Templários: Subversão de um modelo de Cavalaria?

Partilhe este Artigo:

espada dos templários, cavalaria

A partir de 1098, em resultado da Primeira Cruzada e da tomada de Jerusalém, surgem, no corredor sírio – palestiniano, os chamados estados latinos do Oriente: Edessa (1098 – 1144), Antioquia (1098 – 1268), o reino de Jerusalém (1099 – 1291) e, finalmente, o reino de Trípoli (1104 – 1288).

Os peregrinos podiam chegar agora aos portos de Acre ou de Jaffa, com a Terra Santa sob (Publicado em freemason.pt) o controlo do poder cristão, para visitar os lugares sagrados relacionados com a vida terrena de Jesus: Belém, o rio Jordão, o Monte das Oliveiras, o Santo Sepulcro…

No entanto, os caminhos pedregosos que, da costa, conduziam a Jerusalém não apresentavam qualquer garantia de segurança, sujeitos ao vandalismo de grupos de salteadores, ou a pequenas incursões de cavaleiros fatímidas provenientes da cidade de Ascalon que, na costa de Gaza, continuava orgulhosamente sob domínio muçulmano.

É em resultado destas circunstâncias que, em 1118 ou 1119 segundo optarmos pela data preferida por Michel Picar ou pelo glossário Du Cange, Hugo de Payens, cavaleiro natural da Champagne ou da Borgonha, em conjunto com um grupo de oito cavaleiros, entre os quais alguns autores incluem um proveniente deste ocidental território português, toma a iniciativa de garantir a protecção desses peregrinos. Pretendiam eles, simultaneamente, assegurar aquele serviço de características militares e manter uma vida religiosa que os sujeitasse aos votos monásticos de obediência, castidade e pobreza, sob os preceitos de uma Regra, à semelhança do que, havia vários séculos, faziam os monges beneditinos, os cónegos regulares de Santo Agostinho e, mais recentemente, os cartuxos (1084 – S. Bruno) e os cistercienses (1098 – Robert de Molesmes).

Alguns cavaleiros, chamados por Deus e ordenados para o seu serviço, renunciaram ao mundo e consagraram-se a Cristo. Mediante votos solenes pronunciados perante o patriarca de Jerusalém, dedicaram-se a defender os peregrinos dos arruaceiros e ladrões, a proteger os caminhos e a servir de cavaleiros ao soberano rei. Observaram a pobreza, a castidade e a obediência, segundo a Regra dos Cónegos Regulares. Os seus chefes eram dois homens veneráveis, Hugues de Payns e Geoffroy de Saint-Omer. Inicialmente, só houve nove que tomaram uma decisão tão santa e, durante nove anos, serviram com vestes seculares e cobriram-se com aquilo que os fiéis lhes deram como esmola. O rei, os seus cavaleiros e o senhor patriarca encheram- se de compaixão por esses nobres homens que tudo haviam abandonado por Cristo e deram-lhes algumas propriedades e benefícios para proverem às suas necessidades e pelas almas dos doadores. E porque não tinham igreja ou casa que lhes pertencesse, o rei instalou-os no seu palácio, perto do Templo do Senhor. O abade e os cónegos regulares do Templo deram-lhes, para as necessidades do seu serviço, um terreno que não ficava distante do palácio e, por essa razão, foram mais tarde chamados Templários [1].

Rapidamente esta protecção aos peregrinos se mostrou fundamental para a segurança do Reino Latino de Jerusalém, acabando por transformar-se num apoio essencial aos estados latinos contra os seus vizinhos muçulmanos. Não surpreende, por isso, que a atitude de Hugo de Payens tenha sido encorajada por Balduíno II, rei de Jerusalém, que deu ao grupo um dos seus palácios situado na proximidade da mesquita al-Aqsa, então associada ao antigo Templo do rei Salomão, para nele estabelecerem a sua residência.

( Na realidade, a implantação do Templo de Salomão coincide com a da mesquita do Rochedo, correspondendo os únicos restos do Templo de Herodes, herdeiro do de Salomão, ao actual Muro das Lamentações, na base da célebre Esplanada das Mesquitas, sobre o qual se ergue a mesquita Al-Aqsa).

No entanto, para este grupo de cavaleiros do início do século XII, as novas instalações correspondiam ao Templum Domini, passando o selo do Mestre Templário a reproduzir, frequentemente, a respectiva cúpula.

