Os símbolos Sal, Enxofre e Mercúrio da câmara de reflexões, e a sua génese e interpretação no REAA

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Sendo a Iniciação Maçónica um exemplo típico de Rito de Passagem, a mesma obedece sempre a uma estrutura ternária, em cuja fase preliminar, ou de separação, se isola o candidato do mundo que o rodeia, preparando-o para a fase central da cerimónia, dita liminar ou de margem, na qual se dá a transformação ontológica que permitirá a sua agregação ao novo grupo, que neste caso é a Loja.

O modo como se efectua esta separação difere consoante o Rito Maçónico praticado.

Assim, enquanto que nos Ritos Anglo-Saxónicos a mesma se concretiza pela passagem do profano por um simples recinto fechado e pouco iluminado, nos Ritos Continentais, este habitáculo, encontra-se também decorado com determinados objectos, de carácter simbólico, destinados a favorecer a reflexão do candidato, preparando-o para o que irá ouvir, na sua ressecção em Loja.

Distinguem-se, neste último caso, a Câmara de Preparação do Regime Escocês Rectificado, da Câmara de Reflexões dos Ritos Francês, Escocês Antigo e Aceito e, Antigo e Primitivo de Memphis-Misraim.

Se no Regime Rectificado a meditação do candidato é apenas suportada pela presença da Bíblia e, de um quadro alegórico relativo à brevidade da vida humana, na Câmara de Reflexões dos restantes Ritos Continentais são vários os símbolos presentes, complementando-se ainda os mesmos com mensagens inscritas nas paredes da divisória em questão.

Entre estes elementos figuram correntemente, dispostos sobre uma mesa, recipientes contendo Sal, Enxofre e, eventualmente, Mercúrio. A interpretação destes (Publicado em freemason.pt) símbolos é quase consensualmente associada a princípios Herméticos, apresentando, pois, uma origem alquímica, à semelhança da inscrição “VITRIOL”, também frequentemente presente em uma das paredes da Câmara.

Esta referencia consiste no acrónimo de uma expressão latina muito utilizada na iconografia alquimista: “Visita Interrior a Terrae Rectificandoque Invenies Occultum Lapidem” – (Visita o interior da Terra e purificando encontrarás a pedra escondida).

Atribui-se a origem desta expressão iniciática a um alquimista alemão do século XV, cujo nome hermetista foi Basile Valentin. Este monge beneditino, fiel na tradição alquimista e cabalista, multiplicou nas suas obras as chaves, alusões, jogos de palavras, acrónimos, fábulas e, alegorias, tornando os seus textos impenetráveis aos profanos curiosos.

Se esta interpretação alquímica dos símbolos Sal, Enxofre, e Mercúrio se torna hoje indiscutível no REAA, tendo mesmo migrado para os Ritos Egípcios, e até para o actual Rito Francês Groussier, será a mesma a original do Rito ?

Ou estaremos, pelo contrário, perante uma evolução do conceito de Câmara de Reflexões do REAA, a qual se terá vindo a enriquecer mediante a inclusão de novos símbolos, provenientes de diversos sincretismos de origens multiculturais, até ao ponto de se tornar no modelo da Câmara de Reflexões Maçónica ?

A resposta a esta questão obriga-nos a recuar aos primeiros vestígios de prática de uma fase de separação deste tipo, os quais, no caso da Maçonaria Francesa, remontam a 1737.

Na mais antiga divulgação publicada neste país, denominada de “Recepcion d’un frey-maçon”, documento este transcrito do relatório do tenente de policia Herault, é referido que no decurso de uma cerimónia de Iniciação, o candidato era conduzido pelo seu Padrinho a uma divisória privada de luz, na qual era interrogado no que concerne à sua vocação para ser Maçon.

Caso persistisse na sua decisão, era preparado para a entrada em Loja, por meio da recolha dos Metais, da privação da vista pela imposição de uma venda, e da materialização do estado “nem vestido nem despido”.

