A presença do falo na Maçonaria

A presença do falo na Maçonaria – uma interpretação da linguagem simbólica sob a perspectiva psicanalítica

Introdução

Há quem considere a psicanálise um tema ultrapassado ou excessivamente atrelado às questões da sexualidade humana (ANJOS, 2013). Independentemente da simpatia (ou antipatia) pelas ideias psicanalíticas, ou mesmo do surgir de novas teorias para a compreensão dos fenómenos neuro psíquicos, estas concepções continuam a ser aplicáveis a diversas situações quotidianas, especialmente naquelas onde o inconsciente se manifesta através da linguagem simbólica.

Na contemporaneidade racionalista do Século XXI poucas sociedades se declaram explicitamente simbólicas e adoptam as alegorias como forma principal de transmissão dos seus saberes. Dentre estas poucas, a maçonaria preserva o uso dos instrumentos da geometria como significantes principais dos seus ensinamentos, lançando mão, também, de metáforas obtidas de culturas, filosofias e religiões diversas na forma de matéria prima complementar para os seus estudos (SOUZA, 2012).

O presente artigo nasceu do insight de um mestre Maçom. Habituado à significação tradicional dos símbolos que adornam o templo, teve ao longo do seu processo psicoterápico individual uma súbita interpretação fálica dos instrumentos utilizados nas sessões maçónicas. O texto não pretende substituir a interpretação tradicionalmente transmitida nas sessões por uma significação reducionista ao viés psicanalítico. O autor também está ciente de que a imensa maioria dos maçons não é afeita à psicanálise e possivelmente irá rejeitar a proposta desta interpretação. No entanto, talvez contribua para que alguns poucos maçons amantes das ciências humanas, bem como profissionais da saúde mental possam utilizar esta discussão na ampliação da vasta possibilidade de compreensão dos mistérios da Arte Real.

Instrumentos, adornos e alegorias fálicas pre­sentes no quotidiano maçónico

Desnecessário e excessivamente prolixo seria rever toda a literatura que discorre sobre a presença e importância do falo nas sociedades primitivas. Mesmo em textos escolares estão patentes a relação entre os deuses em todas as civilizações como garantidores de fecundidade, provisão e autoridade assumindo o papel masculino, por vezes caracterizado por objectos do tipo alongado como as colunas (ROBERTO, 2015) ou personagens antropomórficos, alguns ostentando espadas, ceptros, bastões, cajados, martelos, serpentes, ou mesmo possuidores explícitos de pénis proeminente. Apenas para citar alguns exemplos, o deus egípcio Min (CULTURA COLECTIVA, 2014), o nórdico Frey (BLANC, 2016) e o grego Priapos (NETO, 2006) eram divindades possuidoras de um órgão genital desproporcionalmente grande.

No templo maçónico os mestres, dotados de autoridade, empunham objectos alongados que repre­sentam o seu poder: desde o cobridor com a sua espada, o mestre de cerimónias (e diáconos em alguns ritos) com os seus bastões, os vigilantes e o venerável mestre, com os seus malhetes. [1] Também os instrumentos de trabalho de todos os graus da maçonaria simbólica apresentam formato alongado (cilíndricos com extremidades mais proeminentes ou pontiagudas), a saber, malho, cinzel, nível, alavanca, régua e espada. Em ambos os instrumentos a extremidade pontiaguda ou alargada pode denotar características fálicas.

À medida que os maçons percorrem a sua escalada de aprendizagem, a sua autoridade e prerrogativas dentro da Ordem também são ampliadas, em sintonia com a concepção foucaultiana do binómio saber – poder (FOUCAULT, 1977). Do grau de aprendiz (a quem o direito à palavra pode ser negado durante as sessões, como no Rito Adonhiramita) até a plenitude do grau de mestre, podendo perpetuar-se por um número variável de graus superiores (em número de 33 na maior parte dos sistemas filosóficos) a jornada de aprendizagem é descrita pelo termo —subir na escada de Jacó”, em referência ao episódio quando este personagem sonhou com anjos que subiam e desciam os seus degraus (SANTA BÍBLIA, 2006). Coincidência ou não, Freud interpretou também o acto de subir escadas durante os sonhos como uma intenção inconsciente de um intercurso sexual (FREUD, 2013).

Chapéu do Rito Adonhiramita, bastante semelhante ao aspecto anatómico da glande
Figura 1: Chapéu do Rito Adonhiramita, bastante semelhante ao aspecto anatómico da glande

No que se referem aos paramentos, trajes maçónicos e títulos de recompensa (medalhas), todos estão incluídos na interpretação freudiana como representantes do falo, tanto no que concerne ao seu aspecto alongado com extremidade mais alargada, quanto ao seu simbolismo de poder e autoridade. O terno, como roupa tipicamente masculina, o chapéu adoptado em alguns ritos também reproduzem este sentido, muito especialmente o de abas baixas do Rito Adonhiramita, profundamente semelhante ao aspecto da glande.