Mas o reconhecimento real e o acordo do patriarca de Jerusalém não bastavam para dar carta de natureza religiosa a estes guerreiros. Era ainda necessário o apoio do herdeiro de S. Pedro, ao qual se colocava uma questão primordial:

Até que ponto era legítimo conciliar o ofício das armas com o hábito de religioso? Verter sangue, matar e ser morto, ainda que pela própria fé, envergando um hábito de religioso?

Esta hipótese, até então considerada inadmissível, implicava a ideia de uma profunda reforma nas mentalidades e estava intimamente ligada à teoria da trifuncionalidade social, teoria formulada, no início do século XI, pelos bispos Adalberón de Laón e Geraldo de Cambray.

No topo da hierarquia, situavam-se os que rezavam, os oratores, cuja função consistia em servir de intermediário entre os homens e a divindade, oferecendo-lhe, qual Melquizedec, as suas primícias, e em apaziguar a ira dos poderes invisíveis por gestos, fórmulas e cantos [2]. Eram seguidos pelos bellatores, os especialistas da guerra, garantes da manutenção da paz, expulsando pela espada as forças do mal. Os dois grupos constituíam a estrutura do poder que garantia a coesão social e a segurança dos que trabalhavam e produziam, os laboratores. Assim se completava uma divisão social que se pretendia hierárquica, mas solidária.

Ora o que Hugo de Payens propunha era a fusão dos dois primeiros grupos num só, sendo certo que a perspectiva da reforma gregoriana havia atribuído aos cavaleiros, profissionais (Publicado em freemason.pt) da violência, um lugar no plano divino, de modo a poder garantir-lhes a possibilidade da salvação, apesar do exercício da sua função de violência e de guerra.

Assim, estes cavaleiros cruzados, durante nove anos refugiados nas criptas do Templo, como se de criaturas regressadas à caverna de Platão, depois de terem alcançado a luz exterior se tratasse, surgiam com uma dupla característica piedosa. Não apenas se sujeitavam às obrigações da Reforma Gregoriana, aceitando as limitações previstas na Trégua de Deus, como, ainda, canalizavam a violência para uma obra pia, unificadora e libertadora da cristandade. É esta conjunção de cruzada e de reforma que caracteriza a via de aperfeiçoamento proposta aos leigos envolvidos nas campanhas militares do Oriente. O cavaleiro, desta forma transformado num miles Christi, num cavaleiro de Cristo, é um religioso, mas não um monge, permanece leigo sem ser ordenado e por isso pode combater. É verdadeiramente, um cavaleiro destemido e amparado por todos os lados, pois a sua alma é protegida pela armadura da fé, tal como o seu corpo está protegido pela armadura de aço. Está, portanto, duplamente armado e não deve temer demónios nem homens [3].

Trata-se de uma inovação radical quando comparada com uma certa tradição não violenta do cristianismo e opondo-se à teoria da trifuncionalidade social. Não surpreende, assim, que, numa fase inicial, tenha sido liminarmente rejeitada por todos os pensadores da época, incluindo os cistercienses como S. Bernardo e Isaac de Estella, ou D. Guido, prior dos Cartuxos, que viam nesta evolução um conjunto de variadíssimos perigos.

Mais compreensível era a posição da igreja bizantina que se opunha terminantemente à ideia de cruzada, não só porque entendia a violência e a guerra como uma atribuição de cavaleiros, incompatível com a de gente dedicada à religião, mas também porque a sua experiência lhe demonstrara já como, sob o pretexto de ser protegida, acabava por ser a mais prejudicada pelo fervor de quem não distinguia credos entre a amálgama de cultos que a tolerância ensinara a conviver pacificamente.

Importa, no entanto, fazer uma precisão. Embora nascida no Oriente, a nova ideia tinha as suas origens no Ocidente, não lhe devendo mesmo ser estranha a noção de yihad, a guerra santa muçulmana, mas numa incorporação com origem ocidental.

Há mesmo quem veja mais do que uma coincidência na contemporaneidade do surgimento do movimento templário, no Oriente cristão, e do movimento almóada, no Ocidente muçulmano. Eu prefiro mencionar as relações entre o modelo de cavalaria proposto por S. Bernardo e a ideia de cavalaria espiritual do movimento sufi. Mas esse é tema para outro artigo.

Curiosamente, é S. Bernardo, inicialmente opositor da nova ideia, quem vai transformar-se no seu mais eloquente e fervoroso defensor. É ele que anuncia que «uma nova espécie de cavalaria viu a luz, nesta região que, há tempo, o ‘sol nascente’ encarnado, visitou desde o alto» [4].