O sentido simbólico deste procedimento encontra-se revelado no Catecismo de Aprendiz do mais antigo ritual francês conhecido (Ritual de Luquet, 1745), no seguinte excerto:

P: Onde foste preparado para entrar em Loja ?
R: Nas Trevas.
P: Porquê ?
R: É para me recordar o caos donde tudo foi tirado.

Encontramo-nos, pois, perante uma exploração simbólica da ausência de iluminação, que confirma o carácter essencial assumido pelo mito da dualidade entre a Luz e as Trevas, como suporte dos Trabalhos da emergente Maçonaria Francesa, bem como a intenção clara de provocar no candidato uma preparação adequada à cerimónia na qual iria participar.

Estes dois aspectos são-nos confirmados pelo Abade Pérau, na sua divulgação “Le Secret des Francs-Maçons”, de 1742, na qual é referido “onde não deve haver nenhuma luz o que em todo o caso exprime já uma simbólica, e o desejo de colocar o recipiendário num estado psicológico apropriado”.

O “Quarto Escuro”, como é denominado em algumas fontes da época, irá complexizar-se pela inclusão de elementos tais como um livro de orações, ou de imagens alusivas à morte. Constitui um exemplo do primeiro caso o “Ritual de Uzerche”, datado de 1780, e uma referência do segundo aspecto o “Ritual do Duque de Chartres”, datado de 1784.

É contudo com a fixação do Rito Francês, em 1786, que encontramos uma descrição pormenorizada de uma Câmara de Reflexões próxima das actuais.

De acordo com o “Régulateur du Maçon”, publicado em 1801,

Esta câmara deve ser impenetrável aos raios do dia e iluminada por uma única lâmpada. As parede serão pintadas de negro e carregadas de emblemas fúnebres capazes de inspirar o receio, a tristeza, e o recolhimento. Frases de uma moral pura, máximas de uma filosofia austera (Publicado em freemason.pt) serão traçadas legivelmente sobre as paredes, ou suspensas emolduradas em diversos pontos deste isolamento. Um crânio, ou mesmo um esqueleto, se se puder obter um, recordarão ao neófito as coisas humanas.
Não deve haver neste quarto mais do que uma cadeira, uma mesa, um pão, um copo cheio de água, sal e enxofre em duas taças, papel, penas e tinta.
Sobre a mesa serão representados um galo e uma ampulheta. Debaixo destes emblemas colocar-se- á as palavras VIGILÂNCIA E PERSEVERANÇA”.

Constatamos, assim, que na Câmara de Reflexões original do Rito Francês se encontram presentes o Sal e o Enxofre, mas não existe qualquer referência ao Mercúrio e ao “VITRIOL”, correntemente utilizados no REAA, bem como nos Ritos Egípcios.

Nos primeiros Rituais dos Graus Simbólicos do REAA, datados de 1804, e publicados em 1820, numa colectânea denominada de “Guide des Maçons Écossais”, consta da Cerimónia de Iniciação a passagem do Postulante pela Câmara de Reflexões. Não figura, contudo, no Ritual do Primeiro Grau, qualquer referência aos objectos a considerar na mesma, ou à interpretação dada a este procedimento litúrgico.

A única alusão conhecida à Câmara de Reflexões original do REAA encontra-se num dos vários rituais manuscritos existentes, posteriores a 1804 mas anteriores ao “Guide des Maçons Écossais”.

Trata-se, concretamente, do Manuscrito XXVII da Biblioteca “Kloss”, pertencente à Grande Loja dos Países Baixos (Haia), no qual entre os elementos necessários para a recepção, se encontra a referência “A Câmara das Reflexões munida de um banco, uma lâmpada, um livro de moral, um copo de água e um pedaço de pão ou de biscoito”.

No discurso de Instrução deste Ritual, podemos encontrar a interpretação simbólica dada ao procedimento. Assim, “A câmara obscura na qual fostes preparado, recorda-vos que é no segredo e com um profundo recolhimento que é necessário pesar antecipadamente a sequência das vossas iniciativas, para que elas não venham a ser desafortunadas, ou perigosas para vós próprio”, hermenêutica esta na qual podemos encontrar um claro sentido racionalista, expresso no principio de que o pensamento e a prudência precedem a acção.

