Os Valores maçónicos numa Europa em crise

Europa, filha de Agenor, rei da Fenícia, era, na mitologia grega, uma bela princesa que despertara o amor de Zeus, Deus-rei do Olimpo que para a raptar tomou a forma de touro e galopando os mares a depositou na ilha de Creta, encruzilhada de civilizações. Para os antigos gregos, Europa referia-se, também, à terra do sol poente, já que a Ásia, outra ninfa, designava a terra do sol nascente.

A ideia de uma Europa unida já existia no imaginário de filósofos e visionários. Victor Hugo, por exemplo, em 1849 imaginou uns “Estados Unidos da Europa” pacíficos e inspirados num ideal humanístico. Este ideal foi brutalmente desfeito pelos trágicos conflitos que destruíram o continente durante a primeira metade do século XX.

Mas…o sonho foi retomado e nas cinzas da segunda Guerra Mundial nasceu uma nova esperança. Uma nova Europa, construída e alicerçada em interesses comuns dos seus povos e assente em tratados que garantissem a paz, o primado da lei e a igualdade das nações.

A Integração Europeia é, porventura, a maior aventura humana e um dos mais significativos eventos geopolíticos do sec. XX.

Apesar de muitas resistências, mas com a determinação e coragem de pensadores como Churchill, Shumann, Jean Monet e outros, foi possível alcançar uma união… económica e monetária.

O projecto europeu assentava (e assenta), também nas ideias de liberdade, de igualdade e de fraternidade. Um projecto de união, de entendimento e de força.

Contudo, a União nunca foi total.

Faltou a união política, a integração governativa, a dimensão da subsidiariedade que não foi conseguida totalmente, de tal modo que os países da periferia começam agora a estar cada vez mais isolados desta Europa pseudo-unida.

A Europa, fragilizada por uma inacabada construção política, social e económica, parece recuar, quase diariamente, perante a agressividade da especulação financeira, esquecendo-se da economia real e de como esta, nas raízes profundas da democracia europeia, deveria ter como objectos últimos o desenvolvimento e o bem estar social.

A Europa está em crise… económica e financeira mas, sobretudo, de identidade e valores.

A palavra crise causa uma ressonância quase permanente e incómoda aos nossos ouvidos.

No fundo, esta crise da Europa nada tem de novidade: onde há vida há mudança! E aquilo a que temos assistido é uma paulatina mudança, da qual só temos aceitado e interiorizado os aspectos positivos, mas não os negativos. Todos achamos confortável pagar uma compra com cartão ou levantar dinheiro na ATM mais próxima. No entanto, nunca nos detemos para pensar na verdadeira revolução que isso significou – Vivemos no virtual!

A UE diz querer ser um processo democrático, mas não se constituiu como um todo político “consolidado”. A projecção exterior da Europa reveste-se de um carácter contraditório. Mercê das suas condicionantes e debilidades apontadas e do papel de terceiros, essencialmente NATO e EUA, a acção estratégica exterior da Europa focalizou-se também, nos

desígnios do desenvolvimento, enveredando por uma abordagem sistémica e pluridimensional das questões de Segurança, enquanto a nível interno se fica pelo desenvolvimento estritamente financeiro, lançando a insegurança psicológica nas populações.

Há já bastante tempo que se acentua a tendência para ver na Economia e, em especial, nos economistas, gurus e oráculos milagrosos, todas as respostas. No fundo, os milhares de audiências procuram na opinião do opinion leader A, B ou C e nas suas intervenções televisivas, um manual de instruções sobre como pensar o mundo e a realidade à nossa volta – procura-se, assim, a segurança num mundo de incertezas.

Esta forma de pensar ready-made que não exige esforço individual, tem sido o nosso maior “pecado” colectivo, que nos tem reduzido à ideologia de pensamento único e de linguagem única, de baixa densidade democrática, esquecendo e perdendo qualquer direito à diversidade. Todos somos uma peça de uma qualquer maquina económica, a que chamamos Mercados.

