O elogio da humildade

Erasmo de Rotterdam (mais conhecido como Erasmo de Roterdão, Gerrit Gerritszoon ou Desiderius Erasmus von Rotterodamus) escreveu o Elogio da Loucura (“Laus Stultitiae”) em 1509. Se eu tivesse um centésimo da inteligência do Erasmo, juro que meu livro seria o “Laus Humilitatis” (elogio da humildade), e explico porquê:

Para começo de conversa, eu escreveria em latim porque mesmo os iletrados andariam exibindo a minha obra debaixo do sovaco (axila) na vã tentativa da tradição do conhecimento via osmose.

Depois, a humildade e a loucura procedem da mesma substância, apesar de o louco Calígula não ter sido humilde e o humilde São Francisco ter sido um pouco louco para os padrões da época. Mas Diógenes, por outro lado e noutra época, era a um só tempo louco e humilde: vivia dentro de um barril e andava pelas ruas de Atenas, depois Corinto, com uma lanterna acesa em pleno dia.

Para que é isso, Diógenes?, perguntavam.

Procuro um homem, respondia o filósofo.

Não pensem que Diógenes estava a procurar um macho, não é isso. Machos havia muitos, o que faltava mesmo era Homem – como ainda nos dias de hoje, dizem os entendidos.

Noutro episódio, Alexandre, o Grande, parou diante de Diógenes que estava seminu e esticado no chão como um lagarto a tomar sol, e perguntou:

O que posso fazer por si, meu bom homem?

Dê dois passos à esquerda; está a tampar a luz do sol, respondeu o filósofo.

Alexandre, o Grande, procurava andar com os filósofos. Foi discípulo de Aristóteles que ninguém chama de “o Grande”. Mas, na prática, a teoria de que Alexandre ouvia os sábios só resultava em guerras e mais guerras, matanças e conquistas pela força. Talvez Alexandre fosse simplesmente um pouco louco e um Grande vaidoso.

Diógenes, não – esse era humilde e louco de verdade.

Hoje, ser humilde é fácil; pode-se até ser vaidoso: basta carregar a sua própria maleta, beijar as criancinhas, usar sapato raso com sola de borracha, sorrir mansamente e visitar um casebre na periferia; mas não se esqueça de levar o telefone para fazer umas fotos.

Por outro lado, parecer louco é muito mais difícil. Existem riscos neste aspecto: podem chamar a polícia ou os paramédicos que, além de uma camisa de força, aplicarão um potente sedativo intravenoso na zona da sua jugular.

Dizem os sábios que a virtude está no meio (in medio virtus, sentencia o potente latim): devemos ser um pouco de cada coisa. Humilde da ponta até o meio e louco da metade para o fim. Não tente ser louco inteiro, guarde um pouquinho para a humildade e será certamente amado, principalmente pelo seu chefe. Nem tente ser louco inteiro, deixe uma pontinha de dúvida… deixa que eles pensem que toma remédios de psiquiatria; serão solidários consigo.

Só não seja um pouco de cada coisa quando se tratar de princípios; mude de ideia, mas não mude o seu bom carácter. Seja vaidoso, mas não seja um mentiroso.

José Maurício Guimarães – V:. M:. e fundador da Loja Maçónica de Pesquisas “Quatuor Coronati, Pedro Campos de Miranda”, jurisdicionada à Grande Loja Maçónica de Minas

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