Compaixão – Os seus sapatos são os meus sapatos

Numa conversa recente, um colega meu começou um discurso sobre uma pessoa que, na sua opinião, não tinha compaixão. “Como é que eles podem usar algo que aconteceu há um ano contra alguém? Como é que eles não conseguem ver que causaram o problema, e podem deixá-lo ir?” Esta é uma pessoa que teve as suas próprias provações e tribulações durante o ano passado, os seus próprios“ problemas” com os quais lidar. O ciclo de condenação continuou.

As primeiras palavras nos lábios de outro amigo eram “compaixão”. Hmmm, pensei. A compaixão é uma palavra super utilizada e sobrestimada na cultura americana. Sejamos claros, compaixão é “piedade simpática e preocupação com os sofrimentos ou infortúnios dos outros”. Não estou a falar deste tipo de compaixão. Bem… talvez esteja. A dificuldade é que as pessoas confundem compaixão com bondade. Piedade é motivo de arrependimento ou desapontamento, ou pode ser o mesmo que compaixão, “preocupação com os sofrimentos ou desgraças dos outros”. A bondade é “a qualidade de ser amistoso, generoso e atencioso”. Não estou realmente a discutir gentileza, mesmo que seja confundido com compaixão.

Ninguém está acima de perder sensibilidade para com os nossos semelhantes. Todos nós fazemos isso. Todos nós. Às vezes com nós mesmos; às vezes com os outros. Um amigo querido disse-me: “Os maçons não deveriam ser aqueles que estão no caminho da iluminação? Porque é que agem tão horrivelmente às vezes?” Os Maçons não são perfeitos. Os Maçons sabem que não são perfeitos e estão constantemente a esforçar-se para encontrar o que essa perfeição possa significar – mas não, eles não são “iluminados” em virtude de serem Maçons.

Então… o que é que necessitamos quando a nossa crítica se senta nas nossas bocas, esperando para ser liberada? O que é que se acumula ao invés de lágrimas? E como é que se mostra isso para os outros? Não tenho certeza se há uma palavra para isso. Há momentos, porém, em que eu gostaria que todos tivéssemos mais, seja qual for o “isso”.

Joe South escreveu uma música chamada “Walk a Mile in My Shoes”, que Elvis tornou popular no início dos anos 70. A letras é:

Se eu pudesse ser você, se você pudesse ser eu
Por apenas uma hora, se pudéssemos encontrar um caminho
Para entrar na mente um do outro
Se você pudesse ver você através dos meus olhos
Em vez do seu próprio ego, eu acredito que você seria
Eu acredito que você ficaria surpreso em ver
Que você esteve cego

Agora todo o seu mundo
Que vê ao seu redor
É apenas uma reflexão
E a lei do carma
Diz que você vai colher
Apenas o que você semeia, sim você vai
Então, a menos
Que tenha vivido uma vida de
Perfeição total
É melhor ter cuidado
Com cada pedra
Que você deveria jogar, yeah

E ainda assim passamos o dia
Atirando pedras
Um ao outro
Porque eu não acho…
Ou uso o meu cabelo
Da mesma forma como você faz,
Bem eu posso ser
Uma pessoa comum
Mas eu sou seu irmão
E quando você me ataca
E me tenta magoar
É uma mágoa, Senhor, tenha misericórdia

Ande uma milha nos meus sapatos
Ande uma milha nos meus sapatos
Ei, antes de abusar, criticar e acusar
Ande uma milha nos meus sapatos

Há pessoas
Em reservas
E nos guetos
E irmãos por aí
Mas pela graça de Deus
Vamos, você e eu, sim, sim
Se eu apenas
Tivesse as asas
De um pequeno anjo
Você sabe que eu voaria
Para o topo da montanha
E então choraria

Ande uma milha nos meus sapatos
Ande uma milha nos meus sapatos
Ei, antes de abusar, criticar e acusar
Ande uma milha nos meus sapatos

Esta música é um lembrete pungente de como nós realmente chegamos à compaixão. Esta semana recebi vários e-mails de pessoas que se aproximavam de acusações e críticas. São pessoas que me conhecem há vinte anos ou mais e outras por menos tempo, mas não insignificantes. Estas são pessoas que sabem que eu tento ser responsiva e gentil, aberta aos meus próprios erros, e mais ocupada do que um homem perneta, num concurso pontapés, como um colega de trabalho gosta de dizer. Eu não estou ociosa. Eu estou esquecida e lutando para não me afligir por não ser perfeita o tempo todo, às vezes desajeitada, e não a melhor organizadora da minha lista de afazeres. Luto para equilibrar um talão de cheques e às vezes luto para me motivar a entrar um avião ou enviar um e-mail. Às vezes eu só quero dormir. Às vezes fico com raiva. Extremamente rabugenta.

Eu sou humana. Eu sou você. E isto é sobre si, também.

E, por mais que nos esforcemos pela perfeição, precisamos de nos lembramos que é apenas isso: esforçar-se – uma jornada e não o destino bem ao voltar da esquina. Bem, eu lembro-me da parte fundamental a maior parte do tempo. Os momentos em que é mais difícil manter a “jornada” em mente são quando as pessoas criticam, abusam, condenam, acusam ou até mesmo ficam mal-humoradas connosco. Quando isto acontece, acreditamos que falhámos com eles e, em última análise, falhámos com nós mesmos. O fracasso é um sentimento triste e sem esperança. A mente é uma poderosa máquina de demolição. E quando abrimos os nossos corações para os outros, disponibilizamo-los para possível destruição.

A jornada em direcção a uma humanidade melhor pára sempre que algum de nós arrasa outro.

