A Corda de Nós e a prática da Solidariedade

Porque ter escolhido tratar o conceito de Solidariedade como virtude maçónica tendo como único objectivo a prática da fraternidade, “A virtude chamada solidariedade, dizia Leon Bourgeois, é a união voluntária e o devotamente recíproco dos homens.” “Nada durável se constrói sem solidariedade”.

A Cadeia de União designa a corda de nós representada ao redor das paredes do Templo. Esta corda é amarrada em entrelaços, a intervalos regulares ao redor da sala, chamados “laços de amor” em forma de oito (8), símbolo do infinito em matemática, que são em número de 12 e correspondem aos signos do zodíaco. Ela também figura sobre numerosas gravuras ilustrando cenas maçónicas ou bordada sobre acessórios de vestimenta como os aventais de mestres. Ela indica que somos todos os elos pertencentes à mesma corrente. Com os antigos pedreiros, ela era a ferramenta indispensável para calcular os ângulos, em maçonaria ela simboliza a cadeia de união. A Cadeia de União, segundo a sua definição, liga e une.

O ritual maçónico comporta também uma Cadeia de União que consiste, ao fim de cada reunião, em formar um círculo fechado formado por todos os participantes da cerimónia, tomando as mãos entre si, o braço direito passado sob o braço esquerdo, a mão sem luvas.

Desde a sua admissão na Ordem Maçónica, o novo iniciado é convidado a se tornar a formar um elo desta Corrente, símbolo do vínculo entre o céu e a terra, símbolo da coesão da loja, e de fraternidade entre todos os seus membros, formado no início dos trabalhos, a sua significação é, assim, idêntica, ela liga todos os elementos. Ela aproxima os corações ao mesmo tempo em que os corpos e simboliza a Universalidade da Ordem. É a comunhão dos espíritos que participam de uma mesma obra.

De todos os ritos, a Cadeia de União é, talvez, o mais importante, perfeitamente expresso em alguns versos “que vem do Passado e tende em direcção ao Futuro”. A Cadeia de União, símbolo da coordenação de toda colectividade, de acção comum, de Solidariedade. É dada a oportunidade a nós, maçons, de reflectir hoje mais que ontem, e ainda menos que amanhã sobre a nossa prática da solidariedade e, sobretudo, o nosso dever permanente de fraternidade. A maçonaria é reconhecida pelo seu espírito de corpo e de solidariedade. O maçon não tem por dever, em todas as circunstâncias ajudar, esclarecer e proteger o seu irmão, mesmo com o perigo da sua vida; os maçons prestam efectivamente o juramento de dar socorro e assistência a um irmão em necessidade. A maçonaria tem por dever estender a todos os membros da humanidade, os laços fraternais que unem os maçons sobre toda a superfície do globo. A solidariedade e a ajuda mútua serem foram na nossa Ordem as grandes regras que devem ser exercitadas com muito discernimento.

A prática desta virtude claramente evocada nos artigos 1, 2 e 3 da Constituição do Grande Oriente de França é um dos objectivos essenciais dos maçons. Ao nível da Loja, eu diria que existe na nossa obediência um grande mal-entendido: eu gostaria de falar sobre o Irmão Hospitaleiro, cujo papel nem sempre é valorizado, e a tarefa reduzida a circular com o “Tronco da Viúva”. Colaborador directo do V∴ M∴, ele deve conhecer a situação de cada um dos II∴ da loja e as suas famílias. A ele cabe, à medida que tenha recolhido as informações sociais que lhe competem, orientar todos os II∴ que tenham necessidade de uma intervenção ou de um apoio. Com relação a isto, e sempre de acordo com o seu V∴ M∴, ele deve apontar sem demora os casos difíceis que ele não tenha podido resolver sozinho.

No interior das nossas lojas, esta solidariedade é exercida materialmente, graças aos fundos recolhidos pelo “Tronco do Hospitaleiro” ou “Tronco da Viúva” que o II∴ Hospitaleiro nos apresenta ao fim de cada Sessão. Caixas especiais previstas nas lojas para atender aos mais apertados, sempre que um irmão se encontra numa situação material embaraçosa.

