A Interpretação e o Entendimento dos Símbolos

Masonic Symbols

A Simbologia das ordens Herméticas, sejam elas secretas ou meramente fechadas – como é o caso da Maçonaria (a qual irei voltar nas explicações), é de extrema importância para o entendimento da sua senda e para o Irmão que entra neste caminho, nesta nova vida, nesta grande escola iniciática de mistérios. Os seus ensinamentos e o seu entendimento são de fundamental importância para aquele que ambiciona cada vez mais ascender no seu rito, de acordo com seu mérito. Trata-se de uma alegoria tão rica em beleza, significados e conhecimentos, que são indispensáveis àquele frater que busca o seu aprimoramento e a sua evolução espiritual dentro da Ordem, e o seu entendimento e aprendizagem a respeito de tal simbologia é digna somente, e tão somente, daquele que a entender integralmente, apenas para si e para o seu eu interior, não podendo ser divulgada, apenas partilhada entre os irmãos que  possuírem o mesmo merecimento, pois tal simbologia trata não somente da pura alegoria, mas também de grandes e fortes significados espirituais.

Baseado na análise de um texto escrito pelo português Fernando Pessoa, o presente trabalho realiza um estudo sobre as cinco condições ou qualidades para o perfeito entendimento e interpretação dos símbolos. Estas condições seriam a Simpatia, a Intuição, a Inteligência, a Compreensão e a Graça ou Revelação. O seu conteúdo pode ser aplicado aos símbolos das mais diversas origens, sejam maçónicas, religiosas ou profanas.

1 – Introdução

A Ordem Maçónica baseia os seus muitos princípios e os seus diversos ensinamentos em símbolos e rituais. Podemos afirmar que uma das principais características da Maçonaria, é justamente aquela de procurar velar e proteger os seus muitos segredos dos olhos daqueles que ainda sejam considerados profanos. A maneira encontrada pela Ordem Maçónica para ministrar os seus muitos segredos e ensinamentos aos seus Iniciados, é procurar sempre fazê-lo utilizando símbolos e metáforas (CAMPANHA, 2003, p.38). Esta Simbologia Maçónica, a sua interpretação e o seu entendimento são as ferramentas utilizadas pelos maçons para o seu constante escavar de masmorras ao vício e no seu permanente edificar e levantar de templos às virtudes:

“Para tornar a sua doutrina mais facilmente assimilável, como também para inspirar conceitos mais amplos, a Maçonaria transmite os seus ensinamentos por meio de símbolos. Cada maçon vê estes símbolos conforme o seu grau de evolução, sem contudo se afastar dos fundamentos da doutrina (…)” (GRANDE LOJA DO PARANÁ, 2000, p.3).

No seu “Dicionário de Maçonaria”, uma obra que consideramos fundamental, Joaquim Gervásio de Figueiredo, coloca-nos uma interessante definição da Ordem Maçónica, em que procura destacar a importância da utilização de símbolos para a difusão dos princípios maçónicos:

“A Maçonaria é um sistema sacramental que, como todo sacramento, tem um aspecto externo visível, consistente com o seu cerimonial, doutrinas e símbolos, e acessível somente ao maçon que haja aprendido a usar sua imaginação espiritual e seja capaz de apreciar a realidade velada pelo símbolo externo (…)” (FIGUEIREDO, 1998, p.231).

Na Maçonaria a maior parte dos símbolos e metáforas que são utilizados, provêm da antiga actividade profissional e corporativa dos pedreiros medievais. Construtores que eram, principalmente de Igrejas, grandiosas Catedrais, sólidos castelos e fortalezas, os pedreiros medievais organizados numa Corporação, constituíam a Maçonaria Operativa que evoluiu para as Organizações Maçónicas Simbólicas e Especulativas contemporâneas.

Podemos, com base no trabalho desenvolvido pelos pedreiros medievais, concluir que existiam três diferentes grupos de instrumentos operativos. Cada um destes instrumentos estava ligado a uma das fases da construção. Cada fase exigia do construtor um nível diferente de conhecimento para a sua execução e finalização:

  • A medição ou especificação do tamanho e do formato das pedras;
  • O desbaste, adequação das formas e o polimento para dar o acabamento adequado às pedras;
  • A aplicação e o assentamento das pedras na construção.

