O Rito Críptico

Por Rito Críptico devemos entender um conjunto de graus maçónicos praticados no Rito de York, também designado como Rito do Arco Real. O termo críptico vem de cripta, simbolismo que designa “oculto”, “secreto”, pois aqui cuida-se de preservar o mais caro dos segredos maçónicos, que é a chamada Palavra Perdida.

Nos graus anteriores do Real Arco, a ênfase foi posta na recuperação da Palavra Perdida. Este simbolismo referia-se à própria reconstrução do Templo do Rei Salomão, que tinha sido destruído pelos caldeus, e nessa destruição essa Palavra foi perdida (pois o Templo de Jerusalém era a própria Palavra, consubstanciada num edifício). Assim, a missão de Zorobabel, o Aterzata, se oficialmente era a de reconstruir Jerusalém e o seu templo, em termos espirituais era também a de recuperar a Palavra Perdida.

Por isto é que todo o desenvolvimento dos graus do Arco Real trabalha com este tema, da mesma forma que os graus filosóficos do Rito Escocês. Assim, se os maçons do Arco Real se dedicam a recuperar a Palavra Perdida, os maçons da Cripta do Arco Real dedicar-se-ão a preservá-la, para que ela não mais se perca. Desta forma, os Conselhos de Maçons Crípticos formam o corpo central do Rito de York da maçonaria livre e somente podem entrar nesse Conselho os Irmãos que já completaram o caminho do Real Arco.

A lenda explorada nesses graus refere-se a uma cripta que existiria nos porões do Templo de Jerusalém, onde Salomão teria escondido certos “tesouros” que seriam usados para propósitos específicos. Estes tesouros, provavelmente aqueles que Moisés teria encerrado na Arca da Aliança, seriam conhecimentos arcanos de especial relevância. Entre eles estaria, inclusive, o Verdadeiro Nome de Deus e a forma de pronunciá-lo, pois este era a chamada Palavra Perdida.

Diz a lenda que Salomão escolheu um grupo de mestres Maçons para formar uma guarda especial, com intuito de proteger a Cripta e os seus preciosos conteúdos. Estes eram Irmãos que já possuíam a Palavra, ou seja, simbolicamente eram maçons do Real Arco que já a conheciam. Como se tornaram guardiões da cripta dos segredos, passaram a ser chamados de Maçons da Cripta ou Crípticos. Nessa cripta, desenvolviam o trabalho das suas Lojas, cuja função era sempre o estudo das maneiras de conservar a Palavra Perdida.

Ressalte-se que no Rito Escocês esta lenda também é trabalhada, com um idêntico conteúdo e uma mesma finalidade. Nos graus filosóficos do R∴ E∴ A∴ A∴, as actividades também são desenvolvidas no sentido de “reconstruir” o Templo de Jerusalém, ou seja, recuperar o “ensinamento arcano” que Deus dera aos construtores do Templo de Jerusalém, na forma das ciências necessárias para a construção daquele edifício sagrado, que era, na verdade, um verdadeiro simulacro do universo. Esta disposição estaria nas próprias instruções que Deus teria dado a Moisés para a construção do Tabernáculo, e depois a Salomão e Adonhiram (Hiram Abiff) para a construção do Templo, que na verdade, nada mais era que o próprio Tabernáculo erigido em alvenaria. A diferença entre o Rito de York (Arco Real) e o Rito Escocês está apenas na forma em como essa estrutura simbólica é desenvolvida. Se no Arco Real, os maçons que recuperam a Palavra Perdida se tornam Maçons Crípticos, os maçons do Rito Escocês que completam os graus filosóficos tornam-se Cavaleiros Kadosh, que equivale, na simbologia do Arco Real, aos maçons da Cripta. Haja vista que os Irmãos do Rito Escocês, ao se tornarem Cavaleiros Kadosh, no grau 32, também irão penetrar na Cripta dos Grandes Filosofas, onde irão descobrir o segredo final da escalada maçónica, que se revelam nas oito colunas da sabedoria. [1]

Já no Rito de York (Arco Real), a ênfase é posta na guarda da Palavra Sagrada, que tanto poderia ser o Nome Inefável de Deus, como a sabedoria que Ele teria confiado a Moisés quando mandou este fazer a Arca da Aliança, pois na Bíblia lê-se que, além das Tábuas da Lei, Deus mandou Moisés depositar na Arca o “ testemunho que Eu hei de te dar”. [2]

Esse testemunho seria a Palavra Sagrada, ou a própria sabedoria contida nas instruções usadas pelos arquitectos do Templo de Jerusalém para construí-lo, pois nessas instruções estaria a própria fórmula pela qual Deus constrói o universo. Esta é, pelo menos, a simbologia usada pela maçonaria, que se resume no segredo da Letra G.

Os trabalhos desenvolvidos pelos maçons da Cripta ocorrem em três Graus que são chamados de Mestre Real, Mestre Escolhido e Super Excelente Mestre.