Em Janeiro de 1129, o concílio reunido em Troyes, sob o comando do papa Honório II, com a assistência de S. Bernardo, de vários abades cistercienses e de Hugo de Payens, reconhece a nova Ordem, oficialmente designada por Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Jerusalém, confirmando-lhes a sua Regra. Para este sucesso contribuiu fortemente a acção do obreiro da grandeza de Cister, transformado em advogado destes Cavaleiros de Cristo, com o seu texto Laude novae militiae ou Elogio da nova cavalaria, escrito antes da realização do concílio.

Dez anos mais tarde, completava-se o processo de legitimação da nova Ordem através da bula Omne datum optimum, do papa Inocêncio II, que colocava os cavaleiros na dependência directa do papa, libertando-os da dependência episcopal e lhes concedia um variado leque de privilégios.

(Em jeito de nota de rodapé, lembremos que não são os templários a primeira Ordem a ser criada no Oriente. De facto, já antes da Primeira Cruzada e da conquista de Jerusalém, tinha nascido outra ordem, junto do Santo Sepulcro, nas instalações de um hospital para alojar e cuidar dos peregrinos, mas sem funções militares. Em 1113, converteu-se na casa mãe da Ordem que só se militarizaria depois da fundação dos templários. O futuro mostraria como o destino dos cavaleiros de S. João de Jerusalém andaria associado ao dos Cavaleiros de Cristo.)

Centremo-nos um pouco mais na influência que S. Bernardo teve na génese da Ordem do Templo, enquanto modelador de um projecto que dava corpo a um vasto leque de ânsias reformadoras (Publicado em freemason.pt) que vinham ganhando consistência desde o início do século XI. E a primeira constatação é a de que, dentro do esquema trifuncional da sociedade, o lugar de destaque era atribuído aos belatores. Eram eles quem garantia a coercividade necessária à manutenção de um modelo social assente no senhorio, entendido, na perspectiva de Georges Duby, como uma grande família governada pelo senhor, os seus filhos, irmãos e sobrinhos, que detinham todos os meios de produção, a terra, as florestas, o gado e os homens.

Este modelo assente na ociosidade dos senhores, ociosidade que incorporava a própria manifestação do poder, era sustentada ideologicamente pelos oratores através da formalização de uma imagem assente na missão atribuída pelos desígnios de Deus a cada homem, mas era nos belatores que encontrava o seu esteio.

Por isso, os rendimentos do senhorio eram preferencialmente canalizados para aperfeiçoar tudo o que dissesse respeito à vida militar, quer se tratasse das fortalezas, das armaduras, espadas e lanças, quer mesmo, do apuramento das raças de cavalos dedicados à função da guerra.

A cavalaria parecia, de facto, ter atingido o auge, a sua idade de ouro, pelo prestígio que exibia, pelo temor que inspirava, pelo poder que demonstrava, mesmo quando à falta de confrontos de guerra, buscava o seu exercício em torneios que, na opinião de S. Bernardo, mais não eram que festas de ostentação, onde se gastavam grandes quantias para beber, comer, enfeitar-se e fornicar [5]. É certo que a igreja, desde o início do século XI, passara a condenar, veementemente, estas condutas, por inconciliáveis com o espírito evangélico. Basta lembrarmos o Juramento de Paz dos Cavaleiros do Beauvais, de 1024 para compreendermos o que realmente estava em causa:

“Não tomarei o boi, a vaca, o porco, o carneiro, o cordeiro, a cabra, o burro, o molho de lenha que carrega, a égua e o seu potro ainda não amestrado. Não me apoderarei do camponês ou da camponesa, dos criados e dos mercadores, não lhes tomarei o seu dinheiro; não os obrigarei ao resgate; não os arruinarei exigindo os seus bens com o pretexto de estar em guerra com o seu senhor e não os açoitarei para lhes roubar a subsistência” [6].

Mas, quando a Igreja se ia já convencendo do seu êxito em domar os excessos dos membros da cavalaria, surge uma nova subversão do modelo, com a eclosão de inúmeros poemas que convencionámos apelidar de amor cortês.

Talvez uma das suas primeiras consequências resida no irromper do desejo de conquista do inalcançável, quando o amor imaterial da dama inatingível se tornava o principal objectivo de todo o cavaleiro bem-nascido, mas desprovido de bens materiais, em resultado do modelo que atribuía ao primogénito a garantia da perpetuação da linhagem e a transmissão dos seus bens fundiários.

