É possível ter um discurso online com civilidade, sobre um tema polémico? Devo dizer que às vezes sinto que não, ou que pelo menos é extremamente desafiador. Isto é particularmente verdadeiro para as discussões online através das redes sociais, que constituem cada vez mais as conversas políticas que acontecem actualmente. Na verdade, isto é um eufemismo; a verdade é que muitas vezes sinto que o mundo ficou totalmente louco.
Porque é que isto acontece? Há várias ideias a flutuar no éter sobre porque é que se tornou difícil falar um com o outro educadamente, principalmente devido à falta de interacção face a face e a empatia que envolve a interacção online, além do efeito de câmara de eco de nos cercarmos apenas daqueles que vêem o mundo como nós. Eu até acrescentaria certos desenvolvimentos culturais, particularmente a ideia de que somos realmente obrigados a ficar indignados com certas ideias. Isto parece estar relacionado com a ideia de tabu, de que alguns tópicos ou opiniões são simplesmente proibidos, um padrão que existiu em praticamente todas as sociedades humanas, embora o que é tabu nessas várias sociedades possa ser muito diferente.
No entanto, embora o clima actual possa ser explicado, o que é que cada um de nós pode fazer para a civilidade das nossas próprias interacções? Estes são alguns dos meus pensamentos sobre o que cada um de nós pode fazer para tornar as nossas discussões mais civilizadas e, em última análise, mais gratificantes.
Reconhecer o discurso civilizado como uma habilidade
Não é fácil manter a calma quando alguém discorda de nós. Muitas das nossas identidades estão ligadas às nossas opiniões e visões de mundo, e quando alguém questiona isso, às vezes pode parecer que estão a abanar os nossos alicerces. É claro que, por trás de cada resposta enervada, está o medo oculto de que possamos estar realmente errados, de não termos pensado correctamente sobre algo e de acabarmos por parecer idiotas. Aconteceu com todos nós pelo menos uma vez e certamente poderá acontecer novamente.
É importante reconhecer que superar este “mecanismo de gatilho” interno é essencialmente uma habilidade que deve ser praticada e aprimorada; na Maçonaria, isto faz referência ao trabalho de subjugar as próprias paixões e é um passo fundamental para o progresso na Ordem. Autocontrole, contenção dos excessos e moderação em todas as coisas são algumas das habilidades que devem distinguir um Maçom.
Todos nós sabemos que falta às crianças o autocontrole necessário para regular sempre as suas explosões emocionais e, portanto, quem o consegue fazer deve tê-lo aprendido ao longo do caminho. Idealmente, isto seria uma parte da nossa educação padrão, pelo menos no nível universitário, mas, infelizmente, muitos estudantes universitários e graduados ainda estão insuficientes nesta área, especialmente porque os campos universitários estão cada vez mais a tornar-se “espaços seguros” onde divergências sobre alguns tópicos não são permitidas.
Portanto, se ficar irritado ao encontrar aqueles que discordam de si, esteja ciente do que se está a passar dentro de si, dê um passo para trás e entenda que está a praticar uma habilidade, quando escolhe responder com mais cuidado. Além disto, não seja muito duro consigo mesmo quando falhar, pois alguns erros são necessários no processo de aprendizagem de cada habilidade.
Reconhecer o discurso civilizado como desejável
Isto pode parecer uma frase feita, mas por incrível que pareça, em muitos casos não é. Existem vários movimentos culturais que se opõem quase à própria ideia do discurso civilizado, ou pelo menos chegaram a pensar que não se deve ter calma ao discutir algumas “vacas sagradas”. A minha experiência mostra que isto é verdade em abos os extremos do espectro político e/ou social.
Um grande exemplo de como é assim é a questão política divisiva clássica: o aborto. Em ambos os lados da questão, há uma sensação geral de que se deve estar indignado com o outro lado. Se se é “pró-vida”, então acredita-se que as pessoas estão a assassinar bebés, e que tipo de monstro seria capaz de discutir isto com calma? Se se é “pró-escolha”, então acredita-se que fanáticos religiosos estão a tentar controlar as escolhas médicas das pessoas sobre os seus próprios corpos; que tipo de psicopata poderia ver isto como justificável?
