A cadeia de união e a egrégora maçónica: mais que simbologia, uma conexão universal

Introdução

Cadeia de União

Ao neófito, vendado há horas, de corpo e alma entregue à condução daqueles que virão a ser os seus irmãos, as muitas viagens e as surpresas que estas lhe impuseram, a luminosidade do templo, os reflexos de luz sobre as espadas prateadas que lhe são apontadas, nada lhe é mais instigante do que o novo mundo que se descortina paulatinamente nas instruções de aprendiz. Um mundo diferente, iluminado, mas secreto, simbólico e carregado de sentidos profundos.

Iniciado e sendo reconhecido pelos irmãos como um deles, passa a ser oriundo de uma Loja de São João, Justa e Perfeita, devendo carregar consigo amizade, votos de paz e prosperidade a todos os irmãos. Como construtor, a sua missão é erguer templos à virtude e cavar masmorras aos vícios, vencendo as paixões mundanas, submetendo as vontades próprias, estreitando laços de fraternidade a fim de fazer progressos na Maçonaria.

Não pode o Aprendiz de Maçom furtar-se à desafiante tarefa de compreender, à medida que se dissipa a incandescência da luminosidade de quando lhe cai a venda, o mundo de símbolos, sentidos, ensinamentos e lições que se descortina à sua volta. Desta compreensão resulta a sua capacidade em ser reconhecido como Maçom, pelas suas obras, pelos seus princípios, pela sua capacidade de erguer templos. (Publicado em freemason.pt)

É certo também que tal missão só se cumprirá a partir da elevação do ser à grande sabedoria universal, ampliando os horizontes da razão e da compreensão acerca dos mistérios que engendram a grande obra de arquitectura feita pelo criador. E, certamente, o caminho não será diverso ao da conexão mental e espiritual por meio da prática da fraternidade, do amor e da busca incessante pela contínua aprendizagem.

A Maçonaria evoca ensinamentos por meio da representação simbólica. Dentre os símbolos que inspiram a aprendizagem e a construção gradual do templo interior, ressalto neste texto a Cadeia de União, que nas palavras de Rizzardo da Camino “é símbolo quando representada por uma ‘corrente de anéis de metal’, mas deixará de ser símbolo quando em execução, para ser perfeita união” (CAMINO, 2002, p. 6); e a Egrégora Maçónica, que segundo Costa é a “força gerada pelo somatório das energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas quando se reúnem com qualquer finalidade” (COSTA, 2017, p. 32). Tal escolha parte do pressuposto de que estas duas práticas maçónicas, mais que um símbolo, são acções fundamentais para a conexão dos construtores ao Grande Arquitecto do Universo e a sabedoria universal que conduz à justiça e à perfeição, fundamentais para a construção de uma sociedade virtuosa, progressista, livre, igualitária e fraterna.

Os símbolos para a humanidade

Os símbolos são formas de expressão de uma realidade abstracta por meio de algo concreto. A bandeira de um país representa a nacionalidade, a união dos povos que encerram uma dada nação, um signo do Estado. A cruz representa o cristianismo para os cristãos que crêem que a morte do Cristo é sinal de salvação e ressurreição para a humanidade. A aliança no dedo anelar esquerdo representa o casamento daquela pessoa que assim a usa, já se o usuário a muda para o membro direito, comunica que o compromisso trata apenas de um noivado.

Com estes exemplos, pode-se dizer que o símbolo é algo que não sendo a própria realidade, a representa num grau profundo de compreensão, crença e respeito. Não fosse assim, o cristão não respeitaria a cruz, um povo não respeitaria a bandeira do seu país ou o cônjuge sequer usaria a aliança no dedo que corresponde o seu nível de compromisso.

Um outro aspecto não menos importante sobre os símbolos é que eles geralmente são considerados dentro de uma dada cultura, realidade ou crença. Para um judeu a cruz cristã não evoca fé, para um cidadão de outra nação não se espera o comportamento protocolar diante da bandeira do nosso país, assim como para um solteiro uma aliança no dedo esquerdo anelar será apenas um simples anel. Noutras palavras, há símbolos mais universais, como a cruz cristã e outros mais específicos e locais, como por exemplo a bandeira de um estado ou província.

