A Simbologia da Maçonaria

Introdução

Neste trabalho dedicado à simbologia universal, não podiam faltar algumas reflexões sobre o importante simbolismo da Maçonaria, que representa, junto à tradição Hermética- Alquímica, a única via iniciática não religiosa que sobrevive ainda na Europa e sua área de influência cultural. E isto é assim embora, na actualidade, muitos maçons não conheçam – ou conhecem de forma muito limitada – o carácter simbólico e iniciático da sua Ordem. Alguns chegam inclusive a negar este aspecto essencial da maçonaria, crendo que esta só persegue fins sociais e filantrópicos. Há outros, inclusive, que só vêm na riqueza simbólica da Maçonaria uma fonte inesgotável onde alimentar as suas próprias fantasias “ocultistas”, tão em moda hoje em dia. Sem dúvida, esta suplantação dos verdadeiros fins da Maçonaria e, por conseguinte, a infiltração das “ideias” profanas, só podia acontecer numa época que, como a nossa, vive imersa na mais profunda obscuridade intelectual e espiritual.

Devemos esclarecer que aqui se vai falar da Maçonaria tradicional, ou seja, daquela que mantém vivos e permanentes, através dos símbolos, dos ritos e dos mitos, os laços com as realidades cosmogónicas e metafísicas emanadas da Grande Tradição Primordial, da qual a Maçonaria é (em verdade) uma ramificação. No nosso entender, e considerada desta maneira, a Maçonaria, igual a qualquer outra organização tradicional, oferece ao homem caído e ignorante os elementos necessários para levar a cabo a sua própria regeneração e evolução espiritual. A estrutura simbólica e ritual da Maçonaria reconhece numerosas heranças procedentes das diversas tradições que foram se sucedendo no Ocidente durante, pelo menos, os últimos dois mil anos. E este feito, longe de aparecer como um mero sincretismo, revela nesta Tradição uma vitalidade e uma capacidade de síntese e de adaptação doutrinal que lhe valeu o nome de “arca tradicional dos símbolos”.

Todas estas heranças se foram integrando com o transcorrer do tempo no universo simbólico da Maçonaria, moldando-se à sua própria idiossincrasia particular. Procedendo de uma tradição de construtores, não deve parecer estranho que a Maçonaria desempenhe a função de arca receptora, pois precisamente a construção ou edificação não tem outra função além de pôr “a coberto” ou “ao abrigo” da intempérie ou inclemência do tempo; mas, analogamente, quando se entende a construção como algo sagrado —e este é o caso— está claro que esta não faz outra coisa senão proteger, e separar, do mundo profano (as trevas exteriores) tudo aquilo que corresponde ao domínio estritamente espiritual e metafísico.

Por outro lado, este é precisamente o papel dos símbolos que aludem às ideias de receptividade e concentração, como a própria arca, o cálice, a caverna ou o templo. Sendo, como dissemos, uma via iniciática de origens artesanais, a Maçonaria teve uma especial sensibilidade com relação a todas as correntes tradicionais com as quais entrou em contacto.

Assim, de entre estas correntes merecem destaque, além do Hermetismo, as que procedem do Cristianismo, do Judaísmo e da antiga tradição greco-romana, e, mais concretamente, do Pitagorismo. Também poderíamos mencionar a ainda mais antiga tradição egípcia, sobretudo no que se refere aos símbolos cosmogónicos relacionados com a construção, pois, como é sabido, o antigo Egipto é, na realidade, um dos centros sagrados de onde surgiu grande parte do saber que contribuiu para dar forma, com a sua influência sobre os filósofos gregos, à concepção do mundo que é própria da cultura ocidental.

De todo modo, a herança egípcia é transmitida à Maçonaria através, fundamentalmente, da Alquimia hermética e do Pitagorismo. Não obstante, do que dissemos não se deve concluir que a Maçonaria seja o “resultado” da confluência de todas essas tradições. Se fosse assim, a Maçonaria viria a ser uma espécie de colagem ou museu arqueológico onde teriam abrigo todas as relíquias do passado encontradas aqui e acolá, e catalogadas segundo a sua respectiva antiguidade.