Os trabalhos dos dois primeiros graus são desenvolvidos na Cripta subterrânea sob o Templo do Rei Salomão. Já o grau de Super Excelente Mestre é conferido aos maçons crípticos como preparação para a sua elevação a Cavaleiro Templário, titulo que ele receberá ao ser-lhe conferida a Ordem da Cruz Vermelha, que constitui a sua iniciação para participar das Comendadorias dos Cavaleiros Templários. [3]

O Mestre Real é aquele que aprende a sabedoria contida na sabedoria depositada na Arca da Aliança. Aprende o por quê de toda a liturgia preconizada por Moisés para aqueles que iriam servir no Santo dos Santos. Conhece a razão de toda a ritualística prevista na Bíblia para a construção do Tabernáculo, da Arca e do Templo de Salomão, pois nessa sabedoria está a fórmula pela qual o Grande Arquitecto do Universo constrói o mundo. Este é o conhecimento essencial que um verdadeiro mestre Maçon precisa possuir. Sem esta sabedoria ele não entenderá a liturgia e a filosofia da verdadeira maçonaria. O presidente da Loja do Mestre Real é o próprio Salomão e as dignidades da Loja são personagens da sua corte.

o Mestre Escolhido remete-se à lenda do Secretario íntimo do Rei Salomão, também existente nos graus filosóficos do Rito Escocês. Os trabalhos desse grau são desenvolvidos na abóbada do Templo do Rei Salomão. Os acontecimentos que caracterizam o grau são bastante excitantes proporcionando-lhe grande interesse filosófico. A cerimónia ritualística contém a história que completa o “Círculo de Perfeição” da antiga Maçonaria operativa. Refere-se a um secretário de nome Joabem, que teria arriscado a própria vida para não quebrar a lealdade que ele devia ao Rei Salomão. E o grau que sobreleva, sobre todas as virtudes, a lealdade e o zelo. [4] O Super Excelente Mestre, como dissemos, está relacionado com os acontecimentos que conduziram à recuperação da Palavra perdida. Historia a destruição do primeiro templo, os motivos pelos quais isso aconteceu, a saga dos judeus para reconstruir o segundo templo e todos os esforços físicos e espirituais para que esse grande trabalho de maçonaria fosse realizado. Mostra que a destruição do primeiro templo representou a perda da Palavra e a reconstrução do segundo templo foi a recuperação da Palavra. Para que esta Sabedoria seja conservada e não mais se perca é preciso uma reconstrução moral do próprio espirito humano, no qual os seus vícios sejam substituídos por virtudes. Pois se foi a degeneração moral do povo eleito que causou a ruína, será a virtude dos novos eleitos que proporcionará a glória de uma Nova Aliança.

E de posse desses conhecimentos, o Irmão do Real Arco, agora um Maçon críptico estará em condições de receber a sua comenda como Cavaleiro Templário. [5]

João Anatalino Rodrigues

[1] Vide a nossa obra “Mestres do Universo” publicada pela Ed. Biblioteca 24×7. No Rito Escocês essa alegoria define-se pelos ensinamentos dos grandes filósofos, entendidos como sendo os mensageiros de Deus para trazer aos homens a verdadeira sabedoria. E interessante observar que aqui se percebe as diferentes concepções filosóficas que inspiraram a maçonaria especulativa nos seus primórdios. Na maçonaria do Arco Real, que provavelmente teve origem nas camadas mais conservadoras da sociedade britânica, que constituíam a aristocracia, a maioria dos maçons pertencia ao partido Torie. Estavam mais ligados à tradição cavalheiresca e por isso disseminaram nos seus ritos muita alusão a temas ligados aos cavaleiros templários e hospitalários, razão pela qual os três graus finais do Rito de York se remete às chamadas Comendadorias Templárias, numa clara remissão a essa famosa Ordem de Cavalaria. Pretende-se, com essa alegoria, fazer dos maçons do Arco Real, protectores da Cripta, os herdeiros dos segredos dos templários. Esta lenda, ainda hoje, rende muita literatura e filmes, pois os maçons americanos, praticamente os criadores do Rito do Real (ou pelo menos os seus praticantes mais efectivos) supostamente seriam hoje os guardiões do tesouro templário. Veja-se a esse propósito o filme “O Tesouro Perdido”, com Nicolas Cage e o romance “O Símbolo Perdido”, de Dan Brown. Historicamente, o Rito de York seria uma dissidência do Rito Escocês, fundado pelos jacobitas (apoiantes da família da Stuart), pois enquanto os jacobitas (praticantes do Rito Escocês) apoiavam a volta dos Stuarts ao trono inglês, os Irmãos do Real Arco, na sua maioria do partido dos Wiggs, apoiavam a Revolução Gloriosa, que colocou a Casa de Hannover no trono da Inglaterra. Ver a esse propósito a excelente obra de Frances Yates, “O Iluminismo Rosacruz”, publicada pela Ed. Cultrix.

[2] Êxodo, 25:16.

[3] Supõe-se que os Cavaleiros Templários eram detentores de verdadeiros segredos arcanos que não podiam ser revelados às pessoas comuns, pois que proporcionariam a destruição da ordem vigente. Estes cavaleiros eram também possuidores de um riquíssimo tesouro. Seria a posse desses segredos e desse tesouro que causou a extinção da Ordem e a execução dos seus líderes na fogueira. Os tais segredos nunca foram revelados e o tesouro nunca foi encontrado. A este propósito recomendamos a leitura da nossa obra “ Guerreiros da Luz”,

[4] Veja-se a nossa obra “Conhecendo a Arte Real” publicada pela Madras, os comentários sobre o desenvolvimento dessa lenda no Rito Escocês.

[5] Supostamente, este era um rito desenvolvido pelos próprios cavaleiros templários. Ver a nossa obra “Guerreiros da Luz”, já citada.

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