A Tolerância

O que é a tolerância?

É o apanágio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices, é a primeira lei da natureza.

Voltaire

Considerações prévias

O presente texto discorre sem pretensões, algumas reflexões acerca da importância inexcedível contida na virtude da tolerância no processo de aceitação e compreensão das diferenças.

É certo que ela traduz o antídoto necessário contra todas as acções e posturas eivadas de intransigências e obliteradoras da livre manifestação do pensamento. Neste contexto a Maç∴ mostra-se como intransigente defensora e cultora dos sábios princípios desta importante virtude de tão difícil exercício, considerando ser a natureza humana susceptível ao poder avassalador do híper dimensionamento do ego e do ranço dogmático de presumidas verdades. A observação à tolerância constitui, pois, exigência fundamental para a prática maçónica.

Tolerância – Etimologia e conceito

Inicialmente é oportuno tecer genericamente alguns dados sobre a origem do significado da palavra tolerância. Conforme prelecciona o filósofo Diogo Pires Aurélio na sua obra “Um Fio de Nada – Ensaio sobre a Tolerância”, há uma ambivalência no conceito de tolerância a partir da etimologia da palavra. Assim, a palavra tolerare significa, em princípio, sofrer, suportar pacientemente. Mas também tem o sentido de sustentar, no sentido de alimentar alguém. De uma forma mais explícita o radical tol, comum a tolerare e a tollere, denota a acção de erguer, elevar. Afirma Claude Sahel (A Tolerância, p. 12) que a palavra tolerância se vincula à raiz indo-europeia tol, tel, tla, de que derivaram tollere e tolerare. Tollere significa levantar, às vezes, destruir; tolerare significa levar, suportar, às vezes, combater. Assim, a ideia de guerra e de esforço subjazem à noção de tolerância… O dicionário de Cândido de Figueiredo (1899) registra a versão tradicional de “indulgência” e de “consentir tacitamente” , acrescentando inclusive como inovação a palavra “tolerantismo” , para significar a tolerância por parte do Estado a todas as manifestações religiosas. Na definição do mestre Laudelino Freire, no seu Dicionário da Língua Portuguesa (1939), além do sentido de condescendência e indulgência, há a referente à “boa disposição dos que ouvem com paciência opiniões opostas às suas”.

É de se observar que a identificação da tolerância com a noção de liberdade religiosa e pensamento, passou a prevalecer a partir de determinado momento nos diversos léxicos. No dicionário do Aurélio (1983) é definida como “tendência a admitir modos de pensar, de agir e de sentir que diferem dos de um indivíduo ou de grupos determinados, políticos ou religiosos”. Contudo, o que de mais relevante se destaca é a definição de carácter científico para a compreensão contemporânea do conceito de tolerância ao acrescentar ser a “diferença máxima admitido entre um valor especificado e o obtido; margem especificada como admissível para o erro numa medida ou para discrepância em relação a um padrão”. Entende-se pois que a existência de um padrão suscita condições para a existência da margem de tolerância, bem como do intolerável.

Historicamente vários foram os significados dados à palavra tolerância, que teve o seu sentido identificado com a caridade, a igualdade e afirmação da liberdade de crenças e de costumes do outro. O conceito que se afirma como o mais preponderante está relacionado a uma certa predisposição adquirida para acolher o diferente. Este acto implica necessariamente na manifestação por uma simples receptividade e eventual intenção para o diálogo. Vale destacar a especificidade da tolerância como virtude e como ideal da vida em comum.

A tolerância como virtude essencial da atitude maçónica

Voltaire define no Dicionário Filosófico o termo Tolerância da seguinte forma: “É o apanágio da humanidade. Nós somos feitos de fraquezas e erros; a primeira lei da natureza é perdoarmo-nos reciprocamente as nossas loucuras” (p. 289). A tolerância de que fala o filósofo francês visa a supressão da violência, tendo sido instaurada como lei prévia ao contrato, razão pela qual se considera um “apanágio da humanidade”. Não se trata apenas de uma estratégia em ordem à pacificação; trata-se de um elemento constitutivo da verdadeira natureza humana, a qual se entende agora como uma estrutura de valores universais e trans históricos cujo cerne reside na liberdade. Negar a alguém o direito de pensar livremente e de agir em conformidade com os seus próprios critérios seria, a partir desta perspectiva, recusar-lhe a autenticidade da sua natureza e a integração no seio da humanidade a que, como pessoa livre, tem direito.

