seu máximo. A partir daí, os dias vão ficando mais curtos ao longo de todo o Verão e de todo o Outono, o Sol vai subindo cada vez menos a cada dia que passa, até que, cerca de 21 de Dezembro, pela chegada do Inverno, atinge o seu mínimo. Desse momento em diante, os dias voltam a aumentar, o Sol a colocar-se cada vez mais alto, e o ciclo anual repete-se. Diz-se, por isso, que o solstício de Inverno abre uma fase ascendente, e o de Verão uma fase descendente.

Nas primevas sociedades agrícolas, a época das colheitas era profusamente celebrada no dia mais longo do ano – o solstício de Verão – pois do resultado destas dependia a sobrevivência no Inverno. Sem os confortos de que hoje dispomos, os longos meses de Inverno eram, especialmente nas maiores latitudes, passados enroscados nas mantas da cama familiar, dormitando a maior parte do tempo, poupando na ração, e esperando pelo regresso do Sol. O Solstício do Inverno marcava esse ponto de viragem: a promessa de uma nova época de calor e prosperidade. A História legou-nos registos de povos antigos – uns talhados na pedra, outros sob a forma de mitos e lendas. É assim que sabemos que estes dois solstícios eram representados pelas duas faces de Janus, deus Romano das portas, passagens, princípios e fins: uma, a face de um jovem, símbolo do futuro, do ano que começa no Inverno; e a outra a de um velho, símbolo do passado e do ano que se prepara para terminar a partir do Verão; uma que se dirige para a Luz, outra que fita as Trevas. Esta dualidade levava a que Janus fosse celebrado duas vezes por ano: uma em cada solstício, em honra de cada uma das suas duas faces.

Desde os seus primeiros tempos que à Igreja aborreciam estes pagãos festejos, mas a sua popularidade tornava impossível eliminá-los. A solução foi apropriar-se dos mesmos como pôde, celebrando S. João Batista a 24 de Junho e S. João Evangelista a 27 de Dezembro, datas que coincidem, aproximada e respetivamente, com os solstícios de Verão e de Inverno. Substituída, assim, cada uma das faces de “Janus” por um “Johannes” diferente, passa João Batista a abrir a porta estival e a anunciar o ciclo de obscuração, e João Evangelista a abrir a porta invernal e a anunciar o ciclo de iluminação.

A coincidência de nomes só exalta as profundas diferenças entre estes dois homens.

João Batista, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, prima de Maria, retirou-se cedo para o deserto para preparar, pela oração e pelo jejum, a sua missão de precursor do Messias. Aos trinta anos apareceu nas margens do Jordão, pregando um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados. João era um homem humilde, no melhor sentido da palavra; vestia-se de pele de camelo e alimentava-se de gafanhotos e de mel selvagem. Recusava ser ele o Messias: “Outro virá de Quem não sou digno sequer de desatar as sandálias. Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no espírito.” João Batista era um homem duro mas justo, intolerante com o engano, a presunção e a fraqueza. Forte e decidido, não estabelecia compromissos, e denunciava firmemente o vício e a iniquidade que via. Sucede que Herodes Antipas, governador da Judeia, tinha desposado a sua cunhada Herodíade; João Batista, sabendo-o, insurgiu-se contra o incesto, o que o levou à prisão. Não obstante, recusou-se resolutamente a retratar uma palavra que fosse dos seus ensinamentos, mantendo-se fiel ao que entendia estar certo. Foi neste contexto que Salomé, filha de Herodíade, dançou para Herodes e o seduziu – outro incesto aos olhos de João Batista, que mesmo do cárcere não se calaria. Tendo Herodes oferecido a Salomé o que esta quisesse (não registou a História se apenas pela dança ou por algo mais) pediu esta, instigada pela mãe, a cabeça de João Batista numa bandeja, tendo este sido decapitado e o desejo atendido. Reto e certeiro, João Batista foi como que uma bússola moral, como um prumo indicando a vertical.

João Evangelista, pescador da Galileia, era filho de Zebedeu, patrão de pesca em Betsaida. Juntamente com André, abandonou tudo e seguiu Jesus Cristo depois de ter ouvido João Batista referir-se a Ele como o “cordeiro de Deus“. Era o mais novo dos apóstolos, e talvez por isso o discípulo amado de Jesus. Após o Pentecostes, pregou em Éfeso, na Ásia Menor. Aquando das perseguições de Domiciano, exilou-se na ilha de Patmos por 15 meses, durante os quais terá escrito o Apocalipse. Regressado a Éfeso, dirigiu as comunidades cristãs e escreveu o quarto evangelho e três epístolas. Atingiu, consta, uma idade extremamente avançada. As suas constantes exortações ao amor fraternal são lendárias. Já muito idoso, e incapaz até de andar, quando carregado para a assembleia da Igreja de Éfeso a sua única exortação era: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros“. Quando os seus paroquianos lhe pediam outra lição, replicava que se praticassem este simples mandamento tal era suficiente. Após enviados a difundir a Boa Nova – o que cada um terá feito, evidentemente, de uma forma ligeiramente diferente – todos os apóstolos foram martirizados com exceção de João Evangelista, o que providencialmente permitiu que a sua mensagem simples de amor fraterno chegasse até aos nossos dias. A sua morte serena e tardia contrasta com a morte precoce e violenta de João Batista. É conhecido como o “apóstolo do amor“, por colocar acima de todo o resto o amor fraternal, o amor entre aqueles que se encontram ao mesmo nível.