O século XII abria os seus horizontes a uma Europa cada vez mais rica, já refeita dos medos milenaristas que a haviam perturbado cem anos antes, mas incapaz, ainda, de digerir os primeiros efeitos produzidos pelo regresso da maioria dos que haviam participado nas carnificinas da segunda cruzada. Nenhum cavaleiro voltava, impunemente, com as ilusões com que partira. A inocência, se alguma vez existira, desvanecera-se-lhe, definitivamente, do olhar. A igreja que julgara ter exportado a violência e a agressividade da Europa para o Oriente, canalizando-a para a luta contra o usurpador dos lugares santos, acabava, afinal, por receber os despojos de uma luta que, de longe, não podia compreender.

Quem regressava tinha visto riquezas que nunca ousara imaginar, conseguira despojos incontáveis que aprendera a dissipar e, na sofreguidão da vitória, embriagara-se com a violência mais extrema, sob o pretexto da matança de infiéis.

O regresso sabia um pouco a fim de festa, especialmente porque esta decorrera faustosa, onde todos os luxos, vícios e excessos haviam sido permitidos. No final, restava a consciência de haver perdido o rumo e dois caminhos apenas se apresentavam viáveis: entregar oferendas para que a glória de Deus se manifestasse em construções majestosas ou renunciar ao «século» oferecendo-se ao serviço de Deus.

É este mundo que S. Bernardo encontra e rejeita ao ingressar na Ordem fundada por Robert de Molesmes.

Por essa altura, não devia existir cavaleiro em toda a cristandade que não tivesse partido ou desejado partir em cruzada à Terra Santa. Fosse por desejo de simples aventura e oportunidade de alcançar riqueza, fosse com o objectivo de se afastar do mundo pela descoberta dos lugares onde Cristo vivera, e a sua recordação incitava a uma aprendizagem evangélica como se de uma Imitatio se tratasse, ou fosse ainda, por uma questão de lealdade para com um senhor de quem dependia e a quem jurara acompanhar.

É a este mundo que S. Bernardo tem consciência de responder quando, após o terceiro pedido de Hugo de Payens, resolveu redigir o texto que consagraria a defesa da maior alteração teológica ocorrida durante o século XII, o Elogio da Nova Milícia, Laude novae militiae

Mas a recepção favorável que obteve em Troyes não se deve apenas à sua celebrada eloquência. Dificilmente a sua palavra teria frutificado se o terreno que a absorveu não estivesse preparado para receber a sementeira. Quer no Ocidente, quer no Oriente, a ânsia de «conversão» por parte de uma cavalaria em busca de ideais, potenciava a concepção de um novo cavaleiro, que aceitasse os princípios de uma regra monástica como meio de salvação e mantivesse as suas características guerreiras, agora sujeitas às regras evangélicas e não determinadas por ímpetos sanguíneos.

Mas para que tal se tornasse concretizável, S. Bernardo apenas encontrava um caminho. Os novos cavaleiros, a milícia de Cristo, deveriam, à semelhança dos monges da clausura, sujeitar a sua altaneira afirmação individual à disciplina do grupo, numa total e humilde renúncia à individualidade, fundindo-se no grupo como se cada elemento mais não fosse que uma simples pedra, devidamente aparelhada, na construção colectiva. Tal não impedia, no entanto, que a busca da perfeição deixasse de ser uma tarefa individual, ainda que com o apoio de todos os outros membros da comunidade.

Não deixa de ser estranho como, pouco depois, Chrétien de Troyes, ressuscita pela compilação escrita das lendas do ciclo arturiano, transmitidas oralmente, o mito do cavaleiro ideal, transfigurado no Galaaz de uma Távola Redonda que apenas se mantém operante enquanto nela não entra qualquer dissensão.

O novo modelo para a nova cavalaria não poderia deixar de ser o que S. Bernardo considera o mais perfeito dentro da cristandade, o da Regra de S. Bento reformada pelos cistercienses. Tal como eles, a Ordem do Templo passará, como dizia Duby, a constituir uma comunidade de homens (.) de irmãos gerindo em conjunto uma comunidade, discutindo entre si a forma de a administrar, sob a autoridade do mais antigo, que (Publicado em freemason.pt) se aconselha, mas decide só, e, responsável pela concórdia no seio da família, julga, reprime e castiga quando necessário [7].

