A iniciação de Jean Jacques Rousseau, descrita por Alexandre Dumas

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Jean Jacques Rousseau (1712-1778)

Extracto da obra de Alexandre Dumas, intitulada “Memórias de um Médico”. Memórias de um Médico (em francês: “Mémoires d’un Médecin”) é uma série de quatro romances históricos escritos por Alexandre Dumas entre 1846 e 1853. A colecção aborda a sequência de acontecimentos que dão origem, deflagram e agitam a Revolução Francesa, desde a chegada de Maria Antonieta a França para o seu casamento com o delfim Luís, mais tarde rei Luís XVI até à morte deste, em 1793, na guilhotina. Foi escrita em colaboração com Auguste Maquet e apareceu sob a forma de folhetim no jornal La Presse. Os livros que compõem a série são:

  • Joseph Bálsamo
  • O Colar da Rainha
  • Ange Pitou
  • A Condessa de Charny

Jean Jacques Rousseau, também conhecido como J. J. Rousseau ou simplesmente Rousseau (1712 – 1778), foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidacta. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo.

A sua filosofia política influenciou de facto o Iluminismo por toda a Europa, assim como também aspectos da Revolução Francesa e o desenvolvimento moderno da economia, da política e do pensamento educacional.

Para ele, as instituições educativas tradicionais corrompem o homem e tiram-lhe a liberdade. Para a criação de um novo homem e de uma nova sociedade, seria preciso educar a criança de acordo com a Natureza, desenvolvendo progressivamente os seus sentidos e a razão com vistas à liberdade e à capacidade de julgar.

Há quem atribua a Jean Jacques Rousseau a autoria da expressão “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egalité, Fraternité).

Não há evidências de que Rousseau tenha sido a Maçom; contudo, dois pontos – a influência maçónica evidente no seu trabalho e o seu impacto filosófico na Ordem – permanecem inegáveis. A sua crença no livre arbítrio individual, dentro de um grupo unificado, reflecte o carácter da Maçonaria.

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(…)

XIV – A Sessão Real

Verificou-se aquela famosa sessão real, com todo o cerimonial que tinham exigido, por uma parte o orgulho real, pela outra as intrigas que levavam o senhor àquele golpe de Estado.

A casa do rei foi posta em armas; uma profusão de archeiros de saios curtos, soldados e agentes da polícia foram destinados para proteger o senhor chanceler, que, semelhante a um general em dia de batalha, devia expor a sua pessoa para o bom êxito da empresa.

O senhor chanceler era muito odiado; ele sabia-o, e se a sua vaidade lhe pudesse fazer recear um assassínio, as pessoas melhor instruídas dos sentimentos do público a seu respeito podiam sem exagerar profetizar-lhe ou uma boa afronta, ou pelo menos uma assuada.

Os mesmos favores podiam ser assegurados ao senhor de Aiguillon, que repelia ocultamente o instinto popular, um pouco aperfeiçoado pelos debates dos parlamentos. El-rei afectava serenidade, e todavia não estava tranquilo. Mas viram-no admirar o seu magnífico trajo real, e fazer imediatamente a reflexão que coisa nenhuma protege como a majestade.

Poderiam ter acrescentado: “E o amor dos povos”. Mas era esta uma frase que lhe tinham repetido tanto em Metz, quando esteve doente, que não julgou poder dizê-la, sem ser arguido de plagiário.

De manhã, a senhora delfina para quem era novo este espectáculo, e que, talvez no íntimo, desejava vê-lo, tomou o seu ar tímido, e conservou-o durante todo o caminho para a cerimónia, o que dispôs a opinião pública muito a seu favor.

A senhora du Barry era valente. Tinha a confiança que dão a mocidade e a formosura. Demais, não se havia dito tudo a seu respeito? O que haveria que acrescentar? Apareceu radiosa, como se o augusto esplendor do seu amante reflectisse nela.

O senhor de Aiguillon caminhava desembaraçadamente entre o número dos pares que precediam el-rei. O seu rosto cheio de nobreza não acusava vestígio algum de cuidados nem de descontentamento. Não mostrava ares de triunfador. Ao vê-lo assim, ninguém teria adivinhado a batalha renhida que o rei e os parlamentos tinham travado por seu respeito.

Entre a multidão apontavam para ele; os membros do parlamento lançaram-lhe uns olhares terríveis… E nada mais.

A sala grande do palácio comportava para mais de três mil pessoas.

Da parte de fora, a chusma, contida pelas varas dos alcaides e as maças dos archeiros, apenas dava sinal da sua presença por esse intraduzível sussurro que não é uma voz, que não articula palavras, mas que se faz ouvir, entretanto, e que se poderia chamar com bastante propriedade o rumor dos fluidos populares.

Continuou o mesmo silêncio na sala grande quando o ruído dos passos cessou, quando cada um tomou o seu lugar, e que el-rei, majestoso e triste, ordenou ao chanceler que tomasse a palavra.

Os membros do parlamento já de antemão sabiam o que lhes estava reservado na sessão real. Compreendiam perfeitamente o motivo porque os tinham convocado. Deveria ser para lhes fazer ouvir vontades pouco suaves; mas conheciam a longanimidade, para não dizer a timidez de el-rei, e se tinham medo, era antes pelas consequências da sessão real, do que pela sessão em si mesma.

O chanceler tomou a palavra. Era bom orador. O seu exórdio foi hábil, e os amadores de estilo demonstrativo acharam nele um campo vasto.

Todavia, o discurso degenerou numa repreensão tão áspera, que o sorriso assomou aos lábios da nobreza e os membros do parlamento começaram a não se achar bem à vontade.

El-rei ordenava, pela boca do chanceler, que se acabasse por uma vez com todos os negócios da Bretanha, de que estava já farto. Ordenava ao parlamento que se reconciliasse com o Sr. Duque de Aiguillon, cujo serviço lhe agradava; que não tornasse a interromper o serviço da justiça, e que deste modo tudo se passaria como no feliz tempo da idade de ouro, em que os ribeiros corriam murmurando discursos em cinco pontos, do género deliberativo ou judiciário, em que as árvores estavam carregadas de autos e de demandas a que podiam chegar os senhores advogados e procuradores, que tinham direito de os apanhar como frutas que lhes pertenciam.

Estas iguarias não concertaram o parlamento com o senhor de Maupeou, nem com o senhor de Aiguillon. Mas o discurso estava feito, e não tinha resposta possível.

Os parlamentários, no cúmulo do despeito, tomaram todos, com esse admirável espírito de corporação que tanta força dá aos corpos constituídos, uma atitude tranquila e indiferente, que desagradou soberanamente a Sua Majestade e às pessoas aristocráticas das tribunas.

A senhora delfina empalideceu de raiva. Era a primeira vez que se achava em frente da resistência popular. Calculava-lhe friamente o poder.

Tinha vindo à sessão real com tenção de estar muito oposta, no aspecto pelo menos, à resolução que se ia tomar ou notificar, e a pouco e pouco sentiu-se arrastada para fazer causa comum com os da sua raça e casta; e tanto assim que, quanto mais o chanceler mordia na carne dos membros do parlamento, mais aquela jovem soberba se indignava de lhe ver dentes tão pouco agudos; parecia-lhe que teria achado palavras que fizessem saltar aquela assembleia como uma manada de bois com o aguilhão. Enfim, achou o chanceler muito fraco e os membros do parlamento bastante fortes.

Luís XV era fisionomista como o seriam todos os egoístas se, algumas vezes, não fossem preguiçosos ao mesmo tempo que egoístas. Relanceou os olhos em torno de si para observar o efeito da sua vontade traduzida por palavras que achava bastante eloquentes.

A palidez e os lábios cerrados da delfina revelaram-lhe logo o que naquela alma se passava.

Como contrapeso, observou a fisionomia da senhora du Barry, e em lugar do sorriso de triunfo que contava achar, só viu uma grande vontade que ela tinha de atrair sobre si os olhares de el-rei, como para julgar o que ele pensava.

Nada intimida os espíritos fracos como ser prevenidos pelo espírito e vontade de outrem. Se se vêm observados por uma resolução já tomada, concluem que não fizeram bastante, que vão ser ou que foram ridículos, que tinham direito de exigir mais do que fizeram.