A primeira descrição mais consubstanciada de uma Câmara de Reflexões, neste Rito, apenas surge em 1829, na revisão dos rituais realizada pelo Supremo Conselho de França, publicada sob o titulo de “Anciens Cahiers 5829”.

Ficamos a saber através deste Ritual, que “Esta Câmara é obscura, somente iluminada por uma pequena lâmpada antiga; o interior representa uma gruta, sobre as paredes da qual se lêem diversas frases, como estas:”.

Segue-se a mesma enumeração de mensagens, já anteriormente definida no “Régulateur du Maçon”, para o Rito Francês. A descrição prossegue, com as seguintes referências:

“No fundo desta Câmara encontra-se um esqueleto humano e ossos. No meio está uma mesa rustica diante da qual se encontra um bloco de pedra bruta para sentar o Candidato.

Sobre a mesa encontra-se colocada a lâmpada, um crânio, ossos sobrepostos entrecruzados, um pedaço de pão, e um livro de moral, aberto no capitulo que trata da morte.

No chão, junto à pedra bruta, encontra-se um jarro cheio de água”.

Esta decoração parte claramente do conceito da Câmara de Reflexões do Rito Francês, religando-a à caverna iniciática dos ermitas, e enfatizando as imagens fúnebres, para acentuar bem o simbolismo da morte do Homem Profano, associando-se claramente esta interpretação a esta fase da Iniciação no REAA.

Todavia, muito embora as primeiras Câmaras de Reflexões Escocesas, pela ausência do Sal e do Enxofre, sejam ainda menos suspeitas de Hermetismo do que a utilizada no Rito Francês, não nos podemos esquecer que, muito embora a Maçonaria setecentista tenha tido uma vertente essencialmente assente na Fraternidade, não deixou de ter uma importante corrente estruturada em torno do Segredo.

Todas as distintas formas de Esoterismos Ocidentais (Alquimia, Rosa-Crucianismo, Cabala Hebraica e Cristã, Templarismo,…) que ao longo dos séculos XVI e XVII se desenvolveram com ampla proliferação bibliográfica, atingiram no decurso do século XVIII uma divulgação até aí inexistente, através de um grande incremento na tradução e, republicação das obras escritas nos séculos anteriores, por autores tais como Raymond Lulle, Arnauld de Villeneuve, Paracelso, Michel Maier, Basile Valentin, ou Cornelius Agrippa, entre muitos outros.

Esta circulação de ideias levou a que, na segunda metade do século das Luzes, numerosos Maçons se tenham interessado pela Alquimia, e que diversos Alquimistas tenham encontrado na Maçonaria o local privilegiado para a realização da Grande Obra, entendida como um conjunto de manipulações concretas, destinadas à descoberta da Pedra Filosofal, ou como uma forma de espiritualidade visando a elevação do Ser, através de uma união mística com o seu Criador.

O mito das origens alquímicas da Franco-Maçonaria começou a germinar, entre alguns Maçons setecentistas, encontrando-se o mesmo plasmado em numerosas referências da época, nomeadamente na obra “L’Étoile Flamboyante”, publicada em 1766, de autoria do Barão de Tschoudy.

Para este Irmão “Um exame sério de todos os objectos de pormenor trabalhados nas diversas práticas dos Franco-Maçons, e a exposição da maior parte dos seus emblemas, (…) pode tal vez legitimar a opinião que a ciência de Hermes seja a origem e o fim da confederação vulgarmente denominada de Franco-Maçonaria”.

O florescimento das correntes esotéricas na Maçonaria, sobretudo em França, gerou uma enorme multiplicidade de Graus, e de Sistemas concorrentes. Esta imensa diversidade (Publicado em freemason.pt) conduziu a que, em 1775, a Loja “Les Amis Réunis”, sob o impulso do Irmão Savalette de Langes, tenha constituído uma “Comissão de Graus e Arquivos” destinada a “chegar ao conhecimento da Verdade”.

