A Ética na Maçonaria

“Ética na Maçonaria” foi o tema de trabalho filosófico aprovado em Congresso de 6014 e que possibilitou uma grande reflexão nas Lojas, sendo evidência do interesse e do trabalho desenvolvido, as Pranchas que recebi na qualidade de relatora, tendo humildemente de confessar, ter sido também para mim, um árduo, mas motivador trabalho, a síntese que vos apresento.

Comecemos então pela ética. Se questionarmos várias pessoas sobre a ética, todas sabem o que é, todas têm a noção do que significa, mas dificilmente encontraremos uma resposta unânime.

Assim foi ao longo da história para vários filósofos desde Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, Marx, Nietzsche, Espinosa, Peter Singer e outros…

Ética é a procura em determinar a finalidade da vida humana, é moral, princípios e valores. Os valores arrumam-se de acordo com a sua natureza em configurações que os ligam: assim, podemos falar de valores políticos, valores económicos, valores estéticos, valores religiosos ou valores éticos.

Os valores éticos dizem respeito ao conjunto dos ideais supremos duma cultura, duma sociedade ou duma Organização: orientam as suas actividades, as relações entre os seus membros e os seus objectivos mais profundos. Eles impõem-se, por isso, como os objectivos que se pretendem atingir e os meios para os atingir e aos quais tudo se deve subordinar. O Bem, a Liberdade, a justiça, a paz, a tolerância, a pessoa e a humanidade são alguns desses objectivos supremos. Identificam-se pelo seu carácter absoluto e incondicional e pela exigência de universalidade. Afirmam-se válidos para todos os seres humanos, para todas as situações e para todos os domínios da existência.

Então podemos questionar-nos: serão os valores éticos idênticos para todas as culturas ou povos? De uma forma plena não o são. Considera-se, comum, um princípio genérico formulado desta forma: “o bem deve fazer-se; o mal deve evitar-se” ou “faz aos outros o que gostarias que te fizessem”, no entanto, as diferentes culturas ou a mesma cultura ao longo da sua história variam na interpretação que fazem, do que é bem e do que é mal. Os problemas de ordem ética ocuparam, desde sempre, filósofos e pensadores, como já dissemos, referimo-nos aos problemas de acção que se expressam na questão: que devo fazer? E que podemos aclarar noutra questão – que devo fazer para atingir a felicidade, qual a conduta que me torna feliz, que acção deve realizar o nosso Ser quando se nos revela, enquanto, consciência e liberdade?

Surge, então, a necessidade de inserirmos as nossas acções numa ordem que as justifique e lhes dê sentido. A ordem em que a acção se inscreve pode ser a do bem ou da natureza própria do ser humano, uma ordem de felicidade, ou uma ordem transcendente e visa a realização da pessoa humana.

Para a realização da acção ética, isto é, da acção autêntica existem duas condições que sempre foram reconhecidas como fundamentais: a consciência racional/razão e a liberdade, isto é a vontade livre. Quando escolhemos e decidimos, do ponto de vista ético, escolhemos o que sabemos estar de acordo com a nossa própria natureza, com a nossa consciência e razão e que por isso, nos trará felicidade.

“Age sempre de maneira que a tua acção se possa tornar numa lei universal, válida para todos os seres racionais”. É o que Kant chamou de imperativo categórico.

Na verdade, enquanto maçonas, temos absoluta necessidade de reflectir sobre o que fazemos e porque o fazemos e de compreender o significado ou o sem sentido das atitudes que adoptamos ao longo da vida. Sentir a necessidade do bem e reconhecer o dever e a obrigação interior de o promover é condição intrínseca da nossa existência autêntica de maçonas.

“Devemos trazer para a Maçonaria pessoas boas.”, dizia Maria da Graça Pons. Na raiz dos actos de uma Maçona deve estar o desejo do bem. A sua obra positiva não se realizará através de qualquer caminho: há caminhos que conduzem para a frente, e outros para trás, e ela deverá sempre saber fazer a melhor escolha.

Aquela que não estiver esclarecida sobre o significado de ética não conseguirá imprimir á vida o seu verdadeiro e justo sentido. Por outro lado aquela que conhecer e aplicar os verdadeiros valores éticos realizará o sentido da vida.

Agir eticamente é realizar-se, aperfeiçoar-se, é elevar-se a dimensões superiores. Se relembrarmos a história grega antiga, a Ética começou por residir num conceito de morada ou lugar onde se habita, conceito a seguir alargado por Heideggar para fundamento de praxis, a raiz de onde brotam todos os actos humanos.