Além disso, a crise económica põe em risco a “imagem” e acção internacionais da Europa, e a crise não é só económica: A UE apresenta significativas debilidades estratégicas, consubstanciadas no declínio demográfico, escassez em recursos naturais, exiguidade geográfica, dependência energética e relativa incapacidade militar. Face a este quadro, os países europeus ainda não encontraram outra alternativa para a sua projecção no exterior, senão unir esforços num maior investimento conjunto para uma redução de custos e na procura de sinergias entre capacidades civis e militares, mas é uma cooperação intergovernamental de Estados, em que uns podem e mandam mais do que outros . . .

Hoje, a tirania do ter aliou-se à tirania do poder e o homem europeu está, novamente, e sem se aperceber, a caminhar para o tempo da instabilidade e da guerra.

Assistimos, hoje, à supremacia do ter sobre o ser. Por mais que tenhamos nunca seremos verdadeiramente felizes se não dermos importância à construção do nosso SER.

O Ser Humano, embevecido pela possibilidade de saciar a sua natural ambição, de Ter mais e melhor, foi estimulado a mergulhar num ciclo de Ter/Poder tornando-se cada vez mais individualista, egoísta, egocêntrico e simultaneamente mais frágil e mais distante da sua capacidade de exercer o livre arbítrio.

Uma pessoa incapaz de pensar por si, seguidora das massas, é uma pessoa subjugada e, naturalmente, apática, não-activa. Não é possível contribuir com nada se não tivermos LIBERDADE . . . Esta liberdade de pensamento, liberdade de decisão, liberdade de escolha, conquista-se.

Fomenta-se com informação, com educação, com instrução; não com desinformação.

E é aqui que devem centrar-se os nossos esforços: na formação de mentes pensantes e capazes de ajuizarem por si, e não pelas massas, o caminho a percorrer. Uma pessoa bem formada (não nos referimos a escolas ricas e prestigiosas mas, na escola da vida e dos princípios) será uma pessoa cuidadosa consigo e com os outros. Será alguém disposto a inverter o ciclo de egoísmo e egocentrismo e será capaz de partilhar. Sem se aperceberem, as sociedades mergulharam num sistema de comportamentos inerentes ao ilusório, fictício e conducentes à desumanização.

A Europa parece encontrar-se num estado de esgotamento histórico, paralisada perante o paradoxo de cenários crescentes de privação, sob o espectro de uma fronteira da miséria que se desloca cada vez mais para norte, quando seria expectável que vivesse em equilíbrio e centrada no apoio ao desenvolvimento de outras regiões do globo.

A solidariedade e a fraternidade entre os povos europeus parecem estar fragilizadas por um individualismo crescente, terreno fértil para o ressurgimento das ameaças com que se confrontaram na primeira metade do século XX.

Estamos, assim, num impasse Civilizacional, em que os valores que guiaram o desenvolvimento da humanidade se encontram profundamente abalados.

E temos, então, que nos interrogar para onde caminha a União Europeia quando se agravam aceleradamente as condições de vida da esmagadora maioria dos seus cidadãos, se acentuam desigualdades, se rompem solidariedades e amesquinham povos cuja história milenar constituiu os alicerces do que se define como cultura europeia.

Mas os momentos de crise são também momentos de novas oportunidade e, por isso, os mais indicados para provocar e promover alterações profundas, podendo despoletar a atitude de resistir e lutar ainda mais por esses valores que defendemos.

Fala-se tanto sobre a necessidade da criatividade e do empreendedorismo como soluções para esta crise europeia, mas será que a criatividade e a imaginação têm mesmo assento nesta Europa, pensada exclusivamente sob o signo da economia? Pensamos que não. A crise europeia assenta sobretudo no imobilismo e na vontade de não querer soluções novas para os problemas que enfrenta (não precisamos de “remendos” melhorados).

A criatividade e a imaginação sempre que presidiram ao movimento social, significaram mudança e soluções para os problemas. Os movimentos sociais não são alheios à Maçonaria porque dizem respeito a todas nós, cidadãs que também enfrentamos os problemas da comunidade em que nos inserimos.

É nesta ideia de comunidade que a Maçonaria deve insistir. Na verdade, os valores que inculca em todas nós remetem-nos para a ideia de comunidade. Todos dependemos de todos. Este sentimento de pertença deve transbordar para o nosso quotidiano.

