Seria o Grande Arquitecto um relojoeiro?

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Uma análise comparativa entre a noção de divindade na Maçonaria e na obra de Voltaire

Introdução

A maçonaria é uma ordem que acolhe no seu seio homens de todas as nacionalidades, classes e de diversas vertentes religiosas, pretendendo-se uma ordem ecuménica sem que, contudo, a religiosidade se mostre ausente na sua doutrina. Os diferentes ritos praticados possuem, cada um deles, o seu nível de religiosidade, mas a figura da divindade está sempre presente na sua doutrina. Neste sentido, no intuito de evitar nomear a divindade de acordo com alguma tradição específica, excluindo outras tradições ou favorecendo uma religião específica, a ordem maçónica tem por costume nomear a divindade com o nome neutro de Grande Arquitecto do Universo, ampliando-se este conceito de forma que ele signifique um princípio criador, qualquer que seja ele, sendo de responsabilidade do Maçom interpretá-lo de acordo com as suas crenças religiosas.

É sabido que, historicamente, o início do estabelecimento da ordem maçónica tal qual conhecemos hoje, ou seja, a denominada maçonaria especulativa, deu-se em pleno século XVIII, período de efervescente surgimento de ideias no campo da filosofia e das ciências. No meio destas discussões, filósofos como Voltaire desenvolveram temas sobre metafísica e sobre a noção de Deus, discorrendo sobre as formas de provar a sua existência e elencar alguns dos seus atributos.

Tendo estes pontos em vista, gostaríamos de apresentar, neste artigo, uma análise comparativa entre a noção maçónica de Grande Arquitecto do Universo e a ideia de Deus apresentada nas obras de Voltaire. Não pretendemos aqui sugerir que ambos os conceitos se relacionam pelo simples facto de terem se desenvolvido num mesmo período da história, o século XVIII. Tal perspectiva seria algo óbvio e infrutífero do ponto de vista filosófico. Ao contrário, o nosso intuito será mostrar, amparando-se em textos de Voltaire e de autores maçónicos, que as bases metafísicas de ambos os conceitos são muito próximas, de forma que podemos afirmar que a filosofia francesa do iluminismo se apresenta como um campo teórico com conceitos intercambiáveis em relação àqueles da maçonaria, sobretudo no que diz respeito a elementos metafísicos.

O princípio criador na maçonaria: O Grande Arquitecto do Universo

Apesar de ter se estabelecido como maçonaria especulativa e ter passado a trabalhar e a organizar-se da forma que conhecemos hoje apenas no século XVIII, a história da maçonaria e da sua doutrina, bem como dos seus símbolos e leis, remete-se a um passado anterior e encontra as suas raízes em doutrinas e culturas mais antigas. Não queremos dizer com isto, como dizem alguns autores mais apaixonados e imaginativos, que a maçonaria já era pratica no antigo Egipto ou até mesmo no início dos tempos. Longe disso, pautando-nos apenas pela história documentada, não parece ilícito afirmar que as influências que vieram a compor a simbologia e a doutrina maçónica são um apanhado de elementos de culturas e práticas anteriores ao século das luzes, período no qual a ordem foi formalizada. As próprias leis e regulamentos gerais que se aplicam de forma ampla e universal à ordem maçónica possuem uma origem antiga, apresentando-se em documentos fundamentais, como é o caso, apenas para citar um exemplo, do Poema Regius, datado de 1390 e publicado apenas em 1840 por Halliwell. Os Landmarks da ordem e os seus Regulamentos mais primitivos também tem a sua origem numa época anterior a aquela da fundação da actual estrutura organizacional maçónica.

Apesar de antigos e de origem variada, todos estes documentos e regulamentos a partir dos quais a maçonaria se ampara ainda hoje para estabelecer as suas normas e procedimentos apresentam elementos em comum e, de acordo com o nosso actual interesse, o principal deles talvez seja a exigência da crença num princípio criador. A ideia de uma divindade apresenta-se como elemento basilar das normas e regulamentos da maçonaria e, ainda hoje, é tida como critério para selecção dos novos iniciados. Sem a crença em tal princípio não há a possibilidade de se fazer membro da ordem, regra esta presente em vários dos regulamentos maçónicos, sejam modernos ou antigos. Neste sentido, os Landmarks [1] são claros nesta exigência.