Estes conjuntos de instrumentos necessários a execução de cada etapa da obra, indicam na Ordem Maçónica, simbolicamente os diversos Graus que nela existem. Cada Grau, representa, dentro da organização de cada Rito Maçónico, todo um conjunto de conhecimentos que são considerados necessários ao aperfeiçoamento e ao crescimento moral e ético dos Maçons.

Uma das muitas certezas que a vida em sociedade e a evolução do conhecimento humano nos deram, foi a de que nem todos os homens assimilam de maneira semelhante as mensagens da Simbologia Maçónica. Como se coloca em alguns rituais: devemos pensar mais do que falamos. A reflexão e a consequente meditação são essenciais à compreensão da linguagem maçónica. O avanço pelos diversos graus, portanto, não deve ser considerado pelo tempo que está a ser empregado, não devem ser conduzidos pela pressa. O que deve ser levado em conta é o esforço individual e o desprendimento pessoal de cada Maçon, conforme o seu potencial e capacidades para poder galgar com segurança e sabedoria os degraus da Escada de Jacó.

A linguagem simbólica ou metafórica é característica das sociedades iniciáticas, pois exige-se do intérprete dos símbolos, na maioria das vezes, um conhecimento que somente será possível existir se este já for um iniciado naqueles mistérios, cujos símbolos se pretende analisar. Este contacto possibilita uma maior familiaridade e um convívio mais profundo e significativo. E este é, ao nosso ver, o caso da Maçonaria.

“Herdeira espiritual das Sociedades Iniciáticas da Antiguidade, a Maçonaria perpetua o tradicional método iniciático na ensinança de suas doutrinas. Por este sistema que se funda no simbolismo, isto é, na interpretação intuitiva dos símbolos, o ensino maçónico torna-se muito pessoal e praticamente autodidáctico. É com efeito, como tão bem explicou o eminente escritor maçon J. Cornelup: ‘O próprio de um símbolo é de poder ser entendido de várias maneiras, segundo o ângulo sob o qual ele é considerado’, de modo que ‘um símbolo admitindo apenas uma única interpretação não será verdadeiro símbolo’ (…)”. (ASLAN, 2000, p.5).

Procuramos considerar neste trabalho, que a Maçonaria seja acima de tudo e antes de qualquer outra consideração a seu respeito, apresentada como uma sociedade iniciática. O indivíduo, que é denominado simplesmente de profano, somente consegue adentrar a Maçonaria através de um cerimonial próprio de iniciação. A cerimónia de Iniciação, somente encontra paralelos quando é comparada a um “Rito de Passagem”, evento comum a muitas culturas e mesmo civilizações ao longo da história.

“(…) os ritos de passagem associam-se às grandes mudanças na condição do indivíduo. As principais transições marcadas por estes ritos são o nascimento, a entrada na vida adulta, o casamento e a morte.

Tais ritos costumam simbolizar uma Iniciação. O nascimento é a iniciação na vida, enquanto a morte é a iniciação numa nova condição no reino dos mortos, ou na vida eterna.

De uma forma ou de outra, todas as sociedades têm ritos de passagem, mesmo aquelas em que a religião não desempenha nenhum papel na vida pública. Em geral, é grande a importância deles nas culturas agrárias, nas religiões primais. Nestas, os ritos de passagem estão claramente ligados às noções de tabu. Tabu é uma palavra polinésia adoptada pelos historiadores da religião para indicar uma severa proibição, restrição ou exclusão, e aplica-se a algo que é considerado perigoso ou impuro (…)” (HELLERN, 2000. p.28)

Partindo deste pressuposto, podemos colocar que a ocasião representada pela Iniciação Maçónica, pode ser concebida como um novo nascimento, ou ainda mais claramente, trata-se de um nascimento maçónico, onde o neófito é submetido a diversas provas ritualísticas, que irão demonstrar a sua coragem, força de espírito e determinação em entrar na ordem:

“(…) O iniciado é, pois, um homem que se libertou de paixões, de constrangimentos e de superstições, pode avançar no desconhecido, nas trevas da ignorância, apoiado no conhecimento que ganhou sobre si próprio e sobre a Natureza, e depois partilhar com outros este estado de elevação da sua consciência.