Existe outra forma de solidariedade, totalmente imaterial desta vez, que consiste em ajudar moralmente os irmãos e irmãs. Esta solidariedade é exercida no dia-a-dia, na busca da verdade e do aperfeiçoamento, a pesquisa iniciática e uma pesquisa colectiva. Ela é, ao mesmo tempo, o objectivo e a força da maçonaria.

Se ele quer assumir plenamente o seu cargo, o ∴  Hospitaleiro deve tomar consciência da importância da tarefa que lhe foi confiada. Pela sua acção, ele sublinha o carácter universal e filantrópico da Maçonaria, e é assim que ele figura num bom lugar na lista de Oficiais de todas as Lojas do mundo inteiro, sem distinção de obediência.

Encontra-se sempre entre os maçons, homens devotados que tiveram o coração para se dedicar a socorrer os Irmãos menos afortunados, as suas viúvas, os seus órfãos; um bom número de homens, de irmãos e de irmãs que sacrificam uma parte do seu tempo, do seu lazer para praticar a virtude da solidariedade.

O universalismo maçónico não consiste apenas num reconhecimento dos Maçons entre si, unidos pelos laços da Fraternidade e da Solidariedade. Ele não se expressa unicamente na conjuração dos Iniciados, assentados à mesa da Sabedoria, enquanto que os outros homens se contentariam com as migalhas.

O universalismo maçónico é o sentimento, assim como a solidariedade dos maçons com o conjunto da Fraternidade humana. Este sentimento de solidariedade, que o Maçon não pode elidir, mesmo dentro do quadro da sua pesquisa interior, deve manifestar-se concretamente no mundo profano.

Enumerar as obras maçónicas de solidariedade em favor de maçons e do mundo profano inteiro exigiria toda uma compilação. Numerosas instituições de assistência foram organizadas, orfanatos e durante a guerra de 1870, ambulâncias.

Sob o impulso do Grande Oriente e particularmente da loja o Futuro, um Congresso para estudar a solidariedade universal. O Grande Oriente, há que lembrar-se, é a origem da lei que criou a Previdência Social.

No mundo profano, “Maçonaria” é sinónimo da dependência dos homens, uns em relação aos outros, dependência que faz com que os indivíduos sejam parte de um mesmo todo. A solidariedade e a ajuda mútua sempre foram na nossa Ordem as grandes regras que devem ser exercitadas com muito discernimento.

“Centro da União”, a maçonaria universal tem por missão reunir as boas-vontades esparsas no universo. Os maçons do Grande Oriente de França dão à fraternidade que os une e a todos os outros maçons do mundo um senso profundo de respeito, de estima e de afeição recíprocas, superando as divergências de opinião ou as diferenças de condição social, na igualdade completa dos direitos de cada um.

Com frequência caricatura-se esta solidariedade e denuncia-se o Grande Oriente de França como uma sociedade de serviços mútuos, assegurando o sucesso social dos seus membros. Isto é esquecer que as suas preocupações são essencialmente filosóficas e cívicas, e que a sua filantropia é exercida muito mais no plano moral que no plano material. Com efeito, quando os candidatos à iniciação entram pela primeira vez na câmara negra de reflexão, antes de serem iniciados no grau de aprendiz, eles podem ler um aviso escrito na parede: “Se você aqui vem por interesse, saia imediatamente!”.

A Ordem não está ao serviço dos seus membros, mas sim ao serviço do seu ideal.

Venerável Mestre e todos vocês meus Irmãos e Irmãs, o homem do mundo realizado sabe falar a cada um que lhe interesse; ele entra nos caminhos dos outros sem jamais os adoptar, ele compreende tudo sem tudo desculpar; ele prefere cada um dos seus amigos aos outros e consegue amar a todos igualmente. Assim é a Fraternidade e a Solidariedade. Um instante de verdadeira fraternidade pode ensinar muito mais que anos de egoísmo e de recusa ao outro. Trocar as Fraternidades plurais, aquelas onde se encontram e são vistas no mundo profano, por uma fraternidade bem singular, aquela que permite a nós, maçons, a busca da verdade e a prática da solidariedade.

J. J. Bri. – R∴ L∴ “Thélème” do Grand Orient de France.

Tradução de José Filardo em Bibliot3ca

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