Há ainda que se destacar que os símbolos são formas simplificadas de se manifestar uma realidade complexa, cheia de conexões, partes e interacções. Assim, o símbolo ao reunir as partes e simplificar o complexo, permite a vivência da realidade abstracta. (Publicado em freemason.pt)

Na maçonaria, quando o iniciado tem a sua venda retirada, no ritual de iniciação do primeiro grau, depara-se com uma diversidade de símbolos manifestados sob a forma de objectos, sinais, toques e palavras. Estes símbolos, que na sua maioria, nada lhe representavam anteriormente, agora passarão a ter significados profundos, respeitáveis e valorosos para a sua conduta pessoal, para a sua convivência social e para o seu desenvolvimento humano. A compreensão desse novo universo torna-se, pois, um desafio a partir daquele momento, guiando o neófito na sua missão de trabalhar a pedra bruta, transformando-a na pedra cúbica, polida, angular para a sociedade e a construção universal.

Os símbolos para a maçonaria

A maçonaria faz uso de sinais, toques e palavras que são privativos dos iniciados. Faz uso também de ritos que determinam o modo de proceder das reuniões maçónicas nos seus diferentes graus e em diferentes momentos da vivência de um Maçom na ordem. Por outro lado, os paramentos que compõem a vestimenta dos maçons, os objectos que adornam e compõem a loja e as expressões artísticas que integram e caracterizam o Templo de Salomão, dentre outras manifestações materiais, são símbolos que contam as histórias, os mitos, que explicam as metáforas, a filosofia, os ritos e os desafios que perfazem a vida do iniciado na ordem da maçonaria.

Assim, um dos principais desafios ao aprendiz, é compreender a variada simbologia maçónica, buscando entender os seus significados, que lições trazem, que conteúdo podem acrescentar à sua constante tarefa de lapidar a pedra bruta. Certamente, o caminho a percorrer nessa aprendizagem é longo, dado que é complexo, exige dedicação, estudo, compreensão além da superficialidade daquilo que os olhos desvendam.

Dentre os símbolos que são apresentados ao aprendiz de Maçom, destaco as luvas brancas, o avental, a pedra bruta e a pedra polida, o sinal à ordem, o toque de reconhecimento, o Oriente com o deslumbrante sólio, o Ocidente e as duas colunas Jachin e Boaz, os Vigilantes que conduzem os irmãos presentes nas colunas do Ocidente, o maço e o cinzel, dentre outros tantos que vão se descortinando com a velocidade que a venda cai e os olhos se vão acostumando à nova luz que se apresenta, pulsante, forte e verdadeira.

À medida que estes símbolos se vão tornando claros para o Aprendiz de Maçom e as suas representações paulatinamente se amalgamam à sua personalidade, polindo-o e o melhorando enquanto ser humano, a substância que constrói o ser humano renova-se no íntimo de cada um, aperfeiçoando as energias, renovando os pensamentos, refazendo pontos de vistas e interesses, melhorando concepções e comportamentos. Isto deve-se à união fraternal e às vibrações positivas da fraternidade que gradualmente influenciam na formação do Aprendiz, complementando-o como ser individual e integrando-o na irmandade.

Neste sentido, a formação do Aprendiz de Maçom é fortemente influenciada pela Cadeia de União quando se forma além da sua manifestação simbólica e pela Egrégora Maçónica produzida não apenas durante a Cadeia de União, mas durante todos os momentos ritualísticos, desde a entrada no Templo de Salomão até à sua saída.

A cadeia de união – mais que um símbolo

A cadeia de união é exponencialmente maior que o simbólico entrelaçar de braços, o aperto de mãos e o tocar de pés em esquadro. É significativamente mais profunda que a comunicação entre irmãos, seja por meio da oração, seja pela transmissão da palavra semestral. É um símbolo que cruza a fronteira da mera representação e provoca uma forte transmissão magnética do amor entre irmãos, do sentimento de fraternidade e união que congraça os espíritos ali conectados.

A cadeia de união é uma transbordante experiência da Egrégora Maçónica. Os seus efeitos partem do solo do templo rumo aos campos astrais, expandindo energia humana, fraterna, benfeitora e feliz. É uma experiência física com significados e consequências espirituais.