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Eram estes os dois Joões que a Maçonaria Operativa, herdeira de matemáticos e astrónomos que estudavam o Sol, celebrava nos solstícios, já não de forma idólatra, mas pela sua importância astronómica e pelo seu significado religioso. Se bem virmos, não deixa de ser natural que os construtores de catedrais celebrassem os seus santos. Contudo, de celebrá-los a adotá-los como seus vai um grande passo, passo esse de que não há registos incontroversos. Exaustivas pesquisas por alguns dos melhores estudiosos da Maçonaria revelam-nos que não só a Maçonaria como os Templários, os Hospitalários e os Cavaleiros de Malta, bem como outras ordens iniciáticas, teriam tomado João Batista como padroeiro; mas não explicam nem quando foi que a Maçonaria adotou os dois S. Joões como patronos, nem mesmo porquê, quando podia ter sido antes escolhido, por exemplo, S. Tomás, patrono da arquitetura e da construção.

O que parece certo é terem muitas das Lojas Operativas sido dedicadas a João Batista, adotado pela Maçonaria bem antes do Evangelista, tendência que terá tido origem na Escócia acabando, mais tarde, por ser adotado também pelas Lojas Britânicas. Entretanto, o Evangelista teria que esperar pelo final do séc. XVI. Apesar de haver menções anteriores, como “A Fraternidade de S. João” que existia em Colónia em 1430, a mais antiga referência a S. João Evangelista conhecida em registos de Loja autênticos é de 1599, em Edimburgo. Manuscritos seculares (mas sem data precisa) indicam que as Lojas Escocesas seriam, por isso, conhecidas como “Saint Johns’ Lodges” – “Lojas de S. Joões“. Assim, quando um Irmão se referia a si mesmo como provindo de uma “Lodge of the Holy Saints John at Jerusalem” – de uma “Loja dos Santos Joões em Jerusalém” – queria dizer, apenas, que vinha de uma Loja Escocesa. Esta expressão, que pretendia indicar serem os santos, e não a loja, quem estava “em Jerusalém” veio, no entanto, a dar origem às mais esotéricas confusões por quem veio a pretender ter havido uma Loja em Jerusalém na qual João Batista e João Evangelista teriam sido iniciados. Por fim, não deixa de ser curioso notar que a primeira Grande Loja se formou em Inglaterra em 1717, numa sessão que decorreu no Dia Festivo de S. João Batista, e a Grande Loja Unida de Inglaterra foi criada em 1813 no Dia Festivo de S. João Evangelista.

Saints John Lodge” acabou por ser traduzido para a nossa língua – provavelmente à falta de melhor alternativa – por “Loja de S. João“. Etimologicamente, o plural de João deveria ser Joães, uma vez que João vem de Joane que, como vimos já, procede do latim Johannes. No entanto, como na nossa língua a maior parte dos substantivos terminados em -ão faz o plural em -ões, acabou o uso (ou o pouco uso) por consagrar Joões como plural de João. Apesar de não ser plural que se veja muito, o que terá levado a que a Loja fosse de João em vez dos Joões, é aquele que uso hoje aqui.

É provável que nunca venhamos a saber a verdade sobre a relação histórica entre os Joões e a Maçonaria. Não obstante, o mérito da escolha destas duas figuras é incontroverso. Dificilmente encontraríamos melhores professores, sábios ou santos que mais adequadamente exemplificassem através do seu exemplo de vida e obra a sublime doutrina e ensinamentos intemporais da Maçonaria. Ou, como sucintamente referiu Joseph Fort Newton: “Retidão e Amor – estas duas palavras bastam para descrever por completo o dever de um Homem e de um Maçon.