O sentido de humanidade, igualdade de oportunidades e livre pensar subjazem na ideia de tolerância. Sábias são as palavras de Voltaire ao afirmar na sua obra “Tratado sobre a Tolerância“:

“Não é preciso uma grande arte, uma eloquência menos rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê? O turco, meu irmão? O chinês? O judeu? O siamês? Sim, certamente; porventura não somos filhos do mesmo Pai, criaturas do mesmo Deus?” (Tratado, p. 125).

Na actualidade a palavra tolerante impõe-se na linguagem corrente e na filosofia, para designar a virtude que se opõe ao fanatismo, ao sectarismo, ao autoritarismo, em suma… à intolerância.

No plano maçónico temos que a meta para combater e eliminar a mãe de todos os vícios, tem como premissa o culto aos sábios princípios da Tolerância, do Amor Fraternal e do Respeito a si mesmo. A Tolerância constitui uma das mais importantes virtudes para a Maçonaria , pois possibilita a convivência dentro das Lojas e de Irmãos de todas as tendências de pensamento e credos, fazendo com que se acate com suficiente humildade as diferenças e desníveis inerentes ao padrão de individuação de que somos possuidores. Desta forma faz-se necessário compreender a virtude da tolerância como imperativo essencial ao pleno exercício da actividade maçónica, por ser este o caminho factível para suplantar os óbices e alcançar na sua dimensão plena a solidariedade e o espírito fraterno. A negação a atitudes intolerantes conduz necessariamente ao reconhecimento e à compreensão dos valores espirituais alheios, divergentes e até adversos.

Devemos observar que a Maçonaria entende a existência nas tensões e contrariedades que permeiam o cotidiano da vida humana. Consequentemente pelo respeito à vida e ao G∴ A∴ D∴ U∴ é mister não medir esforços objectivando sobrepor de forma eficiente e harmoniosa essas contraposições. Com isto combateremos a atitude intolerante, factor originador do processo de desagregação em Loja. Por sermos humanos, e sendo a natureza humana contraditória e imperfeita, por vezes podemos ser tomados de comportamentos egoístas ou sermos atraídos pela chama da fogueira das vaidades. Ao Maçon, por ser Maçon, é dever por princípio estar atento e combater com veemência estas distorções da personalidade com constância e serenidade.

Contudo, convém esclarecer que a tolerância não implica em compactuar ou transigir com o erro; não é permitir a violação do direito ou ruptura da ordem jurídica ou mesmo atitudes de conspurcação moral. Se tal acontecesse ficaria evidenciado uma clara conduta de conivência inaceitável e transgressora dos princípios maçónicos estabelecidos. Enfatiza Nicola Aslan que a tolerância indiscriminada implica em complacência covarde. Pergunta então:

“Como se pode admitir um representante da lei tolerante com os transgressores da lei? Como se pode admitir um deus tolerante com a injustiça, a imoralidade, a perversidade? Confundir a indulgência relativamente a pequenos defeitos, a condescendência para com algumas imperfeições, a benevolência para com certas faltas, com o pactuar ou cumplicidade com os crimes praticados, é levar a Tolerância longe demais. Tolerância é benevolente, mas não covarde”. (p. 1147).

