Atestado de Quite: reflexões sobre a existência na jornada maçónica

Introdução

Próximo de completar 5 anos na reflexões jornada maçónica, de entre os factos que presenciei, alguns compreenderam a leitura do pedido de carácter irrevogável, do conhecido “Atestado de Quite”. Visando amadurecer as percepções, somei conversas com diversos Irmãos, quer de outras Lojas, quer de outras potências ou obediências, buscando entender um pouco do que tem vindo a ocorrer entre as colunas da Ordem.

Diante disto, pretendendo contribuir para mitigar esta epidemia que tanto esvazia nossas Lojas, o presente trabalho tem por objectivo provocar reflexões sobre a origem do Atestado de Quite na jornada maçónica.

A proximidade entre o início e o fim

Geralmente, o primeiro passo é a desmotivação para frequentar as sessões, seja porque as convocatórias da Ordem da Sessão estão vazias ou porque estão preenchidas com temas de pouca relevância na percepção do Irmão, que esquece ser também seu dever, contribuir para essas mesmas convocatórias.

O segundo passo é o Irmão deixar de ter contacto com os Irmãos da Loja, mesmo sem frequentar as sessões.

O terceiro passo é a Loja deixar de procurar o Irmão, desistindo de o resgatar da sua condição confusa ou insegura.

A sequência é derradeira (o quarto passo), podendo ser acelerada ao surgir um problema de relacionamento com algum Irmão ou ainda a ocorrência de algum episódio de falha administrativa como esquecer de enviar flores no aniversário da cunhada, ou esquecer de citar alguma data festiva da família na sessão, ou ainda alguma fagulha no demasiado discurso no final de uma sessão. (Publicado em freemason.pt)

Relatados estes quatro passos que ligam o início e o fim, reflectiremos brevemente sobre cada um deles. Vale ressaltar que pelas observações e conversas, a maioria dos “quites” são solicitados entre o segundo e terceiro passo, culminando numa licença e quando ocorrem na altura do quarto passo, geralmente o Irmão filia-se noutra Loja.

Primeiro passo: – Hoje eu não irei à sessão

Chega o dia da sessão, e desde logo a alegria de reencontrar os Irmãos é substituída pela apreensão:

  • Bolas, hoje é dia de sessão!
  • Não estou com a mínima vontade de ir lá!
  • Vai ser discutido o mesmo assunto, de novo!
  • Ninguém vai apresentar nada interessante e ainda poderá sobrar para mim ter de fazer algum trabalho para a próxima sessão.
  • Além disto, vai que estejam a precisar de alguém para alguma trabalho? Estou fora!
  • Não tenho tempo para mim!

Esta desmotivação inflama-se ao se somar os compromissos profissionais, o trânsito, a conciliação e equilíbrio da vida familiar e a pura vontade de ir para casa descansar.

Uma sessão, duas sessões, um mês e de repente meses, anos, levando o Irmão a uma desconexão dos assuntos e da harmonia dos trabalhos em Loja.

Segundo passo: – Seguindo solitário

Deixar de frequentar a Loja é um problema, porém perder o contacto com os Irmãos é um sinal grave de que estamos a afastar-nos do porto. Não há mais tempo ou ocasião para um almoço, um churrasco, um encontro num barzinho ou na Igreja, um telefonema, uma mensagem no WhatsApp, levando também à perda de contacto entre as cunhadas e sobrinhos.

Segue-se a ausência nos eventos festivos da Loja, deixando claro que o Irmão está noutro plano, ou sem plano nenhum.

Terceiro passo: – Livre para voar ou cair

Depois de não frequentar as sessões e perder o contacto e convivência, o momento derradeiro dá os seus sinais, pois a Loja mostra indícios de que já não consegue recuperar o Irmão.

Chamadas sem retorno, e-mails sem resposta, mensagens de WhatsApp lidas e não respondidas, ausência em sessões magnas, ausência nas confraternizações, e chega o momento da Loja deixar o Irmão reflectir sobre o que fará da sua jornada maçónica. É um baixar de braços em que os dois perdem, mas existe um limite entre gritar e não ser ouvido também em ambos os lados. Pelo lado do Irmão, será que ele não está a precisar de algo que ainda não foi descoberto. Pelo lado da Loja, será que o Irmão não se sente livre o bastante para se colocar entre colunas e abrir o seu coração e as suas angústias? E o padrinho desse Irmão, será que está atento ou foi accionado antes deste estadio? (Publicado em freemason.pt)

Aqui, neste momento, aparecem Irmãos sim, mas para ruminar defeitos na Oficina de que ele faz parte e tentar levá-lo para outras Lojas, ajudando a enterrar uma relação que deveria ser mais forte.