Entre 1775 e 1780 foi reunida uma vasta Biblioteca de Rituais de Graus Maçónicos e, de obras alquímicas, tendo este processo culminado no levantamento de Colunas de uma Loja de investigação denominada “Les Philaléthes”, a qual promoveu a realização de um congresso, com trabalhos desenvolvidos até 1782, no qual os maiores nomes do ocultismo Maçónico da época, tais como Cagliostro, Mesmer, ou Touzay-Duchanteau, vieram apresentar as suas ideias.

Historiadores recentes, como Charles Porset, defendem que Savalette de Langes, cujas ligações a correntes racionalistas enquadradas no chamado Iluminismo Radical são hoje conhecidas, pretenderia realmente com esta iniciativa fazer compreender aos Irmãos das várias tendências, que nenhuma detinha, de facto, a Verdade.

Assim, a melhor solução seria a federação de todos sob a bandeira comum do emergente Grande Oriente de França, tratando-se, pois, toda esta movimentação de um projecto politico camuflado, em prol da centralização da Maçonaria numa única Obediência, o que se veio a concretizar já no final do século.

Como síntese das opiniões da época sobre este tema, não deixa de ser curiosa a posição do Irmão Willermoz, que veio a desempenhar um papel determinante na estruturação do RER.

Para ele, existiam três tipos de Maçons Alquimistas:

  1. Os que sustentavam que o fim da Maçonaria era a produção da Pedra Filosofal;
  2. Os que queriam, operativamente, descobrir a preparação desta panaceia;
  3. E aqueles que defendiam que “se ensina aos verdadeiros Maçons a arte única ou a ciência da Grande Obra por excelência pela qual o homem adquire a Sabedoria, opera em si mesmo o verdadeiro Cristianismo praticado nos primeiros séculos da era cristã e que se regenera corporalmente renascendo pela água e pelo espirito, segundo o conselho que foi dado a Nicodemo”.

É, pois, neste ambiente singular, no qual uma apaixonada procura das fontes autenticas da Maçonaria se mistura com as piores formas de charlatanismo ocultista, que os Grandes Ritos Maçónicos se vão começar a estruturar, convivendo estas correntes esotéricas com uma base filosófica predominantemente iluminista, que as rejeita, em prol de um Conhecimento fundamentado pela observação, e pela razão.

Não é, contudo, de esquecer que alguns dos principais intervenientes no processo de fixação do Rito Francês tiveram ligações aos “Philalétes”, e que vários membros do primeiro Supremo Conselho de França, do REAA, tinham pertencido, na origem do seu percurso Maçónico, à Loja-Mãe Escocesa de Paris (“Saint Alexandre d’Écosse”), na qual se praticava o Rito Escocês Filosófico, que era um Rito Hermético.

Por isso, muito embora se possa considerar que a vaga de fundo que levou à fixação do Rito Francês, do REAA, e até do RER não era conexa com algumas tendências mais acentuadamente hermetistas, não podemos assegurar, garantidamente, que todas as formas adoptadas tenham sido, à partida, isentas de contaminações destas correntes esotéricas.

Podemos, inclusivamente, constatar que em 1829, ano em que surge a primeira descrição de Câmara de Reflexões do REAA, nos encontramos já no período romântico da Maçonaria oitocentista, no qual foram introduzidas diversas interpretações Hermetistas, com o objectivo de descristianizar os rituais, acentuando-se, deste modo, o seu carácter deísta e, procurando-se referencias culturais tidas por mais universais do que as iniciais, de índole predominantemente cristã.

Entre os autores deste período começou, pois, a ser frequente uma religação da Iniciação Maçónica às iniciações aos Mistérios do Antigo Egipto, ou ao processo de Transmutação Alquímica, sendo a Câmara de Reflexões frequentemente associada a uma Caverna onde decorre a Prova da Terra, ou ao Athanor onde se realiza a fase da “Obra em Negro”.

