O silêncio do aprendiz

Introdução

silêncioNesta peça trataremos sobre O Silêncio do Aprendiz, os seus vários significados, como reflexão, ordem, disciplina, prudência e na maçonaria. Silêncio é derivada do latim “silentiu” e significa interrupção de ruído ou estado de quem se cala. Segundo o Dicionário Aurélio, silêncio é definido como o estado de quem se abstém de falar, de quem se cala; privação de falar; interrupção de ruído; segredo, sigilo. Na Maçonaria, o (Publicado em freemason.pt) silêncio tem um rico significado. O silêncio no primeiro grau, que bastaria entender a sua simbologia? O silêncio na iniciação. O silêncio na visão ritualística. O Silêncio como exercício do pensamento e da reflexão. O silêncio como crescimento do aprendiz e qual é o seu significado e importância?

Desenvolvimento

O silêncio na maçonaria tem inúmeros significados, traduções, expressões, respeito, comportamentos, juramentos e reflexões. Pode ser observado em vários momentos e situações que ocorrem durante as sessões, cotidiano e comportamento de um aprendiz, a começar pelo seu juramento, no trabalho da pedra bruta e a sua responsabilidade em ser luz. Lembro-me de quando iniciei na ordem alguns amigos que hoje os reconheço como irmão, me aconselhavam falando que observasse mais do que falasse, cada sessão tinha algo novo, cada símbolo, o painel, as colunas, o piso, o altar, as luzes, a prancheta, a pedra, bruta, a pedra polida, o tecto, a lua, o sol, as estrelas, a circulação em loja, os sinais, o toque, as palavras e o próprio ritual das sessões. Estava atento, livre a aprender e a reflectir em cada significado pois assim ouvi: “- Tudo aqui tem um porquê! ”

O Silêncio é a origem de todas as verdadeiras Iniciações.

Quando o profano chega ao templo para a sua iniciação, ele tem os seus olhos vendados, neste momento ele já está em silêncio, dá-se início a uma reflexão profunda, os seus sentidos como a audição e o olfacto ficam mais aguçados pois tudo é muito novo, ouve do Experto: “sou o vosso guia. Tende confiança em mim e nada receeis”.

Na Câmara de Reflexão que o silêncio assume um dos maiores impactos, aprendizagem, pois o candidato talvez não tenha há muito tempo uma oportunidade igual de ficar a sós, em atitude contemplativa, em meditação, para que possa ocorrer a maturação silenciosa da sua alma, fazendo as suas declarações.

“Diz o Exp: Prof., este local irá auxiliar-vos a meditar profundamente. Assim, eu vos deixo entregue ás vossas reflexões. Não estareis só, pois Deus, que tudo vê, será testemunha de vossa sinceridade neste importante momento de vossa vida” “… Meditai e pensai antes de cada resposta”.

Na Iniciação, ao longo do cerimonial, durante os interrogatórios, podemos (Publicado em freemason.pt) encontrar por diversas vezes pausas silenciosas para que o candidato possa reflectir sobre aquilo que acabou de ouvir, as perguntas formuladas, tem por finalidade, além de causar um impacto psicológico, a avaliação da sua personalidade e do seu carácter. Voltar-nos-emos a deparar com o silêncio ao realizarmos as viagens, cada viagem tem a sua reflexão, o seu silêncio, o seu “porquê”, feita com absoluto silêncio, principalmente na terceira viagem.

Na visão ritualística, antes de entrarmos no templo na sala dos P∴ P∴ temos uma reflexão feita por um dos irmãos a convite do irmão mestre de cerimónia, esta reflexão tem como objectivo de desprendermos do mundo profano entregarmos a nossa sessão.

Na abertura dos Trabalhos ouvimos o 2º Diácono responder ao V:. M:. “que deve zelar para que os Irmãos se mantenham nas suas colunas com respeito, disciplina e ordem.”

