As Obrigações dos Maçons: VI . 2 – Conduta depois que a Loja terminou e antes que os Irmãos saiam

Poderão mostrar-se alegres, tratando-se mutuamente de acordo com suas qualidades, mas evitando todos os excessos, ou obrigando qualquer Irmão a comer ou beber além de sua inclinação, ou impedindo-o de se ir embora quando suas obrigações assim o chamarem, ou fazendo ou dizendo o que quer que seja ofensivo, ou o que quer que impeça uma conversa franca e livre, pois isso poderia quebrar a nossa harmonia e frustrar os nossos esforços. Portanto, quaisquer discussões ou querelas, não devem ser levadas para dentro das Lojas, muito menos se forem acerca de religião, cidadania ou politica; porque sendo apenas, como Maçons, de religião Católica, acima mencionada, também somos de todas as nações, línguas, famílias e idiomas, e somos contra toda a Política que nunca contribuiu para o bem-estar da Loja, nem nunca contribuirá. Esta Obrigação tem sido estritamente prescrita e observada, especialmente após a Reforma na Bretanha, e a Dissensão e Secessão destas Nações da comunhão de Roma.

A vida não é feita só de deveres, também de lazeres e convívios. A construção e manutenção de laços de forte fraternidade entre os maçons passa também pela convivialidade dos ágapes após as reuniões formais.

O convívio após as reuniões é efetivamente fundamental para a coesão da Loja, a forte ligação entre todos os seus obreiros. Imprescindível é, porém, garantir que nesse convívio não haja excessos e que a informalidade não abra a porta a discussões, dissensões, confrontos, que conduziriam ao oposto do que é pretendido. Assim, regula-se também a conduta dos maçons entre si nos momentos de lazer e convívio.

A primeira das regras é a aplicação de um dos princípios básicos do ideário maçónico: o absoluto respeito pela individualidade de cada um. Por isso se prescreve que nenhum maçom deve procurar obrigar outro a comer ou beber em excesso ou impedi-lo de se ausentar do convívio para acorrer a outras obrigações, sejam profissionais, sejam familiares, sejam sociais, sejam simplesmente de necessidade pessoal.

Note-se bem o conteúdo do comando: proíbe-se a tentativa de condicionar o outro; nada se pronuncia sobre a conduta do próprio em relação a si mesmo: se este comer em excesso, se beber para além da conta, se ficar mais tempo do que deveria, é questão dele consigo próprio! Por esta nuance se verifica como é essencial ao ideário maçónico o individualismo, a liberdade pessoal, o respeito pelas escolhas de cada um. Quem porventura fizer má escolha (ou o que se pensa ser má escolha…), seja em relação ao que seja, desde que os eventuais resultados negativos se repercutam apenas em quem fez a escolha, ninguém tem nada com isso! A liberdade individual implica também a liberdade de errar! Até porque o erro também tem o aspeto positivo de constituir lição…

O essencial desta Obrigação é a tutela da Fraternidade. Por isso expressamente se declara ser formalmente interdita qualquer discussão ou querela sobre religião, política ou cidadania. Religião, porque a tendência de cada um para a absolutização da sua crença facilmente origina desacordos graves, querelas violentas, o descambar para fundamentalismos de opinião que só podem dar mau resultado e que, evidentemente, minariam a Fraternidade entre os obreiros da Loja. Política, aqui entendida como politica partidária ou similar, pelas mesmas razões: as escolhas políticas podem gerar paixões, os desacordos ou diferenças de opinião podem facilmente agudizar-se. Cidadania, aqui entendida como opinião em relação a escolhas políticas concretas, embora não diretamente relativas a divergências partidárias – monarquia ou república; parlamentarismo ou presidencialismo; desenvolvimentismo ou ambientalismo, posição em relação à interrupção voluntária da gravidez, etc. -, também pelas mesmas razões.

No fundo, esta regra constitui a aplicação do princípio básico essencial da Maçonaria: o respeito pela liberdade individual de cada um, o que implica a tolerância em relação às diferenças existentes.

Cada um é um homem livre e de bons costumes. Essa liberdade realiza-se em todos os aspetos da sua vida e designadamente na sua convicção religiosa, na sua opção partidária, nas suas escolhas enquanto cidadão. Cada um tem o direito de fazer as escolhas que entende e a ver respeitadas pelos demais as escolhas que faz. Em contrapartida, tem o dever de respeitar as escolhas alheias, pois não pode exigir dos demais o que não está ele próprio disposto a cumprir.

Tenha-se em atenção que a regra apenas interdita “discussões ou querelas”. Não impede a informação mútua, mesmo a análise, desde que serena e sem propósitos de conflito, das posições de cada um nesse campo. A Fraternidade implica isso mesmo: o conhecer as diferenças, o assumir das diferenças e o reconhecer que essas diferenças não só não são impeditivas da cooperação e do convívio, como são mesmo enriquecedoras do conjunto.

Mas a linha de fronteira entre a serena troca de impressões e a “discussão ou querela” é muitas vezes ténue e fluida. Por isso manda a prudência que se opte pela abstenção de se tocar nestes temas controversos, pelo menos até que se tenha a certeza de que os laços de Fraternidade, as cumplicidades da Amizade, os freios de segurança do bom-senso, são suficientemente fortes para garantir que a serena conversa não descambe nunca em discussão ou querela. Cada Loja, cada grupo de maçons, sabe de si e deve cuidar da sua conduta, tendo em atenção a prioridade absoluta do respeito das posições individuais de cada um e da Fraternidade entre todos.

Uma última nota: não se estranhe a referência à religião católica como a “de todos”. Deve ter-se presente que a Maçonaria nasceu em Inglaterra e que a evolução religiosa em Inglaterra foi sui generis. Não houve ali, designadamente nos séculos XVI a XVIII, propriamente um afastamento dos cânones da religião católica, mas apenas (se é que se pode dizer apenas…) uma recusa de subordinação ao Papa, proclamando-se a independência da Igreja de Inglaterra em relação a Roma. A Igreja de Inglaterra considerava-se assim como uma Igreja Católica, só que independente de Roma e do Papa. Em 1723 em Inglaterra, havia os católicos romanos, fiéis ao Poder papal e os Católicos Anglicanos, da Igreja de Inglaterra. A Maçonaria era então uma instituição de um país cristão, dividido religiosamente apenas pela questão da obediência a Roma. Só mais tarde, e muito devido à aplicação do conceito de Tolerância, a Maçonaria vai evoluindo no sentido de enquadrar adeptos de outras religiões do Livro e, depois, aos crentes de outras religiões e aos crentes deístas.

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 134.

Rui Bandeira
Publicado no Blog “A partir pedra” em 29 fevereiro 2012

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