A grande família maçónica

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Quando dei o meu apoio e entusiasmo à iniciativa da equipe responsável pelas actividades do ano de jubileu da Loja “Ciência e Trabalho”, para que os Mestres Instalados colocassem peças de arquitectura em cada sessão da Loja, eu não supunha que pudesse vir a ser chamado a fazê-lo tão logo.

Aproveito para parabenizar estes Irmãos pela ideia e gostaria de reforçá-la para que, mesmo após esse ano, não apenas os Mestres Instalados, mas todos os Mestres Maçons, em cada sessão, possam abrilhantar os nossos trabalhos e esclarecer-nos com a sua sabedoria, em torno dos temas maçónicos, mantendo assim uma dinâmica constante de pesquisa e produção filosófica. Porque produção filosófica pode existir em todos os graus.

O tema que me propus tratar – como o termo “família” poderia deixar transparecer – poderia parecer, numa primeira abordagem de natureza sentimental, e não deixa de sê-lo, contudo, num escopo bem mais alargado, estendendo o conceito e sentimento de Fraternidade além do nosso tempo e do nosso espaço de todos os dias.

A Fraternidade é sábia, e sem Sabedoria aquilo que seria fraterno ficará retido num quarto fechado de sentimentos aleatórios, ainda que bem intencionados. Acredito que a Maçonaria não é apenas um clube de sentimentos e emoções, um clube de amigos, mas algo bem mais profundo.

Gostaria de começar a tratar o tema “A Grande Família Maçónica” pela citação de um fragmento de um livro muito antigo, que está editado no Brasil há muitos anos:

Eis que mergulho na Matéria Primordial e chego a ser Khepra, deus das Metamorfoses. (…) Em verdade, trago em mim os germes e possibilidades de todos os deuses… Eu sou os Quatro Ontem das Deusas-Serpentes. Trago em mim as Sete Etapas do Amenti. Eu sou Hórus, o do corpo resplandecente, enquanto luta com Seth. Eu sou Thot que separa os dois combatentes e que, nas profundidades do seu santuário, com o assentimento dos deuses de Heliópolis, pronuncia o seu Veredicto (…). Eis que marcho para a plena Luz do Dia e sou coroado deus…

Este trecho foi extraído da obra conhecida por “Livro dos Mortos do Antigo Egipto”, cujo nome original é bastante sugestivo para nós, Maçons: “Saída para (a luz de) o Dia” (Capítulo 83, que tem o título “Para ser transformado em Fénix Real”).

Como se sabe, o Maçom não é apenas considerado um “filho da Luz”, mas ele mergulha nessa sábia e suprema Luz logo quando faz a sua iniciação, quer esteja ciente do facto, ou não.

No REAA, tal como se pratica na Europa continental, costuma falar-se muito nos três pilares ou colunas da Loja, que são a Sabedoria, a Forca e a Beleza, a primeira pertencendo a Salomão ou ao Venerável Mestre, a segunda, à coluna B, situada ao norte sob a égide do 1º Vig. (na realidade, do lado norte do Ocidente, olhando para Oriente…), e a terceira, à coluna J, ao sul, sob a responsabilidade do 2º Vig..

A Força é representada pela coluna de ordem dórica, mais simples; e a Beleza pela de estilo coríntio, mais elaborada, ficando o Venerável com a ordem jónica, a medida do equilíbrio, pois que representa a Câmara do Meio – a equitatividade. Se a Força sustenta e reforça o ânimo, e se a Beleza nos dá a medida certa da Fraternidade e da estética da Alma, é com a aquisição da Sabedoria que completamos esta primorosa tríade e nos tornamos dignos dos Grandes Mestres que nos antecederam.

A Maçonaria não se limita, portanto, a um espaço onde se cultiva apenas amizade, porque essa nós podemos ter também no mundo profano; muito mais do que um clube de amigos, como já referi, a Loja é um espaço onde se cultiva a Sabedoria, a Fraternidade esclarecida, onde se gera uma Força em comum partilhando ideias e experiências, onde criamos uma relação inteligível com a essência da Maçonaria e onde aprendemos com as perspectivas dos nossos Irmãos.

Eu considero que um Maçom não é Maçom enquanto não conhece os contornos da sua Ordem, das suas origens e as escolas filosóficas a ela aparentadas, algumas das quais lhe forneceram as suas próprias bases simbólicas e iniciáticas. A Maçonaria não é nem nunca foi uma ilha isolada – ela tem uma família, tem ascendentes e terá, talvez daqui a vários séculos, os seus descendentes.