Existem duas palavras gregas de onde se crê que deriva ética. Êthos e éthos. A primeira designa o lugar onde se habita, a casa, o espaço próprio, o ambiente familiar, sendo que, o lugar onde se vive num sentido mais amplo é o Universo, a nossa casa comum. A segunda designa o modo habitual de um ser se manifestar e por isso se pode traduzir por hábito ou costume (do latim mores, de onde deriva moral). que quer dizer “o modo de ser”, ou “o carácter”

Se juntarmos as duas proveniências etimológicas a ética aparece como a procura do verdadeiro lugar de cada ser humano, como o esforço de construção de um mundo verdadeiro humano e humanista e como tarefa de alicerçar e estabelecer o genuíno modo humano de Ser e consequentemente de Agir.

No Renascimento e nos séculos XVII e XVIII, os filósofos redescobriram os temas éticos da Antiguidade e a ética foi entendida como o estudo dos meios para se alcançar o bem-estar, a felicidade e o bom modo de conviver, tendo como base o pensamento humano e não os preceitos das tradições religiosas

A Ética compreende a posição do homem e da mulher na vida, o seu carácter, costume ou moral e floresce a partir dos valores, que nos ditam se algo está bem ou mal, (correcto ou incorrecto) nos actos praticados.

A Ética diferencia-se da moral, pois enquanto esta se fundamenta na obediência, nos costumes e hábitos recebidos, a Ética busca fundamentar as acções morais exclusivamente pela razão. Assim, estabelecemos que, se a ética está muito próxima da Moral, não é com ela coincidente, pois a Ética é o conjunto de conhecimentos sobre o comportamento humano ao tentar explicar as regras morais de forma racional, científica e teórica. É uma meditação sobre a moral; já a Moral vê-se plasmada nas normas e costumes, nos comportamentos socialmente aceites como bons, como referências, aplicadas no cotidiano e utilizadas diariamente por cada individuo. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas acções e os seus julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau.

A Ética não deve ser confundida com a lei, embora com frequência a lei tenha como base princípios éticos.

Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido pelo Estado ou por outros indivíduos a cumprir as normas éticas nem a sofrer qualquer sanção pela desobediência a elas; por outro lado, a lei pode ser omissa a questões abrangidas no âmbito da Ética.

Diremos que a Ética pertence aos homens e mulheres que pensam e, ao fazê-lo, assumem comportamentos, exprimem pensamentos e praticam acções fundamentadas.

Podemos afirmar que a Ética é a filosofia da melhor aplicação da moral e sê-lo-á no sentido em que pretende fundamentar e orientar o modo de pensar da Humanidade. É um campo de estudo que busca direccionar as relações entre os seres humanos e o seu modo de ser, pensar e, principalmente, de agir dentro de um determinado contexto: comportamento ético é aquele que é considerado adequado, correcto e permitido por uma organização.

A ética não é uma propriedade de um ser em si mesmo, mas um conjunto de princípios que orientam a conduta de um grupo.

Ética é, também, a parte da filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana. É ainda a ciência que tem por objecto o estudo científico e filosófico sobre os costumes ou as acções humanas. Logo, questões do tipo: “O que é certo? Qual o meu dever? O que devo fazer?” pertencem exclusivamente ao aspecto causal da procura do padrão ético e devem levar às respostas: se as acções são boas, com certeza terão bons efeitos.

É justamente na convivência, na vida social e comunitária, que o ser humano se descobre e se realiza enquanto um ser moral e ético. É na relação com o outro que surgem os problemas e as indagações morais: O que devo fazer? Como agir em determinadas situações? Como comportar-me perante o outro? Diante da corrupção e das injustiças, o que fazer?

Mas, o que é a ética na Maçonaria?

Ética…na Maçonaria? Maçonaria é, ela própria, ética, na sua essência e substância! A Maçonaria é uma Ordem Universal, formada por homens e mulheres de todas as raças, credos e nacionalidades, acolhidos por iniciação e reunidos em lojas, nas quais, por métodos ou meios racionais, auxiliados por símbolos e alegorias, estudam e trabalham para a construção de uma sociedade melhor.

A Maçonaria proclama a luta pelo princípio da equidade, dando a cada um o que for justo, de acordo com sua capacidade, obra e mérito, além de considerar o trabalho lícito e digno como dever primordial do ser humano.

