“Con audácia se puede intentar todo; mas no se puede conseguir todo” [8]
(Napoleón Bonaparte)
Introdução
“El arte del médico es el mantener animado al paciente mientras la naturaleza lo va curando” [9]
(autor desconhecido)
As pessoas procuram um terapeuta, com ou sem habilitação médica oficial, em busca do alívio ou cura dos seus sofrimentos, sejam eles físicos ou mentais, da forma mais rápida e suave possível.
A imagem deste terapeuta, seja qual seja a sua origem e habilitação, está associada, inconscientemente, a de um representante divino que possuiria o poder sobre a vida e a morte.
Frente a esta situação, quem busca costuma adoptar uma postura passiva no processo, delegando ao seu semelhante, teoricamente portador desta capacidade quase divina, toda a responsabilidade no restabelecimento da sua saúde.
Por outro lado, este terapeuta, consciente ou inconscientemente, veste a imagem da omnipotência e passa a acreditar que realmente pode curar.
Mas, afinal, o que é cura?
A palavra cura [1] já existia em latim com o sentido primitivo de “cuidado”, “atenção”, “diligência”, “zelo”. Havia também o verbo curo, curare, de largo emprego, com o significado de “cuidar de”, “olhar por”, “dar atenção a”, “tratar”. Como termo médico, cura foi primeiramente usado por Celsius [1] no século I DC, na acepção de “tratamento”, ou seja, cuidado médico ou acções com capacidade de mudar o curso da doença. A evolução semântica da palavra cura, tanto em latim, como nas línguas românicas, operou-se em várias direcções, sempre em torno da ideia de “cuidar de”, “exercer acção sobre”, “tratar”. Vejamos alguns exemplos:
Cura ou Pároco: que cuida espiritualmente dos seus paroquianos; curador: que cuida dos interesses de outrem ou de alguma instituição (donde “curador de menores”, “curador de família”, “curador de massa falida”, “conselho de curadores” etc.); curativo: limpeza e tratamento tópico de um ferimento.
Como termo médico a evolução foi em direcção à capacidade de modificar o curso da doença. Assim, cura passou a significar também o restabelecimento da saúde, a volta ao estado hígido; esta nova acepção sobrepôs-se à primitiva de apenas cuidar. Em razão dessa evolução semântica curar geralmente é empregado no sentido de debelar uma enfermidade, restituir a saúde, de sarar. Sarar deriva do verbo latino sanare, que se conservou intacto em italiano e evoluiu para sanar em espanhol e sarar em português. Sarar é “ficar são”, “recuperar a saúde”.
Mas e se não falássemos apenas de saúde? Se falássemos dos problemas do quotidiano nos nossos relacionamentos e nas nossas instituições? Poderíamos também pensar em curá-los? As atitudes proactivas onde quer que sejam vistas não são remédios muitas vezes milagrosos?
E audácia?
Audácia [2] é a tendência que dirige e incita o indivíduo a, temerariamente, realizar acções difíceis, desprezando obstáculos e situações de perigo; ousadia, intrepidez, denodo, qualidade de quem ou do que se caracteriza pela inovação, pelo arrojo, em oposição ao já estabelecido e aceito.
Mas, nem tudo é tão unânime. Retiro de Francis Bacon (“Ensaios – Da Audácia”) [3], alguns trechos onde alerta que:
- “A audácia é filha da ignorância e da rudeza, e muito inferior a todos os outros dons”.
- “Porque se o absurdo é o fundamento do riso não duvideis de que uma grande audácia raramente existe sem absurdo”.
- “Deve ser bem considerado que a audácia é sempre cega, para não ver os perigos e as inconveniências. Por isso ela é má no conselho e boa na execução; (…)”.
Seria, pois e afinal, a audácia uma boa conselheira?
Podemos iniciar a discussão a partir de duas premissas:
- Sendo a audácia pouco amiga do bom senso, então não caberia na arte de lidar com pessoas, especialmente aquelas que se encontrando enfermas estão física e psicologicamente dependentes;
- Ou, ao contrário, na busca da cura, seja qual seja a enfermidade, social, orgânica ou psicológica, todos os recursos possíveis devem ser buscados e utilizados.
A audácia como perigo…
Do ponto de vista médico-social, o ser humano sempre esteve atrás de algo que lhe proporcionasse alívio para todos os males, ou seja, uma panaceia (ou um “salvador da Pátria”?). É um desejo passivo…
Panaceia (ou Panacea em latim) na mitologia grega era a deusa da cura [6]6. Asclépio (ou Esculápio para os latinos), filho de Apolo que se tornara deus da Medicina, teve duas filhas a quem ensinou a sua arte: Higia (de onde deriva “higiene”) e Panacea. O nome desta última formou-se com a partícula compositiva “pan-” (todo) e “akos” (remédio), em alusão ao facto de que Panacea era capaz de curar todas as enfermidades.