A discussão sobre as origens da Maçonaria é já longa nos últimos séculos e existem opiniões completamente contraditórias sobre as mesmas, dentro e fora da Ordem. Assim também acontece sobre a conceituação da maior ou menor vizinhança da Ordem Maçónica em relação às grandes escolas filosóficas antigas e às inúmeras fraternidades iniciáticas que a História oficial conhece; quanto mais aquelas que não se encontram registradas em documentos – ou neles são citadas vagamente ou sob o manto de um véu lendário -, mas cujos conhecimentos, identidades e conteúdos foram e continuam sendo transmitidos de mestre a discípulo, desde tempos imemoriais.

Creio que a posição mais correcta a este respeito é aquela a que se poderia chamar de sábia, equitativa, equilibrada: não ser demasiado radical em nada, não recusar nada categoricamente, ou seja, admitir tudo com um grau adequado de prudência, fugir das posições extremas e pesquisar sempre, buscando a Verdade.

As posições mais extremas que conheço sobre a Família Maçónica dentro da própria Maçonaria são as que negam tudo, por um lado, e as que aceitam tudo, por outro. As primeiras negam até o que seria lógico admitir pela prática da dedução inteligente, enriquecida com urna cultura razoável. As que aceitam tudo, aceitam até que a Maçonaria foi trazida à humanidade por extraterrestres. E o polo oposto. Estas duas são as posições ditas radicais e, como tal, o que vem delas é dificilmente admissível como digno de crédito. Existem, depois, as posições meio radicais, que, apesar de sustentadas por documentos, esquecem outros documentos.

Um caso típico, apesar de bastante conceituado na Maçonaria anglo-saxónica, é o de Albert Mackey: os seus 25 landmarks terminam com um último que não permite alterar os anteriores… algo como expressão da infalibilidade papal que, como se sabe, não existe na Maçonaria, por nesta não existir nem dogmas nem papa. A Enciclopédia Maçónica de Mackey perpassa a maior parte das associações e fraternidades filosóficas da antiguidade, negando que tenham qualquer relação estreita ou mesmo afastada com a Maçonaria. Nada tem a ver com nada, tudo é confusão, engano, superstição…

Deste modo, na obra de Mackey a nossa Ordem aparece como algo que surgiu quase por milagre, por geração quase espontânea, posição esta que favorece a Maçonaria anglo-saxónica pós 1717 – que prefere esquecer tudo o que existia antes dela -, naturalmente em detrimento da Maçonaria continental europeia, sobretudo representada pela Maçonaria Francesa, ela própria portadora de raízes bem mais antigas, ou pelo menos não tão preocupadas com a hegemonia…

Bem entendido, o estilo gótico, que lançou as grandes catedrais, começou em França, perto de Paris; o estilo românico (não confundir com romano) também já se tinha disseminado pela Europa ocidental muito antes de, timidamente, surgir nas Ilhas Britânicas. Ora, numa perspectiva hegemónica, trata-se sempre de omitir as raízes e de cercear os laços colaterais, ou seja, dividir para reinar… mesmo que a Verdade fique esquecida…

Agora, algo muito curioso a respeito das origens da Maçonaria são as próprias Constituições de Anderson, nascidas a partir da criação da Grande Loja de Londres, em 1717. E é pena que os autores maçónicos mais radicais não meditem mais sobre essa fonte que, além de indiscutivelmente histórica, nos passa um simbolismo – algo com um fundo de permanência, ou uma “fumaça”, sempre que existe fogo em qualquer lugar. Poderá dizer-se que são lendas, mas os nossos Rituais são assim mesmo, alicerçados em símbolos, lendas e mitos, sabendo-se que todo o símbolo da tradição iniciática universal contém uma relação com uma verdade maior, que pela sua transcendência ou porte não pode ser explicada devidamente com palavras humanas; daí, justamente, o símbolo, a lenda, o mito, que não sendo a verdade, constituem portas para investigar, buscar a chave, abrir e caminhar para ela. Então, os mitos e lendas são próprios do simbolismo, que convida sempre o Obreiro a pesquisar mais fundo para chegar à verdade escondida. E este o percurso da Maçonaria nos três primeiros graus, por isso se diz que ela é simbólica.

Convido agora os Queridos Irmãos para fazer um breve itinerário pela história da Maçonaria tal como existe nesse documento de 1723 – a primeira Constituição Maçónica -, que alegadamente coligiu outras fontes e tradições mais antigas e que, também alegadamente, as fez desaparecer.