Inicia-se então o período de visitar outras Lojas, inspirado pela ideia de que só a sua Loja não é perfeita. Rapidamente, chega a informação aos quadros da Loja que aquele Irmão ausente e inactivo está a visitar outras Oficinas e continua sem visitar a sua Loja oficial.

Momento livre para voar ou cair.

Quarto passo: – Tempestade em copo d’água

A ponte entre o início e o fim está prestes a ser concluída. Primeiro o Irmão não frequenta as sessões perdendo a ligação com a harmonia e com os assuntos da Loja.

Depois, deixa de ter contacto com os Irmãos, afastando-se da convivência fraterna que tanto enriquece a jornada maçónica, e porque não dizer, é um dos grandes tesouros da Ordem.

Desgastada pela resistência do Irmão em retornar aos quadros, a Loja desiste temporariamente do resgate, procurando revigorar forças e acções.

Infelizmente é nessa fase que qualquer evento, por menor que seja, será suficiente para promover um turbilhão de polémicas e rebentar o último fio que prendia a esperança de manter a ligação com a Loja.

De discussão político-partidária, lamúrias por não ter cargo em Loja, como se faz um nó de gravata, qual a sobremesa do jantar, ou qual é a posição do dedão do pé dentro do sapato quando se está em Loja. Qualquer motivo servirá para disparar uma discussão, uma troca inconclusiva de palavras e um pedido distante de perdão e reconsideração. (Publicado em freemason.pt)

Agora, é só aguardar o pedido.

Presença física, ausência mental e espiritual

Os quatro passos comentados partiram de uma premissa de que o Irmão estaria ausente das sessões. Porém, em paralelo com estes quatro passos, temos também aqueles que frequentam as sessões, mas estão ausentes, igualmente desmotivados, sem conviver com os Irmãos e a Loja sem tentar o seu resgate, já que ele está ali teoricamente presente.

Basta notar, em face da sua desmotivação, o uso do telefone durante as sessões, dispersando totalmente dos temas tratados. Este Irmão também já não se levanta para falar no final da sessão e pouco se sabe sobre a sua vida, embora esteja a frequentar assiduamente as sessões.

Não apresenta trabalhos e quando assim o faz percebe-se um árduo cumprimento de obrigação, e não uma edificação pessoal para partilhar com os Irmãos.

Está mais sintonizado com criticar do que com sugerir e contribuir com alguma acção para a vida da Loja.

Este Irmão, ao meu ver, está tão “quitado” como o outro que percorreu os quatro passos, sendo a única diferença, a de que está fisicamente presente nas sessões e não está a atrair a atenção da Loja sobre os seus sintomas.

Considerações Finais

O presente trabalho teve por objectivo apresentar algumas breves reflexões sobre “o Atestado de Quite e as suas origens”, abordando na percepção do autor, os quatro passos a serem percebidos e combatidos para evitar a saída do Irmão, sejam eles:

  1. ausência;
  2. distanciamento;
  3. abandono da Loja; e
  4. incidentes não resolvidos ou esclarecidos.

Por fim, chamou-se também à atenção para os casos em que o Irmão frequenta apenas fisicamente as sessões, mas a sua direcção aponta para fora da Loja.

Arriscaria a dizer que para alguns Irmãos, só falta alguém redigir para eles o quite, pois ainda não o redigiram por desconhecimento e por total afastamento da prática e estudo dos documentos da Ordem.

Assim, a vigilância e persistência devem ser firmes e constantes, para primeiro fazer com que o Irmão se sinta à vontade para trazer as suas desmotivações perante os Irmãos e segundo para a Loja, ter a mesma liberdade em corrigir e resgatar o Irmão sempre que necessário. Embora seja um tema bastante difundido, o papel do Padrinho é singular na vida do Irmão e poderia ser aprofundado numa outra Prancha.

Por fim, sabemos que o livre arbítrio guia os passos de cada um, mas também sabemos que a liberdade nos leva a caminhar cegos na escuridão, e a maçonaria se destaca por ser uma incandescente Luz nas nossas vidas.

Diante do exposto, que o GADU, mantenha a Luz da Sabedoria apontada nas nossas vidas, prevalecendo a tolerância e a habilidade de “saber cuidar” fraternalmente e entre Irmãos.

Adaptado de texto escrito por Franklin dos Santos Moura

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Um Comentário em “Atestado de Quite: reflexões sobre a existência na jornada maçónica

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    Acho muito virtuoso está preocupação dos membros em manter o laço de união entre os irmãos aprecio está virtude de manter a família sempre unida

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