Quando as pessoas buscam resolver os seus problemas, tendem a pensar mais em aliviar os efeitos do que corrigir causas. O que seria mais importante então? A aplicação do remédio ou a busca da cura?
Quando fazemos uma rápida pesquisa na internet, vemos a enormidade de ofertas de formas de curar. A “cabalaterapia” (dita cura do corpo e da alma), a “cura pela fé”, a “energia da cura”, o “cristal da cura”, a “pedra filosofal”, a “cura prânica”, a “cura pelas frutas” e inúmeros eteceteras a mais.
Haveria algo errado aqui? Ou simplesmente a grande verdade seja simples e clara: quando se oferece muitos tipos de tratamentos (ou curas), é porque nenhum é realmente bom!
Seriam audazes pois, aqueles que buscam maneiras e formas tão divergentes para curar os mesmos males? Ou seria irresponsabilidade uma vez que buscando tais caminhos estar-se-iam apenas se iludindo a si mesmo e/ou aos seus semelhantes?
Neste sentido, não seria mais correcto obedecer ao bom senso e à cautela como elementos importantes nesta alquimia complexa da busca e obtenção da cura, da resolução de problemas?
Afinal, no senso comum, o provérbio ensina: “Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.
A audácia como aliada…
Se almejarmos somente a média, seremos medíocres.
Se almejarmos a excelência, seremos excelentes (desconhecido) [7].
Então, seria melhor deixar-nos influenciar pelo dramaturgo francês Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622-1673), mestre da comédia satírica, quando diz que “não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer” [3][5] e assim, dedicarmos cega e audaciosamente a nossa imaginação e seguirmos em busca, não importa o custo, desta quimera?
É um sentimento conhecido e propalado que um único dia ao lado de pessoas estimulantes, que exalam optimismo e excelência é um tónico revigorante, uma lição de vida e um auxiliar fundamental a qualquer tratamento que se possa receitar.
Todo ser humano tem problemas, e o segredo é saber administrá-los e não se deixar desesperar por eles. Fácil não é, mas faz parte do lado bom da audácia.
Assim, a doença pode servir como um caminho de duas direcções: da vida para a morte ou da morte para a vida. A pessoa quando doente está enfraquecida, passivamente entregue ao destino. Contudo, pode retornar mais forte e mais saudável. Recuperar-se da doença pode então, representar um renascimento, estar vivo novamente.
Há alguns anos, por ocasião de um acontecimento religioso [10] ocorrido no nosso País, com a carga acumulada da participação ao longo dos anos no sofrimento de tantos pacientes e familiares, estes questionamentos sobre as forças que movem o universo tornaram-se mais agudos.
Filho de imigrante português com filha de fazendeiros, frei Galvão, nascido em 1739 e falecido no 1822, teria realizado milagres; ou melhor, continuaria realizando milagres de cura através de pílulas de papel (que até podem ser solicitadas pelo correio…) confeccionadas por religiosas, as chamadas Irmãs da Luz [14]. Fui buscar um pouco mais…
Uma das envolvidas nestes eventos, com uma má-formação do útero (útero bicorne, ou seja, duas cavidades de dimensões muito pequenas e assimétricas que, em razão disto, não fornece espaço para o feto crescer), teria sofrido dois abortos espontâneos, sendo um deles inclusive, de gémeos. Qualquer nova tentativa de gravidez colocaria em risco as vidas da mãe e do filho (foi o que lhes disseram os médicos especialistas!) [11].
No entanto, ela engravidou em 1999 e passou a tomar as pílulas de frei Galvão durante toda a gravidez. Imaginava-se que a gravidez deveria ir até no máximo o quinto mês, por causa do pequeno espaço para a formação fetal, mas evoluiu até a 32ª semana. A criança nasceu prematura e com problemas pulmonares, porém, com 42 centímetros e quase dois quilos. Os médicos que a acompanharam, consideraram o caso muito raro. [11]
Outro milagre reconhecido foi a cura de uma menina de 4 anos. Em 1990 ela estava internada em coma no Hospital Emílio Ribas, hospital de ponta na área de doenças infecciosas na capital paulista, com hepatite B. “Desenganada” pelos médicos, foram-lhe ministradas as “pílulas de frei Galvão” e curou-se plenamente! [11]
Como a medicina não conseguiu explicar estas curas apenas pela ciência, a Santa Sé aprovou os milagres de autoria de frei Galvão, beatificando-o e, em seguida, canonizando-o. [10]
Por que ocorreriam estes factos, mais que esporádicos? Milhares de pessoas, neste mesmo momento em que escrevo este texto meditativo, estão doentes e, muitos, gravemente doentes. Inúmeras delas recorrem pessoalmente ou através dos seus amigos e entes queridos, a todas as formas possíveis de ajuda divina, de orações; aliás, recorrem a qualquer tipo de crença.