Merecem especial atenção as colunas à entrada do templo. Os capitéis, que por si sós, já foram sobejamente associados na literatura à extremidade peniana, na ornamentação do templo maçónico ainda são encimadas pelo globo celeste e terrestre. Vale aqui mencionar na íntegra as palavras de Eliphas Levi a respeito do simbolismo fálico das colunas “B” e “J”:

O equilíbrio humano tem necessidade de dois pés, os mundos gravitam sobre duas forças, a geração exige dois sexos. Tal é o sentido do Arcano de Salomão, figurado pelas duas colunas do templo, Jakin e Bohas (LEVI, s.d.).

Por fim, parece relevante destacar o emblema universal da Ordem maçónica, representada pelo es­quadro e o compasso, dispostos em formato de losango, com a letra G ao meio. Da vasta literatura se­miótica até o imaginário popular o losango representa a genitália externa feminina, expressa desde o período pré-histórico como exemplificado nas figuras encontradas nas cavernas de La Madeleine.

Os símbolos fálicos enquanto inspiração para o arquétipo do verdadeiro Maçom”

Ilustrações femininas em forma de losango, típicas das deusas Vénus do Paleolítico
Figura 2: Ilustrações femininas em forma de losango, típicas das deusas Vénus do Paleolítico

A existência do falo na simbologia maçónica poderia, em tese, contribuir para a moldagem da per­sonalidade do recém-iniciado. Com o intuito esclarecer este ponto, convém reflectir sobre os modelos arquetípicos concebidos pelo pensamento de Jung. Mark e Pearson (2003) compilam doze arquétipos principais da psicologia analítica, organizados em quatro grupos (MARK e PEARSON, 2003). Deste conjunto alguns demonstram atributos muito característicos do Maçom típico: O Herói, o Mago, o Explorador, o Sábio, o Prestativo e o Governante. Em todos os casos, traços de personalidade estão claramente descritos como características do —verdadeiro Maçom”, conforme escrevem os autores que expressam o pensamento da Ordem. Guimarães (2013) percorre a iniciação maçónica no Rito Escocês Antigo e Aceito por meio da jornada do herói, mencionando vasta discussão a respeito deste modelo arquetípico e personagens mitológicos evocáveis durante cada etapa deste primeiro encontro do neófito com os símbolos e alegorias (GUIMARÃES, 2013). No que respeita à magia, cumpre contemplá-la tanto sobre o aspecto místico quanto sob o simbólico. Muitas publicações de autores maçónicos consideram a prática sobrenatural como parte integrante dos mistérios da Ordem (ADOUM, 2010). Outros há (o autor inclui-se neste segundo grupo) que compreendam o legado alquímico absorvido pelos Augustos Mistérios no seu significado simbólico, psíquico e filosófico, assim como o fez Jung (JUNG, 1991). Carvalho (2016) esmiúça um tema recorrente nos rituais, descrevendo as formas como o Maçom deva ser um explorador da verdade (CARVALHO, 2016). Sobram exemplos de louvores a maçons ilustres que ocuparam destaque na histórica política. Desnecessário seria enumerar as publicações que exaltam o altruísmo e o trabalho maçónico filantrópico enquanto atributo patente do carácter dos que (parafraseando uma máxima maçónica) além de entrar na maçonaria, permitiram que a maçonaria entrasse em si”.

Não somente os símbolos poderiam contribuir para a elaboração do ideal de vida do Maçom, mas também os personagens seleccionados para compor as histórias/ lendas transmitidas dentro das lojas. Neste raciocínio vale reflectir sobre dois em especial: Boaz e Salomão. Desde o Primeiro Grau, é feita referência Boaz, que incorpora boa parte dos arquétipos descritos no parágrafo anterior: um líder prestativo que teve a sabedoria necessária para resgatar Rute da sua vulnerabilidade, estendendo o seu braço de força (Boaz, do original hebraico —pela sua força”) para amparar a viúva, zelando pela honra desta e do seu falecido marido, materializando a sua virilidade na geração de Obed, que pela lei hebraica do levirato deveria ser considerado herdeiro do marido morto de Rute. Também Salomão representa um modelo de governante, que se estabeleceu como o mais próspero rei do seu tempo, tanto pela capacidade de impressionar a Rainha de Sabá ao ostentar a grandeza do seu império, quanto pela perspicaz actuação enquanto juiz, ilustrada no episódio das duas mulheres que requeriam o direito de ser mãe de uma mesma criança. Salomão também é descrito na sua virilidade por ser possuidor” de 700 mulheres e 300 concubinas (SANTA BÍBLIA, 2006).