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No meu entendimento, os símbolos pouco valem por si mesmos; o seu valor reside naquilo que evocam e na forma como são interiorizados. Não há, por isso, duas interpretações idênticas, uma vez que estas decorrem das experiências, do percurso e do ânimo de cada um, cujo íntimo tocam assim de forma distinta. Há símbolos com significados mais fechados e rígidos, o que não tem que ser forçosamente limitativo – lá por o esquadro representar a retidão, não quer isso dizer que todos interpretem do mesmo modo o que é ser-se reto, ou que todos devam agir da mesma maneira se confrontados com idênticas circunstâncias. Outros símbolos há que se prestam a interpretações mais abertas. De facto, a prodigalidade da simbologia maçónica – resultado da progressiva apropriação de outras simbologias, nomeadamente da da Alquimia – permite que cada um, com suficiente diligência, encontre um significado que respeite a sua conceção pessoal e contribua para estabelecer o seu próprio caminho.

Alguns, porém, tomam os símbolos por mais do que meras ferramentas de trabalho, tornando-os num fim em si mesmos, e procurando nestes verdades ocultas, com resultados muitas vezes inesperados. À luz da Alquimia, por exemplo, cada um dos Joões pode ser representado por um elemento alquímico específico: a água estará ligada ao Batista, que a ela recorria para batizar; e o fogo ao amor espiritual e emocional do Evangelista. Estes dois elementos – a água e o fogo – são representados por símbolos muito semelhantes: a água por um triângulo equilátero invertido (com a base para cima), e o fogo por um triângulo equilátero com a base para baixo. Quando combinados, os dois Joões simbolizam o perfeito equilíbrio entre a luz e as trevas, vida e morte, paixão e contenção, vontade e emoção, Verão e Inverno. Quando combinados, os seus símbolos justapostos representam uma Estrela ou Escudo de David. Este é interpretado por alguns como símbolo d’Aquele a quem chamamos Grande Arquiteto do Universo – pois que, no Salmo 18, atribuído a David, este O compara a um escudo que o protege. É assim que os símbolos alquímicos associados às virtudes de dois santos cristãos traçam, quando sobrepostos, um símbolo Judaico que significa Deus, indiciando que essas virtudes nos poderão conduzir a Ele. Como se vê, a interpretação aberta da simbologia pode levar-nos às mais bizarras elocubrações. E maçonaria também é isso mesmo: a liberdade de cada um seguir o caminho que toma por mais apropriado.

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A interpretação dos símbolos é algo de iminentemente pessoal que revela, estou ciente, mais sobre quem interpreta do que sobre os símbolos interpretados. Não vou, por isso, estender-me sobre as interpretações do costume – as tais pedras gastas de que falei já – que certamente já conhecereis, mas antes focar-me na forma como os interpreto, para que eu vos seja menos desconhecido.

Imagino João Batista como um homem que sente ser sua obrigação – a missão da sua vida – apontar à cara de quantos com ele se cruzam o foco luminoso da lanterna que lhe foi confiada. Pouco preocupado com a vontade ou o efeito da luz sobre aqueles que ilumina, importa-o, antes, a Luz em si mesma. João Batista é o imperativo, a justiça cega, o valor e a norma. Parecia acreditar que a missão do Homem era cumprir os desígnios do seu Criador – e todo o resto era acessório.

Por outro lado, vejo João Evangelista privilegiar a felicidade no coração de cada indivíduo, por acreditar que transmitir o amor inoculado no seu íntimo pelo Criador seria o principal desígnio do Homem. Submete, assim, todas as Leis ao cumprimento de um único mandamento: “Ama.” E ao dizer-nos que “Deus é Amor“, revela-nos em que é que o Homem, criado à imagem do Supremo, é qualitativamente igual a Este: na capacidade de amar.

João Batista de pés sujos e assentes na terra; João Evangelista pairando dois dedos acima desta; um deles defendendo o impessoal e o objetivo; o outro, o pessoal e o subjetivo. Por ambas as perspetivas terem valor, e por ambas serem virtudes, é que provimos de uma “Loja de S. João“. Pois não basta exaltar a virtude e combater o vício – coisas fáceis para qualquer criança que, por minimamente bem formada, saiba distinguir o Bem do Mal. O que é difícil é decidir em que ponto intermédio ficamos quando deparados com duas virtudes em extremos opostos. E se esta questão já é suficientemente difícil, notemos ainda que não temos um João imóvel numa ponta, outro expetante noutra, e nós algures no meio com todo o tempo do mundo para procurar o ponto ideal de conforto. Pelo contrário, os dois Joões – como o Sol – estão em contínuo movimento e alternância, não havendo circunstâncias estáticas, receitas universais ou proporções pré-estabelecidas. Também na nossa vida somos, a cada momento, confrontados com situações que vão mudando, e cuja resposta só pode ser multidimensional; e todos sabemos o difícil que é dar uma boa resposta nestas circunstâncias; apesar de essencial, já não basta ter os princípios bem inculcados e as ideias arrumadas. Mais, se tivermos em conta que o conflito entre a fraternidade e a retidão é só um exemplo dos muitos que nos surgem, vemos porque é tão importante a capacidade de se conciliar interiormente posições antagónicas, encontrar equilíbrios, e afastar-se de posições extremadas que, forçosamente, favorecem um único ponto de vista em detrimento dos demais.