Evidentemente que não é isto que queremos dizer quando falamos da herança multisecular recebida pela Maçonaria. Cada tradição é legitimada e conformada por uma “revelação” de ordem divina acontecida num tempo mítico, a-histórico e atemporal. Tal revelação é “única” para cada forma tradicional que se constitui a partir dela, dando-lhe o seu “selo” ou “marca” particular, a sua estrutura, e, portanto, uma função e um destino a cumprir no cenário do tempo da história.

Ocorre, por quaisquer circunstâncias, que uma tradição receba de outra (ou outras) determinadas influências por contacto ou similitude, o que muitas vezes foi inevitável e até necessário. Mas de nenhum modo isto que dizer que uma tradição se “transforme” noutra, pois, como ocorre com qualquer ser vivo, cada uma compreende um nascimento, um desenvolvimento, uma maturidade, e finalmente, uma morte. Aquilo que se convencionou chamar de “Unidade Transcendente das Tradições”, é bem diferente de uma simples “uniformidade”. Significa, fundamentalmente, que todas – e cada uma delas – procede de uma fonte única (a Tradição Primordial), que se manifesta não na forma ou roupagem que possam adoptar por circunstâncias de tempo e de lugar, mas, precisamente, no que constitui a “sabedoria perene” contida no núcleo mais interno e central de cada tradição. O que ocorre com respeito à Maçonaria é que esta não possui um carácter religioso, o que tornou possível a sua adaptação a todas as tradições, religiosas ou não, com as quais se relacionou ao longo da história.

A sua simbologia iniciática, demonstrada na arte da construção, entre outras coisas serviu-lhe de cobertura protectora, ao mesmo tempo que lhe permitiu moldar-se a qualquer “dogma” religioso ou exotérico sem entrar em conflito com ele. Temos um exemplo disso nas relações que, durante toda a Idade Média ocidental, a Maçonaria manteve com o poder eclesiástico e com as diversas organizações iniciáticas do esoterismo cristão. Por outro lado, se a Maçonaria, com esse espírito de fraternidade e tolerância que a caracteriza, não houvesse acolhido no seu seio essas diversas heranças, estas, com toda segurança se teriam perdido definitivamente. E foi possivelmente essa capacidade receptora que contribuiu para fomentar essa ilusão de sincretismo que erradamente alguns lhe atribuem.

É precisamente o contrário, pois a Maçonaria ao “reunir o disperso” não fez nada além de conservar nas suas estruturas simbólico-ritualísticas a “memória” dessas múltiplas heranças, cumprindo com isso um papel “totalizador” que tem a sua razão de ser (e uma razão de ser profunda) neste final de ciclo que estamos vivendo. Neste sentido, e da mesma forma que na “arca” de Noé foram guardadas, para que não perecessem, todas as “espécies” que deviam ser conservadas durante o cataclismo ocorrido entre dois períodos cíclicos, a “arca” maçónica também acolhe tudo o que de válido deve conservar-se até que, por sua vez, o ciclo presente termine – e que constituirá os “gérmenes” espirituais que se desenvolverão durante o transcurso do futuro ciclo.

Particularmente esta função recapituladora assumida pela Maçonaria tradicional faz pensar que ela subsistirá até a consumação do ciclo, o que, por outro lado, e como assinala um autor maçon, “… está expresso simbolicamente pela fórmula ritual segundo a qual a Loja de São João está no vale de Josafá”, que, acrescentamos, é onde simbolicamente terá lugar o que no Cristianismo se denomina o “Juízo Final”. “No mesmo sentido, também se diz que a Loja maçónica permanece”… “na mais alta das montanhas e no mais profundo dos vales”, aludindo com isto ao começo do ciclo (quando o Paraíso se encontrava no topo da montanha do Purgatório) e ao seu final (quando a Verdade do conhecimento, representada pelo estado edénico, “fechando-se” em si mesma, se fez invisível à maioria dos homens, ocultando-se no “mundo subterrâneo”).