Diante do previamente exposto, fica subentendido que as principais virtudes maçónicas podem ser representadas pelos arquétipos descritos acima, ambos simbolizáveis de forma subjectiva e inconsciente pelo emblema da virilidade, portanto, do falo: O líder beneficente e corajoso, amante da justiça e investigador da verdade em todas as suas dimensões (do lógico ao metafísico). Dos diversos textos rituais que ilustram a figura deste protótipo do másculo construtor do edifício social justo e perfeito, pode-se mencionar um notório fragmento que revela o espírito deste ideário:

  • Reunimo-nos aqui para quê?
  • Para combater o despotismo, a ignorância, os preconceitos e os erros. Para glorificar a Verdade e a Justiça. Para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando templos à Virtude e cavando masmorras ao vício (GRANDE ORIENTE DO BRASIL, 2009).

Considerações finais

O símbolo é, por natureza, polissémico. Ao interpretá-lo, cada indivíduo vale-se das suas crenças e valores obtidos como da sua própria matriz cultural. Muito antes dos postulados freudianos as sociedades primitivas já expressavam os seus saberes por meio da linguagem simbólica, dos conhecimentos míticos e místicos, os quais deram origem às mais diversas formas de filosofias, culturas e teologias, contribuindo inclusive para o que se entende hodiernamente como ciência. Alguns símbolos revestem-se de significados ancestrais e a sua interpretação frequentemente tem conteúdos subjectivos e inconscientes. Neste trabalho avaliamos a simbologia maçónica sob a óptica psicanalítica, com elementos das teorias de Freud e Jung. A associação das várias possibilidades de interpretação destes significantes é capaz de enriquecer o aprimoramento do Maçom, independente de concordar ou não com o significado atribuído por cada autor. Este artigo não pretende esgotar tema, apresentando, entretanto, uma proposta de ampliação dos debates a respeito de novas possibilidades de interpretação da simbologia maçónica.

Renato Faria da Gama

Notas

[1] Este último um símbolo de carácter fálico bastante descrito na mitologia nórdica, que tem no deus Thor o seu mais notório personagem (LANGER, 2015).

Referências

  • ADOUM, J. Do mestre secreto e os seus mistérios. 16a. ed. São Paulo: Pensamento, 2010.
  • ANJOS, S. A hipótese da obsolescência da psicanálise em Herbert Marcuse. In: Caderno de Resumos do IX Seminário dos Estudantes de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCAR. São Carlos, 2013.
  • BLANC, C. Guia dos povos bárbaros: os mistérios dos conquistadores mais cruéis da história. São Paulo: On Line Editora, 2016.
  • CARVALHO, R. L. O Maçom e a busca da verdade. Universo Maçónico, dez. 2016.
  • CULTURA COLECTIVA. Estilo de Vida. Fev. 2014.
  • FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. Rio de Janei­ro: Forense – Universitária, 1977.
  • FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Porto Alegre,Rio Grande do Sul: L&PM, 2013.
  • GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual 1°. Grau – Aprendiz Maçom – Rito Escocês antigo e aceito. Brasília: Grande Oriente do Brasil, 2009.
  • GUIMARÃES, R. A iniciação maçónica: uma análise da sua mitologia por meio da jornada do herói. Fraternitas in Praxis v. 1, n. 1, 2013, p. 15-22.
  • JUNG, CG. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1991.
  • LANGER, J. Dicionário de mitologia nórdica: símbolos, mitos e ritos. Uitgever: Hedra, 2015.
  • LEVI, E. Dogma e ritual da alta magia. Arauto do Chaos. São Paulo: Pensamento, s.d.
  • MARK, M.; C. PEARSON, C. S. O Herói e o fora-da-lei: como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos. São Paulo: Cultrix, 2003.
  • NETO, J. A. O Falo no jardim: priapeia grega, priapeia latina. Campinas: Unicamp, 2006.
  • OUTEIRO PINTO, M. J. Do meio-dia à meia-noite: compêndios maçónicos do primeiro grau. São Paulo: Madras, 2007.
  • ROBERTO, P. As origens dos símbolos das colunas “J” e “B” na maçonaria. O Malhete – Informativo maçónico, político e cultural. Jan. 2015.
  • SANTA BÍBLIA. Velho Testamento. Ebooks Brasil. 2006.
  • SOUZA, F. J. O. Organização, preceitos e elementos da cultura maçónica: fundamentos para a introdução aos estudos da maçonaria. REHMLAC, v. 4, n. 1, 2012, p. 125-140.

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Um Comentário em “A presença do falo na Maçonaria

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    excelente artigo….brilhante artigo….competentes analogias dos símbolos maçonicos às milhares de imagens que conhecemos em arte desde o paleolítico…nos desenhos parietais, dos baixos relevos egípcios e a escultura , Vênus de willendorf….parabéns…jonasalles

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