O iniciado é, pois, alguém que atingiu a Luz, a compreensão de si, dos outros e da Natureza, e assim goza, com discrição, do saber e o poder adquiridos, antecipa o futuro, trabalha o presente, e recorda-se do passado. O verdadeiro iniciado não se abate, não desiste, não se rende aos homens sem espiritualidade (…) A iniciação maçónica é típica das sociedades secretas, em especial das corporações de mesteres da idade média (…)” (CARVALHO, 2002, passim).

2- Simbologia

Os símbolos, aliados às metáforas e a prática da analogia, sempre foram utilizados na transmissão de informações e mensagens, principalmente aquelas que são consideradas religiosas ou até mesmo esotéricas. Assim foi com o cristianismo ao longo de sua evolução, e também com a imensa maioria das religiões que existem na actualidade ou que já existiram.

Uma cerimónia religiosa ou ritual é um exemplo prático da riqueza representada pelos símbolos, bem como da sua utilização, assunto a que fazemos referência neste trabalho.

“(…) A cerimónia religiosa desempenha um papel importante em todas as religiões (…) invoca-se ou louva-se um deus ou vários deuses, ou ainda se manifesta gratidão a ele ou a eles. Tais cerimónias religiosas, ou ritos, tendem a seguir um padrão bem distinto, ou ritual (…)” (HELLERN, op. cit., p. 25).

Ao analisarmos o conjunto das cerimónias pertencentes e próprias de uma religião, qualquer que seja ela, conhecido também como culto ou liturgia, encontraremos aí o maior número das representações simbólicas desta mesma religião:

“(…) A palavra culto (do verbo latino colere ‘cultivar’) é empregada em geral para significar ‘adoração’, mas na ciência das religiões é um termo colectivo que designa todas as formas de rito religioso (…)” (Idem).

O objectivo do culto é procurar promover ou mesmo estabelecer um contacto efectivo entre o fiel, a pessoa que crê, e o sagrado, o divino, o sobrenatural, enfim um contacto com Deus ou ainda com os deuses cultuados. Neste ponto é que reside a sua maior representação simbólica. A prática dos cultos costuma ser efectivada em locais que também são considerados dotados e revestidos por um profundo valor simbólico, como os templos, as mesquitas, as igrejas e as sinagogas. Procurar explicitar e analisar as causas do surgimento das religiões e do misticismo entre os homens, neste trabalho, seria uma realização com certeza de extrema importância e utilidade. Porém, acabaríamos por certo fugindo ao objectivo central e principal deste trabalho que se apresenta como sendo o de procurar estudar e entender a forma de utilização e também a utilidade dos símbolos e da linguagem simbólica.

Cabe-nos também aqui procurar destacar que a Ordem Maçónica, ou simplesmente Maçonaria, não é, todavia, e muito menos pode vir a ser encarada como uma religião. Nem mesmo pode ser considerada uma sociedade dogmática. A Maçonaria, porém, utiliza-se nos seus diversos rituais e em sua simbologia própria, de influência de muitas outras religiões e seitas que existiram ou ainda existem no mundo. Esse aspecto em particular da Ordem Maçónica, já foi também afirmado por José Castellani em diversas oportunidades:

” (…) Embora a Maçonaria não seja uma religião e nem seja uma ordem mística, ela utiliza, nos seus rituais, na sua simbologia e na sua estrutura filosófica e doutrinária, os padrões místicos de diversas seitas, associações e civilizações antigas, principalmente os relativos às religiões e às ordens iniciáticas de cunho religioso daqueles povos que representaram o alvorecer das civilizações e que se concentravam, desde o século V a. C., em torno dos rios Tigre e Eufrates e do Mar Mediterrâneo. (…) [A Maçonaria] nascida em sua forma moderna, nas asas das aspirações liberais e libertárias dos povos subjugados pelo poder real absoluto e pelos privilégios do clero, ela, também, é liberal e libertária, evolutiva e adaptável às épocas, racional e democrática. Para armar, todavia, a sua doutrina moral, ela buscou o simbolismo nascido da mística de civilizações perdidas na noite dos tempos; e o simbolismo, fonte de espiritualidade oculta, será, sempre, por mais que a cibernética e a materialidade dominem o mundo, uma LUZ no caminho da humanidade (…)” (CASTELLANI: 1996. p.92)