O nosso texto histórico começa por referir Deus como o GADU e Adão como possuidor das sete artes liberais. Adão teria ensinado a Geometria e as Leis da Proporção aos seus filhos. Ele refere Caim e Enoch como detentores da Arte da Construção, depois Seth, que cultivou a Astronomia, a Arquitectura e a própria Maçonaria e passou esse saber aos seus filhos. Daí, passa a Noé e aos seus filhos Jafet, Sem e Cam, “todos verdadeiros maçons”, inclusive porque, para construir uma gigantesca Arca, teriam que ter conhecimentos de arquitectura. Ainda segundo o texto, esta Ciência teria passado para a Assíria, onde foi cultivada e praticada nas maiores cidades. Nas margens do Tigre e do Eufrates, Anderson fala que houve muitos “sábios sacerdotes e matemáticos”, os Mestres Caldeus e os Magos, que sabemos ter sido uma Ordem Iniciática com conhecimentos extensos de astronomia, química, medicina, etc., etc., talvez originada mesmo na Pérsia, actual Irão. E justamente aqui que Anderson introduz o termo “Arte Real”. Segundo ele, “a Arte” passou para o Egipto por Misraim, filho de Cam. Curioso que Misraim, ou Mizraim, era um nome que os próprios egípcios atribuíam ao seu país. A sucessão – sempre segundo as Constituições – continua por Abraão, que teria aprendido a Arte em Ur, na Caldeia, e que por sua vez a transmitiu aos seus filhos. O texto é muito detalhado, abarca várias páginas; estamos apenas aqui resumindo, porque seria uma leitura demorada.

Moisés vem colocado como “Mestre Maçom Geral” e, mais à frente, explicitamente como Grão-Mestre, que por sua vez instruiu os judeus na Arte, que já tinha sido considerada como Ciência. Segundo o texto, “quando deixaram o Egipto, os Israelitas formaram um Reino de Maçons”. Daí, a narrativa passa para Salomão e Hiram, que dispensam mais comentários, episódio que vem a ser a origem do mito maçónico moderno, sendo que o texto atribui a Salomão o título de “Grão-Mestre da Loja de Jerusalém”.

Após a construção do Templo de Jerusalém, segundo refere Anderson, os Artistas Construtores – este o termo aplicado – ensinaram a Arte Real por todo o Médio Oriente, e ainda em África, Ásia Menor, Grécia e outras partes da Europa e até mesmo na índia. Na Grécia, entre outros, o texto refere Pitágoras, discípulo de Tales de Mileto, como grande geómetra e autor da 47ª Proposição do primeiro Livro de Euclides, “Que é a base da toda a Maçonaria, sagrada, civil e militar”.

Já nos tempos helenísticos, com base na célebre Alexandria, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egipto, é referido como Mestre Maçom Geral. Daí, com um pé na Sicília, no Egipto e na Ásia, o texto refere que a “Ciência e a Arte” passou para os Romanos; sempre segundo o texto, Roma tornou-se o “Centro da Ciência” e sob César Augusto atingiu o zénite, justamente quando nascia o Messias, que é apelidado por Anderson de “O Grande Arquitecto da Igreja”. Inclusive, porque no texto grego dos Evangelhos a profissão de José e de Jesus aparece como “architecton”, que na época significava aquele que sabia operar e construir com madeira e outros materiais, um misto de arquitecto, engenheiro e artífice e não apenas carpinteiro, como nos dão as interpretações comuns.

De resto, as Constituições falam ainda que “os velhos arquivos dos Maçons comportam amplas informações sobre as suas Lojas, desde o Começo do Mundo”. E ainda que “os Pintores, assim como os Escultores, foram sempre considerados bons Maçons, como o foram os Construtores, os Talhadores de Pedra, os Pedreiros, os Carpinteiros, os Marceneiros (…) e um grande número de outros Artesãos (…) e que trabalhavam segundo a Geometria e as Regras da Construção”.

Como se vê, Anderson dá desde logo uma interpretação bem ampla a toda Maçonaria, com base, repetimos, em “os velhos arquivos dos Maçons (que) comportam amplas informações sobre as suas Lojas, desde o Começo do Mundo”.

Podemos perguntar: onde estão estes arquivos? Não que eles não existam, mas eles talvez sejam mais perturbadores do que se possa pensar, razão pela qual Anderson explicou que foram eliminados: falarão eles nos detalhes da Grande Família Maçónica?… O que não pode ser dito e escrito nas Constituições, mas que corre em segredo, de boca a ouvido?

