A Coluna da Harmonia no Grau 23 do REAA

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Avental do Grau 23 - Chefe do Tabernáculo (REAA)
Avental do Grau 23 – Chefe do Tabernáculo (REAA)

Enquadramento Histórico, Filosófico e Simbólico

O Grau 23 do Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA), tradicionalmente designado Chefe do Tabernáculo, inscreve-se num quadro eminentemente bíblico e sacerdotal, remetendo para a instituição do Sacerdócio levítico através de Arão e de seus filhos, Eleazar e Itamar. Este Grau encontra o seu cenário simbólico no deserto do Sinai, espaço de prova, purificação e revelação, onde as Doze Tribos de Israel se organizam em torno do Tabernáculo, estrutura móvel que corporiza a presença divina no seio do povo eleito.

Moisés e Arão surgem como figuras centrais da mediação entre o humano e o divino, instituindo um dos levitas como o primeiro da Hoste dos Guardadores do Templo. Assim, os Cavaleiros Chefes do Tabernáculo assumem a função simbólica de guardiães das Portas do Sagrado, assegurando a integridade ritual e espiritual do espaço consagrado. Os Trabalhos do Grau decorrem, simbolicamente, na câmara que representa o Tabernáculo, verdadeira imagem arquetípica do Templo interior.

Etimologicamente, o termo Tabernáculo designa uma tenda, sublinhando o carácter itinerante e transitório da morada divina durante os quarenta anos de peregrinação no deserto. Esta estrutura sagrada encontrava-se organizada em três espaços hierarquizados: o átrio exterior, acessível ao povo; o Sanctum, reservado aos sacerdotes; e o Sanctum Sanctorum, espaço de máxima sacralidade, onde apenas o Sumo Sacerdote podia ingressar. A descrição minuciosa da sua construção encontra-se no Livro do Êxodo (Ex 40, 17-33), sendo comummente aceite que o Tabernáculo terá servido de modelo simbólico e arquitectónico para o Templo de Jerusalém e, por analogia, para a organização ritual das Lojas Maçónicas.

No Sanctum Sanctorum encontrava-se a Arca da Aliança, cuja construção é detalhada em Ex 25, 10-16. No seu interior foram depositadas as novas Tábuas da Lei, contendo os Dez Mandamentos, enquanto testemunho material da Aliança entre Deus e a Humanidade. A tradição bíblica reconhece quatro grandes Pactos: o da Criação, inscrito no próprio homem; o Pacto com Noé, simbolizado pelo Arco-íris; o Pacto com Abraão, selado pela circuncisão; e, finalmente, o Pacto do Sinai, materializado na entrega da Lei. Estes Pactos estruturam uma progressiva ordenação moral e espiritual, plenamente consonante com a pedagogia iniciática do Grau 23.

As Escolhas Musicais e a Coluna da Harmonia

À luz deste enquadramento simbólico e ritual, as escolhas musicais assumem uma função que ultrapassa o mero enquadramento estético, configurando-se como instrumentos de elevação espiritual, em consonância com a Coluna da Harmonia, elemento essencial na construção do clima iniciático.

Max Bruch – Kol Nidrei, Op. 47

Num primeiro momento, dedicado à introspecção e à purificação interior, foi escolhida a obra Kol Nidrei, Op. 47, de Max Bruch (1838-1920). Compositor alemão do romantismo tardio, Bruch destacou-se pela sua fidelidade ao melodismo expressivo e pela resistência às rupturas estéticas de Wagner e Liszt. Apesar de um catálogo vastíssimo, a sua produção para instrumentos de cordas solistas permanece a mais reconhecida.

Kol Nidrei, composta em 1881 para violoncelo e orquestra, estrutura-se como um Adagio sobre duas melodias hebraicas, ambas impregnadas de profundo sentido litúrgico. O tema principal deriva da oração Kol Nidre, entoada na noite de Yom Kippur, o Dia da Expiação, momento máximo de reconciliação, arrependimento e renovação da Aliança. Esta dimensão penitencial articula-se de forma exemplar com o espírito do Grau 23, que convoca o iniciado à responsabilidade sacerdotal, à vigilância moral e à guarda do Sagrado. A guisa de curiosidade a violoncelista portuense Guilhermina Suggia (1885-1950), em 1927, gravou esta obra.