Então passam para os extremos, o tímido torna-se furioso, e uma súbita manifestação denuncia o efeito dessa reacção produzida pelo medo sobre um medo menos forte.

El-rei não precisava acrescentar uma única palavra às do chanceler; não era isso da etiqueta, nem mesmo era necessário; mas, naquela ocasião, tentou-o o demónio tagarela, e, fazendo um sinal com a mão, deu a entender que ia falar.

A atenção tornou-se então mais profunda.

Os membros do parlamento voltaram-se para o lado do trono com tanta uniformidade como se fosse uma fileira de soldados muito bem instruídos.

Os príncipes, os pares e militares sentiram-se comovidos. Não era possível que, depois de tanta coisa boa que se tinha dito, Sua Majestade Cristianíssima deixasse de dizer alguma grande sensaboria. O respeito vedava-lhes designarem por outra forma o que pudesse sair da boca de el-rei.

Foi visto o senhor de Richelieu, que tinha afectado estar separado de seu sobrinho, aproximar-se naquele momento dos membros de mais forte oposição, aproximar-se deles principalmente pelo golpe de vista e afinidade misteriosa da inteligência.

Mas o seu olhar, que começava a tornar-se rebelde, encontrou o olhar claro da senhora du Barry. Richelieu possuía melhor do que ninguém a preciosa arte das transições; passou do tom irónico para o tom admirativo, e escolheu a formosa condessa como ponto de intersecção entre as diagonais desses dois extremos.

Foi portanto um sorriso de felicitações e galanteio que dirigiu de passagem à senhora du Barry; mas esta não se deixou lograr, tanto mais que o velho marechal, que começara a encetar a sua correspondência com os parlamentários e os príncipes da oposição, viu-se obrigado a continuá-la para não parecer o que na realidade era.

Quantas perspectivas não oferece uma gota de água, um oceano para o observador! Quantos séculos se não passam num segundo, uma eternidade indescritível! Tudo quanto aqui dizemos passou-se no lapso de tempo que Sua Majestade Luís XV empregou em se preparar para falar e abrir a boca.

Ouvistes – disse ele com uma voz firme – qual é a minha vontade, como o senhor chanceler acaba de vo-lo dizer. Tratai portanto de a executar, porque tais são as minhas intenções e não as mudarei!

Luís XV deixou cair estas últimas palavras com o estrépito e vigor do trovão.

Assim ficou toda a assembleia literalmente fulminada.

Um estremecimento passou sobre todos os parlamentários, estremecimento de terror que imediatamente se comunicou à multidão como uma faísca eléctrica. Esse mesmo frémito chegou também aos partidistas de el-rei. A surpresa e admiração pintavam-se em todos os rostos, em todos os corações.

A delfina agradeceu involuntariamente a el-rei com um raio de fogo despedido dos seus lindos olhos.

A senhora du Barry, electrizada, não pôde impedir de se levantar, e teria batido as palmas se não fosse o seu bem natural receio de ser apedrejada quando saísse, ou de receber no dia seguinte cem quadras qual delas mais insultante.

Naquele momento começou Luís a gozar do seu triunfo.

Os membros do parlamento inclinaram as frontes sempre com a mesma uniformidade.

El-rei ergueu-se um pouco sobre as suas almofadas com flores-de-lis.

Imediatamente se levantaram o capitão das guardas, o comandante da casa militar e todos os fidalgos.

O tambor rufou, soaram as trombetas. Esse estremecimento, quase silencioso à chegada do povo, tornou-se num sussurro que foi apagar-se ao longe, abafado pelos soldados e archeiros.

El-rei atravessou soberbamente a sala, sem ver outra coisa mais na sua passagem do que frontes humilhadas.

O senhor de Aiguillon continuou a preceder Sua Majestade, sem abusar do seu triunfo.

O chanceler, chegado à porta da sala, viu ao longe todo aquele povo, assustou-se com todos esses raios, que apesar da distância lhe feriam os olhos, e disse aos archeiros:

Cerquem-me.

O senhor de Richelieu, a quem o duque de Aiguillon cumprimentava, disse para o sobrinho:

Eis aí umas frontes bem baixas, duque; mais tarde ou mais cedo não podem deixar de se elevar a grande altura. Cautela!

A senhora du Barry passava naquele momento pelo corredor com seu irmão, a marechala de Mirepoix e várias outras senhoras. Ouviu a conversa de Richelieu, e como era mais de dar resposta do que de reserva, disse:

Oh! Não há que temer, marechal; não ouviu as palavras de Sua Majestade? El-rei disse, se me não engano, que nunca mudaria.

Terríveis palavras, com efeito, minha senhora – respondeu o velho duque com um sorriso; – mas aqueles pobres senhores do parlamento não viram, felizmente para nós, que dizendo que nunca mudaria, el-rei olhava para a senhora.

E acabou este madrigal com uma dessas inimitáveis mesuras que hoje ninguém já sabe fazer, nem mesmo no teatro.

A senhora du Barry era mulher, e por forma nenhuma política. Viu só um cumprimento onde o senhor de Aiguillon sentiu perfeitamente o epigrama e a ameaça.

Também foi com um sorriso que ela respondeu enquanto o seu aliado mordeu os lábios e empalideceu por ver durar esse ressentimento do marechal.

O efeito da sessão real foi imediatamente favorável à causa real. Mas muitas vezes um grande golpe não faz mais do que atordoar, e nota-se que depois do atordoamento o sangue gira com mais pureza e vigor.

Tal foi pelo menos a reflexão que fez, vendo partir el-rei com a sua pomposa comitiva, um pequeno grupo de pessoas simplesmente vestidas e colocadas em posição de observadores no canto do Cais das Flores e da Rua Barillerie.

Eram três homens… O acaso havia-os juntado naquele ângulo, e dali, pareciam ter seguido com interesse as impressões da multidão; e sem se conhecerem, uma vez entabuladas as relações por alguma palavra, tinham avaliado a sessão, antes mesmo que estivesse terminada.

Bem maduras estão as paixões – disse um deles, ancião de olhos vivos, de rosto suave e honesto. – Uma sessão real é obra de desengano.

Sim – respondeu um mancebo sorrindo amargamente – sim, se a obra realizasse exactamente as palavras.

Senhor – respondeu o ancião voltando-se – parece-me que o conheço… Creio que já o vi?

– Viu-me na noite de 31 de Maio. Não se engana, Sr. Rousseau.

– Ah! É aquele jovem cirurgião, meu patrício, o Sr. Marat?…

– Sim, senhor, para o servir.

Os dois homens cortejaram-se reciprocamente.

O terceiro não tinha ainda tomado a palavra. Era um homem também moço, de fisionomia nobre, que, durante a cerimónia toda, não fizera mais que observar a atitude da multidão.

O cirurgião foi o primeiro em se retirar, metendo-se pelo meio do povo, que menos lembrado do que Rousseau, já o tinha olvidado, mas à memória de quem tinha esperança de se recomendar algum dia.

O outro mancebo esperou que ele tivesse partido, e dirigindo-se a Rousseau, perguntou-lhe:

– Não se retira ainda, senhor?

– Oh! Sou muito velho para me arriscar a atravessar aquela chusma.

– Nesse caso – disse o desconhecido em voz baixa – até esta noite, na Rua Platrière, Sr. Rousseau… Não falte!

O filósofo estremeceu como se diante dele se levantasse um fantasma. O seu rosto, geralmente pálido, tornou-se lívido. Quis responder àquele homem, mas já tinha desaparecido.

XV – Influência das palavras do desconhecido sobre J. J. Rousseau

Depois de ouvir aquelas palavras singulares, pronunciadas por um homem que não conhecia, Rousseau, trémulo e desgostoso, atravessou os grupos, e sem se lembrar que era velho e que temia a multidão, abriu caminho; em pouco tempo chegou à ponte de Nossa Senhora; depois, continuando a pensar e a interrogar-se a si mesmo, atravessou o bairro da Grève, pelo qual chegava mais depressa ao seu.

– Assim – disse ele – este segredo que todo o iniciado guarda ao perigo da sua vida, está na boca de qualquer. Eis aí o que as associações misteriosas ganham em passar pela peneira popular… Um homem conhece-me, sabe que hei-de ser seu associado, e talvez seu cúmplice acolá. Um semelhante estado de coisas é absurdo e intolerável.