3 – Condições para o entendimento dos Símbolos

Sobre a interpretação e o correcto entendimento dos símbolos, bem como dos próprios ritos ou rituais, quer sejam eles religiosos ou mesmo filosóficos, Fernando Pessoa teceu algumas poucas, mas mesmo assim muito importantes considerações. Cabe, no entanto ressaltar, antes de qualquer outra consideração, que Fernando Pessoa é um dos mais importantes escritores da língua portuguesa de todo o século XX. Segundo ele próprio, que por diversas vezes claramente destacou, nunca pertenceu a Maçonaria, apesar de nutrir por esta instituição um profundo respeito, consideração e apreço. Em um artigo jornalístico, intitulado “Associações Secretas: Análise Serena e Minuciosa a Um Projecto de Lei Apresentado ao Parlamento”, e publicado no Diário de Lisboa no início do ano de 1935, Fernando Pessoa faz uma defesa e uma apologia muito bem fundamentada da Maçonaria e dos direitos do homem. Porém ele procura enfatizar de maneira bastante clara a sua condição de não maçon, destacando as dificuldades advindas de tal condição. Ele destaca as barreiras e limitações naturais que são encontradas por aqueles que não pertencem à Ordem Maçónica, para pesquisar sobre os seus conteúdos e os seus muitos mistérios:

“(…) Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou, porém, anti maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica (…) assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora (…)” (PESSOA, 1935, passim).

Fernando Pessoa numa nota preliminar ao seu livro “Mensagem”, disponibilizado no site da Loja São Paulo nº 43, coloca-nos aquelas que seriam consideradas como as cinco condições básicas ou qualidades necessárias para a mais perfeita interpretação e compreensão dos símbolos:

“O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.” (PESSOA: 2003, passim)

Estas cinco condições ou qualidades fundamentais ao entendimento dos símbolos e da linguagem simbólica e que são expostas, listadas e qualificadas por Fernando Pessoa, seriam as seguintes:

  1. Simpatia;
  2. Intuição;
  3. Inteligência;
  4. Compreensão;
  5. Graça ou Revelação.

Simpatia

Em primeiro lugar, por simpatia, devemos entender e procurar compreender a afinidade e a atracção natural que sentimos pelo símbolo que nos é apresentado. Parece-nos óbvio que somente um símbolo que promova uma atracção para o interprete e que lhe pareça simpático, poderá transmitir alguma mensagem que lhe sirva como um ensinamento.

Como uma das muitas provas desta colocação, apresentamos o caso que é representado pela “Cruz Suástica”, que foi usada como um símbolo, dístico e emblema pela Alemanha Nazista; hoje a suástica representa apenas o ódio e a intolerância racial. Tornou-se um símbolo emblemático e odioso do totalitarismo e da opressão, mesmo que alguns estudiosos e escritores tentem destacar o seu original ou inicial significado simbólico de progresso. Causa-nos estranheza o facto de que alguns escritores, mesmo aqueles que são maçons, tenham tentado constantemente, mesmo que de maneira inconsciente reabilitar a suástica.

Dentro ainda da análise deste conceito de simpatia e em relação a Ordem Maçónica, podemos, como um exemplo simples, rapidamente analisar o significado do Esquadro e do Compasso justapostos e aquilo que a nós representam. Apenas não iremos, no entanto, procurar considerar ou aprofundar-mo-nos muito na análise dos significados que representam cada um destes instrumentos operativos de maneira distinta.