A Loja Maçónica é o Templo, espaço onde deve reinar a Harmonia, a Liberdade, Igualdade e a Fraternidade entre os Maçons, que trabalham pela futura comunhão universal. O Templo torna-se um laboratório de cultura, de estudo, de saber e de progresso moral e, portanto, o local onde se combate a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, as paixões e os vícios, ao mesmo tempo que se glorifica o direito, à Justiça e a Verdade. É assim que se avança na procura do bem-estar e progresso da Pátria e da Humanidade . É também na Loja que os IIr∴ e as IIr∴ se aperfeiçoam moral e espiritualmente, procurando desenvolver e evoluir o seu Templo Espiritual, pelo Bem e segundo os símbolos Maçónicos, como pelo o esquadro, o nível ou o fio-prumo.

Colocou-se-nos a questão: “A ética na maçonaria estará em crise?”

A ética é intrínseca ao próprio conceito de maçonaria, daí dizer-se que uma maçona é uma mulher que nasceu livre e de bons costumes. Ora, os bons costumes mais não são do que os princípios éticos que a regem. Logo, se a ética não estiver na maçonaria é este último conceito que fica em crise, não se podem dissociar.

A ética na maçonaria passa pela responsabilidade, pelo respeito de tudo o que aceitámos aquando da nossa iniciação, com tudo o que aceitámos ao prestar juramento. Um compromisso nos é pedido, um compromisso de honra com o trabalho maçónico – meditar para deixar morrer o profano e renascer para uma vida verdadeira.

Sem ética a maçonaria não existe!

Outras questões se nos colocam. A Maçonaria está atenta? A Maçonaria tem resposta?

Eis algumas reflexões!

Em Maçonaria, a ética parte dos conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, como máximas do relacionamento humano, mas devemos associar o simbolismo dos instrumentos maçónicos, as atitudes e os gestos simbólicos dos rituais, as Constituições e Regulamentos Gerais das Obediências, de forma a defendermos o conjunto das regras de conduta, válidas para todos os tempos e para todos os homens e mulheres que aceitem ingressar na Maçonaria.

Temos consciência que no ser humano o seu SER está constantemente posto á mercê do seu agir. Por outras palavras é-se o que se faz. As acções podem realizá-lo, enquanto ser humano, ou destruí-lo, podem levá-lo a reconhecer-se ou a degradar-se perante si próprio, isto é, se o Ser não está dado á partida, para se Ser tem de se fazer.

Para além da acção entendida no sentido técnico, fazer do ponto de vista exterior, produzir e executar funções, a maçona realiza também um outro tipo de acções pelas quais nada produz que lhe seja exterior, mas fundamental, porque se produz a si mesma. Esta é a acção ética prática, que trabalha a pedra e lhe dá forma, a torna Pessoa, a dignifica e aperfeiçoa, a faz atingir a plenitude da sua humanidade.

Um dos maiores desafios para uma maçona é a prática de uma postura ética e moral numa sociedade excessivamente individualista e voraz, onde o TER a todo o momento procura absorver o SER numa luta desigual e numa competição desenfreada, incompreensível e desumana. Persistem os ataques da ignorância e do preconceito, por esta razão, espera-se que a maçona reitere o seu juramento com a sua presença nas reuniões maçónicas e se dedique, de corpo e alma, não somente ao estudo do simbolismo e da filosofia maçónica, mas também à prática da moral, da igualdade, da solidariedade humana e da justiça, em toda a sua plenitude. O modo natural de agir da maçona, deve ter nos princípios fundamentais da Ordem, os maiores princípios éticos que norteiam a sua conduta diária.

Depois de se realizar interiormente, a maçona deve certificar-se que as suas acções exteriores reflectem o seu projecto interior de Ser, por isso não deve deixar que as ocupações exteriores abafem a sua interioridade, mas antes dela recebam o seu significado e valor. Exemplificamos: Uma “boa acção” não pode servir para obter louvores ou elogios, quanto muito reconhecer-se-á a sua utilidade. A “boa acção” será a que resultar e for expressão exterior dum projecto interior e humano de vida.

Razão e Liberdade são, pois, como acima se referiu, fundamento e condição de toda a acção ética. Se pela razão o Ser Humano transcende a natureza exterior, pela liberdade transcende-se, também, a si próprio; se ao conhecer a natureza aprende a escapar ao determinismo natural, pela liberdade aprende-se, como contínua criação e superação de si próprio, como alguém que se tem a si mesmo, nas suas mãos, permanentemente em construção, como um projecto pelo qual só ele é responsável e cuja realização é constante e permanente. Ser livre é responsabilizar-se e responder por si.

