Formação – Descida aos Infernos

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Para se distinguir da multidão que permanece supérflua na sua maneira de pensar, convém aprender a meditar profundamente. Para este efeito, impõe-se o isolamento silencioso, porque nós não podemos seguir o curso dos nossos pensamentos, senão evitando aquilo que nos distrai; retirar-se para a solidão foi, pois, outrora, o primeiro acto do aspirante à sabedoria. Fugir do tumulto dos vivos para se refugiar perto dos mortos, afim de se inspirar naquilo que eles sabem melhor do que nós, tal nos parece ter sido o instinto dos mais antigos adeptos da Arte de pensar.

A deusa da Vida, a grande Ishtar, instruía os sábios pelo seu exemplo, quando, voltando o seu rosto na direcção do país sem retorno, ela renuncia aos esplendores do mundo exterior para penetrar nas trevas de Aralou. É preciso descer a si para se iniciar. Os heróis mitológicos, cujas explorações subterrâneas nos são poeticamente contadas, foram Iniciados vitoriosos do ciclo das provas inelutáveis.

Na realidade, o Inferno dos filósofos não é outro senão o mundo interior que trazemos em nós. É o interior da terra, ao qual se reporta o preceito alquímico: Visita Interioria Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem, frase cujas palavras têm por inicial as sete letras de Vitriol. Esta substância devia levar o Hermetista a visitar o seu próprio interior, a fim de aí descobrir, rectificando-se, a Pedra escondida dos Sábios. Trata-se de uma pedra cúbica que se forma no centro do ser pensante, quando ele toma consciência da certeza fundamental em torno da qual se realizará a cristalização construtiva do Templo da suas convicções.

Ao despojamento maçónico dos metais corresponde, em Alquimia, a limpeza do indivíduo, ao qual nada deve aderir que seja estranho à sua substância. Tomada tal precaução, o indivíduo é introduzido no Ovo filosófico, onde ele será incubado até à sua eclosão.

Em Maçonaria, o Ovo hermeticamente fechado, onde o indivíduo é chamado a morrer e a se decompor, toma o aspecto de uma cripta funerária dita Câmara de Reflexões. É de ordinário um espaço reduzido, organizado num porão, cujas paredes negras trazem, em branco, inscrições do género das seguintes:

  • Se é a curiosidade que aqui te conduz, vai-te.
  • Se temes ser esclarecido sobre teus defeitos, estarás mal entre nós.
  • E és capaz de dissimulação, treme, serás descoberto.
  • Se te aténs às distinções humanas, sai; aqui não se reconhece nenhuma delas.
  • Se tua alma sente pavor, não vá mais longe.
  • Se perseverares, serás purificado pelos elementos, sairás do abismo das trevas, verás a luz.

Encerrado neste lugar, o recipiendário despojado dos seus metais senta-se diante de uma pequena mesa, em face de uma caveira cercada por duas taças, uma delas contendo sal e outra, enxofre. Um pão, um cântaro com água e material necessário à escrita completam as ferramentas do in pace, onde o prisioneiro se deve preparar para morrer voluntariamente.

As frases que pode ler e os objectos que surpreendem a sua visão à luz de uma lâmpada funerária levam ao recolhimento. Se o recipiendário entra no espírito da mise em scène ritualística, ele esquecerá o mundo exterior para voltar-se sobre si mesmo. Tudo aquilo que é ilusório e vão apaga-se diante da realidade viva que o indivíduo traz dentro de si. No fundo de nós reside a consciência; escutemo-la. Que responde ela às três questões que se colocam ao futuro iniciado? Quais são os deveres do homem em relação a Deus, a ele mesmo e aos seus semelhantes?

Deus é uma palavra que não poderia ser retirada da linguagem dos sábios, porque a inteligência humana se consome em esforços constantes para conceber o divino. Representações grosseiras tem tido lugar, no decorrer de inumeráveis séculos, chegaram ideias mais subtis, mas o enigma do Ser permanece sem solução. Nenhum pensador adivinhou a palavra daquele que é, e, quando hierogramas nos são propostos como solução, esses não são senão símbolos de um indecifrável Desconhecido.

Deus permanece o “X” de uma irredutível equação.

O aspirante à luz aí verá a tradução da homenagem rendida pelo homem àquilo que sente acima dele. Seria razoável atribuirmo-nos o mais alto lugar na escala dos seres, a nós, miseráveis parasitas de um globo ínfimo perdido da imensidão cósmica? Somos menos que o grão de areia arrastado pelo vento que sopra numa praia. Se existimos, é em razão daquilo que repercute em nós: forças que estão tão pouco sob o nosso controlo que nem mesmo as conhecemos. Perguntemo-nos, pois, com toda humildade, o que devemos àquilo que está acima de nós?

O simbolismo maçónico sugere que tudo se constrói e que a tarefa dos seres é construtiva. Um imenso trabalho realiza-se no universo e o género humano dele participa à sua maneira. O dever do homem é, pois, trabalhar humanamente, cumprindo a tarefa que lhe é assignada. Isto equivale dizer, em linguagem mística: o meu dever em relação a Deus é o de me conformar à sua vontade, visando associar-me à sua obra de criação que é eterna. Eu desejo ser o agente dócil, enérgico e inteligente do Arquitecto que dirige a evolução e assegura o progresso. Tenho, em relação a mim mesmo, o dever de desenvolver-me pela instrução e aplicação ao trabalho; enfim, eu devo a meus semelhantes ajudá-los a instruir-se e a bem trabalhar.

Quando o recipiendário está assim orientado, ele liquida o seu passado profano, redigindo o seu testamento. Despojado dos seus metais, ele não possui mais nada que possa legar. De que pode dispor então, a não ser dele mesmo e da sua energia activa? Ele testa, renunciando aos erros passados, tomando irrevogáveis resoluções para o amanhã.

O sal e o enxofre da câmara de reflexões têm por que intrigar ao recipiendário entranho à Alquimia. Estas substâncias fazem parte de um ternário que se completa pelo mercúrio. Tudo, segundo o Hermetismo, compõe-se de enxofre, mercúrio e sal, mas estes três princípios fazem alusão:

  1. À energia expansiva inerente a toda individualidade;
  2. À esta mesma energia proveniente de influências ambientais que se concentram sobre a individualidade;
  3. À esfera de equilíbrio resultante da neutralização da acção sulfurosa centrípeta penetrante e compressiva.

O isolamento, a subtracção às influências exteriores condenam à morte o indivíduo privado do enxofre mercurial que mantém a vida. Quando o enxofre queima num invólucro de sal tornado impenetrável ao ar que mantém o fogo vital, tende a extinguir-se, reduzido a incubar-se sob as cinzas salinas. Tal é precisamente o estado do recipiendário que sofre a prova da Terra; ele é enterrado no solo, como o grão chamado a germinar.

É preciso que o seu núcleo espiritual se desdobre interiormente, tomando posse da sua caverna sulfurosa. Comecemos por reinar sobre o nosso Inferno, se quisermos sair para conquistar o céu e a terra.

Autor desconhecido

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4 thoughts on “Formação – Descida aos Infernos

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    A decida au inferno não foi desconfortável não! Que saber!? Foi muito boa a condução

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    Errado… Subida ao céu!

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    Autor desconhecido! Filósofo desconhecido eu diria. Certamente Ser de muita sabedoria.

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      Tem toda a razão. Infelizmente não consegui identificar o autor. Se algum leitor souber quem é, agradeço que me informe. Cumprimentos. António Jorge

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