Reunidos em várias listas criadas por diferentes autores, se nos remetermos aos Landmarks de Mackey, por exemplo, compilados em 1856, veremos que o 19° Landmark postula “A crença na existência de Deus como Grande Arquitecto do Universo“(CAMINO, 2005, p. 49), ou seja, a crença neste princípio criador é colocada como elemento delimitador da maçonaria.

O próprio Mackey, ao comentar os regulamentos maçónicos na sua obra “Os princípios das leis maçónicas” apresenta-nos algumas qualificações dos candidatos à iniciação e, dentre elas, encontra-se novamente a exigência na crença num princípio criador. Nesta obra em questão, Mackey vincula esta norma ao que ele chama de “Antigos Encargos do Estado” (MACKEY, 2009, p.13), que postulam, dentre outras coisas, que o Maçom não deve ser “um estúpido ateu, nem um irreligioso libertino“. Uma negação da existência de um Arquitecto Supremo do Universo não pode, evidentemente, ser aplicada a um Maçom, e, nesse sentido, não há um marco mais certo, que o que exclui todos os ateus da Ordem” (Ibid. Id.). Tais Antigos Encargos, dos quais Mackey apresenta uma citação literal de alguns trechos, são, na verdade, as Constituições de James Anderson, que representam um documento ainda mais antigo no qual tais normas são apresentadas.

Tido como um dos promotores da reforma maçónica de 1717 (FIGUEIREDO, 1997, p. 39) James Anderson é o responsável pela compilação, união e estabelecimento de um conjunto de leis a partir da análise e leitura de variados documentos antigos que faziam menção às leis maçónicas. Esta compilação resultou no que conhecemos por The Constítutíons of the Freemasons, passando por análise da loja a qual pertencia em 1723 e vindo à público em 1734. Nesta edição podemos ler uma lista do que o autor chama de Charges of Freemasons, ou seja, os Antigos Encargos aos quais Mackey se refere nos seus Princípios das Leis Maçónicas, que comentamos acima. Dentre estes encargos, o primeiro deles versa sobre a religião e Deus. E exactamente deste ponto que Mackey retira a ideia de que o Maçom não poderá ser um “estúpido ateu”(ANDERSON, 1734, p.48).

Até este ponto esforçámo-nos em apresentar os fundamentos maçónicos da exigência da crença em um princípio criador, exigência esta que, quando não cumprida, representa um impedimento para a candidatura de um futuro iniciado bem como uma quebra de Landmark. Ora, reconhecida esta exigência, como a ordem maçónica conceituará esta figura divina?

Uma definição de viés maçónico da divindade é-nos apresentada por Figueiredo no seu Dicionário de Maçonaria. Vinculando-se a uma nomenclatura pitagórica o autor diz-nos: “O imortal Pitágoras assim o definiu em linguagem bem maçónica: ‘Deus é a ordem e a harmonia, graças à qual existe e conserva-se o Universo. Deus é Uno; não está nunca, como pensam alguns, fora do mundo, senão no próprio mundo, e todo no mundo inteiro (…)” (FIGUEIREDO, 1997, p.123). Da Camino, por sua vez, apresentará uma definição mais directa e simples da divindade: “É a força suprema, cósmica e universal, tendo n’Ele o princípio e o fim” (CAMINO, 2018, p.141). Ora, ambas as definições apresentadas mostram-nos algo em comum entre elas, a saber, a apresentação de Deus como um primeiro princípio ordenador (cósmico) e, portanto, inteligente, simples e uno.

Tal caracterização maçónica da figura divina, apresentada sobre o nome de Grande Arquitecto do Universo, merece algumas considerações. Tendo em vista o pressuposto ecuménico da ordem, ou seja, o facto de que ela abarca todas as crenças e religiões, não seria permitido que o princípio criador e ordenador da natureza fosse apresentado sobre alguma nomenclatura específica de alguma crença, como, por exemplo, Jeová, Vishnu, Brahma, etc. Além do nome, atributos específicos de determinada cultura ou crença não devem ser vinculados a esta conceituação de divindade proposta pela maçonaria, mas deve-se manter apenas o que há de mais básico e comum a toda e qualquer divindade, ou seja, a ideia de unidade [2], a ideia de ordem e a ideia de princípio básico, evitando-se mais uma vez a vinculação a uma entidade específica.