Na verdade, estou um pouco em dúvida sobre esta questão, e pode ser por isso que é tão evidente para mim que estes dois campos estão a ser bastante tão irracionais. O ponto aqui não é o dilema ético do aborto, mas o facto de que dificilmente podemos ter uma discussão civilizada sobre ele. Insira qualquer questão que cause divisão semelhante e é mais ou menos a mesma história.
É por isso que devemos absolutamente aprender a habilidade do discurso civilizado. Como o presidente Abraham Lincoln disse certa vez: “Uma casa dividida não pode subsistir” Se quisermos progredir e ter qualquer aparência de harmonia e paz na sociedade entre vários grupos de pessoas que vêem o mundo de forma tão diferente, isso só será possível se formos capazes de nos comunicar e ver os pontos de vista uns dos outros. A única maneira de isto acontecer é pelo discurso civilizado.
Aprenda a sentir-se confortável com a incerteza
Uma das minhas citações favoritas é de Robert Anton Wilson, quando ele disse: “O totalmente convencido e o totalmente estúpido têm demasiado em comum para que a semelhança seja acidental”. Isto não é para acusar ninguém de ser estúpido, mas sim para nos conscientizar de que a nossa convicção absoluta sobre certas coisas é frequentemente uma forma menos inteligente de estar. Mesmo que nos sintamos relativamente seguros sobre algo, devemos sempre entender que as informações que temos à nossa disposição são incompletas e, portanto, deixar um pouco de margem para dúvidas.
Um padrão que observei, e felizmente tenho conseguido evitar na maioria das vezes, é o efeito do pêndulo oscilante. Essencialmente, alguém é muito inflexível sobre um tópico, e então outro argumenta bem o suficiente para o fazer sentir-se tolo, e acaba por trocar de posição, tornando-se ainda mais inflexível contra aqueles que mantêm os seus pontos de vista anteriores. Eu especulo que este antagonismo após uma mudança de paradigma em relação àqueles que sustentam o antigo paradigma de alguém é uma expressão neurótica da própria vergonha de ter sido revelado como (aparentemente) tolo.
A ideia-chave aqui é que, se nunca aprendermos a ficar confortáveis com a incerteza, tendemos a passar do dogmatismo ao dogmatismo, travando uma guerra ideológica contra qualquer pessoa de quem discordamos, talvez motivados subconscientemente por nossa vergonha de ter de admitir que estávamos errados no nosso dogmatismo.
Unidade, Igualdade e Temperança
A Maçonaria defende as virtudes da Temperança e da Igualdade; os seus princípios lembram-nos a Unidade inerente de toda a Humanidade: Uma Fraternidade da Humanidade unida sob Deus. A Ordem instrui os seus iniciados a evitar extremos encontrando um caminho no meio e a praticar a Regra de Ouro com os nossos companheiros. Toda essa raiva é realmente, acredito eu, medo mal colocado da incerteza, e o nosso próprio desconforto fundamental em ser um minúsculo ser humano no vasto universo, que nunca pode conhecer completamente a realidade. Esta é uma verdade essencial da nossa existência, da qual devemos estar cientes o suficiente para nos acostumarmos.
Com isto, vamos concluir com estas relevantes palavras de um ex-congressista e Maçom dos Estados Unidos:
“Somos um só povo com uma família. Todos vivemos na mesma casa … e através de livros, de informações, devemos encontrar uma forma de dizer às pessoas que devemos largar o fardo do ódio. Pois o ódio é um fardo muito pesado para carregar”.
John Lewis 33°
Jonathan Dinsmore
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte

- A Guerra Civil Inglesa (ou porque não se discute política ou religião em Loja)
- Os Valores vencerão os medos e o terror
- Conferência da Confraria Académica de Aveiro – Luís Nandin de Carvalho (Past G∴ M∴)
- O cardeal Gianfranco Ravasi garante que a Igreja e a Maçonaria partilham valores em comum
- Os valores centrais do Rito Escocês