Há que se dizer, para completar esta simbologia cíclica, que o vale corresponde à caverna, que por estar no interior da montanha se situa por sobre um mesmo eixo que conecta a cúspide de uma com a base da outra, unindo desta maneira o mais “alto” (ou princípio) com o mais “baixo” (ou final). Dito isto, que cremos foi necessário para aclarar certas confusões que existem em torno da Maçonaria, tentaremos explicar, a seguir, algumas dessas heranças simbólicas que esta Ordem recebeu de outras formas tradicionais, ainda existentes ou já desaparecidas. Do Hermetismo a Maçonaria recolhe, em parte, a riqueza da simbologia alquímica, que inclui os ensinamentos e vivências dos processos de transmutação psicológica que levam do estado profano à realização espiritual.

O simbolismo dos elementos, relacionado com as energias purificadoras da natureza, é de suma importância no rito da iniciação maçónica. Neste sentido, a “Câmara de Reflexão” maçónica vem a ser o mesmo, e cumpre idêntica função simbólica que o athanor hermético: um espaço fechado e íntimo onde se produzem as mudanças de estados regenerativos exemplificados pela gradual “subtilização” da matéria densa e caótica do composto alquímico. Igualmente, os diversos objectos simbólicos que se encontram na “Câmara de Reflexão” são quase todos de origem alquímica e hermética, como por exemplo, as três taças contendo enxofre, mercúrio e sal, sem esquecer das siglas VITRIOL e a bandeirola com as palavras “Vigilância e Perseverança”, as quais se referem ao estado de vigília permanente e paciência de que deve armar-se o alquimista nas suas operações.

Por outro lado, existem interessantíssimas analogias entre o processo de transmutação da “matéria caótica” alquímica e o desbastar da “pedra bruta” na Maçonaria, pelo que se pode fazer uma transposição totalmente coerente entre o simbolismo alquímico e o simbolismo construtivo e arquitectónico. Dessa maneira, a iniciação hermético-alquímica está presente por igual nos três graus maçónicos (de aprendiz, companheiro e mestre), que reproduzem as três etapas da “Grande Obra”, que incluem uma morte, um renascimento e uma ressurreição, respectivamente. Enfim, as leis herméticas das correspondências e analogias entre o macro e o microcosmo estão resumidas e sintetizadas no esquema geral do templo ou Loja maçónica, verdadeira imagem simbólica do mundo.

Se a Tradição hermética deixou os seus vestígios na Maçonaria, os deixados pelo Pitagorismo não são menos importantes, e até poderíamos dizer que é, junto com o judaico-cristianismo, uma das mais significativas, até o ponto de não ser possível compreender o que é a Maçonaria sem esta referência pitagórica. Numerosos símbolos maçónicos denotam a sua procedência pitagórica, ou, pelo menos, mostram uma identidade palpável com alguns dos símbolos mais importantes da confraria fundada pelo mestre de Samos. É o caso, por exemplo, da conhecida “estrela pentagramática” ou pentalfa, de suma importância na simbologia do grau de companheiro (onde recebe o nome de “estrela flamejante”), e que os pitagóricos consideravam como seu signo de reconhecimento e um emblema do homem plenamente regenerado. Mas é na aritmética sagrada, ou seja, na simbologia dos números na sua vertente cosmogónica e metafísica, onde se observa mais claramente a presença do pitagorismo na Maçonaria.

Ambas as tradições dão ênfase ao sentido qualitativo dos números, por sua vez estreitamente vinculado ao simbolismo geométrico, que também, por seu lado, está directamente relacionado com a construção do templo exterior e do templo interior. Neste sentido, deve ser notado que, no frontão da Academia de Atenas, Platão fez gravar uma inscrição que rezava: “Que ninguém entre aqui se não é geómetra”, sentença que unanimemente se atribui aos pitagóricos, e que poderia perfeitamente estar gravada no pórtico de entrada da Loja maçónica. Do mesmo modo, a Unidade ou Mónada divina estava simbolizada entre os pitagóricos por Apolo, o deus geómetra primordial que, mediante a “lei invariável do número” que extrai dos acordes musicais da sua lira, estabelece o modelo ou protótipo pelo qual se rege a harmonia da vida universal. E não é, no fundo, o Grande Arquitecto maçónico, que com o esquadro e o compasso determina a estrutura e os limites do céu e da terra, da mesma forma que o Apoio pitagórico?