A utilização do violoncelo — instrumento de tessitura próxima da voz humana — reforça o carácter confessional e meditativo da obra, ecoando simbolicamente a súplica do homem perante o Mistério.

Astor Piazzolla – Milonga del Ángel

Para a abertura ritual foi escolhida Milonga del Ángel, (A palavra do Anjo) de Astor Piazzolla (1921-1992), peça emblemática do seu Nuevo Tango. A milonga, enquanto forma musical anterior ao tango, é ressignificada por Piazzolla num registo contemplativo e melancólico, carregado de densidade espiritual.

A figura do Anjo surge aqui como mediador entre o céu e a terra, evocando protecção, queda e redenção. Integrada no ciclo Los Ángeles y Diablos, esta obra explora a tensão entre o sagrado e o profano, o bem e o mal, numa dialéctica que encontra ressonância no simbolismo iniciático. Tal como os Chefes do Tabernáculo, o Anjo observa, guarda e intercede, sendo metáfora da vigilância espiritual exigida ao iniciado.

Johann Sebastian Bach – Ária da 4.ª Corda (Suite n.º 3 em Ré Maior, BWV 1068)

A culminação musical recai sobre a célebre Ária da 4.ª Corda, extraída da Suite n.º 3 para orquestra, de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Bach, figura cimeira do Barroco, corporiza uma síntese ímpar entre ciência musical, fé luterana e simbolismo espiritual. A sua obra revela uma arquitectura sonora rigorosa, onde matemática, teologia e música convergem numa mesma ordem cósmica.

A Ária distingue-se pela sua linearidade melódica, equilíbrio formal e profundidade contemplativa. Escrita numa tessitura grave e contínua, cria uma sensação de suspensão temporal, remetendo para o eterno. Esta qualidade torna-a particularmente adequada ao Grau 23, cujo cerne reside na ordem sacerdotal, na harmonia entre Lei, Ritual e Consciência.

Diversos estudos têm demonstrado o uso recorrente de numerologia, simbolismo trinitário e referências bíblicas na obra de Bach, o que a aproxima das tradições esotéricas e iniciáticas. A música bachiana não é apenas expressão estética, mas verdadeiro acto de culto, onde cada voz encontra o seu lugar numa hierarquia harmoniosa — imagem sonora do próprio Tabernáculo.

Não é, pois, fortuito que Isaiah Berlin tenha afirmado:

“Quando os anjos tocam para Deus, tocam Bach; quando tocam entre si, tocam Mozart”

No contexto do Grau 23, Bach representa a perfeita consonância entre o humano e o divino, a ordem que emerge da disciplina espiritual e a harmonia

J. A. Neves, 33º

Nota: O texto escrito não obedece às regras implementadas pelo Acordo Ortográfico

Referências Bibliográficas

  • Bíblia Sagrada, Livro do Êxodo, capítulos 25 e 40; Levítico, capítulos 16 e 23.
  • Berlin, Isaiah. The Proper Study of Mankind. London: Pimlico, 1998.
  • Bruch, Max. Kol Nidrei, Op. 47. Partitura e gravações históricas.
  • Butt, John. Bach Interpretation: Articulation Marks in Primary Sources of J.S. Bach. Cambridge University Press, 1990.
  • Eliade, Mircea. O Sagrado e o Profano. Lisboa: Livros do Brasil, 1992.
  • Piazzolla, Astor. Los Ángeles y Diablos. Buenos Aires: Ediciones Musicales, 1965.
  • Pike, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston, 1871.
  • Réau, Louis. Iconographie de l’Art Chrétien. Paris: Presses Universitaires de France, 1957.

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