No transcorrer dos Trabalhos, os VVig∴ Anunciam o silêncio das colunas, “ – Reina silêncio na coluna do sul Ir∴ 1° Vig∴”, “ Reina silêncio em ambas as CCOL∴, V∴ M∴.” O que significa que democraticamente foi concedido o direito à palavra.

Encerramos a Sessão jurando pelo silêncio sobre tudo o que foi visto e falado em Loja, o Venerável Mestre ainda uma vez chama a si os Obreiros, confirmativamente.

“ Meus IIROs trabalhos estão encerrados e a nossa Loja fechada. Antes, porém, de nos retirarmos, juremos o mais absoluto silêncio sobre tudo o quanto aqui se passou”

Pelo que está feito estes manifestam-se em uníssono pelo sinal, pela bateria e pela aclamação. É, mais uma vez, a confirmação de cada um do seu juramento de Iniciação.

O Juramento do Silêncio é um procedimento ritualístico e ao prestá-lo devemos todos (inclusive as Luzes – pousando o Malhete sobre o altar e o Guarda do Templo embainhando ou colocando a Espada sobre a sua cadeira), TODOS dizem:

“EU O JURO”

O Silêncio nada mais é do que um perpétuo exercício do pensamento.

Calar não consiste somente em nada dizer, mas também em deixar de fazer qualquer reflexão dentro de si, quando se escuta alguém falar.

Não se deve confundir silêncio com mutismo. Segundo Aslan o primeiro é um prelúdio de abertura para a revelação, o segundo é o encerramento da mesma.

O silêncio envolve os grandes acontecimentos, o mutismo os esconde. Um assinala o progresso, o outro a regressão.

Dizem as regras monásticas que o silêncio é uma grande cerimónia, pois Deus chega à alma que nela faz reinar o silêncio.

“E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” – Jeremias 29:13

Os mistérios na Maçonaria devem ser velados em silêncio, pois em relação ao mundo profano os nossos segredos existem com o objectivo de não os poluir pelos que não se encontram preparados para os entender, e nada mais perigoso do que a verdade mal compreendida.

Somente o homem capaz de guardar o silêncio será disciplinado em todos os outros aspectos do seu ser, e assim se poderá entregar à meditação.

O silêncio é a virtude Maçónica que desenvolve a discrição, corrige os defeitos, permite usar a prudência e a tolerância em relação aos defeitos e faltas dos semelhantes.

“ Na multidão de palavras não falta transgressão, mas o que modera os lábios é prudente” Provérbios 10:19

“ A sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho…” Provérbio 14:8a

O Silêncio não é só a ausência de ruído ou barulho, nem se pode confundir com mutismo. Normalmente, tendemos a fugir da solidão, do silêncio, da responsabilidade e damos preferência aos reflexos ilusórios e á busca de satisfações, facilidades e alegrias.

O mutismo é a regressão, o mutismo esconde, é negativo e cala.

O mutismo é calar negativamente perante uma realidade que chama por nós.

O Silêncio, pelo contrário, é propiciador ao exercício do pensamento e da reflexão. O Silêncio é proactivo e positivo. É pensando e reflectindo, obviamente em Silêncio que chegamos a conclusões, logo que se evolui, há progresso e abertura.

O silêncio é também uma virtude maçónica, uma vez que desenvolve a discrição e permite usar a prudência e a tolerância em relação aos defeitos e faltas dos outros.

“ O prudente vê o mal e se esconde…” Provérbio 22:3a

“…. Portanto sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” – Mateus 10:16b

Pensar antes de reagir é uma das ferramentas mais nobres do ser humano nas relações interpessoais.

“O que guarda a sua boca e a sua língua, guarda das angustias a sua alma” – Provérbio 21:23

“…. Guardarei os meus caminhos, e não pecarei com a minha língua; refrearei a minha boca…” – 39:1

Só o silêncio preserva a sabedoria quando somos ameaçados, criticados, injustiçados.

“Esperei com paciência pelo Senhor; Ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor” – Salmos 40:1

Cada vez mais as pessoas estão perdendo o prazer de silenciar, de se interiorizar, reflectir, meditar.