Há mais para andar no lugar de uma pessoa do que andar no lugar dela. É mais do que aprender a não criticar ou condenar. É mais do que calar a boca quando algo desagradável está prestes a sair de alguém que você ama. É realmente sobre deixar-se ir por si mesmo. É retroceder nas nossas mentes e corações, antes de falarmos ou escrevermos e pensarmos sobre tudo. Cada coisa. Pensar sobre a outra pessoa sentada à sua mesa, escrevendo aquele e-mail, como será o seu dia, como poderia ser, porque escreveram assim, é o tom deles ou o meu que está nesse e-mail, que palavras eles usam… pense em se colocar no teclado e escrever essas mesmas palavras. Como é que se sente pensando neles? Porquê? Nós realmente achamos que eles nos estão a tentar magoar? Será assim? E se realmente acreditamos nisso, por que acreditamos nisso?

Byron Katie, uma conferencista e professora, tem quatro perguntas que ela chama de, a base para “O Trabalho”. São elas:

  1. Será verdade?
  2. Tem a possibilidade de saber absolutamente que é verdade?
  3. Como é que reage, o que acontece quando tem esse pensamento?
  4. Quem seria você sem esse pensamento?

Isto requer prática, de novo e de novo, e ainda mais depois… É uma jornada. Acho que começamos na primeira pergunta acima e gostaríamos de pensar que temos as respostas. Esquecemos que há mais etapas no nosso processo. O nosso ego fala mais alto do que a Verdade às vezes. Mas cada vez que damos este passo para encontrar a verdade, algo dentro de nós muda. Ele diz: “Tudo bem que você não seja a coisa mais importante na sala. Você ainda vai ser você, ainda vale a pena. Você ainda é bom e está bem”. De facto, quanto mais buscamos a verdade, mais somos capazes de deixar a bagagem e ser objectivos, observadores, ouvintes e funcionais.

A Maçonaria parece ensinar a caminhar no lugar de outra pessoa. Todo o Maçom pode ter qualquer função dentro de uma Loja, e cada um tem uma função diferente, um talento diferente para explorar e um conjunto diferente de desafios. Ninguém faz uma função de forma perfeita e cada função oferece ao seu titular experiências para desafiar e elevar. Podemos criticar o modo como alguém realiza uma determinada tarefa, mas chegará um momento em que também assumiremos esse cargo e receberemos a mesma tarefa. Aprendemos a perdoar o passado de alguém porque aprendemos que não é tão fácil quanto todos pensamos. Fracassar é aprender e “cortar o peso do passado a alguém” não significa ignorar os erros e desafios. Significa prestar atenção ao que acontece a outra pessoa porque, algum dia, estamos no outro lado. Como diz Joe South:

Se eu pudesse ser você, se você pudesse ser eu
Por apenas uma hora,
se pudéssemos encontrar um caminho
Para entrar na mente um do outro
Se você se pudesse ver a si mesmo através dos meus olhos
Em vez do seu próprio ego, eu acredito que você se veria
Eu acredito que você ficaria surpreso em ver
Que você esteve cego

Um Maçom idoso, há tempo atrás, disse que nós, humanos, somos “laços fechados”. Quando perguntei o que ele queria dizer, ele disse que as nossas comunicações, os nossos pensamentos, não têm para onde ir. Eles giram dentro de nós, incapazes de construir algo tangível ou real. Nós não nos conseguimos ligar com a realidade, geralmente. Ele disse que acreditava havia apenas uma maneira, de quebrar realmente o circuito realmente e se conectar com outra pessoa e sair do nosso feedback negativo sobre a nossa realidade. Quando limpamos o lixo dessas naturezas destrutivas, então podemos encontrar a verdadeira natureza de nós próprios, ou seja, esperar por isso… amor. Ach! Sim, eu usei a palavra A! Então, parece que essa compaixão, bondade, verdade, questionamento – tudo se resume ao que chamamos de amor. Amor por nós mesmos e amor pelo outro, quem quer que seja o outro. O que queremos para nós mesmos é o que queremos para os outros e o que queremos de volta para nós mesmos. É verdadeiramente um loop. Tem que começar por algum lugar. Com tudo negativo a perder, escolho começar por mim.

O que é amor é outra exploração por si mesma; no entanto, parece fundamental para o aperfeiçoamento da humanidade. É o próximo ponto do mapa da nossa jornada.

Amor e compaixão são necessidades, não luxos. Sem eles a humanidade não pode sobreviver – Dalai Lama

Kristine Wilson-Slack

Tradução de António Jorge

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Um Comentário em “Compaixão – Os seus sapatos são os meus sapatos

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    Gostei da matéria e a letra da música diz muita coisa do que somos e não somos mais no contexto geral aprendi muita coisa que ás vezes não paramos para e necessário balanço de o quanto de acertos temos e de erros que as vezes acabam passando desapercebidos mais não é do dia para noite que acontece esta transformação é um processo que leva uma vida inteira e sou contra quando alguns se encontram em uma zona de conforto e param pois isto prejudica não só á pessoa dele mais o círculo em que vivem e como está na palavra quando Moisés levantava as mãos o povo ganhava e quando baixava eles perdiam então colocaram duas madeiras em baixo de seus braços para que mais abaixasse o mesmo acontece com um sociedade que todos cumprindo seus afazeres se um parar desencadeia um monte de contratempo para os demais é como uma avião tudo tem que funcionar em perfeita sincronia pois uma falha todos estão arriscados á cair então em reuniões repetir quantas vezes necessário até que façam de maneira automática senão ficam confusos se um não experimentar o sapato do outro não saberiam que passamos por estreitos mais não deixamos transparecer e o foco é onde todos devem firmar os olhos para que se cumpra o que foi planejado amém á paz para todos irmãos.Sr.Jorge gosto muito de suas matérias até á próxima.tenha um bom domingo junto aos familiares.

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