Como já adiantamos, conceituar o primeiro princípio deste modo permite à ordem maçónica manter o seu carácter ecuménico e tolerante em relação a toda e qualquer religião ao mesmo tempo em que garante as normas estipuladas pelos Landmarks e pelas antigas Constituições e Encargos. Tendo estabelecido estes pontos, gostaríamos de sugerir, a seguir, uma hipótese sobre a formação deste conceito, ou seja, do conceito de Grande Arquitecto do Universo. A nossa hipótese basear-se-á numa comparação desta imagem divina de viés maçónico com aquela apresentada por Voltaire [3], um dos maiores, senão o principal, filósofo do século XVIII.

O princípio criador na obra de Voltaire: o Deus relojoeiro

“Si dieu n’existait pas il faudrait l’inventer'(VOLTAIRE, 1771, p. 45). Emblemática frase de Voltaire que representa muito da importância que o conceito de divindade possui na sua obra. A necessidade de Deus se coloca, pois Ele representará um pressuposto para o desenvolvimento de questões morais e éticas, além daquelas da metafísica.

François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire foi, sem dúvida, a mais emblemática figura do iluminismo. Iniciado Maçom aos 84 anos, em 7 de Abril de 1778, apesar das referências à ordem serem quase inexistentes nos seus textos, o pesquisador que transita entre os dois assuntos, maçonaria e o pensamento de Voltaire, não deixará de notar muitas semelhanças e diálogos entre os dois campos de pesquisa. Neste artigo focar-nos-emos apenas no âmbito metafísico desta relação, ou seja, gostaríamos de apresentar nas linhas que se seguem, a forma pela qual Voltaire apresenta o conceito de Deus, como ele prova a Sua existência e elenca os Seus atributos.

Em primeiro lugar, devemos salientar que o método de investigação proposto por Voltaire representa uma ideia bem específica de procedimento filosófico. Grande opositor das filosofias de sistema, como a de Descartes, autor do século anterior, Voltaire lançará mão de um procedimento que inverte o caminho proposto por Descartes. O que isso quer dizer? Ora, a filosofia cartesiana representada pelas suas Meditações Metafísicas realizam um caminho dedutivo, ou seja, um procedimento quase geométrico. Partindo de princípios gerais abstractos, Descartes constrói uma cadeia dedutiva através da qual chegará a resultados gerais, enquanto que Voltaire fará o contrário: sob a tutela de Locke, o grande nome do empirismo inglês, Voltaire basear-se-á na análise dos factos particulares para chegar a princípios gerais [4]. Neste procedimento analítico, Voltaire terá como guia sempre o procedimento empirista, ou seja, ao invés de se basear em elementos abstractos o seu ponto de partida será sempre a experiência.

Estabelecido o método que, aliás, não é algo exclusivo de Voltaire, mas sim um movimento geral da filosofia francesa do século XVIII [5], ferrenha crítica do racionalismo do século anterior, devemos notar como o conceito de Deus se desenvolve. A princípio, este não é um conceito inato, ou presente na mente de todos os homens e, apesar de certa, é uma ideia que deverá ser provada. Encontraremos, portanto, duas formas de provar a existência de Deus segundo Voltaire, serão elas

  1. a prova da ordem e dos fins e
  2. a prova da cadeia de criação.

Sobre a primeira prova, Voltaire dir-nos-á:

A mais natural e mais perfeita (prova) para as capacidades comuns é a de considerar não somente a ordem que existe no universo, mas também o fim com que cada coisa parece relacionar-se. Muitos grossos livros foram compostos centrados nesta única ideia, e todos os calhamaços juntos contêm apenas este argumento: quando vejo um relógio cujo ponteiro marca as horas, concluo que um ser inteligente arranjou as molas desta máquina para que o ponteiro marcasse as horas (…) (VOLTAIRE, 1973, p.69).

