Geometria arcana (Segredos e mistérios)

A linguagem sagrada

O mito e o símbolo são os depósitos mais antigos da ciência humana. Eles são a forma mais comum de manifestação da sabedoria do nosso inconsciente. Como não temos uma linguagem adequada para expressar essa sabedoria, a nossa mente a traduz na forma de sonhos e visões, que são a forma pela qual o nosso inconsciente se comunica connosco. E como não temos um método apropriado para expressar o conteúdo dessa comunicação, a nossa mente a transforma em fábulas, metáforas, alegorias e símbolos, que são formulações linguísticas representativas dessas verdades metafísicas que a mente não consegue traduzir em linguagem lógica.

A história religiosa e o folclore de todos os povos nasceram assim, de conteúdos inconscientes decodificados em elementos simbólicos que são expressos pela linguagem verbal dos símbolos, mitos, fábulas e alegorias e pela linguagem não verbal dos ritos e da imitação anímica. As descobertas arqueológicas mais recentes estão a mostrar que praticamente toda a teologia nasceu de uma origem comum, fundada em crenças abstractas, desenvolvidas pelos Antigos Mistérios, que de uma forma geral eram praticados por todos os povos antigos, pois todos eles compartilhavam dos mesmos arquétipos.

O mesmo fenómeno ocorreu com a linguagem escrita. Salvo raríssimas excepções, todas eram icónicas e reivindicavam origem sagrada, oriunda dos próprios deuses. É o caso da escrita hieroglífica, por exemplo, cuja tradição afirmava que tinha sido ensinada aos egípcios pelo Deus Toth, durante o reinado de Osíris. Os antigos egípcios, como se sabe, empregavam três tipos de escrita, que eram usados conforme o assunto. A hieroglífica para assuntos sagrados, a demótica para o uso comercial e a herática, que era uma espécie de escrita popular, coloquial, usada pelo povo em geral. A escrita hieroglífica era aquela que lhes fora ensinada directamente pelos deuses.

Também os povos mesopotâmicos acreditavam que o seu alfabeto cuneiforme fora trazido à terra pelo Deus Enlil, da mesma forma que o sânscrito teria, segundo os hindus, uma origem divina. Nem os hebreus escaparam desta tradição, pois segundo os adeptos da Cabala, o alfabeto hebraico também foi gerado no céu.

De acordo com os ensinamentos da Teosofia, o primeiro idioma da espécie humana era monossilábico, falado pelas primitivas raças que povoaram a terra. Tratava-se de um sistema aglutinante, polissilábico, que foi primeiro utilizado pelos povos atlantes. Este idioma seria a raiz do sânscrito, o qual, por sua vez, teria sido o pai de todas as línguas modernas.

A linguagem da Maçonaria

Assim também são os símbolos naturais e artificiais usados pela Maçonaria para representar as mais diversas noções desenvolvidas na sua prática. Esta tradição fundamenta-se em conhecimentos arcanos, transmitidos de geração em geração, através da tradição oral. É a sua linguagem, segundo a qual os Irmãos se comunicam entre si e conservam os elementos da cultura do grupo, e segundo os quais também se reconhecem em todo o mundo.

Esta é uma prática que acompanha a tradição iniciática desde o seu início. H. P. Blavatsky informa que

desde tempos imemoriais os mistérios da Natureza foram registados pelos discípulos dos Homens Celestes, em figuras geométricas e símbolos, cujas chaves passaram através das gerações de homens sábios e dessa forma vieram do Oriente para o Ocidente. O Triângulo, o Quadrado, o Círculo, são descrições mais eloquentes e científicas da evolução espiritual e psíquica do universo do que todos os volumes de Cosmogênese[1].

Os Mistérios de Isis e Osíris, os Mistérios de Mitra, de Brahma, de Indra, Dionísio, Elêusis, etc. , são exemplos dessas tradições praticadas por todos os povos antigos. De uma forma geral, todos esses Mistérios buscavam “religar” o profano ao sagrado, através da imitação do processo que causava a vida e a morte. Diz-se que nas iniciações a esses Mistérios os segredos da origem do universo eram relatados pelos hierofantes numa linguagem cifrada e os iniciados deviam registá-la através de símbolos ditados pela sua sensibilidade. Assim, o mundo podia ser representado através de um círculo com um ponto no meio, da mesma forma que outros conceitos esotéricos recebiam diferentes conformações geométricas e pictóricas, as quais, se julgadas correctas pelos mestres, eram definitivamente adoptados.

