O sistema de graus do Rito de York

Rito de YorkTendo em conta que a Maçonaria como a conhecemos hoje em dia tem uma origem atribuível à fundação da Grande Loja de Londres e Westminster, cujo acto fundacional york se comemorou recentemente em Londres, prevalece a ideia que em termos rituais a Augusta Ordem se orienta por dois grandes ritos, o Rito de Emulação e o Rito Escocês Antigo e Aceite. O primeiro rito é praticado nas lojas inglesas, escocesas e irlandesas e em todo o espaço territorial que foi ou é parte da Commonwealth. O rito escocês sediou-se no continente europeu e com a expansão colonial francesa, espanhola e portuguesa alargou-se às Caraíbas e à Micronésia, à América Latina e a África.

A expansão da maçonaria nos séculos XIX e XX levou, no entanto, à criação de novos ritos e ao agrupamento de Lojas que foram olhadas, muitas vezes, como uma ameaça à influência preponderante daqueles primeiros ritos. Refiro, a titulo de exemplo, o Rito Escocês Rectificado, o Rito Memphis-Misram, o Rito da Estrita Observância, o Rito de Schroeder ou o Rito Francês. Pela influência preponderante da Grande Loja Unida de Inglaterra, na sequência da fusão do Rito dos Antigos e do Rito dos Modernos, a criação de novos (Publicado em freemason.pt) ritos foi desincentivada no âmbito da chamada Maçonaria Regular, vendo-se os novos ritos empurrados para a situação de marginalidade identificada como “irregularidade” e associada à maçonaria liberal ou adogmática e à maçonaria mista.

Por razões históricas ligadas à independência das colónias britânicas na América do Norte e à fundação dos Estados Unidos, a maçonaria radicada naquele país adoptaria um rito próprio, o Rito de York, o qual na verdade tem origem no “Duncan’s Ritual and Monitor” de 1866. Por influência americana e na sequência da Segunda Guerra Mundial, o rito alargar-se-ia ao continente europeu, sendo também praticado nos locais onde tropas dos Estados Unidos se encontram estacionadas como no Afeganistão, no Iraque, na Coreia do Sul e noutros pontos do Médio Oriente. Na década de 1990 o rito foi introduzido Portugal, sediando-se na Grande Loja Regular de Portugal e mais tarde na Grande Loja Unida de Portugal.

Recordemos que o rito em Maçonaria é uma colecção de graus construído à volta dos três graus que importou da Maçonaria Operativa, os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre. Alec Mellor distingue- lhe ainda um segundo sentido aludindo ao acto cerimonial cujo formalismo foi previamente estabelecido, tendo em vista a sua finalidade iniciática. Exemplifica-o com o rito do despojamento dos metais ante a cerimónia de iniciação e o rito da escada no grau de Cavaleiro Kadosh dos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite, O chamado Rito de York é o resultado da evolução da Maçonaria Operativa de um grau de 1717 para um sistema de seis e mais graus, sendo praticado nos Estados Unidos, Canadá, México, França, Grécia, Chipre, Áustria e Espanha.

A ideia central de todas as cerimónias maçónicas é a ideia da perda, da recuperação e da interpretação.

A perda é a essência da Craft ou dos graus da Loja Azul, a recuperação a ideia central no Arco Real. De acordo com a lenda cada homem elevado ao sublime grau de Mestre Maçom recebe “segredos de substituição” porque os “verdadeiros segredos” foram perdidos em épocas distantes. Os segredos mais profundos do grau de Mestre são supostamente conferidos no Grau do Arco Real, o quarto grau na escala dos graus do Rito de York que possibilita o acesso ao sistema mais elevado de graus filosóficos. Vamos deixar para o fim a descrição deste sistema de Altos Graus centrando- nos, por razões práticas nas principais similitudes e diferenças rituais entre o Rito de York e o Rito Escocês Antigo e Aceite, o rito mais popular em Portugal, no Brasil e em França.

Em ambos os ritos os três primeiros graus azuis são executados em templos com decorações muito semelhantes. O Oriente é o local onde se senta o Venerável Mestre, o Sul e o Oeste o local onde se senta o Primeiro Vigilante e o Segundo Vigilante, respectivamente. Aprendizes e Companheiros sentam-se na coluna norte, os Mestres na coluna sul. A maior diferença entre os ritos reside no que se encontra no centro do templo. O tapete axadrezado encontra-se no centro do Templo mas enquanto no Rito Escocês Antigo e Aceite o Altar está junto à mesa do Venerável Mestre, no Rito de York, o Altar está sobre o tapete no centro da sala, sendo esse o lugar onde se tomam os juramentos. Em termos idênticos nos dois ritos o Livro da Lei Sagrada encontra-se sobre o Altar acompanhado do Esquadro e do Compasso. Atento o acolhimento de obreiros que professam diversas religiões o Livro (Publicado em freemason.pt) da Lei Sagrada inclui em muitas lojas a Bíblia, o Alcorão, a Tora, sendo os juramentos tomados sobre o livro reverenciado pelo obreiro. Em regra é a Bíblia que ocupa o lugar prioritário. Há uma diferença importante em termos litúrgicos: enquanto o Grau de Aprendiz é no Rito Escocês “aberto” no Evangelho de São João, no Rito de York ele é aberto no Salmo 133. A genuflexão é obrigatória em ambos os ritos para a tomada de juramento com a mão direita colocada sobre as três luzes da Maçonaria.

