Páscoa, para um sentido maçónico

É ideia corrente que alguns Ritos são especialmente mais próximos de um sentir e de uma prática religiosa, aproximando-se bastante de interpretações e narrativas crísticas. Sendo verdade, obviamente não responde a toda a complexidade que a Maçonaria integra, natureza da dimensão polissémica dos símbolos e das variáveis interpretações simbólicas que cada um realiza na sua individualidade.

É fascinante a história da integração de Hiram como o centro da narrativa e do ritual da passagem a Mestre, no que de possível podemos recuperar. Numa tentativa de interpretação da integração desta personagem, mais que secundária e periférica da narrativa bíblica, no centro de tão importante momento da vida maçónica, tem um peso muito grande a veterotestamentarização que se encontra na Maçonaria em todo o retomar da simbologia relativa ao Templo de Salomão.

E essa refontização centrada no Velho Testamento encontra-se em muitos aspectos, mesmo se nos centrarmos apenas nos três primeiros graus: é a noção de sacralidade do Templo; é o arranjo do espaço, especialmente no que respeita às colunas; é o mito de Hiram, o Mestre construtor do Templo. Em momentos diversos, em mais de um século de construção, muito de aproximação a significados bíblicos podemos encontrar e, alguns deles, por sobreposição a heranças claramente cristãs, crísticas.

De facto, parte desta veterotestamentarização acaba, ironicamente, por ganhar uma essência fundamentalmente crística. Nas tradições religiosas e iniciáticas nascidas em torno do Mediterrâneo, a morte e o regresso à vida, a ressurreição, é parte quase omnipresente em todas as narrativas. Podemos seguir este caminho mitológico que nasce, pelo menos, na Descida de Inanna ao Mundo Inferior, no Ciclo de Baal, no Mito de Ísis e Osíris, nos Mistérios de Elêusis, nos Cultos em Honra de Adónis, no Culto a Dionísio ou Baco, sem esquecer a Religião de Mitra, para apenas falar nos mais significativos. Mas o ponto último e culturalmente mais marcante é, sem dúvida, o Mistério da Morte e Ressurreição de Jesus, transformando-se, dessa forma, no Cristo.

Passando agora para a quadra que vivemos, o centro da Páscoa é exactamente a morte do Rabi, o Mestre, segundo as palavras de Maria Madalena, a primeira pessoa que o vai encontrar ressuscitado. Nesse ciclo, a figura de Jesus veste a pele de todas as anteriores narrativas da mesma natureza, actualizando-as e dando-lhe um significado reforçado: ao morrer, ser sepultado, descer aos Infernos e ressuscitar, Jesus resgata todos os humanos, transformando-se em Salvador, o Cordeiro de Deus que é sacrificado.

O regresso de Jesus ao mundo dos vivos, já como Cristo, é tratado teologicamente como a Luz que foi enviada ao mundo, seguindo a bela interpretação de gosto gnóstico do prólogo do Evangelho de S. João que relaciona Jesus, a Vida e Luz.

É claro que todos nós revimos e revivemos o rito porque de participação estamos a falar. Viver um rito, mesmo que seja quase “assistindo”, sem ter papel e função de especial, implica estar no rito, ser parte dele e não espectador; aliás, num rito não há quem assista… participa-se sempre.

Estar no ritual é sempre um momento de actualização do significado. Mas o significado maçónico transforma o sentido crístico num aspecto essencial e que, desta forma, dá um tom muto específico à Maçonaria: se na narrativa bíblica Jesus vive o momento da morte para ser apenas ele a sofrer esse tormento, libertando os humanos desse fardo, na narrativa maçónica, o que se pretende é que todo e cada um reviva esse drama, não havendo quem o viva no lugar de outro.

Maçonicamente, na Páscoa, como uma grande passagem que é -como a palavra hebraica indica-, vencesse a Morte. Seguindo em muito a narrativa de Jesus, o Mestre Maçon revive essa passagem pelas trevas, superando-as. Não no ato realizado por outro em seu lugar, mas na primeira pessoa, buscando uma Luz que é universal, mas é atingida por cada um.

Por fim, se Jesus ressuscitado apenas vai ficar com os seus companheiros algum tempo, o Mestre Maçon vai para o mundo, para o trabalho da oficina, partilhar a Luz que atingiu e lhe foi dada.

O Mestre Maçon é de e para o Mundo.

P. M. P.

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