Desta forma nasceram os mais diversos símbolos para representar os mais diferentes conhecimentos arcanos. Destarte, iremos encontrar números e figuras geométricas como expressão de conhecimentos sagrados em todas as escrituras antigas. E iremos perceber que todas as cosmogonias (histórias de criação do mundo), são representadas mais ou menos da mesma forma: por um círculo, um ponto, um quadrado, um triângulo; e praticamente em todas estas demonstrações simbólicas encontraremos o número sete a representar o tempo da criação universal, ou as sete “rondas” às quais a humanidade terá que passar para cumprir o seu destino escatológico. Na Bíblia são os sete dias da criação, citados em Génesis, 2:1,3. Segundo a Doutrina Secreta a humanidade deverá viver sete ciclos ou “rondas”, até completar o seu destino na terra. A nossa era corresponde à quarta “ronda” [2].

O ponto

O ponto é o elemento a partir do qual toda geometria se inicia. Ele é o princípio de tudo. Um ponto determina uma posição no espaço, razão pela qual ele é o símbolo que dá uma ideia de começo. Em termos geométricos, pontos não possuem volume, nem área, comprimento ou qualquer dimensão semelhante mensurável ou observável, razão pela qual ele é o próprio símbolo do infinito. Assim, a dimensão de um ponto é igual a zero, ou seja, uma esfera de diâmetro zero.

Na geometria Euclidiana, um ponto é definido como “o número que não tem partes”. Isto significa que o que o caracteriza é a sua posição no espaço e não o seu valor absoluto. Com o desenvolvimento da geometria analítica, o ponto passou a ser o elemento numérico a partir do qual as demais posições podem ser analisadas através de coordenadas. Na filosofia de Aristóteles o ponto é o número ilimitado, que é composto de infinitas partes. Ele é o limite da linha, indimensionável e imensurável.

Todas estas características matemáticas e geométricas do ponto fizeram dele um símbolo de extraordinário significado transcendental. Por ser representativo do primeiro momento da vida cósmica, na simbologia do saber arcano ele é o próprio Poder que se manifesta, ou seja, o instante em que a Divindade surge no mundo das realidades. Na ciência física é a representação do Átomo fundamental, que contém em si todas as formas futuras do universo.

Na Cabala ele é Kether, a primeira séfira, também chamado de Ain, o Princípio Único, a coroa da criação, chamado de Inteligência Admirável, Potência Incriada, origem de tudo que existe. É a chamada Existência Negativa que se manifesta em positividade, tornando-se Existência Positiva. Ele é a mónada da filosofia de Leibnitz, princípio primeiro, único e fundamental, a partir do qual o universo foi gerado. Na física atómica, este símbolo é chamado de Singularidade, ou seja, um lugar no vazio cósmico (partícula ou átomo) onde a densidade da matéria é tão grande que a relatividade geral deixa de existir. Ou seja, o corpo celeste que explodiu, produzindo o chamado Big-Bang, que segundo a moderna ciência astronómica, foi a origem do universo [3].

O círculo

Nas antigas tradições o circulo representava o universo primordial, o ”ovo cósmico”, configuração inicial do cosmo, onde tudo estava encerrado. Esta manifestação do espírito dos povos antigos mostra que nesses primórdios da vida da humanidade já se intuía a forma esférica dos corpos celestes e dos grãos fundamentais da matéria, os átomos, e também do próprio universo, que segundo a moderna astronomia também apresenta essa forma geométrica.

Em si mesmo ele condensa todas as formas e expressões do universo em potência, assim como o ovo condensa a forma do ser que ele encerra. Na mitologia celta o universo nascente era representado na forma de uma serpente que envolvia todo o vazio cósmico e tinha a cauda unida à cabeça. Na iconografia arcana, que é reproduzida também na simbologia alquímica, o circulo é representado através de uma serpente que engole o próprio rabo, a chamada Serpente Ouroboros, significando que o universo é uma potência que subsiste de si mesmo, isto é, ele gera a própria energia, alimentando-se de si próprio. Este processo, na moderna física atómica, é conhecido pelo sugestivo nome de Boot Strap, literalmente “alça de bota”, significando que o universo se sustenta da própria energia, “erguendo-se pelas alças das próprias botas”.

O círculo e o ponto

O círculo com o ponto inscrito no centro representa o nascer do universo, momento em que a luz é tirada das trevas, ou seja, quando o Grande Arquitecto se manifesta em Luz (potência masculina, positiva, electricidade, yang).

Matematicamente ele corresponde ao número dois, segunda manifestação da Divindade no mundo material. Segundo a intuição vedanta, esse é o momento sublime em que Bhraman, a alma do cosmo, se manifesta como existência real. Visão correspondente é a da tradição gnóstica que vê nela o momento em que o “ovo cósmico” é fecundado pelo Espirito Divino.

