Vestimentas de um Mandarim

Vivemos em momentos de desenfreado consumismo voltado em grande parte para o exterior da pessoa, com a preocupação da imagem física, visando receber elogios pelas vestimentas, pelo corpo bem moldado e pelo uso de produtos de beleza e outros adornos. Isto pode ser positivo quando a parte interna também tem a mesma beleza. Quase sempre esta parte externa reflecte a presença de vaidade no ser humano.

O que é vaidade? No dicionário Aurélio, “é o desejo imoderado de atrair admiração; qualidade do que é vão, ilusório”. Uma pessoa vaidosa deseja criar uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o intuito de ser admirada, o que nos lembra “Narciso”. Narciso, palavra grega derivada do vocábulo “narke”, significa entorpecido. Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade. A sua parábola tem sido uma grande fonte de inspiração há pelo menos 2 mil anos. Tornou-se símbolo de frivolidade e apego às aparências.

A deusa Némesis condenou “Narciso” a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua beleza, ele deitou-se no banco do lago e definhou, olhando-se na água e embelezando-se. A beleza de Narciso era tão incomparável que ele pensava ser semelhante a um deus. Era a consumação perfeita e total da vaidade.

A vaidade é decorrente do orgulho e dele se aproxima. As suas facetas mais comuns são apresentação pessoal exuberante, gestos repetitivos, falar demasiado, evidência de qualidades intelectuais, não poupando referências à própria pessoa ou a algo que realiza. Esforço em realçar dotes físicos, culturais ou sociais, intolerância para com aqueles mais humildes, às vezes não evitando fazer-lhes referências agressivas e fixado constantemente em ocupar cargos de destaque.

Não reconhece a sua própria culpabilidade nas situações em que a tem e tem forte obstrução mental na capacidade de se auto-analisar, não aceitando as suas falhas ou erros e atribuindo à sorte ou azar acontecimentos com ele ocorridos. O vaidoso tem uma estima exagerada de si mesmo.

Dou continuidade a este artigo, através de um texto que merece profunda atenção, e que me chegou pelo deputado estadual maçónico José Manoel de Brito, da Loja “Capela Aparecidense” de Aparecida de Goiânia. (editado)

Conta-nos a história de um homem que foi nomeado mandarim, uma espécie de conselheiro na China. Envaidecido com a nova posição, pensou em mandar confeccionar roupas novas. Seria um grande homem, agora. Importante.

Um amigo recomendou-lhe que procurasse um velho sábio, um alfaiate especial que sabia dar a cada cliente o corte perfeito. Depois de cuidadosamente anotar todas as medidas, o alfaiate perguntou-lhe há quanto tempo é que ele era mandarim. A informação era importante para que ele pudesse dar o talhe perfeito à roupa.

Ora, perguntou o cliente, o que é que isso tem a ver com a medida do meu manto?

Paciente, o alfaiate explicou:

“A informação é preciosa. É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo, que anda com o nariz erguido, a cabeça levantada. Neste caso, preciso fazer a parte da frente maior que a de trás.

Depois de alguns anos, ocupado com o seu trabalho e os transtornos advindos da sua experiência, torna-se sensato e olha adiante para ver o que vem na sua direcção e o que precisa ser feito de seguida. Para esse, costuro um manto de modo que fiquem igualadas as partes da frente e a de trás. Mais tarde, sob o peso dos anos, o corpo está curvado pela idade e pelos trabalhos exaustivos, sem falar na humildade que adquiriu pela vida de esforços. É o momento de fazer o manto com a parte de trás mais longa.

Portanto, preciso saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente perfeitamente.”

O homem saiu da loja pensando muito mais nos motivos que levaram o amigo a lhe indicar aquele sábio alfaiate, e menos no manto que viera encomendar.

Um pouco mais preparado, aprendeu que cargos e funções são sempre responsabilidades que nos são oferecidas pela divindade para o nosso progresso. Não há motivo para vaidade, acreditando-se superior ou melhor que os outros.

Lembrou-se da passagem bíblica, quando Pilatos assegurou a Jesus que tinha o poder de vida e morte, e que nas suas mãos estava o destino das suas horas seguintes, o Mestre alertou-o dizendo: “Procurador, a autoridade de que desfrutas não é tua; foi-te concedida e poderá ser-te retirada.” De facto isto veio a acontecer. Apenas poucos anos após a morte de Jesus, o poder de Roma retirou do procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, toda a autoridade. Ele perdeu o cargo, o prestígio, e tudo o que acreditava que fosse eterno nas suas mãos.

O novo mandarim aceitou a lição e ao assumir o alto cargo, procurou pautar-se pela orientação do velho sábio, alfaiate especial, de que a autoridade em que nos vejamos investidos deve ser exercida com humildade.

Florbela Espanca poetisa portuguesa nascida em 1894 e falecida em 1930, foi iluminada ao colocar-se diante da vaidade, e expressou-se inspirada na lição do velho alfaiate, casualmente ou não produzindo a poesia intitulada “Vaidade”:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… E não sou nada!…

(Florbela Espanca, «Livro de Mágoas», in «Poesia Completa»)

Adaptado de texto de Barbosa Nunes – Grão-Mestre Geral Adjunto do Grande Oriente do Brasil

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *