Rito Francês: uma breve apresentação

Rito FrancêsLiberdade, Igualdade e Fraternidade. O lema da Revolução Francesa. E comumente atrelado ao Rito Moderno – ou francês. Mas, será que realmente este é o ideal deste rito maçónico? quais são as suas características? ele é um rito que aceita ateus na Maçonaria? E qual a diferença entre Moderno e Francês? São estas as questões que instigam este pequeno trabalho, a fim de apresentar o Rito aos maçons que ainda não o conhecem. Pretendemos, assim, levantar questões gerais sobre o rito, no intuito de popularizar as suas práticas e tirar dúvidas iniciais daqueles que pretendem executá-lo.

O Rito Francês foi criado na França em 1761 e proclamado pelo Grande Oriente da França em 1773, um ano após a sua fundação. Os graus eram os três da maçonaria simbólica: Aprendiz, Companheiro e Mestre. Os altos graus do Rito Francês foram introduzidos somente em 1782. Os regulamentos do rito foram aprovados em 1780 e passaram a vigorar cinco anos após. Além do Grande Oriente da França, a Grande Loja Nacional Francesa também passou a adoptar o Rito no Século XVIII. No Brasil, a primeira loja a praticá-lo foi a Virtude e Razão, datada de 1802, em Salvador-BA.

Quanto aos landmarks (isto é, a delimitação daquilo que autores compreendem sobre a regularidade da prática maçónica), o Rito Francês tem adoptado os de J. G. Findel, marcados evidentemente pelos ideias de liberdade de pensamento, igualdade de oportunidades e fraternidade entre os irmãos. Muniz (2011) salienta que as bases filosóficas do Rito são iluministas, o que bem traduz o espírito da França quando da sua criação. Autores como Francis Bacon, John Locke, David Hume, Adam Smith e Voltaire foram inspiradores dos ideais do Rito Francês – ainda que indirectamente.

Victor Guerra, numa entrevista imaginária com Röettiers de Montaleau (considerado um dos experts em Rito Francês), argumentou que a disputa envolvendo a Grande Loja da Inglaterra (de 1717) e uma nova potência maçónica (de 1753) culminou com a diferenciação dos termos. A primeira, de 1717, foi considerada “Moderna”, apesar de mais antiga, dada às novas práticas por ela utilizadas; já a segunda, apesar de mais recente, foi considerada “Antiga”, pela intenção de invocar os antigos costumes. Assim, pejorativamente, os “Antigos” passaram a chamar o Rito, utilizado pela Grande Loja da Inglaterra em 1725 como “Moderno”. Após a tradução para o francês e uso do Grande Oriente da França, este passou, portanto, a ganhar a alcunha de Rito Francês – ou, então, Rito do Grande Oriente da França, ou Moderno.

Outra questão controvertida do Rito Francês é dizer que este é um rito que aceita ateus na maçonaria ou que é ateu. O rito não é ateu. Apenas acredita que a crença pessoal num ente divino ou supremo ou, então, a falta desta crença não são critérios necessários ou impeditivos para a iniciação maçónica. Mais vale, portanto, o pensamento do que as crenças pessoais. Batalla (2011) bem descreve este propósito:

O facto de, hoje em dia, estar sobre a mesa do Venerável Mestre  a Bíblia e outros Livros religiosos, todos fechados, é a maior prova do respeito que do Rito Moderno tem para cada uma das religiões adoptadas pelos seus membros. Este detalhe, embora imperceptível à vista de alguns ou muitos irmãos, é de suma importância, pois, o Rito Moderno respeita todas as religiões e por esta razão admite no seu seio membros de qualquer religião porque não interessa a religião do futuro irmão e sim o pensamento filosófico e a sua vontade de servir à sua nação, onde vive, para difundir e aumentar o real significado do objectivo do Rito Moderno, qual seja a de fazer imperar a liberdade colocando o social acima do particular ou individual pela difusão e prática desinteressada da  solidariedade na formação de construtores sociais.

Dentre as características usuais do Rito Francês podemos destacar: uso de uma espada pelo Venerável Mestre (e não flamígera), que deverá repousar sob o Livro da Lei; o Primeiro Vigilante zela pela Coluna B, onde também sentam os Companheiros e o Segundo Vigilante zela pela Coluna J, onde sentam os Aprendizes; a ausência de colunas zodiacais; há a corda de oitenta e um nós; há o pavimento mosaico no ocidente; há painel para cada um dos graus, que são conservados na mesa do Venerável Mestre; os cargos são diversos, seguindo praticamente as mesmas nomenclaturas do REEA (excepto a posição no Templo); há a lenda do terceiro grau; e, usualmente, “La Marseillaise” é entoada no início da sessões como hino de abertura e, da mesma forma, no encerramento.

Camargo (2005, p. 65) descreve a moral do pensamento do Rito Francês:

O Rito Moderno é tradicionalmente reconhecido como o Rito dos Livres Pensadores, tem por princípio o respeito absoluto da liberdade de pensamento e consciência, proporcionando aos maçons o contínuo estudo em busca da verdade, reconhece que não detém a verdade, apenas motiva os seus integrantes na sua busca incessante.

Portanto, o Rito Francês é o “rito dos livres pensadores”, que buscam a verdade, mas sem se esquecer dos ideias da maçonaria na época, pautados nos ideais dos seus criadores. Apesar de pouco praticado no Brasil – quando comparado aos demais, o rito é uma verdadeira escola de cidadania, de civismo e, sobretudo, de espaço para debates de ideias profícuas, necessárias para o desenvolvimento do espírito público.

Tiago Valenciano

Bibliografia

  • BATALLA, José Maria Bonachi. Breve Histórico do Rito Francês ou Moderno.
  • CAMARGO, Alexandre Magno. O Aprendiz no Rito Moderno. Brusque: Editora A Gazeta Maçónica, 2005.
  • GAGLIANONE, Paulo César. A Introdução do Rito Moderno no Brasil.
  • GUERRA, Victor. Entrevista com o pai do Rito Moderno. Trad. José Fillardo.
  • MUNIZ, André Otávio Assis. As bases filosóficas do Rito Moderno.
  • NETO, Antonio Onias. Landmarks no Rito Moderno.
  • PALMEIRA, Álvaro. A concepção do Grande Arquitecto do Universo no Rito Francês ou Moderno. Brasília: Boletim do Grande Oriente do Brasil, 1961.

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Um Comentário em “Rito Francês: uma breve apresentação

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    O Rito Francês foi criado na França em 1761 Esta fecha no tiene ninguna consistencia histórica para el que luego más tarde sería el Rito Francés, y creo que se deberia diferenciar entre Rito Moderno y Rito Francés, entre el Vivat, Vivat, semper Vivat que viene de la molienda de los Modernos , via Inglaterra y se alberga y se acomoda en Francia, y el LIF del Rito Frances como expresión original del Gran Oriente de FRancia

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