Anderson ainda refere que no declínio do Império Romano os Anglos, os Saxões, os Bretões, mais tarde tornando-se um povo livre em Inglaterra, construíram Lojas e imitaram os Asiáticos, os Gregos e os Romanos. Daí para a frente, temos um conhecimento historicamente comprovado.

O que é importante reter de tudo isso – e eu falei de muito pouco – é que a Maçonaria, logo desde um dos seus textos mais importantes, é colocada de uma forma ampla e alargadamente familiar, interactiva até com os principais povos e civilizações da Antiguidade, os seus artistas e as suas Ordens e Fraternidades Iniciáticas, como as da Grécia, Egipto, Pérsia e Mesopotâmia. E tanto é assim que, ao observarmos e estudarmos as catedrais góticas, consideradas como o paradigma por excelência da Maçonaria operativa, encontramos nelas, tanto nas plantas de construção nos seus vários andares e departamentos, como na decoração escultórica e nos altos e baixos relevos, a assinatura indelével do Hermetismo e do simbolismo Alquímico, entre outros aspectos das correntes esotéricas e iniciáticas tradicionais, que entraram na Europa da Alta Idade Média por via oriental.

Por exemplo, se os positivistas e eternos cépticos – alguns deles nossos Irmãos – continuam afirmando, quase todos pela mesma cartilha, que a Ordem do Templo nada tem a ver com Maçonaria, bastaria apenas referir que é facto histórico suficientemente difundido que, dentro dessa ainda hoje misteriosa e apelativa Ordem, existiam suficientes corporações e lojas de Construtores em pedra e madeira, com os seus Mestres, entalhadores, pedreiros, fundidores de metais, etc. etc., como o atestam as centenas de capelas e igrejas templárias por toda a Europa, portadoras de um simbolismo idêntico ao das catedrais góticas, embora com marcas próprias, distintivas da sua função e dos desdobramentos próprios de toda a peça de arte, que nunca repete exactamente outra anterior.

Além disso, os Mestres Construtores, fossem ou não cavaleiros da Ordem do Templo, tinham uma única tradição (a dos Pedreiros Livres), passada de mestre a discípulo: os Mestres dos canteiros (e por isso os seus Veneráveis, pois que uma Loja só podia ter um único Mestre), formavam eles próprios uma fraternidade, com os seus segredos, os seus sinais e palavras de passe, dos quais hoje se conhece muito pouco, salvo o que veio pela tradição dos vários Ritos. E mais ainda: os Templários possuíam a sua própria “Maçonaria do Mar”, arquitectando e trabalhando a madeira para a construção da sua imensa frota.

Ora, sabemos que o Hermetismo surgiu no Egipto, com influência até a Etiópia, Síria, Fenícia, donde passou para Grécia, Roma e a Europa medieval, juntamente com as correntes gnósticas, pitagóricas e neoplatónicas que tinham Alexandria, no Egipto, como o seu grande centro nos três primeiros séculos da nossa Era.

Isto é muito interessante, porque na Maçonaria existem duas grandes correntes desde a Idade Média: a operativa propriamente dita e a cavalheiresca, mais mística e filosófica, relacionada de perto com a vertente rosa-cruciana – e com a própria cavalaria mística árabe-islâmica -, que não construía, mas, essencialmente formada por nobres, supervisionava, organizava e patrocinava construções de capelas, igrejas e catedrais.

Ora, por exemplo, não esqueçamos que todos os Cavaleiros Templários tinham que ser nobres e, por esse motivo, não podiam ter um “mister”, ou seja, uma profissão. Muitos destes cavaleiros, inseridos ou não em Cruzadas, foram ao Médio Oriente nem sempre combater os infiéis, mas… aprender com eles e com os que lá existiam, dominados politicamente pelo Islã. O que para o povo eram infiéis, para os cavaleiros-monges-iniciados ou querendo ser iniciados, a Síria, Egipto, a Terra Santa em geral era um manancial de sabedoria, conhecimento e iniciação, inclusive de busca das fontes do próprio Cristianismo, que estavam com os descendentes dos discípulos de João Batista, de João Evangelista e de Tomé, com os Cristãos Coptas, etc., etc.