Para qualquer maçon, e até mesmo para aqueles que da Maçonaria não façam parte, mas que assim mesmo possuam sobre ela algum parco conhecimento, o Esquadro e o Compasso quando justapostos ou entrelaçados passam a significar, e acabam por representar praticamente, a própria Instituição da Maçonaria:

“(…) O símbolo da Maçonaria remete aos instrumentos dos trabalhadores que, na Idade Média dominavam as técnicas de construção em pedra: O COMPASSO, que desenha círculos perfeitos, representa a busca da perfeição pelo homem; A letra G, no centro de tudo, vem de GOD, ‘Deus’ em inglês. Para os maçons, é Ele o Grande Arquitecto do Universo; O ESQUADRO, que forma ângulos rectos, lembra que o homem deve levar uma vida igualmente recta: ética e Honesta (…)” (SUPERINTERESSANTE, 2001, p.39)

Não existe, portanto, um símbolo que se apresente de uma maneira mais simpática aos maçons e também não existe um que seja também, tão mais representativo da Ordem Maçónica do que este representado pelo Esquadro e pelo Compasso quando se encontram entrelaçados. O símbolo que é formado por esta imagem, representa a medida justa que deve ser característica de todas as acções dos maçons e dos seus corpos regulares, lembra-os que não podem se afastar da justiça e da rectidão determinados pelos seus profundos princípios. E mesmo com o decorrer do tempo,

“de todos os símbolos dos Painéis primitivos e dos actuais, o mais forte, o mais consciente, ainda é o Esquadro e o Compasso entrelaçados. Cada um desses símbolos possui vida própria, inclusive com vida anterior ao advento da Maçonaria que nós conhecemos como Operativa. Todavia unidos, formando um terceiro símbolo, um poderoso Emblema que embora tenha tido vida anterior à Maçonaria, tornou-se um símbolo maçónico por excelência em todos os Ritos. (…) (KAPFENBERGER FILHO, 2001, p. 7-8)

Devemos também ter a consciência de que o significado que procuramos enxergar e encontrar em um símbolo, enquanto maçons, é justamente e necessariamente o seu sentido e representações maçónicos. Procuramos encontrar e enxergar e absorver a sua mensagem e significados éticos e morais, absorvendo aquilo que não for possível e claramente perceptível dos seus ensinamentos.

Intuição

Podemos compreender por intuição a ocorrência da percepção clara das verdades, sem que, no entanto, seja perceptível a intermediação e a utilização do raciocínio. A intuição seria como que a primeira impressão, mais do que um palpite ou impressão, ela apresenta-se como sendo uma certeza inconsciente, a imagem que nos marca em definitivo e a representação que nos é causada por um símbolo. Esta impressão é primeiro formada pela simpatia que nos é despertada por este símbolo.

“A Intuição da forma como é vista pela filosofia, torna-se um dos sentidos mais importantes dentro do Estudo Maçónico, principalmente na interpretação dos símbolos (…)” (CAMPANHA, op. cit., p.38)

Inteligência

A terceira das condições ou qualidades para se obtenha a perfeita compreensão e o entendimento dos símbolos, apresentada por Fernando Pessoa, trata-se, pois, da inteligência. Compreendida como uma condição ou qualidade que actua conjuntamente e correlacionando-se de maneira análoga com as demais condições anteriormente citadas, a inteligência apresenta-se como um factor considerado fundamental e essencial para a compreensão dos símbolos, das metáforas e das analogias que nos são colocadas constantemente dentro dos ensinamentos maçónicos:

A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; (…) Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, tornar-se-á analógica, e o símbolo poderá ser interpretado. (…)”(PESSOA, 2003, passim)

Cabe-nos ressaltar, porém, que a inteligência actua de uma maneira paralela à razão, sendo que com esta chega a ser confundida. Sabemos da importância que é atribuída à razão pelos maçons, pois dentro da Ordem Maçónica, a razão deve acabar por se sobrepor ao misticismo.

A simpatia é um sentimento importante para despertar o interesse e por lançar os nossos olhares sobre o símbolo, a intuição faz-nos ver além da imagem representada pelo símbolo, fazendo-nos buscar seus mais profundos significados e fazendo-o revelar a sua mensagem oculta. Por fim, a inteligência faz-nos relacionar todos estes significados e mensagens com os outros que já foram, em momentos anteriores decodificados e assimilados. A inteligência sintetiza as informações recebidas, procurando compreendê-las de uma maneira que seja profunda e integral.

Compreensão

É a qualidade representada pela inteligência que nos encaminha para a compreensão que é a quarta condição ou qualidade necessária para a interpretação dos símbolos e a assimilação da linguagem simbólica. A compreensão pode ser também considerada como o entendimento completo, praticamente a perfeita e a total absorção e a fixação da mensagem e os significados que nos são transmitidos pelo símbolo.

