Uma história iniciática (a minha iniciação)

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À Glória do Grande Arquitecto do Universo vou contar-vos uma história. A história da minha iniciação como Maçon.

Um contacto telefónico despoletou a antecipação dos próximos passos. Foi o sinal de que iria mesmo acontecer a iniciação e a entrada para a Augusta Ordem.

Os restantes contactos telefónicos até a confirmação e marcação do dia prestaram-se à consolidação do início de um vinculo agora em construção. Finalmente, após as conversas tidas anteriormente, havia novamente uma voz e pessoas reais do lado de lá.

As mensagens condicionaram a reflexão sobre o tema da morte e direccionaram a minha perspectiva no sentido de uma nova consciência. O método criou uma tensão entre o desejo de concretizar o passo e o desconhecido; agora estava a ser contactado para entrar para uma Ordem exclusiva e restrita, da qual ouvira e lera algumas coisas, mas da qual, na verdade, não conhecia nada.

De certa forma esta é a maneira como estamos na vida: empenhados no dia a dia, por vezes em busca de um sentido e de repente, recebemos uma espécie de notificação e a nossa atenção fica presa num objecto, numa busca, por vezes numa incógnita que pretendemos desvendar.

Assim foi: a minha vida continuou, mas de certa forma suspensa no desenrolar do mistério, com um tema subjacente: a morte, consequentemente a despedida e pelos vistos algo de novo que me aguardava.

Reflecti bastante sobre essa transição, como faço com alguma regularidade. O que é a morte? E sobretudo o que é a vida? A nossa qualidade ontológica (seres mortais) está determinada entre os dois polos, vida e morte. Tudo o que está no meio, afinal, é um caos? tem algum sentido? Algo mais do que o dia? E os outros? e o mundo? Temos alguma missão enquanto vivos?

Achei, acho que sim e na altura, ainda sem percepção da amplitude e profundidade da busca que iria iniciar, ficava cada vez mais empolgado com a aproximação do encontro.

Chegado o dia marcado para a minha iniciação, procurei aprofundar a introspecção sobre estas questões. Enquanto esperava o derradeiro contacto, foi-me sugerida a permanência numa igreja. O Templo ajuda a encontrar paz e sobretudo o silêncio. Este cada vez mais importante. É no silêncio que a audição tem relevo. É no silêncio que o som toma forma, assim como o ser irrompe do nada e a luz, das trevas.

A vida sem silêncio é um suceder de “ruído” caótico: é uma festa de fim de ano, com as solicitações diárias a ocuparem espaço, os desejos de estatuto, a voracidade da ambição, mesmo o nível básico de sobrevivência nos preenche a atenção. Assim, o silêncio contemplativo permite ouvir outras vozes, muitas vezes abafadas no ruído que deixamos entrar em casa, na nossa vida.

Por isso, foi útil o tempo passado na igreja [editado], até receber a mensagem que iria despoletar a viagem definitiva.

Até este momento, consegui destacar algumas condições, creio que intrínsecas ao ser humano:

  • A curiosidade: o que me espera no fim da viagem;
  • O desejo: neste caso de pertença à Ordem, mas de qualquer forma uma das condições humanas;
  • A impaciência.
  • O silêncio.

A primeira, a curiosidade, despoleta o segundo, o desejo, que pretende satisfazê-la. Juntas geram a impaciência para que tudo seja concretizado. Se a primeira permite fazer descobertas, o segundo cria a força motriz de as procurar, já a terceira deve ser controlada. E no silêncio encontramo-nos, por vezes dolorosamente, connosco mesmos.

Na verdade todas estas emoções podem ser transmutadas num processo de elevação: o desejo direccionado para a curiosidade pode ser o que os gregos chamaram de Filosofia como uma actividade sublime: o amor ao conhecimento. A impaciência pode ser sublimada em perseverança. E no silêncio podemos desenvolver a temperança e a humildade.

Estas qualidades juntas podem ajudar o homem no seu caminho. E o meu iniciava-se numa carrinha com uma venda. É curiosa a situação de um homem privado da visão numa viagem em direcção ao desconhecido. Por um lado, requer alguma coragem e por outro, alguma fé. Na verdade, como a vida também o requer. Mas neste caso, embora os personagens que me raptaram fossem enérgicos e vigorosos, deixavam transparecer segurança e algum cuidado com a carga.