No que se refere ao Cristianismo, é indubitável que dele procedem numerosos e importantes elementos doutrinais integrados na simbologia e no ritual maçónicos. Esta integração viu-se favorecida pela convivência que, durante praticamente todo o período Medieval, os grémios de construtores mantiveram com as ordens monásticas e de cavalaria, especialmente a dos templários. Questionar ou desconhecer este aspecto cristão tanto da antiga como da actual Maçonaria, é privá-la de uma parte essencial da sua própria identidade tradicional, além de demonstrar com isto uma ignorância completa sobre o esoterismo cristão, que é, precisamente, o que, em grande medida, foi absorvido pela Ordem maçónica. Só um dado, porém sumamente significativo: os santos padroeiros e protectores da Maçonaria são os dois São João, o Batista e o Evangelista, e como já se disse a Loja é denominada “Loja de São João“.

À presença hermética, pitagórica e cristã, há que se acrescentar a da tradição judaica, surgida do tronco de Abraão da mesma forma que o Cristianismo e o Islã. A tradição hebraica transmitiu à Maçonaria fundamentalmente os mistérios relativos às “palavras de passe” e às “palavras sagradas”, todas elas procedentes do Antigo Testamento, se bem, é verdade, que também se encontram palavras e nomes sagrados de origem cristã, concretamente nos que se denominam os “altos graus” maçónicos. De certo modo, na Maçonaria confluem a Antiga Aliança e a Nova Aliança formadoras do judaico- cristianismo, que se constituiu numa só tradição durante os períodos mais florescentes da Idade Média.

Não é exagero afirmar que esta constituição foi possível graças à própria Maçonaria operativa, que neste sentido desempenhou um autêntico trabalho de “ponte”, muito especialmente no que se refere ao âmbito da construção e da arquitectura. Como mais adiante teremos ocasião de assinalar, as palavras de passagem e as palavras sagradas relacionam-se com a busca da “Palavra perdida”, busca que concentra em grande parte o trabalho de investigação simbólica do maçon. Igualmente, a concepção simbólica da Loja -como o templo cristão-, está baseada no desenho geométrico do templo de Jerusalém (ou de Salomão), e o arquitecto que dirigiu as obras deste templo, o mestre Hiram, passa a ser um dos míticos e legendários fundadores da Maçonaria.

Depois deste quadro geral, no qual muito superficialmente apontamos quais, a nosso juízo, são as mais significativas influências tradicionais presentes na Maçonaria, vamos ver na continuação, sobre o plano da história, de que forma estas influências penetraram e se converteram em parte constitutiva desta tradição. E, se bem que não tratemos aqui especificamente da história da Maçonaria, pensamos que trazer à memória certos feitos históricos talvez pudesse fazer-nos compreender em maior profundidade alguns símbolos maçónicos que, de facto, se forjaram à luz dessas múltiplas heranças. Além disso, a história é também uma simbologia sagrada ligada ao porvir cíclico e ao destino dos homens e das civilizações.

Uma história simbólica

Devemos situar-nos, pois, nesta época crucial da história da Europa e do Ocidente que foi, sem dúvida, a Idade Média. Ali encontramos os grémios, ou agrupamentos de construtores conhecidos como os freemasons ou franc-maçons , que por estarem isentos do imposto alfandegário podiam viajar e deslocar-se livremente por todos os países da cristandade. Desta liberdade de movimento é que lhes era dado, em parte, o nome de “franc-maçons“, que quer dizer “pedreiros, ou construtores, livres”.