E dizendo estas palavras, Rousseau caminhava apressadamente, cheio de precauções, principalmente desde o seu desastre da Rua Mepilmontant.

Assim – continuava o filósofo – terei querido saber o fundo desses planos de regeneração humana que propõem certos espíritos que tomam o título de iluminados; terei feito a loucura de crer que da Alemanha podem vir ideias boas, da Alemanha! Uma terra de cerveja e de névoa; terei comprometido o meu nome com o de alguns loucos ou intrigantes aos quais servirá de capa para abrigarem as suas loucuras! Oh! Não, não será assim; não, um raio mostrou-me o abismo, não irei lançar-me nele com o coração nas mãos.

E Rousseau tomava o fôlego, apoiado na sua bengala, de pé e um instante imóvel no meio da rua.

– Era portanto – prosseguiu o filósofo – uma bela quimera: a liberdade na escravidão, o futuro conquistado sem abalos nem tumultos, a meada misteriosamente urdida durante o sono dos tiranos da terra… Era belo demais, fui louco em lhe dar crédito. Não quero receios, suspeitas, sombras, que são indignas de um espírito livre e de um corpo independente.

Estava nisto e começava a prosseguir novamente no seu caminho, quando a vista de alguns agentes do senhor de Sartines, passeando com os seus olhos de lince, espantou o espírito livre, e tal impulso deu ao corpo independente, que foi sumir-se no mais profundo da sombra dos pilares por entre os quais caminhava.

Dos pilares à Rua Platrière a distância não é grande. Rousseau andou esse caminho com rapidez, subiu as escadas respirando como um gamo perseguido pelos caçadores, e foi cair sobre uma cadeira no seu quarto, sem poder responder uma única palavra a todas as perguntas de Teresa.

Acabou finalmente de senhorear a sua comoção: era o caminho, o calor, a nova da cólera de el-rei na sessão real, uma comoção do terror popular, um ricochete do que acabava de se passar.

Teresa respondeu resmungando, que não era isso uma razão para deixar esfriar o jantar, e que demais, um homem não devia ser um maricas e intimidar-se por qualquer coisa.

Rousseau não teve resposta para opor a este último argumento, que tantas vezes ele mesmo tinha proclamado em outros termos.

Teresa acrescentou que esses filósofos, essa gente de imaginação eram todos os mesmos… que não cessam, nos seus escritos, de pregar a desordem; que anunciam não terem medo de coisa alguma; que têm Deus e os homens em pequena conta… mas que ao mais pequeno sinal do cão, bradam: “Socorro!”, que ao mais leve ataque da febre, gritam: “Meu Deus! Estou morto”.

Era este um dos temas favoritos de Teresa, o que mais fazia brilhar a sua eloquência, aquele para que Rousseau, naturalmente tímido, achava piores respostas. Também Rousseau embalava ao som dessa áspera música o seu pensamento, que por certo valia mais que o de Teresa, apesar de todos os ralhos desta mulher.

– A felicidade compõe-se de perfumes e sussurros – dizia ele; – ora, a luta e o cheiro são coisas de convenção… Quem quererá decidir que a cebola não cheira tão bem como a rosa, e que o pavão não tem o canto tão harmonioso como o rouxinol?

Com este axioma que podia passar por ser um belo e bom paradoxo, foram para a mesa e jantaram.

Rousseau, depois de jantar, não foi sentar-se ao piano, como costumava. Deu cinquenta voltas pelo quarto, e olhou mais de cem vezes pela janela fora para estudar a fisionomia da Rua Platrière.

Teresa teve então um ataque de ciúme como o costumam ter por contrariedade as pessoas desinquietas, isto é, as pessoas da terra que realmente são menos ciosas.

Porque, se há uma afectação que seja desagradável, é a de um defeito; ainda se pode desculpar quando essa afectação é de qualidades boas.

Teresa, que desprezava profundamente a virilidade, a compleição, o espírito de Rousseau, Teresa, que o achava velho, doente e feio, não tinha medo que lhe seduzissem o marido; não supunha que as mulheres o pudessem ver com melhores olhos do que ela. Entretanto, como para uma mulher, o suplício do ciúme é um dos mais deliciosos bocados, Teresa regalava-se com isso algumas vezes.

Vendo Rousseau chegar tão amiudadas vezes à janela, pensar e não estar quieto, disse-lhe:

– Bom! Compreendo o motivo da tua agitação… Separaste-te ainda agora de alguém.

Rousseau olhou para Teresa com um modo espantado, o que foi mais um indício para ela.

Alguém que queres tornar a ver – prosseguiu ela.

Como? – disse Rousseau.

– Temos entrevistas, segundo parece?

Oh! – disse Rousseau que conheceu que era uma cena de ciúmes; – entrevistas! Estás doida, Teresa?

– Eu bem sei que seria uma loucura, mas és capaz de tudo – disse ela. – Vai, vai fazer conquistas, com essa cor de papel mastigado, com as tuas palpitações no coração, com a tua tosse seca: é um excelente meio para abreviares a existência.

– Mas, Teresa, sabes muito bem que isso não é assim – disse Rousseau enfadado; – deixa-me pensar sossegadamente.

És um libertino – disse Teresa com a maior seriedade.

Rousseau corou como se acabassem de lhe dizer uma verdade, ou de lhe dirigir um cumprimento.

Então julgou Teresa que devia mostrar um rosto terrível, a ponto de perturbar a ordem da casa, fazer estalar as portas e divertir-se com a tranquilidade de Rousseau, como as crianças se divertem com esses anéis de metal que metem dentro de caixas e que sacodem para fazer bulha.

Rousseau refugiou-se no seu gabinete. Este tumulto tinha enfraquecido um pouco as suas ideias.

Pensou que haveria certamente perigo em não assistir à cerimónia misteriosa de que lhe falara o estranho.

– Se há castigos contra os reveladores, deve igualmente havê-los contra os que são desleixados – pensou ele. – Ora, sempre notei que os grandes perigos nada são, nem as grandes ameaças; os casos de aplicação de castigos em tais circunstâncias são muito raros; mas, para as pequenas vinganças, os ataques ocultos, as mistificações e outras coisas assim, é preciso muita cautela. Algum dia os irmãos maçónicos se vingariam do meu desprezo, atravessando-me uma corda na escada; eu quebraria uma perna e os oito ou dez dentes que ainda tenho… ou terão uma pedra pronta, para ma deixar cair sobre a cabeça quando eu passar junto de alguns andaimes… Melhor do que isso, há-de haver lá na loja algum panfletário que viva perto de mim, talvez no mesmo patamar onde moro, mergulhando as suas vistas pela janela do meu quarto. Não é impossível, pois que as reuniões têm lugar mesmo na Rua Platrière… Sim, e esse velhaco escreverá a meu respeito tolices que me hão-de tornar ridículo na cidade inteira… Não tenho eu inimigos por toda a parte?

Um instante depois, Rousseau mudava o seu modo de pensar, e dizia consigo:

Então, onde está a coragem, a honra? Terei medo de mim mesmo? Não verei no meu espelho senão o rosto de um velhaco e de um medroso? Não, não será assim… Ainda que se coligasse todo o Universo para minha desgraça, ou tivesse de cair sobre a minha cabeça o subterrâneo desta rua, hei-de ir… Bela razão, que só nasce do medo. Desde a minha volta, por causa do encontro com aquele homem, vejo que não faço mais que girar num círculo de inépcias. Eis que duvido de todos e de mim mesmo! Isto não é lógico… Eu conheço-me, não sou um entusiasta; se julguei ver maravilhas na projectada associação é porque efectivamente há maravilhas. Quem me diz que não serei eu o regenerador do género humano? Eu, que vieram procurar, eu, que os agentes misteriosos de um poder sem limites vieram consultar sobre a fé dos meus escritos, recuarei quando se trata de prosseguir na minha obra, de substituir a aplicação à teoria?

Rousseau animava-se.

Como isto é belo! As idades progridem… Os povos saem do embrutecimento, o passo segue o passo na escuridão, a mão segue a mão na sombra: está-se erguendo a imensa pirâmide em cima da qual, para coroa, hão-de os séculos futuros pôr o busto de Rousseau, cidadão de Genebra, que, para fazer como disse, arriscou a sua liberdade, a sua vida, isto é, foi fiel à sua divisa: Vitain impendere vero.