Na física é o instante em que o Big-Bang libera a energia luminosa que dará origem às realidades cósmicas. Corresponde à primeira lei que rege a formação cósmica, ou seja, a lei da relatividade, que permite a expansão do universo a partir do momento inicial da grande explosão.

Daí em diante a luz liberada a partir desse ponto inicial ir-se-á espalhar pelo vazio cósmico, e a sua condensação, forçada pela segunda lei, a da gravidade, permitirá o aparecer da matéria universal e o seu agrupar em sistemas funcionais. Esta visão, que é defendida pela moderna ciência astronómica, já tinha sido intuída pelos sábios da antiguidade, pois ela aparece concomitantemente em todos os livros de sabedoria antiga. No hino Nãsadiya, ou o “hino da criação”, do Rig-Veda, por exemplo, diz-se que “ no princípio Brhaman repousava sobre si mesmo, prenhe dos seus mundos futuros”.

A Bíblia informa que Deus fez o mundo tirando a luz das trevas. Esta visão corresponde à explosão do Big Bang, sendo hoje compartilhada inclusive pelos sectores mais liberais da Igreja Católica, que têm deixado de invocar as teses criacionistas para justificar a existência do universo. Ela foi expressa pelo Papa Bento XVI numa das suas homílias, na qual ele diz que

“a mente de Deus esteve por trás de teorias cientificas complexas como a do Big Bang, e os cristãos devem rejeitar a ideia de que o Universo tenha surgido por acaso”.

O círculo, o ponto e o triângulo

Foram os filósofos hilozoístas que lançaram a ideia de que o universo é construído através de um processo onde a vida que nele existe se manifesta em diferentes etapas, cada espécie com a sua forma particular, que por sua vez se subdivide em infinitas outras, que podem ser compostas ou simples, sendo cada uma delas a expressão de uma alma que as anima ou nelas habita. Cada uma, segundo a forma e a evolução que nela se processa desenvolve um determinado grau de consciência. Daí a hierarquia existente entre as diversas formas de vida existentes no universo material [4]. O Princípio Universal, primeiro e único, segundo o qual a vida se manifesta no Universo é Deus. É a Vontade de Ser, o Logos, o Verbo Fundamental que se faz por si mesmo e se transforma em matéria universal. Daí ser a filosofia hilozoísta uma espécie de panteísmo universal, tendo em vista que ela admite a existência de um Ser Único, Deus, como sendo uma força, uma energia que se manifesta, não como uma entidade, segundo os cânones das religiões reveladas, mas como uma lei natural que dá vida e organização ao universo real. Esta energia multiplica-se numa infinidade de formas, que se relacionam entre si, entrelaçam-se e criam outras formas, que no conjunto, constituem o universo na sua multiplicidade infinita.

No centro desse infinito mar de formas encontra-se a Consciência Cósmica que a tradição vedanta chama de Sanat Kumara, e a Cabala de Senhor do Mundo, o Ancião dos Dias. Ele é o centro de toda existência, que se manifesta através de um ponto no vazio do infinito, o qual, por força da energia irradiada a partir desse ponto, assume uma forma esférica, circular. E dentro dessa esfera, por força da própria energia irradiada, forma-se um triângulo de energias que se espalha pelo nada cósmico gerando os mundos e organizando-os segundo as funções que cada um exerce na totalidade da vida universal.

Estas concepções foram desenvolvidas pela filosofia oriental, principalmente na cosmogonia dos Vedas. Depois foram adoptadas pelas escolas teosóficas, que as transformaram num vasto sistema cosmogónico que explica, orienta e prevê o desenvolvimento da vida no universo, mostrando como ele nasceu, desenvolveu e se desenvolverá, bem como o comportamento da vida dentro dele, nas suas manifestações passadas, presente e futuras [5].

Também na grande tradição da Cabala essas mesmas ideias estão presentes, desenvolvidas através de ricas metáforas e um expressivo simbolismo que transforma em “entidades” chamadas de anjos e demónios as energias fundamentais que formatam e regem a vida do universo [6].

Porém, o que nos interessa no presente estudo são as relações simbólicas que elas assumem na tradição maçónica, as quais são todas inspiradas no hilozoísmo, ou mais propriamente, na filosofia de Pitágoras, cuja maior expressão nos é passada através da geometria.

Neste sentido, podemos interpretar as figuras geométricas representadas pelo ponto, o círculo e o triângulo, em relação com as proposições filosóficas que elas inspiram, as quais podem ser dispostas conforme segue.

