Tricentenário da Maçonaria Universal – o Tricentenário de quê?

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Na edição de 1738, do seu livro “The Constitutions of the Free-Masons, containing the History, Charges, Regulations of the Most Ancient and Right Worshipful Fraternity”, James Anderson refere-nos que, tendo sido pacificada a sociedade civil britânica com a subida ao trono do Rei Jorge I, as poucas Lojas de Maçons então existentes em Londres, sentindo-se negligenciadas pelo Grão Mestre Sir Christopher Wren (Arquitecto da Catedral de S. Paulo), teriam julgado vantajoso consolidarem-se em torno de uma nova figura, que se constituísse como o Centro de União e de Harmonia.

Assim, em 1717, no dia de S. João Batista (24 de Junho), os Maçons que, habitualmente, se reuniam nas Tabernas “The Goose and Gridiron Ale House”, “The Crown Ale House”, “The Apple Tree Tavern”, e “The Rummer and Grapes Tavern”, ter-se-iam juntado para o efeito, num jantar realizado na “The Goose and Gridiron”.

No decurso desta reunião, estas quatro Lojas fundadoras ter-se-iam constituído em Grande Loja, tendo os presentes eleito como Grão Mestre da (Publicado em freemason.pt)primeira Obediência Maçónica do mundo, o Irmão Anthony Sayer, em virtude de ser o Mestre Maçon mais antigo que aí se encontrava.

Comemoramos, pois, no presente ano de 2017, o Tricentenário desta efeméride. Mas, na realidade, estamos a comemorar o Tricentenário de quê?

Toda a historiografia Maçónica dos passados dois séculos, identifica esta data com a fundação da chamada Maçonaria Especulativa, entendendo-se a mesma como aquela que é praticada por membros estranhos ao ofício da construção, com intuitos de reflexão simbólica, e filosófica.

Sabemos hoje, contudo, que houve Maçonaria Especulativa muito antes de 1717, pois não só a Maçonaria ligada à construção nunca foi exclusivamente operativa, como o atesta o carácter espiritual de vários dos seus “Old Charges”, como são numerosas as evidencias de ter havido anteriormente aceitação, pelas Lojas das Ilhas Britânicas, de Maçons que não se encontravam ligados à profissão de pedreiro. Assim:

  • Na Irlanda, encontra-se documentado, desde 1688, o funcionamento de uma Loja de não-operativos, que reuniria no Trinity College, da Universidade de Dublin. Existem igualmente referências de que, entre 1708 e 1713, Arthur Saint Leger, Visconde de Doneraile, reuniu regularmente com os seus amigos, em Loja, no seu castelo no condado de Cork, tendo o seu mordomo como Guarda Externo.
  • Em Inglaterra, o mais antigo pergaminho da Loja de York refere as “Antigas e Honoráveis Assembleias dos Maçons Livres e Aceites”, ocorridas tanto em Março de 1712, bem como em Junho, Agosto, e Dezembro de 1713, e que foram destinadas à recepção de cavalheiros na Maçonaria. Até Samuel Prichard, na sua famosa exposição “Masonry Dissected”, de 1730, refere 1691 como ano de fundação da Loja “The Goose and Gridiron”, e da própria Maçonaria Especulativa.
  • Na Escócia, as evidências da aceitação de Maçons estranhos ao ofício, anteriormente a 1717, são ainda mais expressivas. Mais de uma centena de não-operativos foram recebidos nas Lojas Escocesas entre 1685 e 1717, existindo mesmo Oficinas maioritariamente constituídas, ou até mesmo fundadas, por Irmãos estranhos à arte da construção. São elas: Dunblane, Hamilton, Kelso, Haughfoot, Aberdeen, e Dumfries.

Se não subsistem, pois, duvidas de que havia Maçonaria dita Especulativa anteriormente a 1717, que Tricentenário é este que comemoramos este ano ? Será o da fundação da Grande Loja Unida de Inglaterra, Obediência que se autodenomina “Loja-Mãe” da Maçonaria Universal ?

