O enigma da pedra cúbica pontiaguda

O Maçon deve talhar a pedra para que ela ocupe um lugar na construção do templo fraternal da humanidade. Ele deve, metaforicamente, passar do estágio de pedra bruta ao de pedra cúbica…. mas onde ele pode colocar uma pedra cúbica com uma ponta neste edifício simbólico? E a que poderia servir o machado que muitas vezes vemos plantado sobre antigos painéis de loja?

A pedra cúbica pontiaguda chamou minha atenção desde a minha admissão à loja. Depois de ter feito o juramento como todos os aprendizes, fui convidado a realizar meu primeiro trabalho sobre a pedra bruta. Nas mãos um malhete e um cinzel … de madeira, e como pedra bruta, um pedaço de pedra duas vezes menor que a pedra talhada posicionada próximo: a dimensão operativa sofreu um golpe! Cheguei à conclusão de que os meus novos irmãos “especulativos” tinham apenas uma visão muito distanciada das restrições da matéria; que o termo pedra bruta “capaz” lhes devia ser desconhecido (tal pedra é necessariamente maior que a pedra cortada que deverá ser extraída dela) e que, na verdade, e como me tinha sido dito “tudo aqui não passava – realmente – de símbolo”! Simultaneamente, notei que a ambição atribuída ao Maçon consistia em talhara  sua pedra bruta para fazer dela um tijolo na construção do Templo da Humanidade . Símbolo rico, que, no entanto, se confrontava com a visão no Oriente de uma pedra esculpida encimada de uma ponta: a que os construtores poderiam destinar um objecto tão barroco?

“Você vai entender mais tarde”!

Como companheiro, eu tinha acesso às pranchas que davam este símbolo significados especulativos pouco convincentes . O estudo da história foi, mais uma vez, a minha salvação. Mas foi preciso esperar até 2013 para ter a chave para este mistério, graças à exposição A Régua e o Compasso do Museu da Maçonaria da Rue Cadet. Que seja aqui agradecido ao Comissário desta exposição, Jean- Michel Mathonière, historiador do Companheirismo: é a ele que devemos um novo olhar sobre o conhecimento especulativo dos operativos na arte da perspectiva, bem como o sésamo para entender a origem dessa misteriosa pedra cúbica pontiaguda a partir de obras do século XVII onde os “especulativos” tinham conhecimento e que eles usaram – sem compreendê-los muito bem – para apoiar o seu simbolismo.

A condescendência do intelectual

Os maçons “especulativos” tinham, muitas vezes, sobre os “operativos” o olhar do intelectual sobre o manual, seria inútil esconder isto! Claramente, os nossos antepassados fundadores tiveram mais ou menos a mesma atitude, e eles equivocaram-se grosseiramente sobre as capacidades intelectuais dos construtores. Assim, os operativos consagravam dez anos ao estudo da teoria e da prática para aceder à completa maestria da arquitectura e da construção, a arte do traçado, da perspectiva e da projecção no espaço (uma arte e técnica resumidas sob o título “estereotomia”). Pelo interesse sincero nas tradições dos construtores que fundam o seu corpus simbólico, os maçons são, mergulharam por sua vez nas obras de estereotomia tais como os manuais de Abraham Bosse [1], muito difundidos nos séculos XVII e XVIII. Mas eles interpretaram incorrectamente algumas figuras, chegando a criar este objecto improvável que é a pedra cúbica pontiaguda.

As fontes de pedra cúbica pontiaguda

Jean-Michel Mathonière apresentou numerosas obras tratando da estereotomia como parte da exposição A Régua e o compasso sobres as fontes da Compagnonnage da maçonaria especulativa. A origem da pedra pontiaguda está escondida numa gravura retirada de uma obra célebre junto aos canteiros Compagnons, um manual altamente detalhada de Abraham Bosse. Os maçons especulativos, descobrindo esta gravura, mas não dispondo de ferramentas conceituais para desvendar o significado, cometeram um duplo erro: desprezar o saber dos construtores e canteiros, percebidos como meros trabalhadores quase analfabetos e pretende interpretar uma figura sem dispor de conhecimentos necessários. E é assim que um modelo de projecção em perspectiva tornou-se um objecto material em volume. As quatro linhas que aparecem sobre o cubo, na verdade, representam tanto o traçado de linhas de perspectiva de um ponto de vista “zenital” ou de uma “cobertura em tenda” conforme indicado na legenda. Temos portanto, aqui, a combinação de um objecto cúbico e de simples linhas de fuga independentes. Para um especialista como Jean- Michel Mathonière, a chave é evidente: vejam aquela pequena linha marcada com uma estrela? Ela designa uma “perpendicular”, conforme materializado pelo fio de prumo aplicado a uma das faces do cubo que é, ele, de facto material. Mas o estrago já estava feito há muito tempo: a “pedra cúbica pontiaguda” nascida da imaginação fértil dos amantes de um simbolismo exaltado, generalizou-se rapidamente, primeiro sobre os painéis de loja e os seus diferentes avatares incluindo aventais decorados, e depois na maioria dos templos.

“Sub Ascia” [2]: o mistério complica-se!

O tempo passou . Aí eu passei a companheiro e instado a apresentar uma prancha sobre esta misteriosa pedra cúbica “pontiaguda” e “sob o machado” conforme a descobrimos em alguns tratados simbólicos criativos (particularmente Boucher, Berteaux, Wirth, Plantagenet que se distinguiram numa exaltação interpretativa frenética).

Como sou um perfeccionista por natureza, pesquisei bastante antes de oferecer uma prancha visando a estrutura interna desta pedra misteriosa, uma vez dividida pelo machado. Confessemos, eu não estava convencido por minha brilhante demonstração, mas aparentemente o exercício contou e me levou a ser elevado ao mestrado numa bela noite de Maio.

A chave é aqui de uma elegante evidência quando se quer dar ao trabalho de estudar os antigos painéis de loja e as gravuras de obras especulativas, mas também operativas. Nas obras técnicas de estereotomia, a pedra cúbica, pedra “talhada” é frequentemente representada ao lado da ferramenta usada para moldá-la: um “martelo de corte”. Um olho destreinado a toma facilmente por espécie de machado ou uma pequena picareta. Mais uma vez, uma coisa levou a outra, mudanças em ajustes no desenho original, e acabarmos por plantar um simples machado sobre a ponta fictícia da nossa infeliz pedra cúbica que se tornará ao final uma “pedra cúbica pontiaguda subascia”.

Numa palavra …

A origem deste objecto improvável tendo sido perdida, ele vai gradualmente ganhar o cobiçado status de mistério esotérico, ainda mais profundo que ele tem realmente e que, portanto, a imaginação fértil lhe pode dar … que o Grande Arquitecto nos proteja do zozotérismo desenfreado!

Ronan Loaec

Adaptado de tradução feita por José Filardo

Fonte: Bibliot3ca

Notas

[1] Abraham Bosse é um teórico do século XVII, redactor de diversos tratados inspirados de teorias perspectivas do geómetra Desargues: a sua tradução em várias línguas atesta a importância a eles atribuída. Estes incluem, nomeadamente: Tratado das Maneiras de Gravar em Talhe Doce . (1645), Tratado de práticas geometrais e Perspectivas ensinadas na Royal Academy (1665).

[2] Sub Ascia: do Latim, a descoberto, sem sombra

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