A circunvolução em Loja

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circunvulação

O ritual e instruções de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito instrui-nos que “a Circunvolução em Loja deverá ser feita no sentido dos ponteiros do Relógio”. Porque a circunvolução em Loja deverá ser feita desta maneira?

Antes de responder esta pergunta, vamos primeiramente tratar da verbete “Circunvolução”.

Ao verificar no Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia de Nicola Aslan sobre a verbete “Circunvolução”, informa-nos ele que este termo é apropriado a um rito praticado na antiguidade chamado “Circumambulação”. Diz ele: “Rito praticado na Antiguidade e adoptado pela Maçonaria. A palavra deriva do verbo latino “circumambulare”, andar em volta de alguma coisa, nome que se dava, nas cerimónias religiosas da antiguidade, a uma procissão que se fazia em torno do altar ou de qualquer outro objecto ou de um animal sagrado. Representava-se nesta cerimónia, o movimento dos corpos celestes e, para isto, ao se fazer a procissão em torno do altar, procurava-se imitar o curso aparente do Sol: começava-se pelo Oriente e tomando o rumo Sul, seguia-se para o Ocidente, passando pelo Norte e voltando novamente ao Oriente. A Maçonaria conservou o significado primitivo destas cerimónias alusão simbólica ao Sol, como centro da luz física e como a obra mais maravilhosa do GADU. Já Alec Mellor diz-nos: “Circumambulações ou Perambulações – Termo do Rito Emulação”. “Designa a maneira pela qual se faz com que o candidato ande lenta e solenemente ao redor da Loja, conduzido pelo 2° Diácono, no começo da cerimónia, para torna-lo conhecido dos seus futuros Irmãos”. “A Circumambulação é feita no sentido do sol, e lembra a que existe na cerimonia de sagrações de reis”.

Após as devidas explicações por parte dos Irmãos Nicola Aslan e Alec Mellor, veremos o que Jules Boucher nos diz sobre a “circulação”.

Sobre a circulação Jules Boucher dá-nos a seguinte explicação: “Importa, antes de tudo, precisar bem os termos usados. O sentido do movimento dos ponteiros de um relógio é sinistrorsum: vai da esquerda para a direita; o sentido inverso é dextrorsum: realiza-se da direita para a esquerda. Notemos que os termos “da direita para a esquerda” e “da esquerda para a direita” não bastam para determinar com exactidão o sentido de um movimento circular; com efeito, no sentido “sinistrorsum”, os ponteiros de um relógio vão, de facto, da esquerda para a direita na parte superior do mostrador, mas vão da direita para a esquerda na parte inferior. Ocorre o mesmo quando se diz que o movimento de um astro se realiza do Oriente para o Ocidente, ou do Ocidente para o Oriente. Assim, para evitar qualquer confusão, usaremos dois adjectivos relacionando as suas circumambulações à nossa própria direita e a nossa própria esquerda. Diremos: sentido dextrocêntrico quando nos voltarmos tendo constantemente a direita voltada para o interior do círculo e a esquerda para o exterior; sentido sinistrocêntrico, quando a nossa esquerda ficar voltada para o interior do círculo e a direita para o exterior. De um modo geral, a direita é considerada benéfica e a esquerda maléfica nas figurações estáticas; consequentemente, o mesmo ocorrerá nos movimentos que vão seja para a direita, seja para a esquerda. Com efeito, as circumambulações sinistrocêntricas estão ligadas, na maioria das vezes, a operações nefastas”.

Nos escreve Goblet d’Alviella: É preciso notar, que, em todos os ritos giratórios, o movimento sempre deve ser feito para a direita, isto é, no sentido do movimento dos ponteiros de um relógio”. No explica ainda Goblet d’Alviella: “que um sentido propício está ligado à rotação pela direita e um sentido sinistro à rotação pela esquerda porque, no primeiro caso, o movimento segue o curso aparente do Sol, e, no segundo caso, vai ao encontro desse curso”.

Sobre o comportamento ritualístico, José Castellani na sua obra intitulada, “Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom em todos os Ritos”, nos diz: “ Independentes de ritos, existem certas normas de comportamento ritualístico”. “A circulação ordenada, no espaço entre as Colunas do Norte e do Sul, é feita no sentido horário, que simboliza a marcha do Sol, circundando o painel do Grau e não o Pavimento Mosaico, pois este, na realidade, deve ocupar todo o solo do Templo, com os quadrados em diagonal e não como tabuleiro de xadrez. No Oriente, não há uma padronização da marcha, para os que lá se encontram, enquanto que os demais se tiveram que subir a ele, entrarão pela região nordeste (á esquerda de quem entra) e sairão pelo sudeste (á direita de quem entra, ou esquerda de quem sai ). Desta maneira, não tem sentido a inventada “circulação em infinito”, com circulação anti-horária no Oriente”.

