A Saga de Fernão Capelo Gaivota
Publicada por Richard Bach em 1970, a obra Fernão Capelo Gaivota narra a história de Fernão, uma gaivota que se recusa a aceitar que a vida se limite à busca por comida e à sobrevivência física. Enquanto o seu bando se preocupa apenas com as migalhas dos barcos de pesca, Fernão dedica-se obsessivamente à aprendizagem do voo puro, testando limites de velocidade, altitude e acrobacias.
Por sua desconformidade, ele é declarado Exilado pelo Conselho do Bando e passa a viver sozinho nos Penhascos Distantes. No entanto, a sua solidão é interrompida quando ele encontra gaivotas que brilham como o sol e o levam para um plano superior de existência. Lá, sob a tutela de instrutores como Sullivan e o ancião Chiang, Fernão descobre que não é um ser limitado, mas uma expressão da liberdade. Ao atingir a mestria, ele decide retornar ao seu bando original para ensinar outros “exilados” que, como ele, desejam ver além do horizonte material.
O Voo em busca da Perfeição
Se pudermos traçar uma linha de comparação entre a trajectória de Fernão, encontraríamos alguns paralelos profundos com a filosofia maçónica, especialmente no que diz respeito à evolução do indivíduo e à busca pela “Luz”.
1. A Busca pelo Conhecimento e a Verdade
Na Maçonaria, o iniciado é um buscador constante. Fernão busca a compreensão profunda das leis que regem o seu ser (o voo).
- A Analogia: O esforço de Fernão representa a transição do mundo profano para o mundo do intelecto, onde o conhecimento é a ferramenta de libertação.
2. O Desbaste da Pedra Bruta
Um dos conceitos fundamentais é o trabalho sobre a Pedra Bruta para transformá-la em Pedra Polida.
- O Processo: Fernão treina exaustivamente, falha e sofre quedas, mas persiste na rectificação do seu método. Este esforço pessoal de autodisciplina é a representação do Maçom que utiliza a Razão para remover as imperfeições da sua própria personalidade.
3. O Isolamento e o Renascimento Simbólico
Ao ser expulso do bando, Fernão vive uma ruptura necessária. Ele deixa de ser uma gaivota comum para se tornar um iniciado nos mistérios do voo.
- O Paralelo: Este momento simboliza a morte dos velhos hábitos. É o afastamento das distracções do “mundo lá fora” para que a verdadeira essência possa emergir.
4. A Hierarquia do Conhecimento (Os Graus)
A evolução de Fernão é gradual e dividida em etapas, sob a orientação de mestres mais experientes.
- O Conceito de Mestria: O encontro com o ancião Chiang espelha a estrutura de graus. Chiang ensina que a perfeição é um estado de consciência, assemelhando-se ao conceito de trabalhar sob a égide do Grande Arquitecto do Universo.
5. O Dever de Solidariedade e Instrução
O clímax ocorre quando Fernão decide retornar ao bando para ensinar os que ficaram para trás.
- A Fraternidade: Este acto reflecte o compromisso maçónico de difundir a luz. O Mestre não guarda o conhecimento para si, mas ajuda no progresso da humanidade, auxiliando outros a encontrarem o seu próprio caminho.
Paralelo: A Evolução de Fernão Capelo Gaivota e os Graus Simbólicos
A jornada de Fernão não é linear, mas sim uma ascensão em espiral, muito semelhante à progressão nos Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
1. O Grau de Aprendiz: O Domínio de Si (A Pedra Bruta)
No início da história, Fernão está focado no esforço físico e na disciplina. Ele luta contra os seus próprios limites biológicos e contra a pressão social do seu Bando.
- Na Maçonaria: Representa o Aprendiz que trabalha com o Maço e o Cinzel. O foco está no silêncio, na observação e no domínio das paixões.
- O Voo: São os treinos de Fernão em voo rasante e a superação do medo. Ele está “desbastando” a sua natureza comum para se tornar algo mais refinado.
2. O Grau de Companheiro: A Técnica e as Ciências (A Pedra Polida)
Após o seu exílio e a transição para um novo plano, Fernão passa a estudar a ciência do voo de forma mais profunda com o instrutor Sullivan. Ele começa a entender que o voo não é apenas força, mas harmonia e leis naturais.
- Na Maçonaria: Representa o Companheiro, que sai do interior do templo para observar a natureza e as artes liberais. O foco aqui é o trabalho, a aplicação do conhecimento e o uso do Esquadro e do Compasso.