Por que somente alguns teriam estes privilégios? O que faltaria? A audácia de acreditar profundamente? A audácia de continuar buscando?
Diz-se que uns não acreditam tanto quanto outros. Seria então esta, a audácia que falta à maioria?
A audácia de buscar e acreditar que com forças inimaginavelmente operantes, se possa conseguir a cura seja do que seja desde emocional até físico ou da mistura deles por nossa exclusiva vontade?
Conclusão
O que aconteceria, por exemplo, se a mãe que concebeu um filho em condições tão adversas tivesse sido convencida da impossibilidade de tê-lo e tivesse mentalmente desistido? Teria novamente abortado?
O que aconteceu? Não teria a mãe convencido a todos, incluindo a equipe médica, de que isto seria possível, fazendo-os dedicarem-se de maneira muito mais audaciosa? Buscando recursos e caminhos até então não utilizados?
O que teria acontecido se a mãe com a filha internada em um hospital de alta complexidade, com profissionais de alto padrão na área médica, tivesse se afastado por ter sido convencida da impossibilidade de recuperação, desistido mentalmente, lá aparecendo só ocasionalmente, mantendo-se à distância, sofrendo separadamente da filha?
Pelo contrário, não teriam estas mães convencido a todos, especialmente, no caso, a equipe médica, de que seria possível a cura ou a consecução da gravidez de risco? Que estava, seja em um caso ou no outro, fora de cogitação o abandono, a desistência? Que as suas constantes presenças e determinações exigiam uma dedicação muito mais audaciosa de todos os envolvidos mental e profissionalmente no tratamento?
Não teria com isto, até mesmo, provocado respostas físicas não conhecidas no organismo enfermo, mas persistentemente amado e desejado?
É sobejamente reconhecida pela ciência a interacção psico-neuro-endócrino-imunológica.
Como seria normal pensar e esperar, existem mais perguntas do que respostas e muito mais dúvidas do que certezas.
Não podemos apenas acreditar; precisamos acreditar muito, seja em forças internas, seja em forças externas, humanas ou sobre-humanas e lutarmos para a consecução dos nossos objectivos, para a conquista das nossas quimeras, convencendo-nos de que o impossível só existe nos nossos pensamentos.
E este é o sentido da fé e da lição a ser aprendida com estas mães e usada em qualquer sector da vida.
E este deve ser o milagre a perseguir!
Deus deu-nos recursos e caminhos, mas devemos ter a audácia de estimularmos as pessoas que nos cercam para as possibilidades resolutivas, sejam quais sejam os seus papeis, sejam quais sejam os problemas.
Pois, esta é a audácia da conquista, que pode ser a cura física ou psíquica da pessoa, mas também dos males socioinstitucionais que nos cercam.
Dizem por aí: se fosse fácil, não seria para nós!
Walter Roque Teixeira (Médico Neurologista) – GOB – GOB/SC – CIM 184.372 – ARBLS Palmeira da Paz nº 2121
Bibliografia
[1] Rezende, Joffre M. de: Reproduzido do livro Linguagem Médica, 3ª. ed., da AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda.
[2] Houaiss: Dicionário Electrónico da Língua Portuguesa, Novembro 2002;
[3] “A Audácia é Má no Conselho e boa na Execução”: https://www.citador.pt/textos/a-audacia-e-ma-no-conselho-e-boa-na-execucao-francis-bacon
[4] Bacon, Francis: Ensaios de Francis Bacon – 1ª ED. – 2007;
[5] Molière: https://www.pensador.com/frase/NzU2OTg/ ;
[6] Panaceia: https://ragnarok.fandom.com/pt/wiki/Panac%C3%A9ia;
[7] https://www.pensador.com/frase/NDEyNDY/;
[8] Frases: https://citas.in/frases/61784-napoleon-bonaparte-con-audacia-se-puede-intentar-todo-mas-no-se-pued/;
[9] Frases: https://br.pinterest.com/pin/299770918929793670/;
[10] Frei Galvão foi canonizado pelo Papa Bento XVI em 2007, em São Paulo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2013/02/padre-relembra-quando-bento-xvi-canonizou-frei-galvao-em-sao-paulo.html;
[11] Milagres: https://www.santuariofreigalvao.com/milagres.html;
[12] A Maçonaria está de luto – morreu o Irmão Thomas W. Jackson: https://www.freemason.pt/a-maconaria-esta-de-luto-morreu-o-irmao-thomas-w-jackson/ (vide também “Artigos Relacionados”);
[13] Machado Júnior, Izautonio da Silva: A visão de Thomas Jackson sobre a Maçonaria na actualidade – https://www.freemason.pt/a-visao-de-thomas-jackson-sobre-a-maconaria-na-actualidade/ (vide também “Artigos Relacionados”);
[14] Mosteiro da Luz: https://www.mosteirodaluz.org.br/pedido-de-pilulas/.

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