“Havia horas antes e depois em que a vila estivera em movimento mas, enquanto o Ilídio e a mãe desciam a ladeira, a vila descansava e apenas se ouvia, lá ao longe, com um ritmo certo, o som do maço a bater no escopro. Ali, espetado no ar sobre a vila, esse som era triste como a morte repetida de um pardal.”
José Luís Peixoto, Livro, Lisboa, Quetzal, 2010, p. 16.
1. Da facilidade em encontrar o que se procura
Apesar de não ter nada de etimológico, sempre gostei da ideia de a palavra «literatura» ter alguma coisa a ver com lit, o leito francês, a cama. Não porque ler me faça sono (que por vezes faz), mas porque a imagem de estar deitado me invoca memórias historicistas da Antiguidade, do symposium, do banquete. Ler é um banquete, um manancial de alimento que faz o espírito percorrer todos os mundos, todas as paisagens, todos os cantos da mente. Essa é a liberdade do leitor. Essa é a estética da leitura, numa dinâmica e que o autor já nada tem a ver com o que o leitor, na sua diversidade e liberdade, faz com esse amontoado de letras que vagarosamente foi colocado em linhas ordenadas. O leitor desordena, já não as linhas, mas os sentidos. O leitor lê, reinterpreta, é interpelado e reage.
E o leitor tem os seus códigos de leitura, as suas chaves de compreensão, a sua gramática cultural. Mas o leitor tem, ainda, os seus medos e os seus desejos; a sua história de vida, as suas heranças e aquilo em que está investido no momento e que lê. Eu não apenas escolho o que leio de acordo com tudo isso, como, quando o leio, coloco nas palavras do autor o que eu, leitor, lá quero ver. O leitor é um inventor de sentidos, dos seus sentidos.
E assim sou eu a ler “maçonês”. A ver maçonaria em todo o lado, a identificar signos que me interpelam no lugar me que o autor apenas usou uma imagem que lhe calhou bem. Mas é exatamente aqui que a reflexão do maçon se deve aprofundar e dar lugar a uma quase epistemologia do ser “pedreiro”, construtor – não só de momentos rituais, mas dos momentos em que, fora dos espaços e tempos mais óbvios, a sua grelha de leitura maçónica vem ao de cima, ironicamente, tolhendo a sua liberdade.
E essa liberdade tolhida não mais é que a incapacidade de fugir a uma cosmovisão que nos vai moldando e “obrigando” a ver maçonaria em todo e qualquer lugar, e por isso ela restringe, ilude e domina. Mas é também uma afirmação perene, fora dos espaços dos templos e da gramática fechada dos rituais, de que, afinal, o léxico que ela usa faz sentido, é universalizante e transmite valores que não se circunscrevem a uns, mas são de todos.
Ver num texto de José Luís Peixoto uma situação que me faz ecos na gramática maçónica não implica teorias elaboradas de influências, de conspirações e de cabalas. “Apenas” me faz ver que essa gramática, que os símbolos, as palavras e as ações que eu identifico como maçónicas fazem parte de um legado civilizacional, talvez da própria natureza humana, e que a Maçonaria apenas deles se apropriou, reforçando-lhes o sentido, aprofundando-os filosófica e existencialmente.
2. O Mestre Josué do Livro de José Luís Peixoto
Aquando deste trecho no início desta obra de José Luís Peixoto, o pedreiro que aqui surge a criar este ruído no ar ainda não tem nome. É apenas um fazedor de som, ritmado, mas triste, na atmosfera de uma pequena vila ou aldeia. Páginas depois, será o Josué, com nome e caraterização. Mas aqui, ele marca o momento em que a mãe de Ilídio se aproxima do lugar onde este pedreiro estava e abandona o filho. Por isso é triste.
Com a situação combinada com Josué, a mãe de Ilídio abandona a aldeia onde nada poderá crescer e imigra para França. Estava a narrativa em 1948. Josué acolhe a criança na sua casa. Neste trecho, a criança está a chegar ao lugar onde Josué está a trabalhar, por isso o som do maço a bater no escopro.
Mas este som, que aqui é triste porque é de abandono, é também de novo começo, de vida totalmente nova. Poucas linhas depois, Ilídio dirá que antes desse momento tudo era difuso. A sua memória nascera nesse momento, quando fora abandonado e acolhido por Josué.
Josué é o Mestre pedreiro. Ganhara esse título com a construção de uma grande obra-pública, um chafariz. Homem de poucas palavras, recebera essa encomenda com a dignidade da obra da sua vida, apesar de ser ainda um jovem. Tudo fizera bem, mas algum tempo depois, por problemas na canalização, o chafariz começou a deitar, em vez de água pura, os dejetos de uma casa vizinha.
Josué deixara de ser Mestre e voltava ser apenas pedreiro. Mas a vida de Ilídio continuava com este pai criado no desespero de uma mãe. De poucas palavras, Josué nunca negou que o filho fosse seu, fruto do relacionamento que tinha com a jovem que tivera Ilídio com pouco mais de quinze anos. Mas o filho não era seu. Tratava-o sem negar publicamente essa possibilidade, mas todos se lembravam dos amores do Padre da aldeia pela menina que, pouco tempo depois aparecera grávida. Esse, sim, nunca o perfilhara, nem, sequer, o batizara.
Ilídio vai ser criado por este Mestre que já não é mestre, que faz de pai sabendo não ser pai, a quem uma mãe deixou em guarda o seu único filho. A efemeridade da mestria. A natureza difusa e indefinida da progenitura. São dois campos onde me interrogo constantemente: o adquirido, se é que o é, e as suas dimensões.
Josué recorda-me, de imediato, o filme La vita è bella, onde um jovem menino, homónimo desta personagem de José Luís Peixoto, vive com o seu pai um teatro excecional num campo de concentração, fruto da imaginação, humanismo e dádiva, papel magnificamente interpretado por Roberto Benigni. Separado no campo de concentração da mãe, este Josué do filme vive apenas com o pai, perdendo-o nos momentos finais do filme.
No filme de Benigni, a tristeza e o risco, o sofrimento, surgem com o trabalho forçado numa metalurgia onde os homens carregam imensas bigornas. Aqui, nesta aldeia portuguesa fustigada por moralismos fúteis, onde um padre pode engravidar uma criança de quinze anos, sendo que a mãe é a única pessoa a ficar maculada com essa “falha”, o martelar na pedra é o abandono, o momento da tristeza, mas é também o momento em que o Mestre acolhe no seu seio aquele que precisa de toda a fraternidade, sendo recolhido como se um filho fosse.
A grandiosidade do gesto não o abandona a mestria se o talhar a pedra for sempre o sentido. É isso ser Mestre: não parar de talhar a pedra.
(Publicado originalmente no perfil no Facebook da Quatuor Coronati Correspondence Circle)

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