Reflexões sobre a espada

A espada, utilizada na maçonaria desde tempos antigos e remotos, permanece com a sua simbologia própria e inalterável. Símbolo da defesa impiedosa, da destruição, da manutenção e recuperação da própria dignidade apesar da sua essência, com absoluta energia, o símbolo da justiça. Símbolo, muitas vezes desperto da virilidade e como símbolo fálico, à excepção de raras personalidades históricas, guarda para si e para quem a possui, o poder de posse, da vitória, da justiça. Entretanto, na reflexão da sua própria simbologia e significado, é de se questionar quanto à sua existência e manutenção em ritos e cerimónias onde o amor, a paz e a harmonia enaltecem sobremaneira os três objectivos, quais sejam, a liberdade, a igualdade e a fraternidade. E para a sustentabilidade destas prerrogativas, prefaciamos trabalhos com a anunciação dos propósitos de cavar masmorras ao vício, edificando templos à virtude. E, concluímos com altos brados, desejando a todos, paz, harmonia e concórdia, ou, em cadeia louvamos a nossa união, ao som de Mozart.

Na revolução francesa, foi dado o brado, liberté, égalité ou mort, com a espada em movimentos e silvos breves e agudos, como instrumento de defesa desta prerrogativa. Desembainhar uma espada significava uma acção destrutiva, ou seja, a pena de morte declarada aos inimigos deste ideal. Embainhá-la significava o alerta, a vigilância a espera de um ataque iminente. Entretanto, na maçonaria, a liberdade, a igualdade e a fraternidade não sustentam paradigmas dogmáticos de lutas ou (Publicado em freemason.pt) de revoltas, mas sim fundamentos filosóficos de comportamento social.

Seja para o neófito, seja no início de uma sessão, encontramos o guarda do templo armado com uma espada, em posição de defesa significando que o templo está protegido após a verificação armada, interior e exteriormente. Sequer embainhadas estão, mas à mão dispostas à acção, ao pronto estabelecimento da ordem e da defesa quando julgado necessário. “Ninguém que ama o seu país pode auxiliar o seu progresso se ousar negligenciar o menor dos seus compatriotas” (Gandhi). Louvores ao acto heróico, volúvel e académico, apenas, todavia, pergunto: o poder de destruir o mal para preservação do bem e da justiça dependem do uso da força quando o perdão é próprio ao homem?

Simbólico ou não, verifica-se a manifestação do propósito inalterável da predisposição à luta armada, tendo-se a impiedosa demonstração de que, a agressão física é um pressuposto indelével de permanente estado de alerta, em oposição ao místico significado simbólico de uma filosofia existencial. Filosofia esta, desenvolvida numa cerimónia, onde a virtude, uma arte que deve ser cultivada com a palavra, com o amor, o que justifica, jamais ser necessário metaforizar um procedimento para a perfeita aceitação e compreensão de um comportamento, onde desafio armado com potencial à defesa, parece satisfazer uma necessidade oculta. E isto leva-nos a crer que estamos cultivando conceitos antagónicos, com padrões distorcidos pela própria definição, onde o simbolismo de um objecto, cujo valor intrínseco ao seu significado, nos leva a contradições evidentes.

A justiça tem como símbolo a espada, não como arma, mas como fiel de uma balança, manifestação da verdade, única e imparcial. A maçonaria tem a espada como símbolo da defesa armada. Uma contradição aos princípios de uma filosofia que tem como vector direccionado à pesquisa da verdade. E a verdade não se conquista com a força, afinal a verdade não é património de ninguém, é uma revelação da essência da natureza humana, o amor. A verdade pertence a um dos vértices de um triângulo com o amor e Deus. Conheça um deles e os outros lhe serão revelados.

Paradoxal comportamento, onde gesto e palavra se contradizem, manifestando-se em linha de colisão permanente, pois desde quando honra e dignidade se defende com arma? E a palavra, onde fica? Os grandes heróis e conquistadores, em toda história da humanidade, mantêm a sua plenitude através das armas enaltecendo o refrão, se queres a paz, arma-te. Mas sempre nos reportamos à arte de falar e nos enchemos de honras citando Sócrates, Buda, Jesus, entre tantos outros, dos quais os legados ainda hoje nos suprem à resistência das nossas amarguras e decepções. Apenas a palavra, a não violência.