Dissemos “em parte”, porque, como acertadamente escreve Christian Jacq:

O “franc-maçon” é o escultor da pedra franca, ou seja, da pedra que pode ser talhada e esculpida… O “maçon franco” é, sobretudo, o artesão mais hábil e mais competente, o homem que é livre de espírito e que se libera da matéria por sua arte… Em numerosos textos medievais, o franco-maçon é oposto ao simples pedreiro, que não conhecia a utilização prática e esotérica do compasso, do esquadro e da régua”.

Assim, pois, estes “maçons francos” possuíam seus mistérios iniciáticos e as suas técnicas do ofício relacionadas com a construção, e expressavam na ordem concreta das coisas a realização efectiva desses mistérios. Em grande medida, os maçons operativos tinham herdado estas técnicas directamente dos Collegia Fabrorum romanos, ou seja, dos agrupamentos de construtores e artesãos cujas origens remontavam ao legendário rei Numa. Assim como ocorreu com a Maçonaria, os Collegia Fabrorum também recolheram a herança simbólica de tradições desaparecidas, a mais notável das quais foi a tradição Etrusca, cuja cosmologia passou ao Império Romano através desses colégios. É interessante ressaltar que os Collegia Fabrorum veneravam muito especialmente ao deus Jano Bifronte, chamado assim porque possuía dois rostos, um que olhava para a esquerda (ao Ocidente, ou lado da escuridão), e outro para a direita (ao Oriente, ou lado da luz), abrangendo desta maneira o mundo inteiro.

Se bem que o simbolismo pertencente a esta divindade romana seja bastante complexo, sabe-se com segurança que estava relacionada com os mistérios iniciáticos, concretamente com os ritos de “passagem” ou de “trânsito”. Na Maçonaria operativa medieval estes mesmos atributos passaram a fazer parte dos dois São João, cujo nome é idêntico ao de Jano. Mais ainda: através dos Collegia romanos, a Maçonaria recebeu (entre outras fontes de procedências diversas) a cosmologia dos pitagóricos, baseada, como já se mencionou, nas correspondências simbólicas dos números e da geometria, ciências e artes sagradas que precisamente têm na arquitectura as suas aplicações mais perfeitas. Entre os personagens conhecidos que facilitaram este trabalho de transmissão da cosmologia pitagórica (e também platónica) ao período Medieval, merece destaque, no século Vil, Boécio, chamado o “último dos romanos” e autor da Consolação da Filosofia. Os estudos de Boécio sobre astronomia, geometria, aritmética e música, foram realmente decisivos para o enriquecer das “sete artes liberais”, divididas no trivium e no quadrivium, de suma importância nos ensinamentos da maçonaria operativa.

Por outro lado, a filosofia de Boécio influenciou notoriamente a literatura e o pensamento esotérico da Maçonaria tradicional dos séculos XVIII e XIX, por exemplo, em autores como Louis Claude de Saint Martin e José de Maistre. Seguindo com esta ordem de ideias, existiu uma lenda difundida entre os maçons de língua inglesa, segundo a qual um tal Peter Grower, originário da Grécia, trouxe aos países anglo-saxões determinados conhecimentos relativos à arte da construção. Alguns autores, entre eles René Guénon, afirmam que este personagem, Peter Grower, não era senão Pitágoras, ou melhor, a ciência dos números e a geometria que através dos pitagóricos foram introduzidas nas ilhas britânicas, ao mesmo tempo em que em todo o continente.