“Sonda-me, ò Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” – Salmos 139:23,24

O silêncio não é para se aguentar para não explodir, o silêncio é o respeito pela própria inteligência.

“A boca do justo produz sabedoria em abundância” – Provérbio 10:31a

O silêncio e a tolerância são o vinho dos fortes, a reacção impulsiva é a embriaguez dos fracos.

“O que guarda a sua boca preserva a sua alma, mas o que muito abre os lábios tem perturbação” – Provérbios 13:3

O silêncio e a tolerância são as armas de quem pensa, a reacção instintiva é a arma de quem não pensa.

“ A boca do tolo é a sua própria destruição, e os seus lábios um laço para a sua alma” – Provérbio 18:7

O Silêncio é o exercício do pensamento e da reflexão. O Aprendiz Maçom cultiva a virtude do silêncio, porque não tem ainda a capacidade do comentário, do falar; deve apenas ouvir, meditar e tirar as próprias conclusões, até poder digerir o alimento que lhe é dado. O trabalho do aprendiz é melhorar, aperfeiçoar-se. É o trabalhar na pedra bruta.

Conclusão

Vimos que o silêncio está presente na vida do Aprendiz, na iniciação quanto iniciado, nos rituais, nas sessões e que ele tem inúmeros significados, não é manter-se calado, não é deixar de falar, falar com sabedoria, no momento certo, ter apreso a reflexão, saber meditar nos seus actos, nas suas reacções, nas suas razões, no seu EU, vencendo as suas paixões, deste modo conseguirá fazer progressos na ordem com laços de fraternidade. O silêncio do Aprendiz Maçom – quanto mais cedo este o perceba, melhor. Na realidade, o silêncio do Aprendiz não é mais do que um ensurdecedor diálogo consigo próprio, uma discussão que o que tem de bom (Publicado em freemason.pt) trava com o que tem de mau, uma conversa com a criança que nos esquecemos de ser, com o adulto ponderado que, às vezes, deixamos para trás de nós próprios, com o experiente e sabedor ser que, de qualquer forma, o decurso do tempo mostrará que existe em nós, nós é que, muitas vezes, não damos por ele e não nos damos ao trabalho de inquirir se ele existe. É no silêncio que o Aprendiz Maçom vai amaciando as asperezas da pedra bruta que é ele próprio. O silêncio do Aprendiz Maçom é a primeira prenda que a Loja lhe dá. Deve o Aprendiz Maçom utilizá-la como uma ferramenta. Se a utilizará bem ou mal, ele próprio – e só ele – o avaliará. Ele saberá fazer-se reconhecer Maçom, pelo Esquadro, pelo Nível e pela Perpendicularidade, pois não sabendo ler nem pronunciar, ele recebe primeiro para dar depois, através do seu “silêncio”.

Criste Jones Bessa Simão

Referências

  • Lavagnini, Aldo – Manual do Aprendiz Franco-Maçom; Varoli Filho, Theobaldo – Curso de Maçonaria Simbólica;
  • Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia (Nicola Aslan)
  • “OBSERVANDO MELHOR O RITUAL” – (Cartilha em elaboração) Valdemar Sansão
  • Vade Mecum de Leis, Regulamentos, Códigos e manuais.
  • MM∴ AA∴ LL∴ AA∴ Rito Escocês Antigo e Aceito, Ritual de aprendiz.

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9 Comentários em “O silêncio do aprendiz

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    Belas palavras de sabedoria .
    Boa explicação com palavras e contextos bíblicos .

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    Uma bela publicação!!,Com
    imensa reflexão!!! Gratidão.:

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    Uma Ótima publicação!!,Com uma imensa reflexão!!! Gratidão.:

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    esclarecedor as palavras do sábio.
    Agradeço. Muito

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    Interessante as colocações bíblicas muito bem explicado

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    Belíssimo artigo.
    Parabéns!!

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