Rousseau, transportado com isto, foi sentar-se ao piano, e acabou de exaltar a sua imaginação com melopeias as mais sonoras e guerreiras que dele pôde tirar.

Veio a noite. Teresa, cansada de ter em vão atormentado o seu cativo, dormia sentada na cadeira; Rousseau estudou um pouco diante do espelho a expressão dos seus olhos negros, achou-os vivos e expressivos, o que o encantou.

Encostou-se à sua bengala de junco, e, sem despertar Teresa, esquivou-se do quarto.

Mas, chegando ao fim da escada, depois de ter aberto a porta que dava para a rua, Rousseau começou a olhar para fora, a fim de se assegurar do estado da localidade.

Não passava carruagem alguma; a rua, segundo o costume, estava cheia de ociosos, que olhavam uns para os outros, como também é costume, enquanto muitos paravam diante das vidraças das lojas para verem as raparigas dos balcões.

Portanto, um homem mais ou um homem menos passava desapercebido naquele turbilhão. Rousseau precipitou-se nele; o caminho não era extenso.

Um cantor de ruas com uma desafinada rabeca estava parado diante da porta que tinha sido designada a Rousseau. Essa música, a que são sensíveis os ouvidos de todo o verdadeiro parisiense, enchia as ruas de ecos que iam repetindo os últimos compassos da música tocada pela rabeca ou cantada pelo artista-filarmónico.

Nada portanto era mais desfavorável ao movimento circulador que o pejamento formado naquele lugar pelo círculo dos auditores. Era preciso necessariamente que todo o passeante voltasse para a direita ou esquerda do grupo; os que voltavam à esquerda tomavam o centro da rua, os que voltavam à direita seguiam por pé da casa designada.

Rousseau notou que vários daqueles passeantes se sumiam no caminho, como se caíssem por algum alçapão. Supôs que aqueles tinham vindo para o mesmo fim que ele vinha, e resolveu imitar as suas manobras; era coisa fácil.

Tendo passado por detrás do grupo dos auditores, como se quisera também parar, pôs-se à espreita da primeira pessoa que visse entrar no corredor, cuja porta estava aberta. Mais timorato do que aqueles, porque sem dúvida, tinha mais que arriscar, esperou que a ocasião se apresentasse algumas dez vezes.

Não esperou muito mais. Um carrinho que vinha pela rua cortou ao meio o círculo e operou um recalcamento dos dois hemisférios contra as casas. Rousseau achou-se colocado mesmo no limiar do corredor; e não faltava senão continuar… O nosso filósofo observou que todos os curiosos, dando só atenção ao carro, voltavam as costas para a casa; aproveitou o seu isolamento e desapareceu nas profunduras do corredor escuro.

Passados alguns segundos, viu uma luz junto da qual estava um homem, sentado com muito sossego, como um vendilhão descansando dos trabalhos do dia, lendo ou fingindo ler um periódico.

Ao rumor dos passos de Rousseau, aquele homem levantou a cabeça e colocou visivelmente um dedo sobre o peito, alumiado pela luz da lâmpada.

Rousseau respondeu àquele gesto simbólico pondo um dedo sobre os lábios.

O homem ergueu-se imediatamente, e empurrando uma porta que lhe ficava da direita, porta invisível pela perfeição artística com que era talhada no tabique de madeira a que ele estava encostado, mostrou a Rousseau uma escada muito íngreme que levava para debaixo da terra.

Rousseau entrou; a porta fechou-se sem luta, mas com rapidez.

Rousseau, auxiliando-se com a bengala, desceu os degraus. Achava mau que para primeira prova lhe impusessem os associados o perigo de partir a cabeça e as pernas.

Mas a escada, se era íngreme não era muito grande. Rousseau contou dezassete degraus, e logo foi invadido por um calor fortíssimo que lhe bafejou os olhos e o rosto.

Esse calor húmido era o sopro de um certo número de homens reunidos naquele subterrâneo.

Rousseau notou que as paredes eram forradas de panos vermelhos e brancos, sobre os quais estavam figurados vários instrumentos de trabalho, certamente mais simbólicos do que reais. Uma única lâmpada, pendida da abóbada, lançava um reflexo sinistro sobre os rostos, aliás muito honrados, das pessoas que conversavam entre si em voz baixa sentadas em bancos de pau.

Não havia no chão nem tapete nem soalho de luxo, mas sim uma esteira muito grossa que abafava o ruído dos passos.

Rousseau, portanto, não produziu sensação alguma entrando.

Ninguém pareceu ter reparado que ele tinha entrado.

Cinco minutos antes, Rousseau teria desejado uma semelhante recepção, e contudo, uma vez entrado, sentiu não ter merecido mais atenção.

Viu um lugar vazio num dos últimos bancos; instalou-se nele e com a maior modéstia por detrás de todos os mais.

Contou trinta e três cabeças na assembleia. Uma mesa de escritório, elevada sobre um estrado, esperava um presidente.

XVI – a loja da rua Platrière

Rousseau notou que a conversação dos assistentes era muito discreta e restrita. Muitos nem moviam os lábios. Apenas meia dúzia deles diziam algumas palavras.

Outros não só não falavam senão que procuravam ocultar o rosto, o que não era difícil, graças à grande sombra projectada pelo estrado do presidente que se esperava.

O refúgio desses, que pareciam ser os tímidos, era por detrás daquele estrado.

Mas, em compensação, dois ou três membros da corporação procuravam de mil modos reconhecer os colegas. Iam, vinham, falavam entre si, e muitas vezes desapareciam, cada qual por sua vez, por uma porta encoberta por um reposteiro preto com chamas vermelhas.

Pouco depois ouviu-se uma campainha. Um homem afastou-se pura e simplesmente do canto do banco onde se achava confundido com os outros pedreiros, e tomou o seu lugar no estrado.

Depois de ter feito alguns sinais com as mãos e os dedos, sinais que foram repetidos por todos os assistentes, e aos quais ajuntou um mais explícito que os outros, declarou que estava aberta a sessão.

Aquele homem era absolutamente desconhecido a Rousseau: sob a aparência de um artífice abastado, ocultava muita presença de espírito, auxiliada por uma elocução tão fácil quanto se poderia desejar num orador.

O seu discurso foi claro e breve. Declarava que a loja se reunia para proceder à recepção de um novo irmão.

– Não vos admireis – disse ele – que vos tenhamos reunido num local onde não podem ter lugar as provas ordinárias; os chefes julgaram inúteis as provas. O irmão que se trata de receber é um dos fachos da filosofia contemporânea, é um espírito profundo, que nos será dedicado por convicção, e não por temor. O que sondou todos os mistérios da natureza e do coração humano não poderia ser impressionado do mesmo modo que o simples mortal a quem pedimos o auxílio dos braços, da vontade e do dinheiro. Para termos a cooperação desse espírito distinto, desse carácter honrado e enérgico, basta-nos a sua promessa, a sua aquiescência.

O orador acabou assim a sua proposta e olhou em redor de si para examinar o efeito que produzira.

Sobre Rousseau o efeito fora mágico: o genebrês conhecia os mistérios preparatórios da Maçonaria; tinha-os visto com uma espécie de repugnância naturalíssima nos espíritos esclarecidos; essas concessões, todas absurdas, visto que eram inúteis, que os chefes exigiam dos candidatos para simular o medo, quando se sabe que nada há que temer, pareciam-lhe o cúmulo da puerilidade e da superstição frívola.

Mais ainda: ao tímido filósofo, inimigo das manifestações e exibições individuais, havia de desagradar-lhe o ter que dar a sua pessoa em pábulo a gente que não conhecia, e que, isso era certíssimo, o mistificavam com mais ou menos boa fé.

Portanto, ver-se dispensado das provas, foi para ele mais do que uma satisfação. Conhecia o rigor da igualdade na presença dos princípios maçónicos; ora, uma excepção em seu favor constituía um triunfo.

Aprontava-se para responder nalgumas palavras à facúndia do presidente, quando no auditório se levantou uma voz.

