O ágape – acto de amor

Para nós, o termo “amor” é um termo equívoco, ou seja, o mesmo termo é usado para referir-se a uma imensidade de sentimentos distintos. O nosso idioma não os diferencia porque, no fundo das nossas mentes e da Psique colectiva, não lhes dedicamos a devida reflexão. Os antigos gregos, entretanto, já pensavam sobre isto.

Eles vislumbravam quatro tipos diferentes de amor e para cada um deles havia uma palavra específica. Primeiro, havia a palavra éros (ρως), que designava o amor de natureza sexual, o amor do Homem inteiramente sujeito às forças da Natureza, fosse virtuosa ou viciosamente. Outra palavra para este mesmo tipo de amor era hímeros (Ίμερος), também significando o desejo e a paixão sexual.

Em segundo lugar havia o termo storgué (στοργή), que designava o Amor com afeição, aquele tipo de amor que conecta os pais aos filhos. Este tipo de amor é ainda sujeito à Natureza, pois o amor paterno é instintivo, é natural, mas, embora de natureza instintiva, existe nele uma importante diferença de grau: ele é virtuoso, ele expressa a virtude da conexão paterno-filial e é complementado pela boa vontade.

O terceiro tipo era a filia (φιλíα), um tipo mais elevado de amor. É o amor do Homem que escolhe livremente quem ou o que amar. Ele não mais é sujeito à Natureza ou à força dos instintos (seja sexual ou de afecto familiar), mas agora são o seu espírito e a sua mente os únicos determinantes. Os gregos usavam este termo para se referirem à amizade, pois os amigos são escolhidos, e o usavam também para designar o amor que tinham por algo que desejassem estudar ou cuidar, como, por exemplo, o filósofo, aquele que ama a sabedoria, em que o amor pela sabedoria é do tipo descrito pela palavra filia, não pelas palavras éros ou storgué.

Finalmente, o quarto e mais elevado tipo de amor era o agápe (αγάπη), pronunciado assim mesmo, paroxítono, e que deu origem à nossa palavra ágape, tornada proparoxítona por influência da sua latinização. Este termo designa o amor absolutamente incondicional.

Note a gradação dos tipos de amor. Primeiro, o amor que surge por determinação da Natureza, dividido em dois subtipos: éros, o sexual, que indica submissão total e egoísta à Natureza, expressão mais básica da preservação da espécie e, depois, a storgué, que, transcendendo o sexual, se manifesta no afecto familiar, também expressão do instinto de preservação da espécie, mas de uma natureza mais elevada, menos egoísta, transportando o interesse próprio para o interesse da família ou da comunidade. Segundo, o amor já liberto da Natureza, que surge não por determinação dela, mas por decisão própria do Homem, surge voluntária e livremente da sua mente e do seu coração e que, igualmente, se divide em duas subespécies: filia, que é o amor que se escolhe e se devota voluntariamente a alguém ou a algo específico e, por fim, o agápe, o amor incondicional e universal, sem distinção de especificidades.

Muitos, por ignorância, associam o ágape a uma mera refeição entre Irmãos após os trabalhos e destroem a egrégora desse momento transformando os Irmãos em simples comensais de gula e de cerveja, pois não entendem que a alegria que o Maçon deve sentir com a companhia dos seus Irmãos é de uma natureza totalmente distinta da alegria profana que sente num churrasco regado a cerveja. Estes são os que fazem da Maçonaria apenas mais um clube nas suas vidas profanas e não acordaram para a realidade maior da vida espiritual. Os seus corpos estão no Templo, mas as suas mentes estão nos vícios da matéria. Quantas e quantas vezes um Irmão se põe de pé e à ordem para o churrasco ou para a cerveja, mas não auxilia o Irmão que roga a sua presença numa actividade filantrópica?

Quando reclamamos que a Loja tem que estar unida, em vez de propormos uma confraternização no restaurante, que tal propormos uma actividade filantrópica conjunta, uma visita ao hospital, um auxílio ao necessitado? Não é suficiente a companhia física dos Irmãos. É preciso que as suas mentes e vontades estejam coesas e voltadas para um propósito genuinamente louvável. A união na actividade filantrópica une mais os Irmãos do que a embriaguez conjunta, pois quando as nossas mentes estão dominadas pelo vício da embriaguez, da conversa grosseira, da piada sexualizada e desrespeitosa, da gula e de todo tipo de excessos, as nossas mentes se tornam receptáculos poderosos de energia negativa, mas quando, ao contrário, as nossas mentes estão voltadas para o Bem do próximo, comprometidas em realmente fazer feliz a Humanidade e não a si mesmo, recebemos do G∴ A∴ D∴ U∴  influxos de energia inimagináveis.

Não é propósito primordial da Ordem Maçónica a filantropia, mas ajudar os seus membros a dominarem as paixões e fortalecerem as virtudes. Isto, porém, dá-se pela busca do autoconhecimento, da meditação profunda sobre a espiritualidade da Vida e pela prática constante do Bem. A Ordem não nos pede a filantropia, mas conclama-nos a decidir por ela. Todos manifestamos certamente os três primeiros tipos de amor, uns mais intensamente do que outros. Quando, na abertura do Livro da Lei, se lê o Salmo 133 da União Fraternal, o que ouvimos é um chamamento que desperta nos nossos corações e mentes a vontade sincera de sair dos níveis mais instintivos do amor rumo aos níveis mais elevados.

Toda a Loja de Aprendiz remete-nos para este autoconhecimento para, finalmente, exercemos o amor incondicional e universal simbolizado pelo ágape. A Loja de Aprendiz, portanto, é toda a nossa vida, não apenas uma sessão.

Rodrigo Penaloza

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