O esoterismo da iniciação maçónica

Nada impressiona mais um neófito do que carácter esotérico que envolve a iniciação maçónica, pois nele se manteve o simbolismo dos antigos cerimoniais que celebravam os chamados Mistérios. Como se sabe, todas estas antigas tradições integravam uma espécie de jornada iniciática, onde o iniciando “morria” para uma vida anterior e “renascia” para uma nova. E nesse sentido que o candidato à Maçon é submetido à uma “morte ritual”, representada pela sua imersão na “camara das reflexões”, onde ele encontra todos os símbolos dessa passagem pelo mundo dos mortos, experiência que ele terá que enfrentar para renascer, glorioso, para a luz que a maçonaria lhe irá conferir.

Isso porque, como diz Mircea Eliade, todas as provas iniciáticas, de uma maneira geral, resumem um processo escatológico que simboliza a morte e o renascer do homem, seja em que sistema de crenças for [1]. Mesmo o catolicismo, cuja doutrina sempre condenou abertamente todas as formulações rituais dos povos antigos, por considerá-las pagãs, não deixou de incorporar à sua liturgia diversos elementos de magia ritual, como o partilhar da hóstia, os ritos da Paixão e Morte de Jesus, a Missa do Galo, etc. E nesse particular, também é interessante notar que alguns evangelhos gnósticos mostram um Jesus místico, praticando rituais de iniciação com os seus discípulos. Nesse sentido, até a morte de Lázaro, descrito no Evangelho de São João, como um dos seus mais impressionantes milagres, teria sido, na verdade, um acto ritual para demonstrar aos seus discípulos o poder da sua doutrina de regeneração [2].

Seja qual for a crença que uma pessoa professe, o que não se pode é ignorar o carácter arquetípico existente nos rituais de iniciação, particularmente aquele aplicado pelas sociedades iniciáticas e pelos grupos praticantes das artes e ofícios que, de algum modo, integraram na sua tradição algum elemento de esoterismo. esta característica é observada por James Frazer na sua obra clássica “O Ramo de Ouro”, quando ele associa os ritos de iniciação praticados pelos povos antigos com os ciclos de produção da natureza, e dai a derivação que se faz, em termos simbólicos, para uma imitação anímica desses processos. Frazer mostra que os mitos da criação, em todas as lendas antigas que versam sobre este tema, têm uma mesma estrutura arquetípica. Então ele observa que a própria humanidade, e as sociedades que nela se formam, desenvolvem alguma noção psíquica desse processo e acabam criando alegorias, mitos, lendas e rituais que se destinam, de alguma forma, a recompô-los. Explica-se, dessa maneira, que a grande maioria das sociedades antigas tenham desenvolvido uma mitologia escatológica que utiliza a figura de um deus, ou um herói morto, que é regenerado por processos miraculosos, semelhante ao que a terra faz com a semente que nela é lançada. este ritual, tem, quase sempre, a função de emular, no espírito do povo, a energia que o mantém vivo como grupo e age como elemento catalisador dos influxos benéficos que esse herói, ou deus, pode prodigalizar ao povo que assim o homenageia [3].

Esse tema estava presente em todas as antigas iniciações, desde os Mistérios de Isis e Osíris, praticados pelos egípcios, quanto nos Mistérios Elen sinos dos gregos [4]. E aparece, como vimos, também na doutrina do cristianismo, nos chamados Mistérios Cristãos, que se refere à Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, cujo simbolismo apresenta uma clara configuração nesse sentido, uma vez que é através do sangue de Cristo, derramado na cruz, que a humanidade “paga” a sua passagem de um mundo profano para um mundo sagrado.

A iniciação representa, portanto, uma participação simbólica do neófito nesse processo regenerativo que a divindade, através da natureza, ensina ao homem. Ao praticar o ritual de iniciação, o homem, por imitação, penetra no âmago desse processo onde a sua condição de profano é abandonada e ele pode iniciar uma jornada que o conduzirá à regeneração. No simbolismo das doutrinas judaico – cristãs, o homem tornou-se profano quando praticou o pecado original, pelo qual foi expulso do paraíso. Perdeu ali a sua condição de ser angélico(semelhante aos anjos) e ganhou com isso a condição de humano e mortal. Para voltar a essa condição ele devia, no seu espírito, efectuar uma “religação” com o mundo divino. Assim foram criadas as religiões(religião vem do verbo religare), como uma forma de efectuar esta religação. Cada povo desenvolveu a sua, e assim, aquilo que, no início devia ser um arquétipo comum a todos os povos, acabou tornando-se um elemento separador entre eles. Não seria impróprio imaginar que a metáfora da Torre de Babel se estivesse a referir mais a esse facto do que propriamente a um fenómeno linguístico, o qual, considerando a história do desenvolvimento dos grupos humanos sobre a terra, seria difícil de ocorrer.

