Loja, como todos nós sabemos, é a nomenclatura dada ao local onde se reúnem os irmãos em número legal para as sessões maçónicas acrescido da presença destes irmãos ali. Ou seja, os irmãos sem o local apropriado não constituem uma Loja, e o local apropriado sem a presença dos irmãos, tampouco. Inclusive, segundo o próprio dicionário Michaelis:
“loja – lo.ja […]L. Maçónica: a) a sede ou sala de reunião de uma secção local da maçonaria; b) conjunto dos membros de uma secção local da maçonaria.”.
Enganam-se também os que confundem Loja com Templo. Não são em todos os ritos que a Loja representa o Templo do Rei Salomão ou tem ornamentos que lembram este Templo. Basta pesquisar um pouco sobre os primórdios da nossa instituição para confirmar isto. Começamos a Maçonaria com as Lojas reunindo-se inicialmente em estaleiros de obras e depois em tabernas. Nada de Templo, nada de muito religioso ou “sagrado” também, não é? No Rito de York, apesar da Loja representar o Templo de Jerusalém alegoricamente, referimo-nos ao espaço em que nos reunimos como “Sala da Loja” (room of Lodge) e não como Templo. Para acrescentar um outro exemplo, no Rito Schröder, a Loja não representa de forma alguma o Templo de Salomão, e os alemães chamam o espaço de Die Bauhütten (a choupana).
Mas afinal, por que denominamos a nossa célula principal de funcionamento como LOJA? Quem nunca foi indagado por alguém não pertencente à Maçonaria sobre este termo? O que vendem lá? Será a alma? E para quem é que vendem? Cruzes.
Brincadeiras à parte, será que estamos preparados para sanar tal dúvida? Muitos alegam que é porque os antigos artesãos vendiam os seus trabalhos manuais em lojas. Isto não é verdade.
Em praticamente todos os outros países, ninguém questiona os maçons sobre o que eles vendem na Maçonaria, porque nos seus idiomas a denominação de uma agremiação de maçons não tem significado de estabelecimento comercial, como infelizmente acontece nos países de língua Portuguesa.
O termo LOJA é uma variação, podemos dizer que embaraçosa, do original em inglês LODGE, ou do francês (que nos é mais próximo tanto em língua quanto em descendência maçónica) LOGE. A Maçonaria como conhecemos surgiu na Inglaterra na Idade Média, e lá naquela época já denominavam as unidades maçónicas de lodges referindo-se ao alojamento, à choupana, ao barracão adjacente à obra onde os obreiros se reuniam para confraternizar e discutir os projectos e a execução dos seus trabalhos.
Nas Old Charges, antigos documentos da Maçonaria tanto Operativa quanto Especulativa, encontra-se citações das Lodges referindo-se ao canteiro de obras e alojamento de uma determinada construção, como se pode verificar na Ordenança para os Pedreiros de York de 1370 e no Poema Regius (Manuscrito Halliwell) de 1390.
Vejamos como são denominadas as Lojas em alguns países e qual a conotação desta denominação nos seus idiomas segundo ISMAIL (2011):
- Inglês: LODGE. Significa cabana, casa rústica, alojamento de funcionários. Para um estabelecimento comercial o correcto seria store ou shop;
- Francês: LOGE. Refere-se à casa de um caseiro, estábulo ou camarote. Para um estabelecimento comercial usa-se magasin, boutique ou commerce;
- Alemão: LOGE. Denota um pequeno cómodo mobiliado para um caseiro, ou um camarote. Para pontos comerciais o usual é kaufhaus, geschaft ou laden;
- Italiano: LOGGIA. É sinónimo de cabana, pequeno cómodo, tenda ou varanda. Para comércio o comum é magazzino, bottega ou negozio e
- Espanhol: LOGIA. Significa alpendre ou quarto de repouso. Para comércio seria correcto utilizar tienda ou
Agora em português temos LOJA, que apesar de preservar o radical da palavra ALOJAMENTO e muito embora antigamente também tivesse o sentido de pavimento térreo de qualquer prédio, hoje denota única e exclusivamente um estabelecimento de venda ou comércio, e que nada tem a ver com alojamento, choupana ou cabana. Alguns dicionários de Portugal, como o Priberam, trazem Loja como sendo o piso térreo de uma habitação que serve para armazenamentos de ferramentas ou de apoio à actividades agrícolas. Talvez para os portugueses seja mais adequado.
Enfim, este é o verdadeiro conceito de Loja: aLOJAmento de obreiros, onde nada se vende, nem trabalhos artesanais e muito menos almas!
Guilherme Cândido

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