Tal também não o será, certamente, porque este corpo Maçónico nasceu em 1813, na sequência do Acto de União, do qual resultou a fusão das Grandes Lojas dos Antigos e dos Modernos, sendo esta última a Obediência constituída em 1717. Na realidade, a “Loja-Mãe do Mundo” só foi fundada onze anos depois do nosso Grande Oriente Lusitano, que figura entre as Obediências europeias mais antigas.

Então, por exclusão de partes, teremos de concluir que comemoramos neste ano o Tricentenário da fundação daquela que ficou para a História como Grande Loja dos Modernos. Esta Obediência, inicialmente denominada de Grande Loja de Londres e de Westminster, congregou figuras marcantes da cultura e da ciência inglesas, tais como Jean-Theophile Désaguliers, e fez proliferar, nos anos subsequentes, a Maçonaria e os (Publicado em freemason.pt) seus valores Humanistas, tanto pelas Ilhas Britânicas como pelo Continente Europeu, ao ponto de não se poder compreender a História do séc. XVIII, sem se considerar o fenómeno Maçónico.

Os mais recentes desenvolvimentos da investigação histórica relativa às origens da Maçonaria parecem, contudo, levar a concluir que nem disso se trata, uma vez que a famosa reunião das quatro primeiras Lojas poderá ter sido um não acontecimento, sendo de data posterior a fundação da primeira Grande Loja.

No decurso da conferência realizada em Setembro de 2016, em Cambridge, promovida pela Loja de Investigação “Quatuor Coronati”, o Professor Andrew Prescott apresentou uma nova teoria, relativa à não ocorrência da famosa reunião do “The Goose and Gridiron”. Esta duvida, referente à veracidade do evento fundador, baseia-se nos seguintes aspectos:

  • Não existe nenhuma referência a este acontecimento anterior à atrás mencionada, que consta da edição de 1738 das Constituições de Anderson, sendo a edição de 1723, do mesmo livro, perfeitamente omissa, no que concerne a este aspecto.
  • O Livro das Actas da Grande Loja de Londres e Westminster só tem inicio em Novembro de 1723, não existindo nenhum traçado relativo ao período compreendido entre 1717 e 1723.
  • Em 1721, encontra-se no diário de William Stukeley, antiquário amigo de Newton, a referência de que “ele tinha sido a primeira pessoa a ser iniciada em Londres depois de muitos anos, e que tinha sido muito difícil encontrar um numero suficiente de pessoas para realizar a cerimónia”, acrescentando posteriormente que, a partir dessa época, “a Franco-maçonaria toma o seu balanço e desenvolve-se a um ritmo desenfreado devido à loucura dos seus membros”.
  • Na versão dos acontecimentos relatada por James Anderson, a reunião de 24 de Junho de 1717, teria sido precedida de uma outra, preparatória, realizada na Taberna “The Apple Tree”, a qual seria o local de reunião da Loja de Anthony Sayer. Sucede que as investigações do Professor Andrew Prescott levaram a concluir que a referida Taberna, conhecida à época como um mal afamado local de pratica de prostituição, não existiu anteriormente a 1728, sendo Anthony Sayer referido, em 1723, como pertencente a uma Loja que reunia na “Queen’s Head”.

Acresce a estas contradições o carácter extraordinariamente misterioso da personagem Anthony Sayer, que muito embora seja referido por Anderson como tendo sido o Grão Mestre em exercício no período compreendido entre 1717 e 1718, cai posteriormente no anonimato, só reaparecendo nas Actas da Grande Loja em Junho de 1724, com referências subsequentes, em 1730, e em 1742.

Por três vezes o Irmão Sayer formulou pedidos de assistência financeira, tendo sido auxiliado duas vezes, com subsídios de 15 Libras, e uma terceira, com um apoio de 2 Guinéus.

Em 15 de Dezembro de 1730, o Irmão Sayer foi convocado para receber uma severa reprimenda, por ter praticado um acto classificado de “muito irregular”, encontrando-se registado que Sayer se retratou, e jurou não reincidir.

É estranho que se encontre uma referência à sua qualidade de Past-Grão Mestre em 1730, mas que nada se refira, relativamente a este aspecto, em 1724.