Voltando ao tema da iniciação, algo semelhante à uma regeneração pensavam obter os alquimistas ao tentar, nos seus laboratórios, penetrar na “alma” da natureza para descobrir como ela trabalhava para produzir os metais. Com este conhecimento eles acreditavam poder recombinar os seus átomos e modificar as suas estruturas, transformando metais comum em metais preciosos. Embora os alquimistas nunca se tenham constituído numa sociedade iniciática, pois eram, na sua maioria, pesquisadores solitários, a sua arte, hermética por excelência, era iniciática. E o princípio que os impulsionava nas suas pesquisas era exactamente a noção de que a vida e a morte, seja do universo físico, ou do universo espiritual, estão sujeitas a este processo escatológico que está no cerne de toda doutrina iniciática.

Este é, em síntese, o conteúdo esotérico da iniciação que se pratica na maçonaria. E para o neófito que se inicia nos mistérios maçónicos, além do sentido escatológico da consumação de um processo de morte e ressurreição, há ainda a ideia que se lhe inculca, de estar “ levantando templos à virtude e cavando masmorras ao vício”, expressão esta que indica o sentido moral que a prática da maçonaria deverá assumir para o iniciando [5].

Depois, as “provas” a que ele será submetido em Loja, que consistem principalmente em “viagens” de integração junto aos quatro elementos da natureza (água, terra, fogo e água), que são reminiscências de antigos rituais, contém os mesmos elementos de simbologia utilizados pelos alquimistas nas suas manipulações. estas viagens, que são “ritos de purificação”, semelhantes ao que estes antigos discípulos de Hermes praticavam na sua “matéria prima”, constituem parte indispensável em todas as iniciações, sendo encontrada até mesmo na história do povo de Israel, quando se iniciou na religião de Moisés [6].

Em seguida são-lhes informadas algumas obrigações e posturas que ele deverá assumir como Maçon e indagado se ele tem disposição e condições para honrar estas obrigações. Só após cumpridas toda esta liturgia poderá o iniciando fazer o seu juramento como Maçon, cumprindo assim a tradição de toda sociedade iniciática, que é o compartilhar de um “segredo” ritual que dali para a frente lhe será comunicado aos poucos. Por isso é que, antes de neófito receber a “Luz” da iniciação, ele deve ser conservado vendado e no escuro, pois até então ele ainda é um profano, (um metal impuro).

Cumprida todas estas etapas, o iniciando torna-se de facto um iniciado, recebendo, em presença dos Irmãos, a “Luz” da maçonaria, após o que ele é revestido com o avental do Aprendiz e está em condições de receber as suas primeiras instruções, (ouro alquímico).

Eis assim, cumprida a tradição iniciática, que na maçonaria ainda encontra, nos diversos ritos e liturgias que eles desenvolvem, o ideal dessas antigas manifestações do espírito humano. Eles representam, como diz Van Gennep, a “porta de ingresso” do neófito, na sua passagem do mundo profano para o mundo sagrado [7].

Daí em diante, cada elevação de grau implicará num “rito de passagem”, na qual o iniciado subirá uma escada que lhe permitirá penetrar na esfera mais subtil do conhecimento universal [8]. A noção de que o conhecimento sagrado se obtém subindo uma escada graduada é contemporânea das primeiras civilizações.

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] Mircea Elíade – Iniciaciones Místicas- Ed. Taurus, Madrid, 1958

[2] Os Evangelhos Gnósticos – Ed. Mercuryo- Organizado por Maria Helena Trica.

[3] George James Frazer, o Ramo de Ouro, Zahar Editores, São Paulo, 1986.

[4] Sobre os Mistérios Eleusinos e os Mistérios Egípcios e a sua ligação com a Maçonaria, veja-se a nossa obra “Tesouro Arcano”, publicado pela Ed. Madras, 2013.

[5] Essa expressão significa que o ensinamento maçónico deverá proporcionar ao iniciado uma ferramenta para que ele aprimore o seu carácter, adquirindo as virtudes estimadas pela doutrina maçónica e eliminando os vícios que porventura tiver.

[6] Veja-se a nossa obra “O Tesouro Arcano”, citada. Nessa obra mostramos que a jornada do povo de Israel pelo deserto, após o êxodo do Egipto, foi na verdade uma jornada iniciática. Nesse sentido, a passagem pelo Mar Vermelho, as colunas de fogo que antecediam o povo na sua marcha, os ventos do deserto, a terra seca do deserto, são elementos do ritual de iniciação ao qual os israelitas foram submetidos para serem admitidos na nova religião..

[7] Vann Gennep – Ritos de Passagem, Ed. Vozes, Petrópolis, 1974.

[8] Por isto, na maçonaria este sistema de conhecimento é apelidado de “Escada de Jacob”

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