Entretanto os princípios levam-nos a entender que, se queres a paz, ama teu próximo como a ti mesmo, porém, com a espada, arma própria à execução, à morte com requintes de crueldade. Ela está associada ao próprio juramento penalizando o perjuro cortando a sua cabeça, dilacerando o seu peito, arrancando as suas vísceras. E assim, ela está associada à lei dos contrários, dos opostos, da divisão, seja da unidade ou da pluralidade. Admitamos, pois, a sua integridade pela propriedade física de atrair a energia cósmica, transferindo-a para o seu portador que se potencializa como transmissor das suas virtudes.

A essencialidade e a existencialidade da instituição se contradizendo nos seus próprios conceitos. Se extraído este comportamento da nossa história, as necessidades ao confronto eram necessárias à preservação de princípios ou segredos, inerentes ao sucesso material de uma actividade, quando lojas de pedreiros se reuniam para discutir o andamento das suas construções de templos. Hoje, bem o sabemos, procuramos construir também templos, mas templos de comportamento social. Comportamento estruturado na moral e na (Publicado em freemason.pt) preservação da dignidade. Preservamos o conceito de que a instituição nada mais é que um ideário de comportamento estruturado na ética e na moral. Não obstante, permanecemos inflexíveis quanto à associação de virilidade com o porte e manuseio de uma arma.

Conservemos a espada, sim, não como arma e o seu simbolismo pretendido à defesa ou ataque. Conservemos o seu simbolismo próprio à preservação da rectidão, da lealdade, e, com o poder da palavra, da honra e da dignidade.

É também por demais estranhos ser alheio ao entendimento quando um Maçom, em sociedade, em permanente transformação evolutiva de conhecimento, globalizando conceitos e comportamentos, permanece irredutível quanto aos conceitos que persistem em situar-se no altar dos arquétipos emancipadores, onde fé e crença se dissociam na sua plenitude. Resiste a qualquer inovação, ou renovação ou mesmo ao renascimento de comportamentos precisos, não apenas toleráveis, mas amplamente divulgados quanto à sua plena necessidade de permanência construtiva em parceria com a própria evolução.

Os ritos, mesmo que estabelecidas excepções, necessárias e evidentes, persistem, pela força dos próprios ritualistas, quanto à permanência de símbolos como a espada, apesar da evidente constatação do seu uso supérfluo, arrogante, prepotente e agressivo, pois muito bem sabem que as evangelizações dos conceitos básicos são apenas toleráveis a circunstâncias.

Existem ritos, que mesmo após transformações diversas, utilizam a espada para verificar se o templo está protegido, mesmo que simbolicamente. Mas há também ritos, que o próprio corpo de obreiros, antes da sessão, após a solicitação para entrar no templo, são recebidos por um irmão, um guardião, não com a espada em riste, mas em posição de defesa, em direcção aos próprios irmãos. Mas o que significa tudo isto? Que simbologia é esta que transforma a palavra, símbolo áureo da dignidade e da honra, em ameaça de defesa e luta armada?

Mais agravante, a cessão da luz ao neófito. Os irmãos que o recebem dão-lhe a luz ameaçando-o com espadas a ele dirigidas. Por que não com as mãos estendidas em sinal de chamamento ao caminho da luz, da verdade, da harmonia, da concórdia e da virtude? Mas não, é com a espada a ele dirigida, símbolo da defesa de um ideal, de uma casta, de uma sociedade, de uma instituição que o seja, mas sempre com o instinto de guerra, de luta armada, subjugando o suposto pretendente inimigo.

Julgo ser algo a considerar, haja vista o paradoxal sentido desta simbologia, ou mesmo de um cerimonial onde as leis morais rezam e direccionam o comportamento ideal. E isto não acontece com uma arma, com uma espada, faz-se, isso sim, exclusivamente com a palavra, pois caso contrário, trata-se de uma suposta prerrogativa do direito de subjugar-se o ser pelo ter.