Em termos de decoração os templos do REAA são diferentes dos do Rito de York. Nos templos do REAA e sobre a cadeira do Venerável Mestre existem imagens do Sol, da Lua e um Delta Luminoso ou Olho Misterioso no centro destas duas luminárias.

Numa loja do Rito de York apenas um largo “G” normalmente iluminado é exibido por cima da cadeira do Venerável Mestre. Existem também diferenças na colocação dos quadros de loja do primeiro, segundo e terceiros graus. No REAA os quadros dos graus em que a loja funciona são colocados sobre o tapete axadrezado no centro do templo. No Rito de York os quadros são colocados num dos cantos da Loja sobre um cavalete.

Do ponto de vista funcional existem algumas diferenças entre os oficias de um rito e outro. A designação dos três oficiais principais é idêntica: Venerável Mestre, Primeiro e Segundo Vigilantes. Mas enquanto o REAA tem um Orador que se senta no Oriente à direita do Mestre da Loja (com o Secretário da Loja à esquerda), o Rito de York conta com um Capelão que se senta na coluna sul. Por sua vez o Secretário senta-se no meio da coluna norte em frente ao Segundo Vigilante do outro lado do tapete. Uma outra diferença é a existência de um Experto no REAA e de dois Diáconos no Rito de York que têm funções de auxiliar do Venerável Mestre e do Primeiro Vigilante. Os dois Diáconos sentam-se em frente e à direita dos dois oficiais principais que assessoram. Três oficiais são comuns a estes dois ritos: o Tesoureiro, o Guarda Interno e o Guarda Externo, habitualmente designado no York por Tyler. O rito de York não tem a função de Director de Cerimónias ao contrário do Rito Escocês. Todos os oficiais usam colares e jóias identificando as suas funções. No REAA os colares são azuis-claros, no Rito de York azuis-escuros.

Também em termos de aventais existem diferenças entre o REAA e o Rito de York. No Rito Escocês os aventais são brancos com adereços vermelhos; no Rito de York os aventais são brancos com adereços azuis-escuros. O avental do Mestre no REAA é adornado com rosetas vermelhas, no Rito Escocês o avental é decorado com um esquadro e compasso entrelaçados e a Letra G no meio destes dois símbolos. Um olho azul é inserido no centro da abeta. No avental do Venerável Mestre, no REAA, as rosetas são substituídas por três “Taus” invertidos, em metal dourado. O avental do Mestre da Loja no Rito de York revela um esquadro com o vértice para cima na parte inferior e um olho em expansão na abeta. Todos os membros da Loja usam luvas e colocam o avental por cima de um fato escuro. Nalgumas jurisdições o avental é usado por debaixo do fato. Em inúmeras lojas norte-americanas não é exigido o fato. O Venerável Mestre usa chapéu em feltro ou chapéu “alto” para assinalar a solenidade da sua função.

Um outro aspecto diferencial é a inexistência de uma Câmara de Reflexões no Rito de York, entrando o candidato à iniciação do exterior para o templo sendo anunciado pelo Segundo Diácono nos termos rituais. Não existe também, neste sistema ritual, o requisito do testamento maçónico sendo as qualidades do profano avaliadas em sede do inquérito cujo relatório é votado em sessão aberta da loja. Não existe igualmente Coluna de Harmonia no Rito de York nem oficial encarregue do mesmo aspecto que revela a influência francesa no Rito Escocês.

Em matérias de Altos Graus, o Rito de York contém três corpos cada um dos quais com a supervisão de três ou quatro graus. Estes corpos são os Graus de Marca, o Conselho do Maçons Crípticos e a Comandaria dos Cavaleiros Templários. Os Graus Capitulares ou Arco Real incluem quatro graus: Mestre de Marca, Past Master, Muito Excelente Mestre, Maçom do Real Arco. O Conselho dos Mestres Crípticos inclui os graus de Mestre Real, Mestre Escolhido e Super Excelente Mestre. A Comandaria dos Cavaleiros Templários inclui os graus de Cavaleiro da Cruz Vermelha, Cavaleiro de Malta, Cavaleiro Templário.

O Mestre de Marca é porventura o grau mais antigo e complementa os ensinamentos dos graus de Companheiro sendo conferido usualmente na Loja Azul e instruído sobre lições de caridade e honestidade aprendendo a distinguir o seu “trabalho” com a “marca” que escolhe conforme ocorria (Publicado em freemason.pt) com os Mestres da Maçonaria Operativa. O Capítulo, o Conselho e a Comandaria têm sessões rituais e de instrução. Os oficiais têm designações idênticas às das lojas azuis mas o oficial presidente de cada um destes sistemas de Altos Graus é designado respectivamente por Sumo Sacerdote, Ilustríssimo Mestre e Comandante Eminente. Dependendo das jurisdições nacionais, os graus azuis do Rito de York encontram-se na dependência de uma Grande Loja, os graus capitulares na dependência de um Supremo Conselho de Maçons do Arco Real, os graus crípticos de um Supremo Grande Conselho de Maçons Críptico e as ordens de cavalaria sob a Comandaria de Cavaleiros Templários, corpos estes reconhecidos pelas estruturas competentes do Rito de York nos Estados Unidos. Existem tratados de reconhecimento entre o Rito de York dos Estados Unidos e estruturas do Rito da Croácia, Alemanha, Grécia e Roménia.

Arnaldo Gonçalves

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