Esta prova é chamada de mais natural, pois é derivada directamente da observação do mundo e da natureza, o que é exemplificado através da analogia do relógio, exemplo muito corrente na época em que Voltaire escreveu estas linhas. Qualquer composto organizado de forma a atingir um determinado fim me levará a crer que tal composto foi assim arranjado de forma voluntária por alguma inteligência. No caso do exemplo acima, este composto é um relógio, objecto organizado de forma a marcar as horas, mas, segundo Voltaire, podemos encontrar este mesmo tipo de ordem e finalidades na natureza. No verbete “Fim, Causas Finais” do Dicionário Filosófico, Voltaire explicitará qual é o tipo de finalidade à qual ele aqui se refere. Não se trata de afirmar, como é o caso daqueles que possuem “um amor extremo pelas causas finais” (VOLTAIRE, 1973 b, p. 197), que os narizes foram feitos para sustentar óculos ou que os bichos da seda tenham sido criados para que se possa ter tecidos, mas, ao contrário, o que Voltaire entende por finalidades é considerar uma invariabilidade de efeitos sempre que determinadas causas são dadas, ou seja, “Quando os efeitos são invariavelmente os mesmos, em qualquer lugar e em qualquer tempo, quando esses efeitos uniformes são independentes dos seres aos quais pertencem, nessa caso há, visivelmente uma causa final” (Ibid. Id.). Exemplos clássicos deste tipo de finalidades às quais Voltaire se refere são as leis da natureza, invariáveis, matematicamente expressas e constantes. Outro exemplo pode ser dado pelo funcionamento dos nossos órgãos: um coração sempre servirá para bombear sangue, de forma invariável. De modo geral, o que devemos reter desta prova é que tudo o que se mostra ordenado na natureza e apresentando um determinado fim, que é sempre o mesmo para cada coisa, deverá necessariamente ser fruto de uma inteligência ordenadora, ou seja, para Voltaire a ordem das coisas naturais não pode jamais ser fruto do mero acaso, assim como não pode ter sido o acaso que combinou as peças de um relógio.

Voltando-nos agora para a segunda prova da existência de Deus, ou seja, a prova da cadeia de criação, veremos que este argumento é “mais metafísico, menos apto para a compreensão dos espíritos rudes e conduz a conhecimentos bem mais vastos” (VOLTAIRE, 1973 a, p.70). Nesta segunda prova Voltaire levará em conta a hierarquia dos seres criados: sempre que vejo algum ser no mundo, devo considerar uma de duas possibilidades, a saber, ou ele existiu desde sempre ou foi criado por outro ser que, por sua vez, ou existiu desde sempre ou foi criado, etc. Deste modo teremos uma cadeia de criação e de relações de causa e efeito que regrediriam ao infinito. Ora, se não houvesse uma causa primeira, que fosse a causa fundante desta cadeia, não teríamos nada. Entretanto é certo que alguma coisa existe, de onde se seguirá que há uma causa primeira que não foi causada por nada (exigência necessária para que possamos sair da regressão ao infinito). Desta segunda prova devemos notar que esta causa primeira será Deus, independentemente do que ela seja.

Confrontando estas duas provas veremos que existem elementos em comum entre elas. Como já dissemos, sendo um partidário do empirismo inglês, Voltaire partirá sempre da observação do mundo para construir as suas provas e nunca de um elemento a priori. Podemos notar, também, que estas provas não apenas indicam a possibilidade da existência de Deus, mas fornecer-nos-ão mais alguns elementos sobre as características divinas. Isto quer dizer que, não podendo pautar-se em elementos a priori ou meramente ideais, Voltaire deverá basear-se nestas duas provas e nos dados fornecidos por elas para que se possa construir um discurso mais completo sobre a divindade, de modo que todo atributo divino que o autor lançar mão deverá ser extraído destes dois argumentos expostos acima.

Da prova da ordem e dos fins podemos considerar que Deus é inteligente, visto que uma inteligência é necessária para que a ordem se dê, não podendo tal ordem ser fruto do acaso, entretanto, só posso concluir deste único argumento que é provável que um ser inteligente e superior tenha preparado e modelado a matéria com habilidade, mas não posso concluir apenas disso que tal ser tenha feito a matéria com nada e que seja infinito em todos os sentidos (Ibid. Id.).