O círculo com o ponto inscrito dentro de um triângulo representa o universo em equilíbrio. É a representação geométrica do processo segundo o qual o universo nasce, desenvolve-se e se equilibra através das próprias forças que nele actuam de forma natural.

Na tradição da Cabala esse desenho corresponde aos três primeiros componentes da Árvore Sefírótica, Kether (a coroa), Chokmah (a sabedoria) e Binah (a compreensão), que se unem para formar tudo que existe no universo, também conhecidos pelos nomes de Am (Kether), Am Soph (Chokmah) e Ain Soph Aur (Binah). Estas três representações da acção divina no mundo das realidades fenoménicas correspondem à acção da Divindade manifestando-se como matéria e dividindo-se em dois princípios, o masculino (Chokmah, o universo representado pelo círculo) e o feminino (Binah, representado pelo triângulo).

Na doutrina cristã essa representação pictórica corresponde à chamada Santíssima Trindade, ou seja, o Pai (Kether, a coroa, representado pelo ponto), o Filho (Chokmah, a Sabedoria representado pelo círculo), e o Espirito Santo (Binah, a compreensão, representada pelo triângulo) [7]. Esta simbologia tem correspondência em praticamente todas as religiões dos povos antigos. Na tradição vedanta, essa representação é feita por Brhama, Vixnu e Chiva, a divina trindade hindu que dá origem e sustentação ao mundo. Para os antigos egípcios representava a união da sagrada família, formada por Osíris, Isis e Hórus. Para os taoistas, representa o Tao, Princípio Único que dá origem à toda realidade e as suas duas derivações, o masculino e o feminino, que se unem para proporcionar o perfeito equilíbrio, representado pelo triângulo.

Na moderna física atómica esses símbolos correspondem às três leis básicas de constituição universal: relatividade, gravidade e magnetismo.

Segundo a teoria de James Clark Maxwel, as leis da relatividade, da gravidade e do magnetismo, actuando sobre a matéria universal, formam campos energéticos que transmitem acções de um lugar para outro. Estes campos comportam-se como “entidades” dinâmicas que podem oscilar e mover-se no espaço. São as ondas e as partículas, que constituem as formas atómicas da matéria [8]. Na Cabala essas “entidades” correspondem aos “anjos” que supervisionam a formação do universo. Esta analogia é nossa, mas é uma intuição que nos parece muito clara quando comparamos as descrições que os cabalistas fazem dos chamados “anjos construtores do universo”, com as propriedades dos átomos que constituem a matéria universal.

Para a Maçonaria, triângulos, pontos e círculos são símbolos extremamente representativos, que tem larga utilização na metalinguagem utilizada para a veiculação dos seus ensinamentos.

O mundo maçónico é um mundo geométrico por excelência. O círculo é o mundo no seu início, o ponto é o seu conteúdo potencial, o triângulo é o universo organizado, a ordem posta no caos inicial. Por isso, na comunicação maçónica encontraremos uma larga utilização desses símbolos geométricos. Além da conotação puramente espiritualista que se quer dar às mensagens maçónicas, o simbolismo contido na comunicação feita em forma de pontos dispostos em forma de triângulos, veicula também um profundo conteúdo filosófico extraído dos princípios que norteiam a prática da Arte Real. Nestas mensagens pressupõe-se que na ideia ali exposta estão presentes os elementos de estabilidade defendidos pelos maçons: liberdade, igualdade e fraternidade, que, no entender da Maçonaria, constituem os três elementos básicos de uma sociedade justa e fraterna.

João Anatalino Rodrigues

[1] ,Síntese da Doutrina Secreta, op citado, pg. 125

[2] Idem, op citado, pg. 151. Estas noções são, evidentemente, inspiradas nos ciclos lunares.

[3] Conceito expresso por Stephen Hawking em O Universo Numa Casca de Noz- ANX – São Paulo, 2002

[4] Hilozoismo (hylé(matéria) + zoé(vida) é a doutrina filosófica segundo a qual toda a matéria do universo é viva, sendo o próprio cosmo um organismo material integrado, possuindo características como animação, sensibilidade ou consciência. Os seus principais representantes foram os gregos Tales de Mileto e Pitágoras.

[5] Veja-se, neste sentido, as obras de Helena P. Blavastsky.

[6] Veja-se a nossa obra Mestres do Universo, citada.

[7] Note-se que na tradição cristã, o princípio feminino (Binah), é substituído pelo Espirito Santo, denotando a nítida conotação patriarcal que a doutrina cristã (católica) deu à sua teologia.

[8] Fritjof Kapra, O Tao da Física, op citado.

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