Navegar é preciso

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Navegar é preciso viver não é preciso – o sentido principal de precisão, no Português actual, é o de necessidade (tanto no Houaiss, quanto no Aurélio).

Quando Fernando Pessoa escreveu esta frase, este foi exactamente o sentido que ele deu a preciso.

O mais interessante é que ele (Fernando Pessoa), estava repetindo uma frase famosa, dita por Pompeu, conforme nos relata Plutarco (in vida de Pompeu): “Na hora de partir, uma forte tempestade abateu-se sobre o mar, deixando hesitantes os capitães dos navios. Então ele (Pompeu), dando o exemplo, foi o primeiro a subir a bordo, deu ordens para levantarem a âncora e gritou: “É necessário navegar, viver não é”. Graças à sua audácia e energia, ajudado pela Fortuna, ele encheu o mar com os seus navios”. Embora Plutarco tenha escrito em Grego, foi em Latim que a frase correu toda a tradição literária ocidental (algo assim como navigare necesse est, vivere non est necesse).

No entanto, tenho certeza de que a frase de Pessoa, não importa com que finalidade ele a escreveu; (a poesia sempre ultrapassou o poeta) ficou famosa exactamente por ostentar essa rica ambiguidade entre necessidade e exactidão.

Podemos interpretar, sem medo de errarmos que ao se referirem ao acto de navegar, tanto Fernando Pessoa quanto Pompeu e até mesmo Caetano Veloso em “Os Argonautas”, deram um sentido mais amplo à arte da navegação: Navegar – ir alem, criar, viajar, crescer, amar.

O espírito desta frase, exprime exactamente o meu pensamento: “viver não é necessário; o que é necessário é criar”. Do que adianta viver se a vida for vazia e sem sentido.

É aí que a Maçonaria, mais uma vez, mostra nos seus ensinamentos a grandeza da sua obra.

Ao iniciar as suas instruções o Aprendiz é convidado a fazer as suas viagens, para seguir além das suas fronteiras, sair da sua zona de conforto e buscar novas experiências. As viagens oferecem ao Aprendiz a oportunidade de crescimento, aguçando os seus sentidos e as suas faculdades intelectuais.

As viagens do aprendiz

Três viagens, três ensinamentos:

As Viagens Simbólicas, no Ritual de Iniciação, realizam-se seguindo o Caminho do Sol, ou seja, num sentido circular denominado “dextrorsum” (advérbio latino que significa “para a direita”, num sentido indirecto ou retrógrado, como o dos ponteiros do relógio, ao contrário do termo “sinistrorsum”, que significa “para a esquerda”, em alusão ao movimento directo realizado pela Terra). Este movimento circular também contém um simbolismo e significado psicológico, pois traça no Pavimento da Loja um Círculo Mágico, tendo no centro o Altar. Além disso, o próprio movimento de Circunvolução traduz uma das formas mais primitivas, tradicionais, utilizadas nos rituais de diversas cerimónias religiosas.

A primeira viagem é, talvez, a mais difícil de ser realizada, e caracteriza-se por caminhos tortuosos, perigosos, de muitas dificuldades e obstáculos, no meio de ruídos e trovões. Segundo Leon ZELDIS (1995) estes ruídos e trovões possuem dois significados, ou simbolismos. Primeiramente, representam de forma física o caos presente na criação e na organização dos mundos. De forma moral, representam os primórdios do homem e da sociedade, conduzidos ainda pelas paixões e excessos que não foram dominados pela razão, ou seja, o homem no seu estado e mundo profano.

No final desta primeira viagem, o Neófito bate à primeira porta, localizada ao Sul, e é-lhe permitido passar.

A segunda viagem é uma etapa de transição, e caracteriza-se por uma estrada menos difícil do que a primeira, mas não menos importante, com o ruído de armas e espadas batidas umas contra as outras, e da água. Os ruídos representam, simbolicamente, o período histórico das batalhas e combates que o ser humano travou para se colocar entre os seus semelhantes. Representa, pois, a “idade da ambição” do homem (GOMG, 2004) e a sua luta para vencer as suas paixões e obstáculos do mundo. O barulho da água simboliza os rios que deve atravessar para chegar ao seu objectivo maior, ou seja, a sua Iniciação e a Luz da Verdade.

O facto de a segunda viagem apresentar menos dificuldades e obstáculos significa que eles tendem a desaparecer à medida que o homem persiste em seguir no caminho da Virtude.

No final desta viagem, o Neófito bate à segunda porta, localizada no Ocidente, e é purificado pela água.

A terceira e última viagem, e a mais solene das três, realiza-se por uma estrada plana e suave e de muito silêncio. A facilidade encontrada nesta viagem representa a tranquilidade e a paz obtida pelo homem que consegue ordenar e moderar as suas paixões. No final desta viagem, o Neófito bate à terceira porta, localizada no Oriente, e é purificado pelo fogo, estando em condições de receber a Luz. A purificação pelo fogo é um conceito encontrado em várias culturas, e conforme destaca CAMINO (2007), na Iniciação do Aprendiz as chamas do fogo objectivam inflamar de amor o coração do Maçom, através de acções de caridade para com os seus semelhantes.

As três etapas pelas quais passa o Neófito simbolizam a Sinceridade, a Coragem e a Perseverança, e representam as três disposições necessárias à procura da Luz da Verdade, sendo o processo de Purificação necessário para livrá-lo dos seus preconceitos e prepará-lo para receber a Luz e buscar a Sabedoria.

Um Fraternal Abraço.

Antonio Carlos Lacerda

Bibliografia

  • NAVEGAR É PRECISO:
    • Inspiração e leitura de Fernando Pessoa, Plutarco e Caetano Veloso.
  • AS VIAGENS DO APRENDIZ:
    • CAMINO, Rizardo Rito Escocês Antigo e Aceito. São Paulo: Madras Editora, 2007.
    • Disponível em <http://sorumbatico.blogspot.com/2006/11/terra-e-os-relgios.html>.
    • GOMG – Grande Oriente de Minas Gerais. Ritual e Instruções de Apr: -Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito. 1a edição. Belo Horizonte: Grande Oriente de Minas Gerais, 2004.
    • MINEIRO, Eduardo Silva. Instrução de Apr: 3. Disponível em https://www.maconaria.net>.
    • PESSANHA, 4a Instrução de Apr:Loj:. Disponível em
    • http://www.ictys. kit.net/Maat/haprediz4.htm>.
    • ZELDIS, Estudos Maçónicos: História, Simbolismo, Filosofia. V Edição Brasileira. Londrina: Editora Maçónica A Trolha Ltda., 1995.

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