É igualmente muito estranho que, em 1737, as Actas mencionem a presença, em Grande Loja, dos Irmãos George Payne e Jean Désaguliers, ambos referidos, com grande deferência, como antigos Grão Mestres, e não qualifiquem da mesma forma Anthony Sayer.

Assim, começa a tornar-se evidente, que este Irmão ficou para a História como tendo sido eleito Grão Mestre numa assembleia da qual não se dispõe de qualquer testemunho directo, previamente preparada um ano antes numa Taberna que ainda não existia. A isto se acrescenta que só em 1730 aparece a primeira referência ao seu pretenso Grão Mestrado, depois de, anteriormente, a Grande Loja o ter auxiliado financeiramente, e de o ter repreendido, por transgressão regulamentar.

No que concerne aos motivos que seriam a causa da que poderá ter sido a primeira mistificação maçónica, o Professor Prescott, na sua comunicação, sublinhou o carácter eminentemente politico da fundação da Grande Loja, cujos membros foram essencialmente provenientes da Aristocracia, e da Administração Hanoverianas, e da consequente necessidade de se estabelecer uma linha de continuidade com a antiga Maçonaria operativa, de (Publicado em freemason.pt) modo a que esta primeira Obediência se constituísse como um local de reconciliação das elites e do povo, nomeadamente pela pratica da beneficência, reafirmando a vontade de estabelecer uma pacificação duradoura da sociedade civil.

Mas, se se vier a provar, ainda mais conclusivamente, que o evento fundador não aconteceu, o que estamos, então, a comemorar?

Em Maçonaria “tudo é Símbolo”, e o S. João Batista de 1717 será sempre, para nós Maçons, o símbolo do inicio de uma aventura de três séculos, que reuniu na mesma demanda:

  • Latitudinaristas, como Désaguliers e Anderson, que imbuídos de um espirito de Tolerância, procuraram encontrar o Centro de União de Homens que, de outra forma, permaneceriam afastados;
  • Universalistas, como Andrew Michael Ramsay, para quem “O mundo inteiro não é mais do que uma grande Republica, onde cada nação é uma família, e cada particular uma criança”, competindo à Maçonaria unir os Homens, por via de um espirito iluminado, e pela prática das virtudes;
  • Racionalistas, como Voltaire, que pensaram que até Deus seria acessível através da Razão;
  • Alquimistas, como o Barão de Tschoudy, que julgaram ter encontrado na Maçonaria o local privilegiado para a realização da Grande Obra, entendida como um conjunto de manipulações concretas, destinadas à descoberta da Pedra Filosofal;
  • Teúrgicos, como Martinez de Pasqually, que procurou encontrar nas praticas Maçónicas a via para a Reintegração dos Seres, na sua primeira propriedade, virtude, e potência espiritual divina;
  • Místicos, como Jean-Baptiste Willermoz, que acreditavam que o Homem, muito embora se encontre corrompido pela queda, conserva em si os meios que lhe permitirão a sua regeneração, facultando-lhe a Maçonaria a sua descoberta, no interior de si mesmo;
  • Revolucionários, como George Washington, La Fayette, ou Garibaldi, que se bateram, em vários Continentes, pela Liberdade;
  • Mártires, como John Coustous, ou Gomes Freire de Andrade, que sofreram as perseguições das tiranias, pagando, em muitos casos, com a vida o fato de serem Maçons;
  • Artistas, como Mozart ou Goethe, que encontraram na espiritualidade da Arte Real fonte de inspiração para as suas criações intemporais;
  • Deístas, como Jean-Marie Ragon, para quem o incenso da Virtude agradará sempre ao Ente Supremo, independentemente da forma como lhe é oferecido;
  • Positivistas, como Louis Amiable, que viram na Maçonaria uma escola de Ética, e de virtudes Republicanas;
  • Simbolistas, como Oswald Wirth ou Jules Boucher, para quem o Símbolo Maçónico é a chave de acesso a um conhecimento de ordem superior, não perceptível à razão;
  • Homens e Mulheres, como Georges Martin e Maria Deraismes, que lutaram pela igualdade de géneros, no pressuposto que os sexos opostos são dois polos da mesma Humanidade;
  • Políticos Republicanos, como Jules Ferry, que defenderam a Instrução Pública Laica, gratuita e obrigatória, como forma de espargir a Luz, e de fomentar a liberdade de pensamento;
  • Laicistas, como Afonso Costa, que procuraram a separação da Igreja e do Estado, como meio de combate ao fanatismo;
  • Pacifistas, como os nossos Irmãos que fundaram a Sociedade das Nações;
  • Filósofos Maçónicos actuais, como Michel Barat, que acreditam na Maçonaria como forma de superação da angustia existencial do Homem. Pensadores para quem o Trabalho Maçónico possibilita o acesso à Felicidade, pela autoconstrução de um novo Eu, através da reflexão simbólica, vista como meio de autoconhecimento, e de “conversão do olhar”, relativamente aos outros, e ao Cosmos. Enfim, Irmãos que acreditam no desenvolvimento de uma espiritualidade laica, que permita compreender melhor o presente, e aceitar o futuro, na procura do Conhecimento e da Verdade, numa óptica de progresso da Humanidade;
  • Por último, os inúmeros, e muitas vezes anónimos Irmãos, que durante estes trezentos anos procuraram, através do seu compromisso cívico, transportar para fora do Templo os valores Maçónicos, e intervir positivamente na construção do Templo Exterior, que é a Sociedade, fazendo jus ao que é dito num dos nossos Rituais “Espalharão as verdades que adquiriram, farão amar a nossa Ordem pelo exemplo das suas qualidades, prepararão, através de uma acção incessante e fecunda, o despertar de uma Humanidade melhor e mais iluminada”.