Um dos autores maçónicos mais profícuos nesse sentido, Jean-Marie Ragon, identifica claramente a passagem pela Câmara de Reflexões com a prova da Terra, no seu “Ritual do Aprendiz”, ligeiramente posterior à “Revisão Murat” do Rito Francês, realizada em 1858.

Esta interpretação encontra-se igualmente presente nos primeiros Rituais dos Ritos Egípcios (Misraim, 1820 – Memphis, 1838).

Daí não ser de estranhar a introdução dos Símbolos Sal e Enxofre na Câmara de Reflexões do REAA, o que terá acontecido já na segunda metade do século XIX.

No principio do século XX, estes conceitos foram desenvolvidos e, aprofundados, em termos de analogias a diversas correntes esotéricas, ressaltando-se, neste aspecto, os contributos dos Irmãos Oswald Wirth, e Jules Boucher.

Deve-se ao primeiro destes simbolistas a realização de uma aprofundada hermenêutica da Iniciação no REAA, na qual são estabelecidos paralelismos com o processo de Transmutação Alquímica.

Para este autor “O simbolismo maçónico constitui com efeito uma estranha mistura de tradições retiradas das antigas ciências iniciáticas. Tem em conta o valor cabalístico dos números sagrados e rege o cerimonial segundo os mesmos princípios da Magia; por outro lado dispõe o Sol, a Lua e as Estrelas, tal como o prescreve a Astrologia.

Mas é a Alquimia filosófica, tal como a concebiam os Rosacrucianos do século XVII, a que apresenta as analogias mais surpreendentes com a Maçonaria.

Existe, numa e noutra parte, identidade de esoterismo, os mesmos domínios iniciáticos traduzem-se por alegorias retiradas, umas da metalurgia, outras da arte de construir. A Franco-Maçonaria não é, neste ponto de vista, mais do que uma transposição da Alquimia”.

Assim, para Oswald Wirth, “É o Gabinete de Reflexões, que corresponde ao recinto do alquimista, ao seu Ovo Filosófico hermeticamente fechado. O profano encontra aí a tumba tenebrosa, onde voluntariamente, deve morrer para a sua existência passada. Decompondo as camadas (Publicado em freemason.pt) que se opõem à livre expansão do gérmen da individualidade, esta morte simbólica é o preludio do nascimento do novo ser, que será o Iniciado. Este nasce da putrefacção, representada pela cor negra dos alquimistas.

O ritual Maçónico estabelece que, entre os objectos encerrados na Câmara de Reflexões, deve haver dois recipientes contendo um Sal, e o outro Enxofre. Porquê ? É impossível responder sem recorrer- se à teoria dos três princípios alquímicos: Enxofre, Mercúrio e Sal.”

Os trabalhos deste autor tiveram um enorme impacto, nos meios Maçónicos, durante quase todo o século XX, e constituíram uma reacção antagónica à corrente positivista que tinha predominado, no final do século anterior.

As suas ideias foram responsáveis pela entrada oficial do mito da Pedra Filosofal no substrato dos Graus Simbólicos do REAA, até aí suportados, tal como o Rito Francês, apenas pelos mitos da dualidade entre a Luz e as Trevas, da construção do Templo de Salomão, e de Hiram, tendo influenciado as revisões de rituais subsequentes.

A identificação dos símbolos Sal e Enxofre passou a estar indiscutivelmente ligada a princípios herméticos, justificando Oswald Wirth a ausência do Mercúrio pelo facto de o mesmo ter um carácter compressivo, associando-se às forças centrípetas, por oposição ao Enxofre, expansivo, e conectado com as forças centrifugas.

Dado que, simbolicamente, as forças centrípetas representam a acção do meio ambiente sobre o individuo, para Wirth “A exclusão de Mercúrio impõe-se com efeito, porque o Recipiendário necessita de realizar o isolamento total. Para chegar a conhecer-se, segundo o princípio socrático (…) é necessário que faça abstracção de tudo o que é exterior, a fim de se absorver em si mesmo e de se encontrar finalmente na presença do centro da sua individualidade.”

Deve-se, igualmente, aos trabalhos deste autor a apropriação do acrónimo “VITRIOL” pela Maçonaria.