“(…) Por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo.(…) Assim, certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes. (…)”(Idem, op. cit.)

Ao decodificar e compreender a mensagem transmitida pelo símbolo, o intérprete deve sintetizá-la e passar a procurar nela o seu íntimo e pessoal significado e representação.

Graça ou Revelação

Condição ou qualidade esta que, em sua opinião, é a que possui uma maior e mais profunda dificuldade para a sua definição e a sua completa compreensão. A Graça, que é esta quinta condição acaba possuindo uma das mais dispersas e complexas possibilidades concretas de entendimento e assimilação imediata. Sua acção sobre a compreensão dos significados das mensagens, a representação e o ensinamento dos símbolos para aqueles que seriam os seus interpretes, pode ocasionar aquilo a que muitos denominam simplesmente de “insight”. Esta intervenção ou actuação do “Superior Incógnito”, do “Ser Supremo”, do “Grande Arquitecto do Universo”, enfim, a intervenção de Deus ou dos deuses, poderia e pode ser simplesmente chamada de Revelação.

De nada adiantaria ao ser humano possuir a simpatia por um símbolo, conseguir adquirir capacidades para enxergar através deste, conseguir ver além das suas formas e dos seus contornos com o uso da intuição, possuir a inteligência necessária para analisá-lo, a capacidade exigida e necessária para compreendê-lo e as habilidades para sintetizar os seus conteúdos, de nada adiantaria todos esses dons e qualidades se não lhe for revelado pelo Grande Arquitecto do Universo um íntimo e pessoal significado para este símbolo.

Um exemplo prático que poderíamos usar para ilustrar de maneira mais clara e objectiva esta quinta condição ou qualidade, seria o significado atribuído à Estrela de Davi para os judeus, e aquele atribuído à Cruz para os cristãos. Estes símbolos revelam significados religiosos e íntimos que transcendem a simples compreensão humana, que não poderiam jamais ser traçados em papel ou outro material que fosse.

O sentimento sagrado, esotérico, pessoal e íntimo que estes símbolos transmitem aos fiéis destas religiões não podem ser simplesmente dissecados e compreendidos pela razão humana. São sentimentos que teriam sido colocados por Deus directamente no coração e na alma de cada ser humano.

Sem a actuação e a manifestação desse Dom divino jamais se compreenderia o significado de um símbolo com toda a magnitude esotérica e mística que ele poderia representar. Portanto, o seu significado seria incompleto.

4 – Conclusões

A Ordem Maçónica, actuando como uma autêntica escola provedora dos mais profundos ensinamentos éticos e morais, necessita, como nenhuma outra instituição, procurar continuadamente afirmar, reafirmar e principalmente procurar repassar os seus diversos princípios aos seus membros e também à sociedade em que ela se insere. Devido as suas origens corporativas, desde os mais remotos tempos, a Maçonaria procurou sempre traçar paralelos e estabelecer analogias entre os seus princípios morais e ensinamentos éticos, utilizando-se como base os instrumentos laborais dos pedreiros medievais.

“(…) Embora não haja documentação que o comprove, deve-se admitir que os Maçons Operativos, os franco-maçons, usavam seus instrumentos de trabalho como símbolos de sua profissão, pois caso contrário não se teria esse simbolismo na Maçonaria Moderna. A existência desse simbolismo é a mais evidente demonstração de que houve na Inglaterra, contactos directos entre os Maçons Modernos e os franco-maçons profissionais, e demorados o suficiente para que essa transmissão se consolidasse (…).” (PETERS, 2003, passim)

Ambrósio Peters, coloca-nos ainda aqueles que seriam considerados os símbolos principais e essenciais a existência da actual Maçonaria Especulativa (Simbólica). Cabe destacar também que são destes símbolos que os Maçons metaforicamente retiram os princípios básicos e os seus principais ensinamentos éticos e morais:

“(…)O trabalho dos franco-maçons, limitava-se aos canteiros de obras e à construção em si. Os instrumentos que eles usavam eram o esquadro, o compasso e a régua para determinar a forma exacta das pedras a serem lavradas, o maço e o cinzel, para dar-lhes a forma adequada, e o nível e o prumo, para assentá-las com perfeição nos lugares previstos na estrutura da obra. Eram, portanto três diferentes grupos de instrumentos, cada qual representando uma etapa da obra, a saber: a medição ou a determinação do formato das pedras, o desbastamento das pedras para dar-lhes a forma adequada e finalmente a aplicação das peças lavradas na construção do edifício.