– Pelo menos – disse essa voz, que era aguda e vibrante – já que vos julgais obrigado a tratar como príncipe um homem como nós, pelo menos, já que o dispensais das angústias físicas, como se não fosse um dos nossos símbolos alcançar a liberdade por meio do padecimento do corpo, esperamos que não ireis conferir um título precioso a um desconhecido sem lhe ter feito as perguntas do rito, e sem ter recebido a sua profissão de fé.

Rousseau voltou-se para ver o rosto do agressor que batia tão bruscamente no carro do triunfador.

Reconheceu então, com a mais viva surpresa, o moço cirurgião que, naquela mesma manhã ainda, encontrara no Cais das Flores.

O sentimento da sua boa fé, um sentimento de desdém talvez pelo título precioso, cortou-lhe a resposta.

Ouvistes? – disse o presidente, dirigindo-se a Rousseau.

Perfeitamente – respondeu o filósofo, a quem a própria voz fez estremecer quando soou debaixo das abóbadas do sombrio subterrâneo. – Ora, muito mais me admiram as interpelações quando vejo por quem foram feitas. Pois quê! Um homem tem por ofício combater o que se chama o padecimento físico, e acudir aos seus irmãos, que o são tanto os homens ordinários como os Maçons; um tal homem vem aqui pregar a utilidade dos padecimentos físicos!… Escolhe um singular caminho para conduzir a criatura à felicidade, o enfermo à saúde!

– Aqui não se trata deste ou daquele – respondeu apressadamente o mancebo; – sou desconhecido ao candidato, assim como ele me é desconhecido. Sou lógico, e sustento que o Venerável fez mal em fazer distinção de pessoas. Desconheço este homem (e apontou para Rousseau, o filósofo), queira ele não ver em mim o praticante de cirurgia. Assim, devemos talvez andar toda a vida ao lado um do outro, sem que nunca um olhar, um gesto denuncie a nossa intimidade, mais estreita contudo, graças ao nó da associação, de que todas as amizades vulgares. Repito, portanto, que se julgaram dever dispensar o candidato das provas, há lugar contudo para se lhe fazerem ao menos as perguntas.

Rousseau não deu resposta. O presidente leu-lhe no rosto o desgosto da discussão e o arrependimento de se ter envolvido em semelhante empresa.

– Irmão – disse ele com autoridade ao mancebo – espero que guardareis silêncio quando o chefe fala, e que não tornareis a censurar levianamente os seus actos, que são soberanos.

– Tenho direito para interpelar – respondeu mais brandamente o mancebo.

– Para interpelar, sim, para censurar, não. O irmão que vai entrar na associação é conhecido bastante para que procuremos meter nas nossas relações maçónicas um ridículo e inútil mistério. Todos os irmãos presentes lhe sabem o nome, e esse nome é uma garantia. Mas como estou certo de que ele mesmo preza a igualdade, rogo-lhe que responda à pergunta que lhe dirijo unicamente pró-forma: Que buscais na associação?

Rousseau deu dois passos, e isolando-se da multidão, percorreu a assembleia com um olhar pensativo e melancólico.

– Busco – disse ele – o que não posso achar: verdades e não sofismas. Por que motivo me cercareis de punhais que não ferem, de venenos que são água pura, e de alçapões por baixo dos quais estão dispostos colchões?! Conheço o recurso das forças humanas. Conheço o vigor da minha mola física: se a despedaçais, não vale a pena eleger-me vosso irmão; morto, de nada vos serviria; portanto não me quereis matar, e ainda menos ferir-me, e todos os praticantes de cirurgia do mundo não me fariam achar boa a iniciação em que me quebrassem um membro.

“Mais do que todos vós tenho eu experimentado as dores humanas; sondei o corpo e examinei a alma. Se aceitei vir unir-me a vós quando mo pediram (e acentuou esta palavra), é que julgava poder ser útil. Portanto, dou, não recebo.

Ai! antes que tenhais algum poder para me defender, antes que por vossos próprios meios me deis a liberdade se me prenderem, pão, se me esfaimarem, consolações, se me afligirem; antes, digo eu, que sejais alguma coisa, este irmão que hoje admitis, se aquele senhor der licença – acrescentou voltando-se para Marat – terá pago o seu tributo à natureza, porque o progresso é coxo, porque a luz é lenta, e do lugar onde ele tiver caído nenhum de vós o poderá tirar…”

– Estais enganado, ilustre irmão – disse uma voz suave e penetrante, que atraiu gratamente a atenção de Rousseau – na associação que vos dignais aceitar há mais do que pensais; há todo o futuro do mundo; o futuro, bem o sabeis, é a esperança, é a ciência; o futuro é Deus, que deve dar a luz ao mundo, visto que prometeu que a daria. Ora, Deus não sabe mentir.

Rousseau, admirado de tão elevada linguagem, olhou e conheceu o homem ainda moço que ao sair da sessão real se despedira dele até à noite.

Aquele homem, vestido de preto, com certa elegância e principalmente com grande distinção, estava encostado a um dos lados do estrado, e o seu rosto, alumiado por uma luz pálida, brilhava com toda a graça, toda a expressão natural.

– Ah! – disse Rousseau – a ciência, abismo sem fundo! Falais-me em ciência, vós! consolação, futuro, promessa; outro fala-me na matéria, em rigor e violência; a qual devo dar crédito? Será então a assembleia dos irmãos como os lobos devoradores do mundo que acima das nossas cabeças se agita? Lobos e ovelhas! Escutai a minha profissão de fé, já que não a lestes nos meus livros.

– Vossos livros! – bradou Marat – são sublimes, concordo; mas são utopias; sois útil sob o mesmo ponto de vista que Pitágoras, que Sólon e que Cícero, o sofista. Indicais o bem, mas um bem artificial, impalpável, inacessível; pareceis-vos com aquele que queria nutrir uma chusma de esfaimados com bolhas de ar mais ou menos iriadas pelo Sol.

-Vistes já – disse Rousseau franzindo o sobrolho – operarem-se as grandes comoções da natureza sem preparação? Vistes nascer o homem, esse acontecimento vulgar e contudo sublime? Viste-lo nascer sem que tenha adquirido durante nove meses a substância e a vida nas entranhas da mãe? Ah! Quereis que eu regenere o mundo com actos. Isso não se chama regenerar, senhor, chama-se revolucionar!

– Então – respondeu violentamente o moço cirurgião – então não quereis a independência! Então não quereis a liberdade!

– Pelo contrário – respondeu Rousseau – porque a independência é o meu ídolo; porque a liberdade é a minha deusa. Só o que pretendo é uma liberdade suave e radiosa, que aqueça e vivifique. Quero uma liberdade que aproxime os homens pela amizade, e não pelo temor. Quero a educação, a instrução de cada elemento do corpo social, como o mecânico quer a harmonia, como o marceneiro quer a samblagem, isto é, o concurso perfeito, o ajustamento absoluto de cada peça do seu trabalho. Repito, quero o que escrevi: o progresso, a concórdia, a dedicação.

Marat mostrou nos lábios um sorriso de desprezo.

– Sim, os rios de leite e de mel – disse ele – os Campos Elísios de Virgílio, sonhos de um poeta que a filosofia quisera tornar realidade.

Rousseau não disse palavra. Parecia-lhe árduo ter que defender a sua moderação, ele a quem a Europa toda chamara violento inovador.

Tornou a sentar-se silenciosamente, depois de ter, para satisfação da sua alma lhana e tímida, consultado com o olhar a personagem que pouco antes o defendera e cuja aprovação tácita alcançou.

O presidente levantou-se.

Ouvistes? – disse ele a todos.

Sim – respondeu a assembleia.

– O candidato parece-vos digno de entrar na associação? Compreende ele os seus deveres?

– Sim – respondeu a assembleia, mas com certa reserva, que indicava falta de unanimidade.

– Prestai o juramento – disse o presidente a Rousseau.

– Ser-me-ia desagradável – respondeu o filósofo com certo orgulho – causar desprazer a alguns membros desta associação, e devo novamente repetir as palavras que há pouco proferi, e que são a expressão da minha convicção. Se eu fosse orador, poderia desenvolvê-las de maneira convincente; mas a minha língua é rebelde e trai sempre o meu pensamento, quando lhe peço uma tradução imediata. Quero dizer que faço mais para o mundo e para vós longe desta assembleia do que faria, praticando assiduamente os vossos costumes; portanto, deixai-me com os meus trabalhos, a minha fraqueza e o meu isolamento. Já o disse, estou inclinado para o sepulcro: cuidados, enfermidades, misérias, tudo me impele fortemente para o túmulo; não tendes poder para retardar esta grande obra da natureza; abandonai-me, não sou feito para caminhar com os homens, odeio-os e fujo deles; contudo sirvo-os porque também sou homem, e servindo-os imagino que são melhores do que são na realidade. Agora, tendes todo o meu pensamento; não direi mais palavra.

