A idade do Espírito Santo

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A idade do Espírito Santo - aguarela do autor (Brotero)
A idade do Espírito Santo – aguarela do autor (Brotero)

Viver em função do futuro significa ficar dependente de Metas que se estabelecem no presente. Entendamos a “A Meta das Metas” como o “fim último”, designado em Grego por “eschatón” como o modelo de todas as revelações.

Traçar um horizonte será pois alicerçar a ideia da Grande Meta do Fim dos Tempos.

O “Código Escatológico” pode ser interiorizado como medida de todas coisas, um futuro anunciado no presente como forma de salvação. Os cinco livros do Antigo Testamento (Pentateuco) contêm o processo comunicacional, baseado em diálogo triádico, como uma promessa de Deus ao Homem, através dos Profetas. Citemos a propósito Isaías (11,6):

“Então o lobo habitará com o cordeiro, o leopardo deitar-se-á junto ao cabrito, o vitelo e o leão pastarão juntos e até uma criança pequena os conduzirá”.

No século XII surge uma doutrina apocalíptica, do cisterciense Joaquim de Flora, monge da abadia de Santa Maria di Corazzo, na Calábria, nascido em 1135, é ele o autor no campo do cristianismo de uma doutrina do “Fim dos Tempos”, conhecida como ”A Doutrina das Três Idades”:

  1. Idade do Pai, começada com Adão, aquela que corresponde ao Antigo Testamento, com sede em Jerusalém;
  2. Idade do Filho, começada por Jesus Cristo, a que corresponde o Novo Testamento, com sede em Roma;
  3. Idade do Espírito Santo, a que corresponde o “Evangelho Eterno”, onde a inteligência permitirá aceder à Felicidade e à Terra Prometida, com sede na Vila de Meca (Centro Mítico), perto de Alenquer, onde se fará a união das três religiões.

O seu “Evangelho Eterno” de 1254, começou desde cedo a ser interpretado como o suporte de uma religião, apostando na reformulação do cristianismo tal como era conhecido.

Joaquim de Flora preocupou-se com a retoma da pureza evangélica e os preceitos do cristianismo primitivo, veio depois a fundar a sua própria ordem (Ordem de Fiore). O corpo doutrinal da Ordem, refletia as novas realidades do seu tempo e proponha um tempo perfeito de paz e amor.

Ideias que perduraram até ao século XVIII e estão na base de doutrinas reformistas e até revolucionárias.

Joaquim de Flora é um defensor do milenarismo e do advento do culto do Espírito Santo, entendido como promessa de uma Nova Idade ou Império Espiritual pela exegese do Evangelho e Apocalipse de João. Nestes tempo e na área de Provença, segundo Pierre Duparc: “abundavam as confrarias do Santo-Espírito”, que estarão na origem do Culto do Espírito Santo em Portugal.

Segundo Manuel da Silva Guimarães:

O culto do Espírito Santo, embora se identifique no cristianismo com a terceira pessoa da Santíssima Trindade, tem papel importante ao longo dos séculos nas regiões de povos bem diversos e distantes”.

O culto do Espírito Santo é entendido como promessa de um novo Império Espiritual.

O Espírito Santo aparece representado por sinais míticos, como a pomba, as línguas de fogo do Pentecostes ou a Mão de Deus emitindo raios de fogo, o maior significado popular encontramos no Anjo Gabriel e no Arcanjo Rafael, citados no episódio de Tobias.

Jaime Cortesão ousou designar os Painéis de S. Vicente como testemunho da “Investidura da Nação no Espírito Santo” ou representando o culto lusitano do “Divino Espírito Santo”, a figura central do “Santo” que se mostra ajoelhado ao rei, corresponde à passagem do Evangelho de S. João na missa votiva do Espírito Santo.

Todo o imenso projeto henriquino de navegação e demanda do “reino do Preste João” é a prevalência espiritual da ideia do advento iminente da Idade do Espírito Santo e mais tarde do Quinto Império do Padre António Vieira e Fernando Pessoa.

Terá sido a Rainha Santa Isabel (1269-1336), a principal intermediária na introdução do culto do Espírito Santo na Vila de Alenquer e sede do primeiro Convento Franciscano e inserido no âmbito da “Geografia Sagrada”.

Arnaldo de Vilanova, joaquimista, foi médico e conselheiro político da rainha. O fervor popular do culto começado em Alenquer, chamada a “vila-presépio”, pelas semelhanças com Jerusalém, era assim analisada no Almanaque Enciclopédico de 1897, sob a égide de Eça de Queiroz:

Festa do Espírito Santo, outrora a mais popular e ruidosa de Portugal, está hoje decaída, e nos pontos em que ainda se celebra é sem os antigos e pitorescos cerimoniais”.

Mas é no arquipélago dos Açores que ainda hoje, se mantém grande parte do ritual do Culto do Divino Espírito Santo, criado no século XIV.

O Culto do Divino Espírito Santo é pois anterior ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e realiza-se em tempo de “Pentecostes”, com um bodo aos pobres em casa própria, chamados “Impérios”.

Apesar do povoamento dos Açores ter início a partir de 1432 (duzentos anos após o apogeu do Joaquimismo e posterior condenação por heresia, pelo Papa Alexandre IV em 1256), as comunidades de origem açoriana constituem hoje o último reduto, em resultado da ação menos eficaz dos inquisidores daquele tempo.

O culto do Espírito Santo envereda por um “ritual” que relembra a doutrina de Joaquim de Flora, subdividida em três Idades; Pai, Filho e do Espírito Santo, com a Coroação dos meninos.

Haverá lugar a uma tripla coroação; uma coroa imperial e duas coroas reais, a coroação pré-cristã do “reis da festa” deu lugar à Festa dos Reis (ou Epifania). Beijar a coroa pelos devotos, corresponde à adoração ao Divino Espírito Santo.

No continente, em Tomar a Festa do Império do Divino Espírito Santo, assume-se na “Festa dos Tabuleiros” e tem expressão particular no especial Bodo do Pão aos pobres que fora recebido em paga das promessas ao Divino Espírito Santo.

No início do século XIX os pães tinham um desenvolvimento em espiral, como que a simular o “eixo do mundo”, em altura o Tabuleiro corresponderá à altura do penitente.

Em conclusão: Que melhores testemunhos poderemos encontrar nos fulgores de fé dos Portugueses sobre o Reino de Deus na Terra que o Convento dos Jerónimos no século de D. Manuel I e o Convento de Mafra no século de D. João V.

António Dinis Flores, M:. M:.R∴ L∴  Conde de Paraty, nº 155 (GLLP / GLRP)

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