O verdadeiro Maçon deve combater com firmeza actos ou crenças que possam conduzir a humanidade ao abismo da barbárie, do fanatismo fundamentalista e/ou totalitarismos destruidores dos mais expressivos e preciosos valores universais inerentes às garantias e direitos fundamentais do homem e do Estado de Direito. Vale acrescentar que o critério do que seja justo, é inerente à ideia de Tolerância, se excogitarmos que esta virtude possui algo de comiseração, por não se deixar conduzir por juízos precipitados. Didácticas são as palavras de um brilhante sociólogo ao colocar que um dos problemas mais difíceis de se solucionar diz respeito ao “dogmatismo, a presunção de quem acha que tem o monopólio da moral, ou a falta de generosidade daquele que é intelectualmente superior e disso se aproveita para acachapar o outro”. Está implícita na tolerância a possibilidade de poder redireccionar os faltosos ou culpados a não incorrerem no mesmo erro, haja vista terem os que a possuem o sentido de clemência e da paciência capazes de demover os possuidores da soberba e da iniquidade. Como bem assevera Ferdinand Roussel

a Tolerância que devemos aos nossos semelhantes não é uma condescendência, mas dilação indulgentemente concedida àqueles que não pensam como nós, para que se corrijam. É um dever estrito e uma necessidade. A Tolerância está mal designada, é simpatia que é preciso dizer; é abertura dos olhos da consciência; é reconhecimento do valor que pertence à pessoa do outro, precisamente naquilo que ela difere da nossa; é finalmente comunhão das consciências no esforço para realizar um ideal que ultrapassa o poder de um só e que reclama o maior número possível de obreiros“.

Concluindo, podemos deixar claro que a tolerância constitui uma dádiva preciosa e frágil, que deve ser cultuada para que se solidifique a noção de Fraternidade entre nós. Para isto devemos tomar como verdadeira tolerância a que tem por significado, conforme Aslan: “Sinceridade no pensamento. Compreensão no estudo dos factos. Generosidade no cumprimento da acção. Jamais, porém cegamente” (Comentários, p. 280). Ou como perspicazmente coloca André Comte-Sponville: “a simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria, dos santos, assim a tolerância é sabedoria e virtude para aqueles que – todos nós – não são nem uma coisa nem outra. Pequena virtude, mas necessária. Pequena sabedoria, mas acessível” (Pequeno Tratado, p. 189). Inegavelmente é na relação de compromisso solidário, fraterno e desinteressado exercida na vivência de cada dia que iremos demonstrar se assimilamos e colocamos em prática tão precioso fundamento da ARTE REAL.

Sérgio Viana da Silva

Bibliografia

  • AURÉLIO, Diogo Pires. Um Fio de Nada – Ensaio sobre a Tolerância. Lisboa: Futura, 1995.
  • ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. Londrina: “A TROLHA”, 1997, v. IV.
  • CASTELLANI, José. Dicionário Etimológico Maçónico. Londrina: “A TROLHA”, 1996, v. IV.
  • CAMINO, Rizzardo Da.Reflexões do Grau de Aprendiz, Londrina: “A TROLHA”, 1992.
  • COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  • COSTA, Dario Aparecido da. A Espiritualidade no Grau de Aprendiz, in Cadernos de Pesquisas Maçónicas, Londrina: “A TROLHA”, 1989, p. 79.
  • MARQUES, António H. de Oliveira. Dicionário de Maçonaria Portuguesa, Lisboa: Delta, 1986.
  • SAHEL, Claude. A Tolerância – Por um humanismo herético. Porto Alegre: L&PM, 1993.
  • SANTOS, Luis Umbert. Por que soy mason? Mexico, D. F., Ed. Pax-Mexico, 1987.
  • Tratado sobre a Tolerância, São Paulo: Martins Fontes, 1993.
  • Dicionário Filosófico, São Paulo: Atena Editora, 1943.

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Um Comentário em “A Tolerância

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    Muito bom trabalho. Só gostaria, se possível, deixar registrado um comentário do Mestre Theobaldo Varoli Filho:
    “Não se entendam por tolerância maçônica os afrouxos licenciosos dos deveres ou a passividade exagerada na prática do perdão. Por Tolerância deve-se entender, antes de tudo, que o comportamento do maçom deve ser o respeito a todas as manifestações de consciência e que, em Loja, o obreiro da Paz deve manter-se equidistante de qualquer credo, tal como o circulo entre as paralelas e a circunferência com relação ao Centro, tal como o Sol que não transpõe os trópicos.

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