Recusais então prestar o juramento? – disse Marat com certa comoção.

Recuso positivamente; não quero fazer parte da associação: demasiadas provas me estão indicando que seria inútil.

– Irmão – disse o desconhecido da voz conciliadora – permiti-me que assim vos chame, porque realmente somos irmãos fora de toda a combinação do espírito humano; irmão! Não cedais a um movimento de despeito, aliás bem natural; sacrificai uma parte do vosso legítimo orgulho; fazei por nós o que vos repugna. Os vossos conselhos, as vossas ideias, a vossa presença, são a luz! Não nos mergulheis na dupla noite da vossa ausência e da vossa recusa.

– Estais enganado – disse Rousseau – nada vos tiro, pois que nunca vos darei mais do que tenho dado a toda a gente, ao primeiro leitor que aparece, à primeira interpretação das gazetas; se quereis o nome e a essência de Rousseau…

– Queremos! – disseram com civilidade várias vozes.

– Então, pegai numa colecção das minhas obras, ponde os volumes sobre a mesa do vosso presidente, e quando chegardes às opiniões e que me toque a vez de emitir a minha, abri o meu livro, achareis o meu parecer, a minha sentença.

Rousseau deu um passo para sair.

– Esperai um momento! – bradou o cirurgião – as vontades são livres, e a do ilustre filósofo tanto como as outras; mas seria pouco regular ter dado acesso no nosso santuário a um profano que, não estando ligado por cláusula alguma, nem sequer tácita, poderia, sem por isso deixar de ser homem de bem, revelar os nossos mistérios.

Rousseau sorriu-se para ele em ar de compaixão.

– Nesse caso é um juramento de discrição que me pedis? – disse ele.

– Vós o dissestes.

– Estou pronto.

– Lede a fórmula, irmão Venerável – disse Marat.

O irmão Venerável leu com efeito esta fórmula:

– “Juro em presença do grande Deus eterno, arquitecto do Universo, dos meus superiores e da respeitável assembleia que me cerca, nunca revelar, nem dar a conhecer, nem escrever coisa alguma do que debaixo das minhas vistas se passa, condenando-me a mim mesmo, em caso de imprudência, a ser castigado segundo as leis do grande fundador, de todos os meus superiores, e a cólera de meus irmãos.”

Já Rousseau estendia a mão para prestar o juramento, quando o desconhecido, que tinha escutado e seguido os debates com uma espécie de autoridade que ninguém lhe contestava, conquanto se achasse perdido por entre a multidão, quando o desconhecido, dizemos nós, se aproximou do presidente e lhe disse algumas palavras ao ouvido.

É verdade – respondeu o Venerável.

E acrescentou:

– Sois um homem e não um irmão, sois um homem honrado colocado diante de nós unicamente na posição de um semelhante. Portanto aqui abjuramos a nossa qualidade para vos pedir uma simples palavra de honra em como esquecereis quanto entre nós se passou.

– Como pela manhã se esquece o sonho, assim o juro pela minha honra – respondeu Rousseau comovido.

E com estas palavras saiu, e logo atrás dele saíram muitos outros membros da associação.

XVII – Relatório

Depois da saída dos membros de segunda e terceira ordem ficaram na loja sete associados. Eram sete chefes.

Reconheceram-se entre si por meio de sinais, que provavam as suas iniciações num grau superior.

O seu primeiro cuidado foi de fecharem as portas, revelando-se depois o presidente pela exibição de um anel em que estavam gravadas as letras misteriosas L. P. D.

O presidente era encarregado da correspondência suprema da ordem. Estava em relações com os seis outros chefes, que habitavam a Suíça, a Rússia, a América, a Suécia, a Espanha e a Itália.

Trazia alguns papéis muito importantes, que recebera dos seus colegas, para os comunicar à junta dos iniciados superiores, colocados acima dos outros e abaixo dele.

Já reconhecemos esse chefe; era Bálsamo.

A mais importante dessas cartas continha um aviso tremendo; vinha da Suécia, e era escrita por Swedenborg.

“Velai no Sul, irmãos, dizia ele; sob a sua ardente influência foi-se criando um traidor. Esse traidor há-de perder-vos.

Velai em Paris, irmãos, o traidor reside lá; os segredos da ordem estão nas suas mãos, e é impelido por um sentimento de ódio.

Ouço a denúncia do seu vôo surdo, na sua voz de murmúrio. Vejo uma terrível vingança, mas talvez chegue muito tarde. Entretanto velai, irmãos! velai! Muitas vezes basta uma língua traiçoeira, ainda que mal instruída, para destruir os planos mais habilmente urdidos.”

Os irmãos olharam uns para os outros em silenciosa surpresa; a linguagem do fogoso iluminado, a sua presciência, a que muitos exemplos frisantes davam uma autoridade imponente, não contribuíram pouco para impressionar a reunião presidida por Bálsamo.

Nem ele, que depositava fé na lucidez de Swedenborg, pôde resistir à impressão grave e dolorosa que se lhe apoderou do ânimo depois de semelhante leitura.

– Irmãos – disse – o profeta inspirado raras vezes se ilude. Velai portanto, como vo-lo recomenda. Sabeis agora tão bem como eu, que a luta está travada. Não sejamos vencidos por aqueles inimigos ridículos, cujo poder minamos com toda a segurança. Não esqueçais que dispõem de dedicações mercenárias. É uma arma poderosa neste mundo entre as almas que não vêem mais longe que os limites da vida terrestre. Irmãos, desconfiemos dos traidores assalariados.

– Esses receios parecem-me pueris – disse uma voz; – cada dia ganhamos mais força, e somos dirigidos por brilhantes génios e por mãos vigorosas.

Bálsamo inclinou-se para agradecer o elogio do lisonjeiro.

– Sim; mas conforme disse o nosso ilustre presidente, a traição penetra por todos os lados – respondeu um irmão, que não era outro senão o cirurgião Marat, promovido, apesar da sua mocidade, a um grau superior, graças ao qual pela primeira vez tomava assento na junta consultiva. – Lembrai-vos, irmãos, que dobrando a isca, a presa é mais importante. Se o senhor de Sartines, com um saco de dinheiro, pode comprar a revelação de um dos nossos irmãos obscuros, o ministro, com um milhão ou com a esperança de uma dignidade, pode comprar um dos nossos superiores. Ora, entre nós, o irmão obscuro nada sabe, e quando conhece os nomes de alguns dos seus colegas, esses nomes não significam coisa alguma. É uma ordem admirável esta da nossa constituição, mas é eminentemente aristocrática: os inferiores nada sabem, nada podem; reúnem-nos para lhes dizer ou fazer-lhes dizer futilidades; e contudo concorrem com o seu tempo e o seu dinheiro para a consolidação do nosso edifício. Pensai nisso, o operário só traz a pedra e a cal; mas sem pedra e sem cal faríeis vós a casa? Ora, o operário recebe um pequeno salário, e contudo eu considero-o igual ao arquitecto, cujo plano cria e vivifica todo o trabalho; e considero-o como seu igual, porque é um homem, e todo o homem vale outro homem aos olhos do filósofo, visto que carrega com a sua parte de miséria e de fatalidade como qualquer outro, e que, mais até que outro qualquer, está exposto à queda de uma pedra ou à quebra de um andaime.

– Interrompo-vos – disse Bálsamo. – Abandonais a questão de que só nós devemos ocupar. O vosso defeito, irmão, consiste em exagerar o zelo e generalizar as discussões. Não se trata hoje de saber se é boa ou má a nossa constituição, senão de manter a firmeza e a integridade dessa constituição. Se eu quisesse discutir convosco, responderia: Não, o órgão que recebe o movimento não é igual ao génio do criador; não, o obreiro não é igual ao arquitecto; não, a cabeça não é igual ao braço.