Cada trabalhador tinha para sua tarefa, instrumentos apropriados que indicavam a especialidade de cada um. Os Mestres mediam e transmitiam suas instruções aos aprendizes, estes executavam as instruções dos Mestres, e os Companheiros aplicavam os trabalhos dos aprendizes na estrutura da obra (…)” (Idem)

Possivelmente a linguagem simbólica utilizada pela Maçonaria, na actualidade somente encontre paralelos significativos, se comparada, com aquela que é utilizada ainda nos dias de hoje pela Igreja Católica. A igreja Católica que talvez seja ainda a única outra instituição que na actualidade ainda faça uso de símbolos e metáforas para poder ministrar os seus ensinamentos, conforme nos foi afirmado por Nicola Aslan (ASLAN, 2000, p.5).

Como já colocamos neste trabalho, o significado de um símbolo, é íntimo e pessoal para cada pessoa ou intérprete. A interpretação dos símbolos depende da formação de cada pessoa ou ainda da maneira como estas qualidades que aqui procuramos retratar, manifestam-se em cada um individualmente. Tais afirmações encontram respaldo nas afirmações de Luís Roberto Campanha, quando fez referência ao chileno Moisés Mussa Battal:

“(…) As escolas filosóficas caracterizam-se por serem criadas por um mentor intelectual, possuem um sistema ideológico, verifica-se nela uma certa uniformidade de pensamento e acção, desenvolvem o seu trabalho em torno do ser, do conhecer e do valer, actuam nas áreas da metafísica e da ciência, assumem aspectos esotéricos e exotéricos.

A Escola Maçónica difere em alguns aspectos das escolas filosóficas, pois não foi fundada por um pensador, seu sistema ideológico não é fixo, adapta-se às evoluções do mundo e da cultura, sua doutrina e prática não são ortodoxas, pois o Símbolo permite uma interpretação ampla e variada, fundamenta suas preocupações nos problemas do ser, do saber e do valer, não exige obediência cega a ela dando a todos a liberdade de pensamento.

“A Maçonaria, mais que uma escola filosófica, é uma escola que permite o livre exame, a crítica, a dúvida metódica, a aceitação de postulados, ainda que superficiais, no intuito de melhorar a condição humana, individual e colectiva (…)” (CAMPANHA, op. cit., p.34-35).

Porém, Theobaldo Varoli Filho, no seu livro “Simbologia e Simbolismo da Maçonaria”, coloca-nos algumas posições contrárias e contraditórias a despeito desta última afirmação. O principal ponto seria a questão da liberdade de opinião como recurso para a livre interpretação dos Símbolos Maçónicos, colocando-nos que dentro da Maçonaria, devemos ao interpretar um Símbolo Maçónico, sempre procurar analisá-lo justamente do ponto de vista maçónico. A Maçonaria coloca-nos algumas tradições, princípios e significados gerais que devem ser sempre respeitados, caso contrário desvirtuaríamos os objectivos da Sublime Ordem.

(…) A Loja Maçónica não é lugar de psicanálise, onde cada um interpreta os Símbolos como lhe aprouver. Esta é a resposta que damos aos que afirmam que os Símbolos Maçónicos são livremente interpretados subjectivamente e livremente, isto é, licenciosamente (…) É importante assinalar que o Símbolo Maçónico é sempre ideológico e não simplesmente ideográfico.

O símbolo Maçónico distingue-se pela sua universalidade e como expressão de ideias pacificamente aceitas pela humanidade civilizada. Por conseguinte, o maçon não deve ‘particularizar’ o Símbolo a seu gosto. Todo Símbolo Maçónico é de comunicação nos âmbitos da Sublime Instituição, ainda que, por motivos históricos, não seja originário da Maçonaria, mas de tradições morais profanas. Assim o Maçon licencioso prejudica a comunicação iniciatória universal. É Obreiro pernicioso e vaidoso, ainda que invoque a liberdade de opinião a seu favor, a sua falsa maneira de defender-se e de impor as suas inventivas pessoais.

