O Homem e o Espelho

Fim de um tarde de verão, caminhava eu na Av. Elias Garcia, em Lisboa, talvez a pensar na “morte da bezerra”, quando na minha frente enfrento um grafiti assinado pelo “Velho do Restelo”, que dizia assim:

“Quem criou o espelho,
Conseguiu envenenar
A nossa pobre alma!”

Primeira interrogação, quem será este “Velho do Restelo”? Ele é a personificação do pessimismo do sucesso e foi introduzido por Luís de Camões na sua Obra “Os Lusíadas”.

Ideia camoniana na divisão entre o humanismo pacifista e o belicismo do recurso à força.

Tudo isto me fazia refletir, ao que se sobreponha o significado do epíteto, “envenenar a alma”.

Na verdade, todos dialogamos com o espelho na (Publicado em freemason.pt) nossa intimidade e quando nos assaltam certos estados de alma, estes diálogos são acompanhado de exercícios de contemplação.

Na iniciação começamos a refletir sobre a observância dos sentidos e ali sem esperarmos somos confrontados como o nosso pior inimigo, denunciado no reflexo da nossa imagem no espelho.

Na vida real, podemos perguntar: “qual a função do homem no espelho”?

Estará ele a olhar para si próprio, preocupado com o que os outros pensam dele? Examina e interroga a sua própria consciência? Estará a contemplar-se?

Já dizia o filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.): «Faz tudo, como se alguém te contemplasse».

Na nossa cultura, assiste-se à tentativa de destruição do espelho que nos acusa, onde ao longo dos séculos, o homem viu e reconheceu a sua imagem.

Por vezes com raiva buscamos uma outra imagem, mais verdadeira e autêntica, mais transparente, sem a necessidade de ocultação do rosto mascarado dos constrangimentos e das pequenas tiranias. No caminho da vida vamos tropeçando em dilemas de difícil resolução.

Modernidade ou liberdade total – do homem como um todo e de todos os homens? Falta-nos a resposta adequada.

Mas a modernidade quer queiramos quer ou, vai seguindo o seu inexorável caminho. Muitos, antes de nós, vão abrindo, “caminhos da verdade”. Galileu, vexado pelos inquisidores, ao reafirmar que a terra se move, é a imagem de um percursor das “novas vontades”.

Entre o céu e a terra, o homem vive, sofre, imagina e cria. Toda a cultura é uma insatisfação. Nas grutas de Altamira, o homem firmou um pacto de sangue com a inquietude. Ali começou a cultura e a inquietação.

O homem no olhar em seu redor, ou para o seu interior, vê-se rodeado de espaços difíceis de decifrar. Viver é criar e destruir fronteiras, entre os espaços exterior e interior.

Fernando Pessoa dá-nos no seu poema “A Múmia” uma interpenetração desses espaços, quando canta: «Andei léguas de sombra / Dentro em meu pensamento».

Na vida actual, o homem insatisfeito, afirma a sua individualidade em protesto contra o esmagamento da sua liberdade e destrói os símbolos.

Não será demais lembrar como definia Vitorino Nemésio: «O homem é um animal de símbolos» e como ele bem cantou o mar e a sua Ilha em versos:

Quando penso no mar, o mar regressa
Acerta forma que só teve em mim
Que onde ele acaba, o coração começa.

E, de assim começar, é abstrato e imenso
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.

Não restam dúvidas que é num espaço de sensibilidade de ideias que nos tornamos melhores, mesmo assim, teremos de cumprir o destino e o desejo de vermos sempre mais além. Não nos podemos perder, deveremos seguir um caminho onde cada um de nós se vá projetando no campo das virtudes e da fraternidade humana.

Já é hora de sermos um exemplo para os outros, compartilhando o conhecimento e criando empatia em redor, controlar as raivas e os desejos, aprender a viver, trazendo a felicidade, não só para ti, mas todos aqueles que estão próximos.

Ao fitarmos o homem do outro lado do espelho pela manhã, sabemos que nos estamos a “contemplar e analisar”, deveremos ver em cada dia, um homem novo crédulo num Mundo melhor, onde (Publicado em freemason.pt) a Alma refletida seja o Reflexo do Espírito. Será impossível engrandecer essa mesma Alma se a ela não estiver associada uma Mente Sã?

Não podemos enfrentar o complexo mundo de hoje e a escuridão do amanhã, sem uma reflexão aprofundada da nossa existência, sem voltarmos a colocar as prementes questões da filosofia, da religião e da moral e encontrar a nossa unidade mais profunda e holística.

É hora de seguir pelo melhor caminho, porque a única pessoa que estará sempre a acusar-nos, seremos nós próprios, do outro lado do espelho.

Que melhorias teremos que operar em nós, para sermos transparentes face ao espelho? Seguir o caminho em direção à Luz cultivando o bem e a tolerância com o nosso semelhante.

António Diniz Flores (Brotero)
R∴ L∴ José Bonifácio de Andrada e Silva, nº 108 (GLLP / GLRP)

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