Mais do que algo que se recebe, seja, do estado, da lei ou de qualquer outra instância, a liberdade é um bem que se adquire e se exerce pelo esforço de emancipação, autonomia e sabedoria que colocamos nas nossas acções. A liberdade conquista-se.

Nas escolhas livres o ser humano vai-se destinando, no sentido do seu projecto pessoal e é assim que a liberdade se pode identificar como destino pessoal, isto é com aquilo que cada um vai fazendo de si próprio, decidindo a sua vida, fazendo com que ela penda para um lado ou para outro, encaminhando-a num ou noutro sentido.

A existência é, portanto, um projecto pessoal, do qual somos autoras e é esta certeza que resume o esforço, a determinação, a coragem e dá cor e solidez a um projecto ético de vida.

É através dos projectos éticos de vida dos seus membros que a Maçonaria se pode amplificar, envolver e envolver-se em toda a humanidade.

Um dos grandes valores que perfilhamos é a fraternidade: somos convidadas a amarmo-nos fraternalmente e a nossa resposta, consciente e livre, a esse convite é que nos dignificará e nos fará reconhecer como verdadeiras Maçonas. Neste sentido, a ética na Maçonaria é ágape: amor oblativo, atenuação das paixões, prevalência do olhar objectivo, da serenidade construtiva, da boa vontade.

Em maçonaria, a ética orienta a acção humana para a harmonia, universalidade e perfeição, o que implica a superação das paixões e acções irreflectidas.

As maçonas não prescindem de uma total liberdade de pensamento e acção, ou livre-arbítrio, assumindo a total responsabilidade dos seus actos. Apesar da liberdade de pensamento e acção, existe um acentuado sentido de justiça, ou o respeito pelos direitos dos outros, fazendo a justiça parte da responsabilidade inerente à própria liberdade. A igualdade, o equilíbrio, bom senso, o carácter, progresso, amor, compaixão, harmonia, felicidade, solidariedade, perdão e tolerância, ou aceitação plena do outro, são ainda valores éticos fortemente enraizados em maçonaria.

Tolerar as diferenças mesmo que discordemos delas, caridade ou amor pelo outro, e como último fundamento da ética, a felicidade, ou seja, a aprendizagem só se consegue acompanhada de alegria, o conjunto felicidade e aprendizagem é o único caminho da evolução.

Se a Maçonaria é uma Ordem iniciática e ritualista, progressista e filantrópica, fraterna e universal, cujo objectivo essencial é o aperfeiçoamento moral e espiritual dos seus membros mas também a defesa da moral universal, com vista á edificação de uma sociedade mais livre, mais justa e igualitária, o dever ético de cada uma de nós, deve estender-se e alargar-se ao exterior de modo a alcançar a máxima “trabalhar para e pelo bem e progresso da humanidade”.

É através dos valores éticos e morais, ancorados na nossa própria humanidade e na Ordem que escolhemos e nos escolheu que podemos aspirar a inspirar a humanidade. Não existe, pois, Maçonaria sem ética, nem ética sem acção. Ética é Sabedoria – Ética é Força – Ética é Beleza.

É, portanto, elementar e fundamental que cada maçona assuma um comportamento ético (justo e perfeito) na sua L. e na sua Obediência mas, também na sua vida profana. Agir com ética é Agir a partir do sentido do dever.

….Dizia Aristóteles “Que o bem é aquilo para o qual todas as coisas tendem” De facto, o bem e a felicidade são algo, para o qual devemos orientar a bussola dos nossos actos para que seja essa a tendência da nossa vida em direcção á perfeição, mesmo que nunca se lá chegue…

A ética na maçonaria é uma espécie de reflexo do mundo da interioridade de cada uma. Deve nascer da Luz, do aperfeiçoamento a que somos chamadas por necessidade, embora lhe respondamos livremente, pois saber ser livre é saber que o outro é livre.

A sua ética deixa de ser individual e passa, então, a ser colectiva. Idealmente, a sua ética passará a ser universal, concretizando-se na medida da concretização dos seus objectivos e dos seus ideais. Podemos, assim, afirmar que a ética na maçonaria nasce do somatório das éticas individuais, tornando-se e sentindo-se um coro harmonioso que é determinante na evolução da vivência social da humanidade.

Lisboa, 20 de Setembro de 6015 – Congresso GLFP

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