Talvez uma ideia a ser amadurecido, um novo modelo necessário à simbologia autêntica e suficientemente abrangente quanto às nossas necessidades de defesas, afinal sentimo-nos, por acaso, aliviados quando protegidos por um guarda portador de uma espada? Evidente que não. Temos necessidade de um pacto com todos. Um pacto de fortalecimento dos nossos ideais estruturados num princípio único: a filosofia do amor e da verdade como paradigmas do comportamento ideal.

Ora, tenhamos um mínimo de sinceridade: a maçonaria não tem como função ou finalidade determinante da sua existência, o que proclamamos de caridade. A beneficência maçónica, por mais justa e perfeita que possa parecer, até pode traduzir a nossa sensibilidade social. Entretanto sabemos que não se trata, fundamentalmente de usufruir os ensinamentos de Francisco de Assis, na forma de caridade social, pois o mesmo Francisco, na sua totalidade como homem justo e perfeito, essencialmente completo, tratava das causas das necessidades sociais apenas com a palavra.

Façamos, pois da espada, não uma arma, mesmo que de forma simbólica, mas sim, transformemos em algoritmo próprio ao despertar de uma nova ordem. E sem eufemismos à ritualística, consideremos a espada, não portadora, mas esculturada ou depositada em nicho próprio, como símbolo da (Publicado em freemason.pt) inteligência e da conduta, tal qual arquétipo do saber, pois a sua utilização de forma correcta ou não, demonstra a preocupação através de erros e acertos da nossa exclusiva responsabilidade.

Por esta razão creio que a transformação da espada objecto, em espada palavra, seria a definitiva aglutinação dos conceitos gerais de liberdade, de fraternidade, de igualdade. Seríamos os cavaleiros da verdade, armados não com espada, mas com o verbo. Seríamos os construtores do grande templo, o templo da sabedoria, pois sabemos todos, que o princípio que nos rege, fundamenta-se no testemunho da sabedoria quando nos conscientizamos, de que o nosso objectivo está na prática do amor ao próximo, isto é, ama teu próximo como a ti mesmo.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele: e nada do que foi feito, foi feito sem ele. Nela estava à vida, e a vida era a luz dos homens: e a luz resplandece nas trevas, mas as trevas não a compreenderam”. (Jô 1, 1-5).

José Amâncio de Lima

NA MAÇONARIA – A espada é um acessório muito usado nas cerimónias maçónicas, geralmente como símbolo do poder e autoridade, e emblema dissipador das trevas da ignorância. É usada como jóia do Primeiro Esperto, Cobridor (Interno e Externo).

Temos também, a ESPADA FLAMEJANTE (Flamígera) – A que tem a lâmina ondulada, qual língua de fogo serpentino. É usada pelo Venerável Mestre como símbolo do poder criador do GADU. Ao seu triplo tinir com os golpes do malhete (símbolo da autoridade, de que o Venerável Mestre se acha investido pela constituição maçónica), é o recipiendário iniciado e admitido nas fileiras da Ordem. Em alguns países latinos é também usada pelo cobridor que assim guarda o Templo.

Etimologia de espada

Espada [do grego Spáthe, pelo latim Spatha]

  1. Armas brancas, formadas de uma lâmina comprida e pontiaguda, de um ou dois gumes.
  2. Muito utilizado pelos Militares
  3. Aumentativo: espadão, espadagão. Diminutivo: espadim

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Um Comentário em “Reflexões sobre a espada

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    Olá irmãos este artigo e realmente nobre, primeiro digo-te que o perdão não e próprio do homem, e sim do grande arquiteto do universo, por isso o o perdão e Universal, para os anjos e para a humanidade, segundo o reino dos céus e tomado a força, e quem tem força o possui. Terceiro a paz vêm depois da guerra, e guerra e com o senhor dos exércitos o Deus de Israel. Se for preciso externa mar 80 por cento da população para se estabelecer o reino dos céus, seja feito a vossa vontade assim na terra como não céu. Quem aceita a nova oordem mundial terá vida quem não aderir conhecerá o verdadeiro inferno, eu sou maçom,

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