O comportamento do Maçom durante da Cadeia de União deve ser cuidadoso, atencioso, carregado de sentimento. Nenhum Maçom pode integrar a Cadeia de União com o coração carregado de rancor, raiva, ira, egoísmo ou sentimentos maus. Se assim o fizer, como um elo fraco que põe risco à integridade da corrente, atentará contra a Egrégora Maçónica, ferirá o espírito da ordem e a sua função enquanto construtor da nova realidade. (Publicado em freemason.pt)

Ao integrar a Cadeia de União, o iniciado deve despir-se de todos os sentimentos e pensamentos profanos. Deve vestir-se com a túnica da fraternidade, emanando eflúvios de amor, paz, união, boa vontade e desapego material. A Cadeia de União para a Maçonaria atende ao que Jesus manifestou e se encontra escrito no Evangelho de Mateus (BÍBLIA SAGRADA, 2008, Mateus, 18; 18-20):

“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.

Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus.

Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”.

Assim, em Cadeia de União, os irmãos devem ligar-se às coisas do céu. Os bons desejos, as boas intenções, a boa vontade e o congraçamento devem funcionar como oração ao Grande Arquitecto do Universo que está nos céus. Se assim se proceder, Ele, o Alpha e o Ómega, a Energia Universal velará pelas manifestações espirituais ali emanadas, certamente.

Eis aí o sentido profundo da Egrégora Maçónica, que não pode ser produzida sem que todos os corações, todas as mentes e todos os espíritos estejam em plena sintonia com o Grande Arquitecto do Universo.

A egrégora maçónica

Os homens são feitos por um corpo físico, dotado de órgãos, tecidos, membros e potências. Em termos terrenos, o corpo físico é determina a nossa existência e humanidade. Sem ele, o que comprovaria a existência de alguém? Todavia, há que se considerar que potência do corpo físico, ou seja, a capacidade de decidir mentalmente e executar uma acção física, por mais simples que seja, deriva de uma acção complexa, intangível, fruto da mente e do espírito. Logo, há que se convir que os corpos físicos, constituídos de substâncias visíveis e concretas, são conduzidos por forças intangíveis, invisíveis e que o conduzem. Esta potência está no nível das ideias, das vontades, dos interesses e da disposição mental, ou motivação, de cada um.

Ora, imagine-se então, um grupo de pedreiros erigindo uma construção. Braços e pernas produzindo força física influenciados por um conjunto de forças espirituais que os guiam e conduzem. Se estiverem todos em sintonia, em corpo e mente, imagina-se que o resultado do seu trabalho seja muito mais produtivo, os problemas sejam mais facilmente resolvidos e superados e a motivação de todos estarem ali será muito maior, gerando ânimo e disposição.

Tem-se então os elementos da Egrégora Maçónica. Segundo Costa ela é “definida como uma energia resultante da união ou da soma de várias energias individuais. (…) é formada pelo afluxo dos desejos e aspirações individuais dos membros daquele grupo” (COSTA, 2017, p. 33).

Os trabalhos em Loja, pela sua própria natureza colectiva, geram uma Egrégora. São homens que se unem em torno de um rito, de assuntos próprios e de objectivos comuns. Como pedreiros que seguem o processo de construção conforme o projecto de engenharia, deparam-se no decurso da labuta com as dificuldades oriundas de materiais inadequados que requerem esforço extra, com os desafios do ambiente com o seu clima e os limites de espaço e tempo e com os empecilhos da vida profana (fora do Templo), além do ambiente de trabalho. Assim, não será incomum encontrar um pedreiro na obra pensando diferente, desanimado, chateado com a vida ou com o trabalho, desmotivado a continuar, descrendo nos princípios que o faz um pedreiro.

Por meio do comportamento, das palavras, dos gestos e da própria energia que emana, um único operário acaba influenciando outros, afectando a energia colectiva de todos que trabalham na obra.

Neste sentido, todo Maçom que adentra o Templo de Salomão precisa entrar com o espírito em sintonia com os mais nobres pensamentos e sentimentos. A sua força interna deve canalizar os mais altos ideais de amor, fraternidade, humildade, felicidade e paz. Os ranços da vida, o egoísmo, a ira, o orgulho, a descrença e o ódio devem ser deixados na Sala dos Passos Perdidos. Diante da Porta do Templo, a Egrégora deve ser sublime e elevada.