No mundo da Tradição muitas vezes os nomes das pessoas, sejam históricas ou lendárias, designam, mais que os próprios personagens, os conhecimentos que eles transmitiram e que, com frequência, se transmitiram por meio das escolas ou confrarias que fundaram. É o que, de certo modo, ocorre com o matemático grego Euclides, que é mencionado nos “Antigos Deveres” – Old Charges – (que representa uma série de documentos e escritos da Maçonaria operativa onde foram definidos alguns eventos relacionados com a história sagrada da Ordem maçónica). Num destes documentos, o manuscrito Regius, faz-se alusão a Euclides como o “pai” da geometria, enfatizando-se que esta não designa senão a própria Maçonaria. Noutros manuscritos diz-se que o mesmo Euclides foi discípulo de Abraão, o que, do ponto de vista da cronologia histórica é totalmente sem nexo, pois, como se sabe, Euclides viveu no Egipto durante o século III a.C., e Abraão aproximadamente dois mil anos antes. Mas, tendo em conta de que se trata de história sagrada, e não simplesmente profana, o que na verdade se quer dizer com esta lenda é que Euclides foi o discípulo que recebeu o saber que o Patriarca encarnava, que era em si o monoteísmo hebraico na sua expressão cosmogónica e metafísica.

Resumindo, na realidade tudo isto se refere a uma transmissão de carácter sagrado efectuada da tradição judia para a Ordem maçónica, o que equivale a uma autêntica “paternidade espiritual”. Seja como for, o legado da cosmologia greco-romana unida à espiritualidade cristã, deu como resultado a criação da catedral gótica, edificada pelos grémios de construtores. Uma catedral, ou um monastério, é um compêndio de sabedoria; nela, gravada na pedra, se materializam todas as ciências e todas as artes, assim como os diferentes episódios bíblicos que fazem a história da tradição judaico-cristã. Ali aparecem os diversos reinos da natureza, o mineral, o vegetal, o animal e o humano, da mesma forma que as hierarquias angelicais que circundam o trono onde mora a deidade.

Tudo isto converte a catedral, num livro de imagens e símbolos herméticos reveladores da estrutura subtil e espiritual do cosmos. Estas colunas que se elevam verticalmente até outro espaço, unindo a parte inferior (a terra) à superior (o céu), estes arcos e abobadas que se assemelham a cristalizações dos movimentos circulares gerados pelos astros, esta luz solar que ao penetrar através do colorido policromado dos vitrais se transforma num fogo subtil que a tudo inunda; tudo isto, dizemos, permite-nos reconhecer a existência de um espaço e um tempo sagrados e significativos. Este conjunto de equilíbrios, módulos e formas harmoniosas (que por reflectir a Beleza da inteligência divina se constitui em “resplendor do verdadeiro”, como diria Platão) se gera a partir de um ponto central, que, por sua vez, é o “traço” de um eixo vertical invisível, mas cuja presença é omnipresente em todo o templo.

Este ponto central não é senão o “nó vital” que promove a coesão do edifício inteiro, e para onde conflui e se expande, como se se tratasse de uma respiração, toda a estrutura do mesmo. Tal “nó vital” era bem conhecido pelos mestres de obra, que viam o seu reflexo no umbigo, sede simbólica do “centro vital” do templo-corpo humano. Esta estrutura do cosmos – catedral, imperceptível aos sentidos comuns, percebe-se graças à intuição intelectual e às formas visíveis do céu e da terra, que estão simbolizadas pela abóboda e pela base quadrangular ou rectangular, respectivamente. Daí que a Maçonaria conceba o cosmos como uma obra arquitectónica e, a divindade, como o Grande Arquitecto do Universo, também chamada Espírito da Construção Universal noutras tradições. Perto das catedrais em construção encontravam-se as oficinas ou lojas, nas quais se traçavam e desenhavam os planos, repartiam-se as obrigações, falava-se dos detalhes da obra, e celebravam-se os ritos e cerimónias de iniciação. Estas oficinas eram autênticos centros de ensino tradicional onde, além das técnicas do ofício, se transmitiam os conhecimentos cosmogónicos. Realmente, nas oficinas maçónicas conjugava-se a arte e a ciência, a prática e a teoria, seguindo assim o famoso adágio escolástico segundo o qual a “ciência sem arte não é nada”.