As diferenças sociais decorrentes da falta de meios económicos/ financeiros estão cada vez mais evidenciadas. Os recursos são escassos ou os meios para os explorar são privilégio de poucos. Mas, as desigualdades sociais não são, nem podem ser sinónimos de desigualdade de carácter. É preciso que recuemos no tempo e bebamos da etimologia…recuperar o verdadeiro sentido da palavra igual.

A Maçonaria sempre teve um papel no desenvolvimento mundial. Será agora que se vai quedar? Os nossos valores são humanistas: propomo-nos à realização mais integral possível de cada pessoa humana, o que não conjuga, facilmente, com crise, muito menos económica

Estamos perante uma Europa que necessita de ser superada por uma nova sensibilidade onde todos tenhamos a consciência de que perdemos todos ou ganhamos todos. Não para nos ajudar, mas para nos salvar!

Onde está o sonho, o projecto de união entre povos e países?

Talvez não valha a pena explanar cada uma das diferentes correntes, ideologias, teses económicas e de cariz sociológico sobre o tema. A Maçonaria é uma instituição que preza a democracia e a liberdade de pensamento. A questão é maior do que a esquerda ou a direita, a questão é maior do que a economia e as finanças, a questão maior e essencial são as pessoas. Será que elas estão no centro das decisões?

Que é feito do humanismo? Da solidariedade? Da justiça? Da verdade? Que é feito do sonho?

É urgente consolidar duas dimensões de patriotismo: o nacional e o europeu, baseados na igualdade de direitos e deveres, na liberdade e na fraternidade, mas sem esquecer a identidade cultural de cada região, de cada país, de cada nação.

A Maçonaria entende que o homem e a mulher devem viver em todo o seu esplendor e dignidade.

É urgente humanizar os povos. Humanizar a Humanidade pelo resgate de valores que vão caindo no esquecimento do pseudo-bem-estar.

Ouvimos falar em elite maçónica numa Europa em crise. Queremos com isto dizer que desta organização fazem parte homens e mulheres intelectual, moral e, eticamente capazes, que se legitimam interrogar-se sobre tudo aquilo que se pode opor ao progresso e ao bem estar social: são eles os conceitos, os preconceitos, as ideias que se materializam no fanatismo, na ignorância, na ambição, entre outros sentimentos. Serão estes pois, os grandes inimigos, ainda activos, de quem objectiva uma sociedade mais justa, mais perfeita, onde não possam ter lugar a acomodação, a passividade ou a vergonha, de não querer mudar as coisas ou, não querer fazer melhor para as gerações vindouras.

A Maçonaria sabe que existem sempre dois polos, somos carne e espírito, luz e trevas, somos maldade e bondade. E podemos escolher.

A Maçonaria não olha a prazo, com validade a expirar. Não tem vistas curtas, memória curta. A Maçonaria aprende com o passado, reflecte no presente, para construir o futuro.

Retomemos pois o que tem de ser retomado, o trabalho, com força e vigor, dentro e fora do templo, pelo exemplo quotidiano de cada um. Não será esta a primeira vez, na História dos tempos, que a Maçonaria vê sombras onde podia estar a Luz. Mas a Maçonaria sabe que das trevas se faz Luz. E, por isso, as maçonas e maçons têm, numa altura de crise como esta, de se unir. Mais do que apoiar esta ou aquela corrente política, esta ou aquela teoria económica, a Maçonaria tem de se unir para defender valores e princípios. É isso que falta e é isso que pode fazer toda a diferença.

Por tudo isto a Maçonaria tem, de novo, encontro marcado com a História. …E Zeus… sentado no seu trono, pensativo, observava a Europa, recordando o dia em que a tomou no dorso e a raptou, e vendo-a cansada, assustada, velha e doente, forçada à vigília desde o início do séc. XX, resignada, mas ainda assim, a influenciar vontades para que fosse enviada uma delegação ao Olimpo, diz-lhe:

Ergue-te Europa, assume as raízes da tua origem que são de convergência e síntese entre antiquíssimas civilizações, que vieram a constituir a génese do que és. A tua voz será a minha. Assim, para melhor te orientares no dédalo de angústias e surpresas que terás de atravessar, receberás sinais e não te precipitarás nas decisões! …

Dissemos

Or∴ Lisboa, 22 de Setembro de 6012

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