Não posso deixar de referir, em particular, como exemplo deste último caso, o nosso Querido e Ilustre Irmão António Arnaut, que entendeu que o seu dever de Fraternidade passava por lutar pela criação de um Serviço Nacional de Saúde, que proporcionasse assistência médica a todos os cidadãos, e assim a ele se deve a maior conquista social da Terceira República Portuguesa.

Num Mundo em profunda alteração, onde nem as sociedades mais democráticas se regem já pelos valores Humanistas que inspiraram a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, que futuro se encontra reservado à Franco-Maçonaria?

Como Instituição humana que é, o seu futuro será sempre condicionado pelos Irmãos que vierem a abraçar, em pleno século XXI, esta demanda do Justo, do Belo, e do Verdadeiro.

Assim, se a Maçonaria continuar a recrutar seres humanos livres, de bons costumes, em busca da Luz, que não sejam perfeitos, mas que acreditem na perfectibilidade do Homem, e das Sociedades…

Se os Mestres Maçons continuarem a conhecer a Acácia, e como tal a aceitarem a Transmissão como um dever.

Se a Tolerância imperar, na compreensão da natureza intrinsecamente polissémica da Maçonaria, aceitando-se que as diferenças estão mais nas praticas, e não na sua essência, que a (Publicado em freemason.pt) todos liga, pelo triplo objectivo comum, de Libertar, Construir, e de unir pela Fraternidade.

Se os Maçons souberem compreender o tempo presente, e encontrar, na descodificação dos Símbolos, uma decifração do Mundo Profano actual, que nos permita abrir janelas de Luz, numa Humanidade onde se adensam as Trevas.

Então, sim, a Maçonaria terá utilidade e futuro, e poderão continuar a fazer sentido as palavras do Irmão Oswald Wirth, proferidas há cerca de um século, de que “A Franco-Maçonaria é chamada para refazer o Mundo. A tarefa não é superior às suas forças na condição de que ela se torne o que ela deve ser”.

Meus Irmãos, comemoremos este Tricentenário, e que viva a Maçonaria Universal!

Joaquim G. Santos

Bibliografia

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One thought on “Tricentenário da Maçonaria Universal – o Tricentenário de quê?

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    Boa noite nobre Ir. ‘ . pôr tão sábio esclarecimento trazendo à Luz da clareza abraço sincero…

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