Do Altar dos Juramentos, onde repousa o Livro da Lei, uma grande coluna de energia emerge em direcção ao firmamento, conectando os obreiros ao GADU. Certamente a força, a beleza e a sabedoria dessa coluna resultam em grande medida dos eflúvios que a Loja ali reunida consegue emanar em direcção à Perfeição Universal. Assim como, a perfeição dos trabalhos é determinada pela disposição de espírito dos que se encontram presentes no templo em sessão.

Pode-se, por fim, dizer que assim como não há Maçonaria sem a união entre os irmãos, não há união sem a Egrégora Maçónica. E nesse sentido, a Cadeia de União mais que um símbolo, é a expressão prática da geração de uma Egrégora forte, pura e sustentada pela força, beleza e sabedoria da coluna que liga os homens ao GADU.

Conclusão

Assim, baseado no que se apresentou, primeiramente, pode-se afirmar a importância da compreensão dos símbolos para a Maçonaria. Entretanto, há que se deixar claro que símbolos somente o são devido aos sentidos que expressam. Se não forem estudados e compreendidos, certamente terão os seus valores serão ignorados e a sua função não se completará.

Em segundo lugar, a Cadeia de União, cuja representação simbólica deriva da expressão de uma corrente cujos elos transmitem força, disposição, perseverança e discrição (CAMINO, 2002, p. 9), torna-se uma prática que suscita os mais elevados sentimentos de unidade, fraternidade e congraçamento entre os Irmãos.

Em terceiro lugar, a Maçonaria, enquanto “Ordem Universal formada por homens de todas as raças, credos e nacionalidades, acolhidos por iniciação e congregados em Lojas, nas quais por métodos ou meios racionais, auxiliados por símbolos e alegorias estudam e trabalham para a construção da Sociedade Humana” (GRANDE LOJA MAÇÓNICA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2015, p. 14) , depende da boa vontade, da disposição espiritual e da sintonia das emanações mentais dos seus membros, o que é chamado de Egrégora Maçónica.

Ao que nos permite, em síntese, propor que o Maçom ao adentrar o Templo de Salomão deve estar ciente da sua tarefa simbólica e da grande responsabilidade espiritual que possui. Ao ignorar este preceito, ao invés de juntar os demais, ele espalha, ao invés de produzir com os irmãos, atrapalhará o trabalho dos irmãos. E não convém a um obreiro atrapalhar o bom andamento da obra Universal.

Tanto que o Livro da Lei é aberto e das suas sagradas páginas pronuncia-se:

“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união. É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre. (BÍBLIA SAGRADA, 2008, Salmo 133, 1-3)

A grande lição que fica é que a verdadeira união é aquela em que todos os elos da corrente se conectam de corpo, alma e mente com firme propósito de reforçar-se mutuamente frente aos desafios que a vida impõe na construção social sonhada, alicerçada na liberdade, na igualdade e na fraternidade entre os povos.

Demétrius de Oliveira Marques

Referências

  • BÍBLIA SAGRADA. (2008). Aparecida: SBA.
  • CAMINO, R. d. (2002). Cadeia de união. São Paulo: Livraria Maçónica Paulo Fuchs.
  • COSTA, A. M. (Jan. – Jun. de 2017). Egrégora maçónica: fenómeno de força espiritual. (L. M. 1, Ed.) Revista o Buscador, 1(2), 32-37.
  • GRANDE LOJA MAÇÓNICA DO RIO GRANDE DO NORTE. (2015). Ritual de aprendiz: Rito Escocês Antigo e Aceito. (G. L. Norte, Ed.) Natal: Grande Loja Maçónica do Rio Grande do Norte.

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7 Comentários em “A cadeia de união e a egrégora maçónica: mais que simbologia, uma conexão universal

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    Muito interessante. Do ponto de vista físico somos energia , logo vibramos. Como ocorre dentro de uma colmeia isso pode ser direcionado para um propósito maior e universal

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    apreendi muito, excelente.

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    Aprendiz desde que nasci,não possuo vicios nem o filtro existente nesta matriz me afeta.

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    Esclarecedor. Sou aprendiz, busco o entendimento da simbologia. Gratidão

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    Muito bom!
    Excelente, aprender nova e importante coisas que nos conduz a uma pessoal melhor.

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    Fascinante explicação! Obrigado por ensinar e me ajudar a compreender a família maçônica, daqui de fora a sociedade diz verdadeiros absurdos sobre a fraternidade e continuar lendo artigos como este tem sido ótimo para mim mais uma vez muito obrigado.

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    Gostei muito bom

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