Conclusão

A meu ver, sobre o comportamento ritualístico ao se tratar da “Circunvolução em Loja” na abertura de uma sessão económica, o Mestre de Cerimónias deverá dirigir-se ao Átrio onde se encontram devidamente paramentados todos os Irmãos do quadro e posteriormente deverá formar a fila dupla. Faço aqui uma observação muito importante: – Diz o Ritual e Instruções de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito: “Chama-se Átrio ou Vestíbulo o compartimento que precede ao Templo. Ao Vestíbulo do Templo precede a Sala dos Passos Perdidos”.

Na nossa Loja o Átrio está localizado dentro do Templo, ou seja, as Colunas Vestibulares estão dentro do Templo, considera­-se então que elas delimitam a entrada no recinto, sendo o espaço da porta de entrada até onde se encontra fixadas as Colunas Vestibulares, diante disto esta formação é realizada na Sala dos Passos Perdidos. Quanto ao procedimento de entrada, a formação da fila dupla, é mais conhecida como Cortejo de Entrada: – “Este procedimento tem origem nos hábitos das antigas cortes reais, durante audiências publicas e recepções, as pessoas adentravam ao salão formando duas fileiras uma de cada lado, entre as quais passavam, devidamente anunciados, pelo arauto, o rei, a rainha e eventualmente, os maiores dignitários da corte, dirigindo-se, todos, para o fundo da sala, onde o casal real, (ou somente o rei, nas audiências) subia aos tronos ali colocados, enquanto os ministros presentes ocupavam o plano inferior”.

Ao dar entrada no Templo os Irmãos que tem assento na coluna do norte deverão seguir pelo norte, os Irmãos que tem assento na coluna do sul deverão seguir pelo sul. Os Irmãos que tem assento no Oriente deverão seguir ou pelo norte ou pelo sul conforme o lugar que lhe compete em Loja. Após a entrada e já postados na sua Coluna, todos os Irmãos dever-se-ão colocar de pé. O Mestre de Cerimónias deverá escoltar até a entrada do Oriente o Venerável Mestre, que deverá contornar o trono no sentido horário e colocar-se de pé. Não há neste momento da entrada no Templo a Circunvolução em Loja, pois a Loja não está aberta. O único Irmão que faz o contorno no sentido horário na entrada do Templo é o Venerável Mestre, quando se vai colocar no Trono. “Embora a circulação no Templo, deva ser no sentido horário (marcha do sol), contornando o painel do grau, é evidente que isto só ocorre depois da sessão Ter sido aberta. Portanto, ao ingressar no templo, cada fileira o fará pelo respectivo lado (Norte ou Sul), enquanto o Venerável, o fará, sempre pelo lado Norte, pois o seu acesso ao Trono é feito pela esquerda (ou direita da mesa) ’”.

No encerramento dos trabalhos o procedimento será o mesmo, a saída se dará pelo norte ou pelo sul, não havendo a Circunvolução em Loja, pois a Loja está fechada. Somente o Venerável Mestre deverá contornar o trono ou seja sairá pelo lado sudeste do Templo. Os Irmãos que fazem a Circunvolução estando a Loja ainda fechada, não estão cumprindo uma determinação lógica, pois os sinais e a circunvolução só deveram ser feitas quando do início dos trabalhos maçónicos ou seja somente após a abertura ritualística da Loja, e, quando são colocados na posição apropriada, as Três Grandes Luzes da Maçonaria.

Acredito que, após estas orientações não há duvida que a Circunvolução em Loja deverá ser feita somente quando a Loja estiver aberta. Porém, vale lembrar, que, quando da chegada de algum Irmão retardatário, o mesmo deverá quando da entrada no Templo, após Ter cumprido as formalidades de praxe, e, autorização do Venerável, ao se dirigir ao lugar que lhe compete em Loja, fazer a devida Circunvolução, pois ela, a Loja, está aberta.

Quanto à circulação no Ocidente, considerando que as Colunas Vestibulares estão dentro do Templo, elas delimitaram a entrada e a circulação. Na entrada não se deve passar por trás das Colunas Vestibulares, nem na circulação, pois aquele espaço é considerado o Vestíbulo, o Átrio do Templo. Se qualquer Obreiro, ao entrar ou circular por trás das Colunas Vestibulares, estará ele fora das limitações do Templo. Diz José Castellani na sua obra “O Rito Escocês Antigo e Aceito” – “Da mesma maneira que no Templo de Jerusalém, as Colunas Vestibulares do Templo Maçónico deverão estar fora dele, à entrada; todavia, como isto nem sempre é possível, admite-se a sua interiorização; considerando-se, então que elas delimitam a entrada no recinto. As Colunas, todavia, não guardam qualquer semelhança com as do Templo de Jerusalém, pois são do tipo egípcia. As Colunas, já que o Templo representa a Terra, marcam as passagens dos trópicos de Câncer, ao norte, e de Capricórnio, ao sul, sendo que a linha que passa exactamente no centro do espaço entre elas, estendendo-se até ao Delta, no Oriente, é o equador do Templo”.