Após o carro parar, todo o caminho até ao quarto de reflexão, uma escada grande, fui acompanhado de forma firme, mas com cuidado o que me deu mais segurança na caminhada. Finalmente parei num quarto escuro. O quarto de reflexão soube mais tarde. Mas naquele momento, tentei perceber os símbolos visíveis: caveiras, um galo, a legenda V∴ I∴ T∴ R∴ I∴ O∴ L∴ e alguns memorandos a apelarem à reflexão ou desistência. Desistir nesse momento, estava fora de questão. E compreender o que significa a legenda ficaria para mais tarde.

Mas o que significava este estágio, entre o início da jornada, vendado, privado da luz portanto, e a paragem nesta câmara funerária? Será a morte uma mera paragem entre destinos? As caveiras recordam que no final somos todos iguais, mas na verdade, na profundidade da escuridão da nossa mente, corre um mundo de diferenças, de pesos e fantasmas. Quero chegar ao momento de escuridão derradeiro livre deles e é em vida que essa depuração deve ser feita pensava eu. Uma ampulheta recordava-me o adágio agostiniano “Tempus Fugit” Ou seja: o tempo corre. Devemos aproveitá-lo bem, reflectia também.

Fora da câmara escura, ouvia pessoas e barulhos. Nesse momento penso na Alegoria da Caverna de Platão: Numa caverna, homens agrilhoados e virados para uma parede sem se poderem mover assistem a coreografias de sombras projectadas na parede, por outros homens que se mexem livremente passando em frente a uma fogueira. Os homens presos, pensam que as sombras são a realidade, mas um deles liberta-se, descobre que há outros homens na caverna que projectam as tais sombras e mais: sobe até a saída da caverna, onde se defronta com a luminosidade do sol, ficando quase cego pela luz.

Regressa à caverna onde conta que encontrou a verdadeira luz e todos o chamam de louco. No tempo de Platão, também ele um iniciado, os filósofos eram considerados um pouco loucos.

Não interessa, nesse dia eu próprio iria descobrir uma luz, qualquer que fosse.

Chegada a hora de me apresentar à assembleia o meu “cuidador” passou a desempenhar um papel ainda mais importante, uma vez que para além de estar de olhos vendados, tinha agora de entrar num local restrito perante o qual ele me fazia entrar.

Posso comparar a sua actuação ao do pedagogo da Antiga Grécia – aquele que conduz o cego – Neste caso particular, um pedagogo que iria ajudar-me a defrontar o Oráculo de Delfos e ser agraciado, ou não, com a sua benevolência.

Durante o resto da cerimónia, senti-me imerso numa batalha: eu próprio me dispus a integrar a Ordem, mas agora tinha de o demonstrar perante as dificuldades. Os vários testes pareceram-me difíceis, e sem o meu “pedagogo”, nunca teria saído do mesmo lugar. Cego, estava completamente dependente da condução de alguém. Confuso, tinha apenas consciência dos obstáculos e das vozes que me questionavam, pondo à prova a minha determinação. Esta, estava cada vez mais consolidada.

As provações e dificuldades despertam um maior comprometimento nosso com a sua ultrapassagem. Querer é poder, literalmente. E todo o ritual, conseguiu recuperar a pureza de uma criança, indefesa, mas curiosa que conseguiu um objectivo:

E essa foi a acção de um homem que de livre vontade se propôs aceitar uma espécie de regresso ao início para começar de novo, num processo que, mesmo com um trago amargo soube a vitória pelo encontro consigo mesmo, acompanhado pelos, agora irmãos, a quem agradece a recepção.

[editado]

Esta última, talvez seja a homenagem mais generosa e uma garantia também ancestral para a sobrevivência da humanidade. É que em grupo somos poderosos. Como indivíduos, nem por isso. A nossa espécie é fraca; basta olhar para um dos castigos mais temidos da Antiguidade Clássica: a condenação ao ostracismo que significava o total afastamento da tribo, sem qualquer recurso nem reconhecimento dos pares.

Nesse momento, perante todos os homens que me observavam numa sala estranha, senti precisamente o oposto. Apôs ser raptado, e estar sozinho numa câmara escura a pensar com os meus botões que ia fazer à vida, após os altos e baixos e reveses da viagem iniciática, agora, renascido entre irmãos, sentia-me estranhamente em casa.

Rui C. – A∴ M∴

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