A influência mútua das duas instituições passa a ser tão forte que difícil é afirmar se S. Bernardo faz entrar a Cavalaria em Cister ou Cister na Cavalaria.

S. Bernardo nunca aceitou homens que, tal como ele, não tivessem bom sangue, não fossem cavaleiros, não tivessem ascendência nobre, com excepção de monges provenientes de outras ordens. Também o Templo apenas aceitava entre os seus quem desse garantias de ter direito a ser cavaleiro.

No sermão XXVI sobre o Cântico dos Cânticos não podia ser mais eloquente: Aqui estamos, tal como os guerreiros sob a tenda de campanha, tratando de conquistar o céu por meio da violência. A existência humana sobre a terra é idêntica à do soldado, e, embora prossigamos este combate afundados nos nossos corpos actuais, não deixaremos de estar em peregrinação para o Senhor, isto é, para a Luz [8].

Esta aristocracia de homens não dispensava, porém, um vasto conjunto de auxiliares para que toda a máquina monástica ou de guerra pudesse funcionar. Quer no claustro, erguido à medida dos ensinamentos da Geometria Sagrada, quer na Comenda, enclausurada na fortaleza protegida por um escorregadio alambor, todos eram apoiados por um vasto grupo de laboratores, transformando este universo numa réplica do modelo trifuncional do mundo exterior. Conversos em Cister, e sargentos e soldados de infantaria, no Templo, reproduziam um modelo onde não faltavam os freires presbíteros, impedidos de combater, para apenas prestarem assistência religiosa aos seus irmãos.

Monges brancos, cavaleiros do Templo e «Perfeitos» cátaros, todos assumem a essência da busca da perfeição numa demanda como a que Perceval enceta em busca do Graal, que culminará no final da Terceira Idade do mundo, dando origem a uma nova Era de Ouro.

Trata-se da preparação para a espera escatológica de que Joachin de Fiore se fará arauto. E quem melhor se posiciona para esse momento de glória são os cistercienses e os cavaleiros do Templo, quando os cátaros sucumbem, numa imagem premonitória, aos golpes de Simon de Monfort.

Entretanto, os fracassos militares nos reinos militares do Oriente iam acompanhando a progressão do seu enriquecimento material. Dir-se-ia que à medida que os valores iniciais se iam perdendo, perversamente, o destino ia compensando a Ordem com maior prestígio e poder. À semelhança do que sucedia com Cister, Claraval e com todos os outros mosteiros que a força avassaladora de S. Bernardo fizera erguer nas in­úmeras clareiras abertas no deserto das florestas da Europa.

Da simplicidade clara do claustro, da luz branca que atravessa as janelas nuas da nave da igreja, pouco restava já nas abadias cistercienses. À medida que os celeiros se iam enchendo com produção de novas arroteias, acentuava-se a exploração dos colonos seus dependentes, o orgulho dos que se reviam nas riquezas que o século XIII anunciava em profusão. Era o modelo trifuncional que começava a ser posto em causa e com ele a própria sobrevivência das instituições que o corporizaram. O Templo sucumbiu da forma trágica por todos conhecida. Cister foi perdendo influência para as ordens mendicantes que acabaram por ocupar o seu espaço, usurpando-lhe seguidores e doações.

Os tempos eram efectivamente de mudança, mas só as lendas registaram as formas de adaptação que os homens do Templo utilizaram para lhes sobreviver.

Até hoje…

Non nobis, Domine, non nobis sed nomini tuo da gloriam

A. Vicente

Notas

[1] Jacques de Vitry, Historia Orientalis

[2] Georges Duby, S. Bernardo e a arte cisterciense, p. 23

[3] S. Bernardo, «De Laude novae militiae», in Obras completas de San Bernardo, Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1993, Vol. I, pp.496-543.

[4] S. Bernardo, «Laude novae militiae», in Obras completas de San Bernardo, Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1993, Vol. I, pp.496-543.

[5] Geoges Duby, S. Bernardo, p. 24.

[6] Ibid., Nota 1.

[7] Duby, S. Bernardo, p. 93.

[8] Sed et militamus in eis, tanquam in tabernaculis, prorsus violenti ad regnum. Denique militia est vita hominis super terram, et quamdiu militamus in hoc corpore, peregrinamur a Domino, id est a luce.

Artigos relacionados


Partilhe este Artigo:

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top