– Se o senhor de Sartines lançar a mão a um dos nossos irmãos dos últimos graus – bradou Marat com vivacidade – deixará de o mandar apodrecer na Bastilha tal qual como o faria a vós ou a mim?

– Concordo; mas, prendendo um desses irmãos, só haverá dano para o indivíduo e não para a ordem, que para nós deve ser a primeira coisa. Se o chefe for preso, a conjuração há-de parar; se faltar o general, perder-se-á a batalha. Irmãos, velai pela salvação dos chefes!

– Sim, mas eles que velem também da sua parte pela nossa.

– É o seu dever.

– E tenham os seus erros dobrado castigo.

– Eu o repito, meu irmão, afastais-vos das regras da ordem. Ignorais que o juramento que liga todos os membros da nossa associação é o mesmo, e aplica a todos as mesmas penas?

– Os grandes acharão sempre meio de se subtraírem a elas, irmão.

– Não é essa a opinião dos grandes, irmão; ouvi o final da carta do nosso profeta Swedenborg, um dos grandes entre nós; eis o que diz:

“O mal virá dos grandes, de um dos maiores da ordem, ou, se não vier exactamente dele, não deixará por isso de lhe ser imputada a falta; lembrai-vos que o fogo e a água podem ser cúmplices: um dá a luz, outro as revelações.

Velai, irmãos, sobre tudo e sobre todos, velai.”

– Então – disse Marat tomando do discurso de Bálsamo e da carta de Swedenborg o lado de que queria tirar partido – repitamos o juramento que nos liga, e obriguemo-nos a mantê-lo em toda a sua integridade, qualquer que seja aquele que nos tiver atraiçoado ou for causa de traição.

Bálsamo pensou um instante, e levantando-se da sua cadeira, pronunciou as palavras consagradas, que os nossos leitores já viram uma vez, com voz vagarosa, solene e terrível.

“Em nome do Filho crucificado, juro quebrar os laços carnais que me ligam a pai, mãe, irmãos, irmãs, mulher, parentes, amigas, amantes, reis, benfeitores, e a todo ente, qualquer que seja, a quem eu tenha prometido fé, obediência ou serviço.

Juro revelar ao chefe, que reconheço, segundo os estatutos da ordem, tudo quanto tiver feito, visto, lido ou ouvido, sabido ou descoberto e até procurar e espiar tudo o que se me não oferecer à vista.

Respeitarei o veneno, o ferro e o fogo como meio de purificar o globo pela morte ou pela loucura dos que procuram aviltar a verdade ou arrancá-la das nossas mãos.

Subscrevo à lei do silêncio; consinto em morrer como fulminado no dia em que tiver merecido castigo, e espero, sem me queixar, a punhalada que me há-de ferir em qualquer parte da terra em que me ache.”

Então os sete homens que compunham a sinistra assembleia repetiram palavra por palavra este juramento, conservando-se de pé, e descobertos.

Depois, acabadas as palavras sacramentais:

– Estamos garantidos – disse Bálsamo; – não cortemos com mais incidentes a nossa discussão. Tenho que dar à junta conta dos principais acontecimentos do ano.

“A minha gerência dos negócios de França não deixará de apresentar algum interesse a espíritos esclarecidos e zelosos como os vossos.

Eu começo.

A França está situada no centro da Europa, como o coração no centro do corpo; vive e faz viver. É nas suas agitações que se deve procurar a causa de todo o mal que perturbe o organismo geral.

Vim portanto à França, e aproximei-me de Paris como o médico se aproxima do coração: auscultei, apalpei, experimentei. Quando há um ano me acerquei dela a monarquia estava cansada; hoje os vícios matam-na. Julguei dever precipitar o efeito dessas mortais devassidões, e para isso protegi-as.

Um obstáculo se apresentava no meu caminho: esse obstáculo era um homem, e esse homem não era o primeiro, mas era o mais poderoso do Estado, depois do rei.

Era dotado de algumas dessas qualidades que agradam aos outros homens. É verdade que era muito orgulhoso, mas esse orgulho aplicava-o aos seus trabalhos; sabia adoçar a servidão do povo, fazendo-lhe crer, e até ver algumas vezes, que é uma parte do Estado, e consultando-o não raro sobre as suas próprias misérias, e arvorava um estandarte em volta do qual sempre as massas se reúnem: o espírito nacional.

Odiava os Ingleses, inimigos naturais da França; odiava a favorita, natural inimiga das classes laboriosas. Ora, se tal homem tivesse sido um usurpador, se tivesse sido um dos nossos, se tivesse trilhado o nosso caminho, trabalhado no nosso sentido, tê-lo-ia poupado, tê-lo-ia conservado no poder, tê-lo-ia sustentado com quantos recursos posso criar para os meus protegidos, porque, em vez de escorar a realeza arruinada, tê-la-ia derrubado connosco no dia aprazado. Mas era da classe aristocrática, nascera com os respeitos da primeira ordem, a que não queria prejudicar; da monarquia, contra a qual não ousava atentar; poupava a realeza e desprezava o rei; fazia mais, servia de escudo a essa realeza contra a qual se dirigiam os nossos golpes. O parlamento e o povo, cheios de respeito por aquele dique vivo oposto à invasão da prerrogativa real, mantinha-se numa resistência imoderada, na certeza de, chegado o momento, encontrarem um poderoso auxiliar.

Compreendi a situação. Empreendi a queda do senhor de Choiseul.

Essa obra poderosa, na qual havia dez anos se empenhavam tantos ódios e tantos interesses, comecei-a e concluí-a dentro de poucos meses, por meios que é inútil dizer-vos. Por um segredo, que é uma das minhas forças, força tanto maior quanto há-de eternamente conservar-se oculta aos olhos de todos, manifestando-se apenas pelo efeito, derrubei e expulsei o senhor de Choiseul, e fiz que se lhe ligasse um cortejo de saudades, despeites, lamentações e cóleras.

O trabalho está produzindo os seus frutos; a França inteira pede Choiseul e erguem-se para o reaver como os órfãos erguem ao céu as mãos quando Deus lhes arrebata os pais.

Os parlamentos usam do único direito que lhes resta, a inércia: cessaram de funcionar. Num corpo bem organizado, como deve ser um Estado de primeira ordem, a paralisia de um órgão essencial é imortal; ora, o parlamento é para o corpo social o mesmo que o estômago para o corpo humano; deixando os parlamentos de trabalhar, o povo, essas entranhas do Estado, não trabalhará, e por consequência, não poderá pagar: e portanto o ouro, isto é, o sangue há-de faltar-lhe.

Quererão lutar sem dúvida; mas quem há-de lutar contra o povo? Não há-de ser o exército, esse filho do povo, que come o pão do lavrador, que bebe o vinho do vinhateiro. Restam a casa do rei, os corpos privilegiados, os guardas, os suíços, os mosqueteiros, cinco ou seis mil homens, se tanto! O que poderá fazer esse punhado de pigmeus quando o povo se levantar como um gigante?”

Que se levante então, que se levante! – bradou Marat.

Mancebo, ainda não vos consultei – disse friamente Bálsamo. – Essa sedição das massas – prosseguiu – essa revolta dos fracos tornados fortes pelo seu número contra o poderoso isolado, espíritos menos sólidos, menos maduros e menos experientes provocá-la-iam imediatamente e consegui-la-iam até com pasmosa facilidade; mas eu reflecti, estudei… Desci até ao povo, e debaixo dos seus trajos, com a sua perseverança, com a sua rudez, que eu afectava, vi-o de tão perto que me fiz povo também. Hoje, portanto, conheço-o. Não me enganarei mais a seu respeito. É forte, mas é ignorante; é irritável, mas não rancoroso; numa palavra, não está maduro para a sedição como eu a entendo e como a quero.  Falta-lhe a instrução, que lhe mostre os acontecimentos sob o duplo aspecto do exemplo e da utilidade; falta-lhe a memória da sua própria experiência. Parece-se com aqueles ousados mancebos que vi na Alemanha, nas festas públicas, treparem ardentemente até ao cimo de um mastro de navio, onde o bailio mandara colocar um presunto e um copo de prata; iam ardentes de desejos e ganhavam caminho com uma rapidez admirável, mas, chegados ao termo, quando se tratava de estender o braço para agarrar o prémio, abandonava-os a força e deixavam-se escorregar até abaixo, no meio das assuadas da multidão. Da primeira vez acontecia como acabo de vo-lo dizer; da segunda vez, poupavam as forças e o fôlego, mas tomando mais tempo, falhavam por irem com demasiado vagar, como antes tinham falhado pela demasiada precipitação; mas à terceira vez, tomavam um meio termo entre a precipitação e o vagar, e venciam. Tal é o plano que medito. Experiências, sempre experiências, que incessantemente nos aproximam do fim desejado até ao dia em que o êxito infalível nos permita alcançá-lo.