Ainda, todo Símbolo Maçónico requer interpretação coerente, lógica, e inspiradora de lições morais. Dissemos ‘inspiradora’, porque iniciação é inspiração e não simples ensinamento ou pregação” (VAROLI FILHO, 2000, p.17-18).

Como maçons e como seres humanos, que buscamos a cada momento procurar melhorar os nossos conhecimentos e as nossas qualidades, possuímos também a profunda responsabilidade pelo crescimento da capacidade intelectual e maçónica, das virtudes morais e éticas dos nossos Irmãos de Ordem e da sociedade que formamos e a qual pertencemos. Sendo assim, desta maneira, vemo-nos na constante obrigação e com o compromisso crescente de procurar divulgar e repassar os resultados de nossos estudos e pesquisas.

Quando da apresentação de nossos trabalhos, invariavelmente, devemos procurar provocar um debate que com certeza irá enriquecer mais ainda este trabalho, dando a ele novos pontos de vista e conclusões. Estas afirmações foram feitas por Luiz Roberto Campanha, nos seus trabalhos que já por diversas vezes citamos em partes deste artigo. Sobre as responsabilidades dos maçons para a construção, elevação e a consequente evolução da Maçonaria, ele cita-nos o seguinte:

“(…) Infere-se daí que não apenas os Mestres podem ensinar. O Aprendiz e o Companheiro, ao apresentarem os resultados de suas pesquisas, tornam-se mestres e os Mestres devem, humildemente, como aprendizes, analisar a lição ministrada e com ela agregar fundamentos ao seu conhecimento. Só atinge o Grau de Mestre aquele que tem discípulos: ora seremos Mestres, ora Aprendizes.” (CAMPANHA, 2003, op. cit., p.40).

Não imaginamos uma citação melhor que esta para podermos encerrar este trabalho sobre a condições e qualidades para a perfeita interpretação e o entendimento dos símbolos e também do Estudo Maçónico. O saber Maçónico é uma construção de múltiplos materiais e de incontáveis mãos aproximando-nos cada vez mais da Fonte da Verdadeira Luz.

Autor: Roberto Bondarik
ARLS Cavaleiros da Luz Nº 60 – GLP Oriente de Cornélio Procópio – PR

Referências Bibliográficas:

  • ASLAN, Nicola. O Simbolismo. In: O Fio de Prumo. Ponta Grossa, Ano 1, nº 5, Outubro de 2001, p.5-6;
  • BONDARIK, Roberto. Escolas do Pensamento Maçónico. In: A Trolha:
  • Colectânea 6. Londrina: A Trolha, 2003. p.141-151;
  • CAMPANHA, Luiz Roberto. A Filosofia e a Análise dos Símbolos. In: Caderno de Pesquisas 20. Londrina: A Trolha, 2003. p.33-40;
  • CARVALHO, Luis Nandim de. História da Maçonaria. Disponível em Acesso em 03 de Outubro de 2003;
  • CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. 2ª ed, Londrina: A Trolha, 1996;
  • CHAUI, Marilena. Convite a Filosofia. 5ª ed. São Paulo: Ática, 1996. p.59-60;
  • FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria: Seus Mistérios, Seus Ritos, Sua Filosofia e Sua História. São Paulo: Editora Pensamento, 1998,
  • GRANDE LOJA DO PARANÁ. Maçonaria: um informativo para quem não é maçon. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2000;
  • HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry; GAARDER, Jostein. O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000;
  • KAPFENBERGER FILHO, Francisco. Simbolismo. In: O Fio de Prumo. Ponta Grossa, Ano 1, nº 9, Março de 2001, p.7-8;
  • KOSHIBA, Luiz. História: origens, estruturas e processos. São Paulo: Actual, 2000
  • O QUE É E COMO SURGIU A MAÇONARIA. Super Interessante, São Paulo, Ano 15, nº3, p. 39, Março de 2001;
  • PESSOA, Fernando. “Associações Secretas: Análise Serena e Minuciosa a Um Projecto de Lei Apresentado ao Parlamento.” Acesso em 19 de Agosto de 2003.

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