- O Voo: É a fase em que Fernão aprende que “o pensamento pode voar tão rápido quanto o vento”. Ele domina a técnica e começa a entender a geometria do movimento.
3. O Grau de Mestre: A Transcendência e o Dever (O Magistério)
Sob a orientação do Ancião Chiang, Fernão compreende que não há limites. Ele atinge a omnipresença e a compreensão de que a sua verdadeira natureza é divina e ilimitada. Ao final, ele escolhe voltar para ensinar.
- Na Maçonaria: Representa o Mestre, que compreende o ciclo de vida, morte e renascimento. A sua missão principal é o magistério: instruir os menos experientes e trabalhar para o bem da humanidade.
- O Voo: Fernão torna-se o instrutor de Pedro Gaivota. Ele já não voa para si mesmo; ele voa para que outros também possam descobrir que são livres.
Tabela Comparativa de Evolução de Fernão Capelo Gaivota e o Simbolismo de Acção
| Estágio de Fernão | Grau Maçónico | Foco Principal | Simbolismo de Acção |
| Treinos Solitários | Aprendiz | Autodisciplina | Desbastar a Pedra Bruta |
| Estudo com Sullivan | Companheiro | Ciência e Técnica | Uso das Ferramentas |
| Instrução de Chiang | Mestre | Transcendência | Difundir a Luz (Dever) |
Conclusão: O Voo como Arte Real
A análise comparativa entre Fernão Capelo Gaivota e a Maçonaria revela que ambos bebem da mesma fonte: o ideal de perfectibilidade humana. A trajectória de Fernão — do isolamento à mestria e, finalmente, ao retorno altruísta — é a dramatização literária do caminho percorrido por todo Maçom que compreende o verdadeiro propósito da Ordem.
A obra de Richard Bach lembra-nos que o “voo perfeito” não é uma questão de bater as asas com mais força, mas de compreender que a nossa natureza não é limitada pela carne ou pelo tempo. Da mesma forma, a Maçonaria ensina que o trabalho no Templo (seja ele físico ou interior) visa libertar o indivíduo das “migalhas” do materialismo para que ele possa enxergar a geometria perfeita da criação.
Em última análise, tanto Fernão quanto o Maçom descobrem que a verdadeira luz não deve ser guardada num pedestal solitário. A Grande Arte só se completa quando o Mestre, personificado por Fernão, olha para o Aprendiz, personificado por Pedro, e o ajuda a abrir as próprias asas. O destino final de ambos não é apenas o céu ou a perfeição individual, mas a construção de uma fraternidade onde cada ser é livre para atingir o seu horizonte mais alto.
“Para voar tão rápido quanto o pensamento, para qualquer lugar que exista, você precisa começar sabendo que já chegou lá.”
Chiang
Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI
Referências Bibliográficas
- BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. Rio de Janeiro: Record, 1970.
- BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçónica. São Paulo: Pensamento, 1993.
- ADOUM, Jorge. Grau do Aprendiz e seus Mistérios. São Paulo: Pensamento, 2002.
- ADOUM, Jorge. Grau do Companheiro e seus Mistérios. São Paulo: Pensamento, 2002.
- ADOUM, Jorge. Grau do Mestre e seus Mistérios. São Paulo: Pensamento, 2003.
- PIKE, Albert. Moral e Dogma (Seções sobre os Graus Simbólicos). Richmond: L.H. Jenkins, 1950.
- LEADBEATER, C.W. A Vida Oculta na Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2011.

- Grau 9 – Cavaleiro Eleito dos Nove (REAA)
- “Curar” – o poema de Kitty O’Meara
- Grau 5 – Mestre Perfeito (REAA)
- A câmara de reflexões
- As colunas Booz e Jackin


Meu muito estimado I. Alexandre Fortes, 33º, obrigado pelos eloquentes ensinamentos que nos disponibilizaste, através deste excelente texto de Richard Bach.
Na verdade, a Maçonaria proporciona-nos um olhar muito diferente para as coisas, para o mundo e para nós próprios, quando integramos profundamente o seu legado.
É por isso que eu digo que a maçonaria tem tanto e tanto para nos ensinar, incluindo a Sabedoria dos II.. Mas, para subirmos para céus mais claros e resplandecentes e para vermos mais longe, atingindo uma maior perfeição mediante a aprendizagem que ela nos proporciona, é fundamental percebermos que, nesse processo, o mais difícil é abandonarmos o que de profano ainda existe em cada um de nós.
Um TAF, com muita consideração
Jaime Henriques