Por outro lado, é importante a sequência pela qual surgem os Joões, com João Batista primeiro e João Evangelista depois, a completá-lo e a complementá-lo. A tolerância fraterna só faz sentido perante uma norma previamente estabelecida. Sem a retidão moral, a fraternidade não passa de nepotismo. Também na nossa vida a norma aparece cronologicamente primeiro, normalmente no imperativo, e só mais tarde surge a consciência do outro, com a constatação de que do estrito cumprimento das normas não surgem os laços afetivos de que todos carecemos. Uma aplicação equilibrada das normas e da tolerância fraterna perante o erro alheio – ou, meramente, perante um diferente entendimento – são essenciais ao estabelecimento de um terceiro valor que das mesmas decorre: a Justiça. Esta surge da conjugação da aplicação da norma, que por definição é cega e transversal, com a atenção às circunstâncias e à pessoa de cada um. Não podemos pretender ser justos sem ter estas duas facetas em consideração.

Cheguei aqui cansado, mas satisfeito. Tinha estudado um símbolo que muito me podia ensinar, lido o que outros pensavam sobre o mesmo e, depois de interiorizar o que lera, após privilegiar alguns pontos de vista em detrimento de outros, consolidei o meu próprio entendimento, apercebi-me das minhas asperezas e discerni como desbastá-las. Mas quando me preparava para dar por finda a lição que preparara para mim mesmo, e passei revista às notas que tinha tomado, um pormenor saltou-me à vista – um pormenor que não tinha visto referido em lado nenhum. João Batista – o do Prumo, da verticalidade – surgia no meio do Inverno, quando os raios do Sol atingem a Terra num ângulo que chega a ser raso, e fazem a tangente passando na horizontal; e João Evangelista – o do Nível, da horizontalidade – aparecia no meio do Verão, quando os raios de Sol caem na vertical. Afinal o tema, longe de estar esgotado, sugeria-me um ensinamento adicional: o de que, para além de sermos interiormente equilibrados, devemos ser propiciadores de equilíbrio. Quando a posição dominante ao nosso redor apresente apenas uma faceta, devemos tentar ver – e apresentar – o outro lado da questão. Assim como no Inverno, por entre um mar de raios rasantes e horizontais de tolerância, o prumo de João Batista recorda o dever a cumprir, e no Verão temos João Evangelista a temperar os raios verticais da repreensão com o amor fraterno, também nos cabe procurar não só equilibrar-nos como contribuir para o equilíbrio daqueles que nos estão próximos.

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A Maçonaria indica-nos como escolher o caminho, mas não nos indica o caminho; mostra-nos os limites, mas não nos limita: afinal, não há mais escuro que o preto, nem mais claro que o branco. E, ao indicar a retidão moral e a fraternidade como valores que qualquer Maçon deve não só prezar como procurar praticar, mostra-nos que a escolha é mais difícil do que a simples opção entre o Bem e o Mal.

Cada um dos que, ao procurar combater o Vício e praticar a Virtude, já viveu momentos nos quais teve que optar entre duas Virtudes – em forçoso prejuízo de pelo menos uma delas – sabe o quanto a dificuldade desta escolha suplanta a daquela. A imperfeição da nossa própria existência leva a que, tantas vezes (e não obstante querermos praticar a Virtude) nos seja impossível praticá-la de forma perfeita; aproximar-nos de uma implica, tantas vezes, afastar-nos de outra. A sobreposição dos dois Joões indica-nos, por fim, que o equilíbrio se consegue procurando-se aplicar as virtudes em simultâneo, e não em alternância.

João Batista e João Evangelista, cada qual em representação de Virtudes distintas, simbolizam dois inconciliáveis limites absolutos – mas inconciliáveis apenas se absolutos. Por terem o mesmo nome, alertam-nos para que mesmo o Bem conflitua consigo mesmo: a absoluta retidão colide, quantas vezes, com a absoluta fraternidade. A dualidade equilibrada destes dois homens – individualmente fortes, e reforçados por estarem juntos – perfila-se em paralelo e em harmonia e, pela sua complementaridade, indica-nos um caminho bem equilibrado para a Luz.

Assim, entre João e João – símbolos de todas as Virtudes absolutas das quais, por conflituantes, vivemos forçosamente, a cada momento, afastados e atraídos – cabe-nos ir procurando, a cada momento, um ponto intermédio; pois que, se é um Templo que queremos erigir, e se o queremos sólido e sem perigo de ruína, é imperioso que cada pedra – quer por si mesma, quer enquanto parte do Todo – mantenha todo o equilíbrio possível.

Disse.

P:.M:. – A:.M:. – R:.L:.M:.A:.D:.
22 de Outubro de 6008

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