Alguns simbolistas mais recentes, como Jules Boucher e Jean-Pierre Bayard consideram que o terceiro principio hermético, aparentemente omisso na decoração da Câmara de Reflexões, está na realidade presente no simbolismo do Galo, animal associado ao Deus Hermes, cujo nome latino é Mercúrio.

Estas identificações destes símbolos com os conceitos alquímicos consolidou-se tanto, que nos Rituais actuais, da Grande Loja de França, consta da decoração da Câmara de Reflexões um recipiente contendo Mercúrio.

Perante todo este percurso histórico, poderemos questionarmo-nos quanto ao sentido actual a dar a estes símbolos e, em que medida é que o mito da Pedra Filosofal pode acrescentar algo ao homem do século XXI. Um símbolo é sempre alguma coisa que se associa a uma ideia, a imagem visível de uma realidade invisível. Como tal, não só tem por missão transmitir um conceito mas, acima de tudo, de colocar aqueles a quem se apresenta num estado de receptividade, de intuição e, de reflexão, permitindo-lhes a realização de um trabalho sobre si próprios, que os levará, progressivamente, a descobrir a sua hermenêutica pessoal, penetrando profundamente no seu inconsciente.

O método simbólico não assenta assim, numa resposta codificada, mas no processo de descodificação em si, que oferece ao iniciado um meio de compreensão dos comportamentos humanos, plasmados em mitos de carácter intemporal.

O REAA é um método de prática maçónica essencialmente simbólico, no qual o símbolo se esconde e se revela em cada Palavra, Sinal, Toque, Paramento, Numero, Forma Geométrica, Cor e, conceito, num sistema particularmente organizado, no tempo e no espaço.

O símbolo constitui a essência do Rito, sendo este entendido como a via, e o suporte que colocam os símbolos numa relação ordenada, e progressiva.

Muito embora o percurso iniciático pelos sucessivos 33 Graus do Rito possibilitem ao Maçon Escocês uma iluminação crescente na via do Conhecimento e da Fraternidade, todo o conteúdo da Iniciação já se encontra presente na simbólica da Câmara de Reflexões, à qual o Irmão deve, permanentemente, retornar, independentemente do seu Grau e Qualidade, porque a procura da Pedra Escondida é, na realidade, iterativa, resultando assim a “purificação” numa necessidade permanente.

Vindo da obscuridade do “Chaos”, o trabalho sobre os símbolos permitirá ao Perseverante, gradualmente, com base num autoconhecimento acrescido, ir gerindo melhor os seus conhecimentos, e alterar as suas sensibilidades e afectos, integrando-se numa “Ordem” eticamente mais esclarecida, que lhe propiciará , com Sabedoria, Força e Beleza, vir a irradiar mais Amor Fraternal pelos seus semelhantes.

A analogia Alquímica é, apenas, mais uma forma simbólica de exprimir a possibilidade, e a necessidade, de aperfeiçoamento da pessoa humana, como etapa previa para a construção de uma Humanidade melhor, na qual, à semelhança dos dois triângulos entrelaçados presentes no Selo de Salomão (símbolo da Pedra Filosofal), se consigam conciliar, equilibradamente, objectivos e acções de sentidos divergentes, tais como a Justiça e a Fraternidade, o Rigor e a Misericórdia, o Abstracto e o Concreto, ou o Material e o Espiritual, posicionando-se o Maçon naquele centro, entre o Esquadro e o Compasso, para o qual deve sempre procurar retornar.

Só assim, reunindo “o que está em cima ao que está em baixo”, numa reacção de sublimação, cada um de nós poderá ser elevado, numa progressão ascendente da Terra para o Fogo e, realizar em si a verdadeira Grande Obra, que é a construção do seu Eu, vivendo de uma forma útil, e participando na construção de uma sociedade mais humanizada, pela Verdadeira Medicina da Fraternidade Universal.

Tudo isto poderá parecer utópico, mas não foram sempre as utopias que fizeram evoluir o Mundo?

Joaquim G. Santos

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