Isto quer dizer que da ordem segue-se apenas a inteligência divina. Qual outro elemento ela nos daria? Bondade? Eternidade? Para Voltaire, este primeiro argumento é o mais limitado e não nos fornecerá mais atributos de Deus além da inteligência. Por outro lado, o segundo argumento a favor da existência divina, apesar de ser mais complexo, será aquele do qual poderemos extrair mais consequências. Visto que Deus deve ser a causa primeira, podemos afirmar que ele é eterno, uma vez que não pode ter sido criado por nada. Sendo eterno e nada havendo antes dele, pode-se afirmar que Deus é livre, visto que não havia nada além da Sua vontade que possa tê-Lo determinado. Além da liberdade e da eternidade, Voltaire também aceitará que Deus é um ser extremamente poderoso, visto que o mundo se mostra como uma criação muito mais complexa do que a mais complexa criação humana.

Após este percurso, passando pelas duas provas que garantem a existência de Deus aos olhos de Voltaire, pudemos estabelecer uma divindade livre, inteligente, eterna e poderosa. Note-se que nada nestas provas nos indicam a bondade de Deus. Esta será uma característica que fará com que a divindade voltairiana seja destoante em relação àquelas das religiões tradicionais, como a cristã ou a judaica, por exemplo. Considerar que Deus seja justo, bom ou mal, é algo que não podemos assumir pela via racional da metafísica através da qual estamos a caminhar e acompanhado o autor até aqui, ou seja, tudo que se pode falar de Deus é que ele age segundo a razão. Tais características da análise e apresentação da figura divina serão elementos essenciais e formativos do teísmo de Voltaire.

Conclusão: uma análise comparativa

Ao colocarmos lado a lado a figura do Grande Arquitecto do Universo proposta pelos autores maçónicos e a figura do Deus relojoeiro proposta por Voltaire veremos grandes semelhanças. Ambos os conceitos são apresentados como portadores de elementos mínimos nas suas formulações: livre, eterno, poderoso e inteligente em Voltaire, inteligente, uno, activo e criador das coisas na concepção maçónica. Estes dois conjuntos de atributos não são excludentes, enquadram-se e podem ser considerados intercambiáveis nas duas conceituações da divindade. Se é criador, é inteligente e activo, se é uno, é a primeira causa incausada, que é eterna e livre. Ora, as semelhanças entre as duas abordagens parece-nos patente.

Simples conceituações de Deus, a definição maçónica e da Voltaire tem uma mesma razão de ser: a exclusão da vinculação de Deus a uma doutrina específica. Se para a maçonaria tal exclusão é necessária para que se mantenha a ideia de tolerância religiosa e de ecumenismo na ordem, para Voltaire, ao conceituarmos Deus da forma proposta por ele, também evitamos a mistura entre Deus e religião. Neste sentido, a doutrina teísta sugerida pelo autor será pautada apenas na razão e na análise da natureza e não nos dogmas arbitrários das religiões tradicionais, o que nos leva a afirmar que o Grande Arquitecto do Universo pode ter esta mesma origem, a saber, a razão e não dogmas específicos.

Apesar de próximas e semelhantes, não nos parece, entretanto, correcto afirmar que a imagem de Deus proposta pela maçonaria seja tomada directamente da obra de Voltaire, uma vez que tal concepção se encontra em textos e autores anteriores, como é o caso da referência feita a Pitágoras, por exemplo. O que gostaríamos de notar, a título de conclusão, é apenas que a doutrina maçónica comunga com o pensamento iluminista muito mais do que o momento histórico: as bases racionais sobre as quais um dos seus principais conceitos – Deus – é construído são muito próximas e semelhantes.

João Carlos Lourenço Caputo

Notas

[1] Deve-se entender pelo termo Landmark, termo em inglês que significa literalmente “fronteira”, “marca na terra”, o conjunto de normas básicas da maçonaria que possuem, dentre outras normas, aquela que postula a sua inalteração. Os Landmarks representam as “fronteiras” da ordem, ou seja, as regras que delimitam o que é e o que não é maçonaria.