O grande autor rosa-cruz Max Heindel toca no assunto destas duas “linhas” no seu livro “A Maçonaria e o Catolicismo”, como a referência aos “Filhos do Fogo” e os “Filhos da Agua” e outros aspectos interessantes. Assim como, por seu lado, a sábia princesa russa Helena Blavatsky – cujos detractores não conseguem apagar a profundidade, a espiritualidade e a erudição da sua vasta obra literária -, no seu estudo “Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria”, mostra, com documentos apropriados, que os cerimoniais cristão e maçónico provêm directamente de uma única fonte: os Mistérios Antigos, ou seja, os mesmos centros e fraternidades iniciáticas onde aprenderam Pitágoras, Platão, Plotino, Jâmblico, Apolónio de Tíana, os próprios fundadores da Ordem do Templo e muitos outros, como Templários e Hospitalários, que curiosamente tinham como patronos os dois “São João” – o Baptista e o Evangelista. Isto não se dá por acaso, mas uma ronda em torno do simbolismo desses dois luminares da Igreja contém muitos elementos úteis para o nosso entendimento, ou seja, para entender por que eles eram tão importantes para os Templários, os Cavaleiros de Malta e o são ainda para a Maçonaria.

Mais ainda, a Estrita Obediência Templária na Alemanha, rito maçónico regularíssimo no século XVIII, que mais tarde se autonomizou em França como Regime Escocês Rectificado, a Maçonaria Escocesa primitiva, a Ordem de Cristo em Portugal (que era a Ordem Templária reformada sob a guarda dos Reis de Portugal), a Ordem de Malta ou Hospitalários de São João de Jerusalém, e outras menos conhecidas guardaram esse misticismo filosófico e hermético em plena harmonia com a filosofia cristã (sobretudo na sua vertente esotérica). Muitos deles eram discípulos filosóficos e até operativos dos antigos Templários Construtores; por isso, alguns de seus símbolos e rituais, mais ou menos conhecidos, são um compromisso entre essa tradição de operacionalidade maçónica nos três primeiros graus e a outra tradição mística, hermética, filosófica e rosa-cruciana, portanto, nos graus superiores.

Buscando outro exemplo paradigmático de alguém que reuniu em si mesmo vários sistemas de conhecimento e iniciação – que não estão em conflito, pelo contrário, se potenciam ou se entreajudam para ajudar o ser humano na sua busca de luz espiritual – chegamos ao século XVIII com uma misteriosa figura, que uns consideram Rosa-cruz, outros Maçons, outras, ainda, Alquimista e Hermetista, que foi o Conde de Saint-Germain, uma espécie de “vade-mecum” do Esoterismo, da Arte e da Ciência – pois que o encontramos em vários meios intelectuais, sociais e iniciáticos – reconhecido por figuras notáveis da época, desde Claude de Saint-Martin, Martinès de Pasqually, Frederico II da Prússia que privou com ele e era Grão-Mestre da Maçonaria Alemã de ascendência templária, etc. etc.

Assim é que o conceituado e erudito autor francês Paul Naudon, no seu livro “A Franco-Maçonaria”, é particularmente claro nos capítulos I e II da segunda parte, sobre a amplitude das origens e  âmbito da doutrina, simbolismo e ritualística maçónicas, colocando-os desde logo na grande corrente do hermetismo e diz:

A sua história está intimamente ligada à da filosofia até às grandes sínteses do período neo-alexandrino, nos primeiros séculos da nossa era, que marcam a expansão da tradição com os gnósticos, os neoplatónicos, os mitríacos e os órficos.

Não sem antes referir, o que é importante:

O mais antigo e mais incontestável fundamento do simbolismo maçónico é o esoterismo cristão, dito ordinariamente Joanita por se encontrar expresso sobretudo no ensinamento de S. João: Evangelhos, Epístolas e Apocalipse [em nota: como se sabe, este esoterismo é negado pela Igreja Católica]. As lojas dos três primeiros graus (lojas simbólicas) são chamadas de Lojas de São João. A invocação de S. João Batista e de S. João Evangelista remonta à maçonaria operativa e a importância de tal patrocínio é confirmada pela Franco-maçonaria especulativa desde o seu nascimento.
.
(…) Alguém observou que os textos atribuídos a S. João constituem o produto de uma longa evolução e marcam o desabrochamento num sistema ordenado de contributos gregos, egípcios, judaicos e orientais. Exprimem, numa das mais perfeitas formulações, a resposta imutável à eterna dúvida metafísica do homem. Como sublinhou J. de Maistre, que foi um dos melhores teóricos da Franco-maçonaria, o esoterismo dos escritos de S. João, que evoca o cristianismo transcendente, faz compreender da melhor forma, levando-o à completa maturidade, o fundo comum e tradicional de todas as religiões. (Du Pape, conclusão).