Cada Loja ou oficina estava sob a autoridade de um mestre arquitecto, que tinha às suas ordens os oficiais companheiros (divididos em sub-graus e funções), que por seu lado vigiavam e dirigiam os trabalhos dos aprendizes. Esta estrutura ternária e hierarquizada de aprendiz, companheiro e mestre encontra-se com os mesmos ou diferentes nomes unanimemente repartida em todas as organizações iniciáticas e esotéricas, pois tal hierarquia expressa um modelo do processo iniciático íntegro, que reproduz exactamente o desenvolvimento cosmogónico das “trevas à luz”, do “caos à ordem”.

Um dos poucos testemunhos que se conservaram dos desenhos realizados pelos maçons operativos é o álbum do arquitecto francês Villard de Honnecourt, ao qual pertence também o traçado de um labirinto, cuja forma é idêntica à de todos os labirintos iniciáticos: uma série de dobras concêntricas que conduzem, depois de um longo trajecto que começa na periferia, ao centro do próprio labirinto, ou ponto de contacto com o eixo vertical por onde se produz a comunicação com os estados superiores e a “saída” definitiva do cosmos, ou seja, dos limites determinados pelo tempo – e o seu porvir cíclico – e o espaço.

Junto aos maçons operativos encontramos os sábios alquimistas e astrólogos, perfeitos conhecedores das ciências da natureza aplicadas como símbolos vivos do processo iniciático e regenerador. Eles dotaram a catedral de numerosos símbolos baseados nas correspondências e analogias entre o macro e os microcosmos, o céu e a terra, a divindade e o homem, considerando-se os legítimos herdeiros da ciência sagrada de Hermes Trismegisto. A “pedra bruta” que os maçons poliam e talhavam para a construção, representava, como já dissemos, o mesmo que a “matéria caótica” dos alquimistas: uma imagem da substância plástica indiferenciada na qual estão contidas, em estado não desenvolvido e potencial, todas as possibilidades de manifestação de um mundo ou de um ser. A pedra estava viva, não era simples matéria inerte, e ao mesmo tempo, a sua dureza e estabilidade simbolizavam a imutabilidade e firmeza do Espírito. Em tudo isto, um detalhe não deve passar desapercebido: os alquimistas tinham a Santiago, o Mayor, como santo padroeiro, que junto com São João Evangelista (padroeiro dos maçons) e São Pedro (fundador da Igreja), assistiu aos mistérios da Transfiguração de Cristo no Monte Tabor. A partir de então, um “laço” fundamentado num “Segredo” devia unir, acima das diferenças formais, a todos aqueles que estavam sob a protecção desses santos cristãos, uma mostra do que foram as fraternais relações que se viviam durante as edificações das igrejas-catedrais. Esta fraternidade entre alquimistas e maçons deveria perdurar ainda até o século XVIII.

A liberdade de movimento de que gozavam os maçons francos, facilitaria os intercâmbios de conhecimentos com outros grémios de artesãos, dentre os quais se destaca a chamada Companheirismo, que agrupava diversos ofícios (entre eles os entalhadores de pedra e escultores), e que, da mesma forma que os maçons, tinham os seus graus e segredos de iniciação.

Desta forma, esses intercâmbios deram-se com as diversas ordens monásticas e cavalheirescas. Não há que se fazer, portanto, um excessivo esforço de imaginação para formar-se uma ideia do clima espiritual que se respirava naquela fecunda e luminosa época. Poder-se-ia dizer, sem temor de exagerar, que ali o saber não tinha fronteiras. E mais: a cordial convivência existente entre as organizações iniciáticas e esotéricas, e aquelas de carácter religioso e exotérico testemunhavam o vigor e a saúde da tradição. Os cavaleiros templários, esses monges guerreiros que eram também construtores e cujas regras foram inspiradas por São Bernardo, mantinham sob sua protecção numerosas lojas maçónicas. E isto não deve passar inadvertido, pois quando esta organização do esoterismo cristão desapareceu como tal em circunstâncias sangrentas (devido a um acordo do sinistro rei francês Felipe, o Formoso com o Papa Clemente V), estas mesmas lojas, sobretudo as da Inglaterra e Escócia, acolheram no seu seio muitos dos templários sobreviventes, que traziam consigo certos conhecimentos iniciáticos da sua Ordem que acabariam por integrar-se definitivamente na estrutura simbólica e ritual da Maçonaria . Digamos que de entre estas lojas merece destaque a Grande Loja Real de Edimburgo, fundada pelo rei Robert Bruce, que se opôs à extinção da Ordem do Templo combatendo ao lado dos templários.

