O Simbolismo da Maçonaria XXI: O Rito de Circumambulação

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O rito da circumambulação fornecer-nos-á um outro símbolo ritualístico, no qual podemos novamente traçar a identidade da origem da Maçonaria com a das cerimónias religiosas e místicas dos antigos.

“Circumambulação” é o nome dado pelos arqueólogos sagrados àquele rito religioso das iniciações antigas que consistia numa procissão formal à volta do altar ou de outro objecto sagrado e consagrado.

A prevalência deste rito entre os antigos parece ter sido universal, e originalmente (como terei oportunidade de mostrar) aludia ao curso aparente do sol no firmamento, que é de leste para oeste pelo caminho do sul.

Na Grécia antiga, quando os sacerdotes se dedicavam aos ritos do sacrifício, eles e o povo andavam sempre três vezes à volta do altar, enquanto cantavam um hino sagrado ou uma ode. Por vezes, enquanto o povo se encontrava à volta do altar, o rito de circumambulação era efectuado apenas pelo sacerdote, que, virando-se para a mão direita, o contornava e o aspergia com farinha e água benta. Ao fazer esta circumambulação, considerava-se absolutamente necessário que o lado direito estivesse sempre junto ao altar e, consequentemente, que a procissão se deslocasse do oriente para o sul, depois para o ocidente, a seguir para o norte e, por fim, novamente para o oriente. Era desta forma que se representava a revolução aparente.

A esta cerimónia os gregos chamavam mover εϗ δεξια εν δεξια, da direita para a direita, que era a direcção do movimento, e os romanos aplicavam-lhe o termo dextrovorsum, ou dextrorsum, que significa a mesma coisa. Assim, Plauto faz Palinurus, uma personagem da sua comédia “Curculio”, dizer: “Se queres fazer reverência aos deuses, tens de te virar para a mão direita”. Gronovius, ao comentar essa passagem de Plauto, diz: “Ao adorar e orar aos deuses, eles estavam acostumados a se virar para a mão direita“.

Foi preservado um hino de Calímaco, que se diz ter sido entoado pelos sacerdotes de Apolo em Delos, enquanto realizavam esta cerimónia de circumambulação, cuja substância é: “Imitamos o exemplo do sol e seguimos o seu curso benevolente”.

Observa-se que esta circumambulação à volta do altar era acompanhada pelo canto ou entoação de uma ode sagrada. Das três partes da ode, a estrofe, a antístrofe e a epode, cada uma devia ser cantada num determinado momento da procissão. A analogia entre este canto de uma ode pelos antigos e a recitação de uma passagem da Escritura na circumambulação maçónica será imediatamente evidente.

Entre os romanos, a cerimónia da circumambulação era sempre utilizada nos ritos de sacrifício, de expiação ou de purificação. Assim, Virgílio descreve Corynasus como purificando seus companheiros, no funeral de Misenus, passando três vezes ao redor deles enquanto os aspergia com as águas lustral; e para fazer isso convenientemente, era necessário que ele se movesse com a mão direita em direcção a eles.

“Idem ter socios pura circumtulit unda,
Spargens rore levi et ramo felicis olivæ.”
Æn. vi. 229.

“Três vezes com água pura rodeou a tripulação,
Aspergindo, com ramo de oliveira, o suave orvalho.”

De facto, era tão comum unir a cerimónia da circumambulação à da expiação ou purificação, ou, por outras palavras, fazer uma procissão em circuito, ao realizar este último rito, que o termo lustrare, cujo significado primitivo é “purificar”, acabou por ser sinónimo de circuire, andar à volta de qualquer coisa; e, por isso, uma purificação e uma circumambulação eram frequentemente expressas pela mesma palavra.

Entre os hindus, o mesmo rito de circumambulação sempre foi praticado. Como exemplo, podemos citar as cerimónias que devem ser executadas por um brâmane ao levantar-se da cama pela manhã, um relato preciso das quais foi dado pelo Sr. Colebrooke nas “Pesquisas Asiáticas”. O sacerdote, depois de ter adorado o Sol enquanto dirigia o seu rosto para leste, caminha então para oeste pelo caminho do sul, dizendo, ao mesmo tempo, “Sigo o curso do Sol”, o que ele explica da seguinte forma: “Assim como o sol, em seu curso, se move ao redor do mundo pelo caminho do sul, assim eu sigo essa luminária, para obter o benefício decorrente de uma viagem ao redor da terra pelo caminho do sul.” [93]

Por último, refiro-me à conservação deste rito entre os druidas, cuja “dança mística” à volta do monte de pedras sagradas não era nem mais nem menos do que o rito da circumambulação. Nestas ocasiões, o sacerdote dava sempre três voltas, de este a oeste, pela mão direita, em torno do altar ou do monte de pedras, acompanhado por todos os fiéis. E tão sagrado era o rito outrora considerado, que aprendemos com Toland [94] que nas Ilhas Escocesas, outrora uma das principais sedes da religião druídica, o povo “nunca chega aos antigos montes de pedras de sacrifício e de fogo, mas caminha três vezes em torno deles, de leste a oeste, de acordo com o curso do sol”. Este passeio santificado, ou volta pelo sul, observa ele, é chamado Deiseal, como o contrário, ou não sagrado pelo norte, é chamado Tuapholl. E observa ainda que esta palavra Deiseal foi derivada “de Deas, a mão direita (compreensiva) e solo, um dos antigos nomes do sol, sendo que a mão direita nesta ronda está sempre ao lado do monte”.

Eu poderia prosseguir estas pesquisas ainda mais longe, e traçar este rito de circumambulação para outras nações da antiguidade; mas eu concebo que já foi dito o suficiente para mostrar a sua universalidade, bem como a tenacidade com que a cerimónia essencial de executar o movimento um número místico de vezes, e sempre pela mão direita, do leste, através do sul, para o oeste, foi preservada. E penso que esta singular analogia com o mesmo rito na Maçonaria deve levar-nos à legítima conclusão de que a fonte comum de todos estes ritos se encontra na origem idêntica da Maçonaria Espúria ou mistérios pagãos, e da Maçonaria pura e primitiva, da qual a primeira se separou apenas para se deteriorar.

Ao rever o que foi dito sobre este assunto, perceber-se-á imediatamente que a essência do rito antigo consistia em fazer a circumambulação em torno do altar, do leste para o sul, do sul para o oeste, daí para o norte e para o leste novamente.

Ora, neste aspecto, o rito maçónico da circumambulação está em perfeita consonância com o antigo.

Mas este circuito pela mão direita, admite-se, foi feito como uma representação do movimento do sol. Era um símbolo da trajectória aparente do Sol à volta da Terra.

E assim, então, aqui temos novamente na Maçonaria aquela velha e frequentemente repetida alusão à adoração do sol, que já foi vista nos oficiais de uma loja, e no ponto dentro de um círculo. E como a circumambulação é feita à volta da loja, tal como se supõe que o sol se move à volta da terra, somos levados de volta ao simbolismo original com que começámos – que a loja é um símbolo do mundo.

Albert G. Mackey, M.D.

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Notas

[93] Ver um artigo “sobre as cerimónias religiosas dos hindus”, de H. T. Colebrooke, Esq. nas Pesquisas Asiáticas, vol. vi. p. 357.

[94] A Specimen of the Critical History of the Celtic Religion and Learning. Carta ii. § xvii.

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