Meus Irmãos, tudo isto – e é muito pouco, ou seja, eu apenas levantei uma pequena ponta do véu – para mostrar que existe realmente uma Grande Família Maçónica, que é formada por uma parte importante da história da civilização e das suas escolas de pensamento e filosofia, com seus ascendentes, descendentes e ramos laterais e colaterais que, tanto o fanatismo religioso como o científico positivista não conseguiram apagar, porque todas essas Ordens, Centros, Fraternidades, etc., inclusive a nossa, sempre possuíram – e eu gostaria de ousar afirmar que possuem ainda – outras, mais secretas e profundas, escondidas por detrás delas, o que deu origem no século XVIII ao mito dos “Superiores Incógnitos” ou “Superiores Desconhecidos”.

Mito ou não, como vários autores maçónicos pensam que é – eu afirmo com convicção que não é um mito -, dou como exemplo o próprio Fernando Pessoa, que nunca se assumiu como Maçom mas que se revelou nos seus textos como defensor acérrimo da Maçonaria, como Teósofo e também como Rosa-cruz, não sendo alegadamente nada disso, mas cujos textos sobre esta e outras Ordens mostram um conhecimento vasto e profundo sobre elas, tanto em termos históricos e filosóficos, como nos aspectos e factos seus contemporâneos.

A consideração da Maçonaria em sentido amplo na filosofia, no tempo e no espaço – portanto, não restrito a uma ilha conceituai e suspensa no tempo, muito menos circunscrita à hegemonia da cultura anglo-saxónica – e a pesquisa dos seus pontos em comum com a grande corrente da Tradição Iniciática universal do Oriente e do Ocidente, não implicam, de jeito algum, uma perda de identidade; pelo contrário, implicam um ganho na conscientização da sua verdadeira identidade, que bebe nas mais remotas fontes de sabedoria da antiguidade e de todos os tempos até hoje.

Nos tempos de hoje, em que a facilitação operada pelas tecnologias das comunicações instantâneas e dos meios de informação automatizados permitem que os homens, culturas e tradições de todo o mundo dialoguem e se conheçam melhor uns aos outros, a Maçonaria, desde que ela não se feche em conceituações redutoras de si mesma – que suspeito servirem interesses tudo menos maçónicos -, vem reforçar essa universalidade de uma Tradição única, embora multifacetada, que não nega a validade nem de mitos, religiões, nem das ciências, nem das artes, mas considera-as todas como caminhos diversos e enriquecedores para o aperfeiçoamento humano, pertencentes a sua mesma família.

Esta “Maçonaria Plena” está situada além de todas as diferenças e diversidades, afirmando-se no plano humano, social e intelectual como uma plataforma de tolerância, de diálogo, investigação e pesquisa daquilo que é comum a toda a humanidade – o Deus Vivo de todas as tradições, qualquer que seja o Seu nome, mas certamente protector da Sabedoria, da Força e da Beleza que continuam sendo os nossos pilares.

Entendo que todos nós temos curiosidade, e é do nosso interesse conhecer a nossa própria família. Isto é válido para a família de sangue, mas também para a nossa família espiritual e filosófica, aquela onde radicamos as nossas ideias e convicções mais profundas, as nossas esperanças e onde vamos buscar a inspiração e a energia para servir a uma causa nobre. Interessa-nos, por exemplo, para entender que o velho conflito aparente entre Igreja e Maçonaria advém de irmãos católicos e maçons que não entendem… nem da Igreja nem da Maçonaria… por isso alimentaram durante séculos lutas fratricidas, intolerância religiosa e tudo o mais, que constitui – assim o esperamos – negras e deprimentes cinzas à luz de um pensamento mais fraterno e esclarecido. Interessa-nos tudo isso para não repetirmos, hoje, os erros do passado, derivados dessa ignorância.

Interessa-nos tudo isso, finalmente, para saber o que nós próprios somos, base certa para saber o que deveremos ser, o que poderemos fazer ainda e como poderemos fazê-lo, tanto colectiva como individualmente, a bem da Humanidade.

Alberto Vieira da Silva – ARBLS “Ciência e Trabalho” n° 30 – Grande Oriente de Santa Catarina (GOSC)

Fonte

  • Peça de Arquitectura lida em Loja no dia 14 de Abril de 2004

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