Quanto à circulação no Oriente, estando a Loja aberta, o Irmão deverá subir o Oriente pela região nordeste, e quando sair, deverá faze-lo pela região sudeste. Lembrando que, somente os Mestres tem livre circulação no Oriente, sendo vedada o acesso aos Aprendizes e Companheiros.

Nenhum Irmão nem mesmo o Mestre de Cerimónias que esta exercendo o seu oficio, poderá circular por trás da cadeira do Venerável Mestre. A circulação por trás da cadeira do Venerável Mestre não existe. “A coisa mais grave desta invenção, “circulação em infinito”, é a passagem por trás do Trono, que implica, evidentemente, passar na frente do Delta, o que, além de ser um erro é uma pratica proibida, pois o Delta tem que ser visível a todas aqueles que estão no Templo, não podendo, a sua visão ser obstruída, por pessoas ou objectos”, diz José Castellani no seu “Consultório Maçónico III”. O Delta representa para os ritos teístas a presença divina e para os ritos agnósticos simboliza a sabedoria.

Não existe a circulação no sentido horário ou anti-horário no Oriente, porém deve haver uma ordem nesta movimentação, senão vejamos: “O espaço em que se encontra o Trono sob o dossel, corresponde ao Templo de Jerusalém, os Santos dos Santos, onde só se encontrava a Arca da Aliança e ao qual só tinha acesso o Supremo Sacerdote, onde agora, a este espaço só têm acesso o Venerável, o Grão-Mestre e algumas Dignidades. O restante do Oriente dos Templos Maçónicos corresponde no Templo de Jerusalém, ao Santo, neste, logo à entrada, havia uma pequena mesa, onde se procedia à queima de incenso e mira, ao sul havia a mesa dos doze pães propiciais e, ao norte, o candelabro de sete braços. O Altar dos Perfumes corresponde à mesa onde eram queimadas as ervas aromáticas, ficando, portanto, bem na entrada do Oriente. Desta maneira, a circulação é feita, apenas, na parte correspondente ao Santo e, evidentemente, entre a mesa do Venerável e o Altar dos Perfumes, pois se o Irmão passar à frente deste Altar, estará saindo do Oriente”.

Na Maçonaria brasileira nos adoptamos a circulação no sentido horário, o sentido dextrocêntrico. O lado direito do ombro deverá estar voltado para o interior do Templo. Quando a Loja estiver aberta, está é a Circunvolução que devemos seguir em Loja do REAA, para o espaço entre as Colunas do Norte e do Sul, “que representa a marcha do iniciado em direcção à Luz, ou à Luz do Sol, e simbolizando as três etapas da vida humana: Aurora – Juventude; Meio Dia – Maturidade; Crepúsculo – Velhice 2 ”.

António Carlos Rios

Bibliografia

  • José. Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom. A Gazeta Maçónica. 2° edição. 1987.
  • F. C. Compendio Maçónico.
  • Jules. A Simbólica Maçónica.
  • Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia.
  • José. Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom.
  • José. Cadernos de Estudos Maçónicos. Consultório Maçónico. 2° edição. 1990. Editora Maçónica a Trolha.
  • José. Curso Básico de Liturgia e Ritualística. Cadernos de Estudos Maçónicos. 4° edição. 2007. Editora Maçónica a Trolha.
  • José. O Rito Escocês Antigo e Aceito – Historia – Doutrina – Pratica. 3° edição. 2006. Editora Maçónica a Trolha.
  • Ritual e Instruções de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito.
  • GOMS – Grande Oriente de Mato Grosso do Sul – COMAB.

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2 thoughts on “A circunvolução em Loja”

  1. Ramon Patero Rodrigues

    Bom dia,
    Muito importante essa troca de informações fundamentadas e não as de achismos ou inchertismos que tanto contribuíram para causar uma confusão no conteúdo VERDADEIRO da Maçonaria.
    Contem com a minha modesta contribuição sempre.
    Um TFA Ramon

  2. Milton de Oliveira Bordin

    Bom dia:
    Agradeço o envio destas informações, mas com referência ao exposto acima, gostaria de fazer um comentário sobre o giro, com referência ao VM.
    Segundo consta, no Oriente não há uma definição de giro específica, podendo os MM girar livremente. Isto posto, há uma contradição para o acesso do VM ao Trono, visto que se contradiz onde cita que o VM deverá acessar o Trono pela esquerda, olhando-se do Ocidente. Se não há ritualística de giro no Oriente, não há porque o VM acessar pela esquerda. Alem do mais, a Loja não está aberta, então o acesso e os giros são livres.

    Grande e fraterno abraço.

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