[2] Por mais que existam crenças politeístas, as quais não são excluídas do grupo de crenças aceitas pela maçonaria, sempre existirá uma entidade que será reconhecida como a suprema, da qual as outras entidades são subordinadas.

[3] A nossa escolha por Voltaire vai para além do facto de ser um dos mais conhecidos pensadores da época. Ele representa a própria personificação da figura do filósofo iluminista, ou seja, ele próprio é o modelo de uma personagem específica deste período que tem por papel o desenvolvimento e propagação de ideias no campo da política, ética, metafísica e no campo social. (BACZKO, 1997 p.27). A sua obra também representa um critério que justifica a nossa escolha: uma das mais extensas dentre todos os autores da época, escrevendo por mais de 40 anos ininterruptos, Voltaire lida com temas que dialogam com todos os campos da filosofia, sendo a discussão sobre Deus uma das principais e fundamentais em relação ao conjunto do pensamento do autor, de modo que “Devemos examinar o que é a faculdade de pensar nestas diferentes espécies de homens, como lhes vêm as ideias, se têm uma alma distinta do corpo, se essa alma é eterna, se é livre, se tem virtudes e vícios, etc. Entretanto, a maioria destas noções dependem da existência ou da não-existência de um Deus. É preciso, creio, começar sondando o abismo desse grande princípio” (VOLTAIRE, 1973 p.69 – Grifo nosso).

[4] Sobre a oposição entre Descartes e Locke e a preferência de Voltaire por este ao invés daquele, ver as Cartas Inglesas, sobretudo a décima terceira e a décima quarta carta.

[5] Gostaríamos de frisar que este é um ponto sobre o qual Voltaire mudará de opinião com o passar dos anos. Neste artigo estamos a focar-nos nos textos da década de 1730, entretanto, na década de 1760 o autor lançará mão de uma conceituação da divindade muito distinta da que estamos aqui analisando. Sobre esta mudança ver Il faut prendre um parti e Díeu: reponse au systeme de lanature.

Referências

  • ANDERSON, J. The Constitutions of the Free-Masons: an online electronic edition. Lincoln: University of Nebraska, 1734.
  • BACZKO, B. Job, mon ami: Promesses Du bonheur et fataüté du mal Paris: Gallimar, 1997.
  • CAMINO, R. da. Dicionário maçónico. São Paulo: Madras Editora, 2018.
  • CAMINO, R. da. Introdução à maçonaria: Doutrina, história e filosofia. São Paulo: Madras Editora, 2005.
  • CASSIRER, E. . A Filosofia do Humanismo. 2a Campinas: Unicamp, 1994.
  • DESCARTES, R. Meditações Metafísicas. 3a ed. São Paulo: Abril Cultural, Col. Os Pensadores, 1983.
  • FIGUEIREDO, J. G. de. Dicionário de Maçonaria. São Paulo: Editora Pensamento, 1997.
  • Poema Regius. Versão traduzida online disponível em: http://joseroberto735.blogspot.com/2013/07/o-poema-regius.html.
  • MACKEY, A. G. Os princípios das leis maçónicas. Volume II. São Paulo: Universo dos Livros.
  • VOLTAIRE, Epitre au auteur du poeme Les trois imposteures, Iná Epîtres, satires, contes, odes, et pièces fugitives du poète philosophe, dont plusieurs n’ont point encorparu: enrichies de notes curieuses et interessantes, F. Grasset, 1771.
  • Cândido ou O Optimismo in: Contos. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
  • Cartas Inglesas. São Paulo: Abril Cultural, col. Os Pensadores, 1973 c.
  • Dicionário filosófico. São Paulo: Abril Cultural, col. Os Pensadores, 1973 b.
  • Dieu. Réponseau Système de La Nature in Derniers Écritssur Dieu. Paris: GF Flammarion, 2006 a.
  • Il Faut Prendreun Parti, ou Le Pricipe d’Action in Derniers Écritssur Dieu. Paris: GF Flammarion, 2006 b.
  • Tratado de metafísica. São Paulo: Abril Cultural, col. Os Pensadores, 1973 a.

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