É significativo que o ano de constituição da Ordem Real da Escócia seja o de 1314 (ano em que se extinguiu a Ordem dos Templários), e que esta teve como Loja Mãe a Ordem Heredom de Kilwinning, cujos alguns dos rituais eram de inspiração templária. E esta palavra, heredom, significa “herança”, que é a mesma recebida pelos templários. Não existem documentos escritos que atestem a realidade desta herança simbólica, ainda que seja evidente que ela aconteceu. Por tratar-se de transferências sagradas estas têm lugar primeiramente no plano estritamente espiritual e metafísico, concretizando-se no âmbito humano por mediação de individualidades (pouco importa, neste caso, que sejam conhecidas ou anónimas) que as realizam de maneira efectiva.

Um fio subtil e luminoso une o mundo superior ao inferior, e o inferior ao superior, e a manutenção desta comunicação é uma das principais funções que sempre tiveram as organizações tradicionais e iniciáticas. Recordemos, neste sentido, que a palavra “tradição” procede do latim tradere, que significa “transmitir” (e por extensão, herança), e transmissão de uma verdade, voltamos a repetir, que remonta às próprias origens da humanidade, e que todas as civilizações consideraram como a fonte do seu saber e cultura. Essencialmente, os templários transmitiram à Maçonaria a ideia da edificação do templo espiritual “que não é feito por mãos de homem” segundo a mensagem evangélica. Tal ideia ficou materializada com a criação de certos altos graus, complementares ao mestrado, de procedência templária.

Um dos mais notáveis, pela sua riqueza simbólica, é o grau de Royal Arch do Rito Inglês de Emulação. A Ordem do Temple (ou do Templo), no seu núcleo mais interno era de essência johannica (da mesma forma que a Maçonaria), pois inspirava-se nos mistérios contidos no Evangelho e no Apocalipse de São João. Desta forma, os “Cavaleiros de Cristo” tinham como uma das suas principais missões a protecção do Santo Sepulcro e a manutenção das relações com a “Terra Santa”, ou seja, com o “Centro Supremo” ou “Centro do Mundo”. Com o desaparecer do Templo, a Maçonaria tradicional (e aqui enfatizamos o “tradicional”), do mesmo modo que a Ordem hermética da Rosa-Cruz, continuaria mantendo para o Ocidente os vínculos com essa “Terra Santa”, também chamada noutras culturas de “Terra dos Imortais” ou “Terra dos Bem-aventurados”.

Durante o Renascimento encontramos a mesma ausência de documentos escritos sobre as relações que o hermetismo cristão e alquímico manteve com a Maçonaria. Graças à recuperação da filosofia platónica, impulsionada na Itália por Marsilio Ficino e Pico da Mirándola, assiste-se, nessa época, a um novo ressurgir da tradição e do saber hermético, onde há que se incluir a Magia Natural e a Cabala cristã. Livros como De Harmonia Mundi de Francesco Giorgi, a Cabala Denudata de J. Reuchlin, a Mónada Hieroglífica de John Dee, e a Filosofia Oculta de Cornélio Agripa, entre tantos outros, exerceram uma grande influência nos círculos herméticos de toda a Europa. Em tudo isto há algo importante a assinalar: devido à fraternidade que se criou no período Medieval entre os agrupamentos herméticos e os grémios de construtores, era perfeitamente normal que numa época como o Renascimento – onde o suporte de uma civilização tradicional estava já bastante debilitado – esses vínculos fortaleceram-se com o fim de salvaguardar os valores da tradição e da doutrina.

Francisco Ariza

Adaptado de tradução feita por Sérgio K. Jerez

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