Bálsamo cessou de falar e considerou o auditório, onde ferviam todas as paixões da mocidade e da inexperiência.

Falai, irmão – disse ele a Marat, que acima de todos se agitava.

Serei breve – disse ele; – as tentativas adormecem os povos quando os não desanimam. As tentativas, são a teoria de Rousseau, cidadão genebrês, grande poeta, mas génio lento e tímido, cidadão inútil, que Platão expulsaria da sua república! Esperar! Sempre esperar! Desde a emancipação dos comuns, há sete séculos que esperais! Contai as gerações que têm morrido à espera, e atrevei-vos a tomar ainda por divisa do futuro essa fatal palavra: esperar! O Sr. Rousseau fala-nos da oposição, como se fazia antigamente, como se fazia junto dos marqueses e ajoelhado aos pés dos reis. Molière com as suas comédias, Boileau com as suas sátiras, La Fontaine com as suas fábulas. Pobre e débil oposição, que não adiantou sequer um passo a causa da humanidade! As crianças aceitam essas teorias encobertas sem as compreender e adormecem recitando-as. Rabelais também faz política, conforme a entendeis, mas é uma política que faz rir e não emenda. Ora de trezentos anos a esta parte, tendes visto corrigir algum abuso? Basta de poetas! Basta de teóricos! Venham obras, acções! Há três séculos que deixamos a França nas mãos da medicina, é tempo que por sua vez entre com ela a cirurgia com os seus instrumentos afiados. A sociedade tem gangrena, tratemos de a dissipar. O que cercado de luxo e opulência se levanta da mesa para ir deitar-se em fofas almofadas, de que manda varrer as folhas de rosas pelos escravos, pode esperar, porque o estômago satisfeito comunica ao cérebro certos vapores, que o recreiam e beatificam; mas a fome, a miséria, o desespero não se satisfazem nem consolam com estrofes, sentenças e contos. Soltam os agudos gritos dos grandes padecimentos; surdo é aquele que não ouve estas lamentações! Maldito aquele que lhes não responde! Uma revolta, ainda quando devesse ser abafada, levará mais luzes aos espíritos do que mil anos de preceitos, mais do que três séculos de exemplos; esclarecerá os reis, se os não derrubar; é muito, é bastante!

Um sussurro lisonjeiro saiu dos lábios de alguns.

Onde estão os nossos inimigos? – prosseguiu Marat. – Acima de nós, guardam a porta dos palácios, cercam os degraus do trono; nesse trono está o Paládio, que eles guardam com mais cuidados e receios do que o faziam os Troianos. Esse Paládio, que os torna poderosos, ricos, insolentes, é a realeza a que só se pode chegar passando por cima do corpo dos que a guardam, do mesmo modo que para chegar a um general é preciso aniquilar os batalhões que o protegem. Pois bem! De muitos batalhões nos fala a história, que foram aniquiladas, muitos generais têm sido tomados, desde Dario até ao rei João, desde Régulo até Duiguesclin. Derrubemos a guarda, e chegaremos ao ídolo; é necessário bater primeiro as sentinelas, para depois bater os chefes. Aos cortesãos, aos padres, aos aristocratas, seja o primeiro ataque; o derradeiro aos reis. Contai as cabeças privilegiadas: são apenas duzentas mil; passeai com uma espada na mão nesse belo jardim chamado a França, e cortai essas duzentas mil cabeças, como Tarquínio fazia às papoilas do Latium, estará tudo feito; já não tereis senão duas potências em presença uma da outra: povo e realeza. Então que a realeza experimente a luta com o povo, esse gigante, e vereis! Quando os anões querem abater um colosso, começam pelo pedestal, quando os lenheiros querem deitar por terra o carvalho, cortam-no pela raiz. Eia! Peguemos no machado, ataquemos o carvalho pela raiz, e essa árvore anosa, copada, soberba, virá beijar o chão aos nossos pés.

– E caindo sobre vós há-de esmagar-vos como pigmeus, desgraçados! – bradou Bálsamo com uma voz forte. – Ah! Desenfreais-vos contra os poetas, e falais por metáforas mais poéticas e mais figuradas do que as deles! Irmão! Irmão! – prosseguiu ele dirigindo-se a Marat– aprendestes essas frases, eu vo-lo digo, nalgum romance que estudais na vossa água-furtada.

Marat corou.

– Sabeis o que é uma revolução? – continuou Bálsamo. – Tenho visto duzentas, eu, e posso dizer-vo-lo. Vi a do Egipto antigo, vi a da Assíria, as da Grécia, as de Roma, as do Baixo Império. Vi as da Idade Média, em que os povos se deitavam uns aos outros, Oriente sobre o Ocidente, Ocidente sobre o Oriente, despedaçando-se uns aos outros sem se entenderem. Desde a dos reis pastores até aos nossos dias, tem havido cem revoluções talvez. E ainda há pouco vos queixáveis de ser escravos. Então não servem as revoluções de coisa nenhuma. E porquê? Porque aqueles que faziam as revoluções tinham todos a mesma enfermidade; apressavam-se demasiado. Deus, que preside às revoluções do mundo, como o génio preside às revoluções dos homens, nunca se apressa! Derrubai! Derrubai o carvalho, a árvore frondosa! Bradais vós. – E não calculais que o carvalho, ao qual basta um segundo para cair, cobre tanto terreno quando está no chão, que um cavalo a galope não a andaria em menos de trinta segundos. Ora, os que derrubassem o carvalho, não tendo tempo de fugir, estavam perdidos, esmagados, aniquilados debaixo desse imenso corpo. É isso o que pretendeis, não é verdade? Não o alcançareis de mim. Como Deus, tenho sabido viver vinte, trinta, quarenta vezes a vida de um homem. Como Deus, também eu sou eterno. Terei paciência como Deus. O meu destino, o vosso, o do mundo inteiro tenho-o fechado nesta mão. Ninguém me obrigará a abrir contra minha vontade esta mão-cheia de verdades espantosas. É o raio, que ela contém, bem o sei; pois bem! o raio permanecerá nela como na destra omnipotente de Deus. Meus senhores, abandonemos essas alturas demasiado sublimes, e desçamos à Terra.

– Meus senhores, digo-vo-lo com simplicidade e convicção, ainda não é tempo; o raio que está sobre o trono é um último reflexo do grande rei que o povo ainda venera; e nessa majestade que se apaga há alguma coisa que ainda deslumbra bastante para opor aos raios dos vossos pequenos ressentimentos. Este nasceu rei, rei há-de morrer; a sua raça é insolente, mas pura. A sua origem, podeis lê-la na sua fronte, no seu gesto, na sua voz. Há-de sempre ser o rei. Derrubamo-lo e acontecerá o que aconteceu a Carlos I; os seus algozes virão prostrar-se diante dele, e os cortesãos da sua desgraça, como Lorde Capell, beijarão a mão que tiver cortado a cabeça do seu amo.

Ora, meus senhores, vós todos sabeis, a Inglaterra apressou-se. O rei Carlos I morreu no cadafalso, é verdade, mas o rei Carlos II, seu filho, morreu no trono.

Esperai, meus senhores, esperai, porque os tempos vão ser propícios.

Quereis destruir as flores-de-lis? É a divisa de todos nós: Lilia pedibus destrue. Mas é necessário que não fiquem raízes que permitam à flor de S. Luís conservar a esperança de florescer novamente. Quereis destruir a realeza? Esperai que ela deixe de ser um sacerdócio, para ser um ofício; que se não exerça num templo, mas sim numa repartição. Ora, o que há de mais sagrado na realeza, isto é, a legítima transmissão do trono autorizado por Deus e pelos povos desde muitos séculos, está perdido para sempre! Escutai! Escutai! Essa invencível barreira colocada entre nós, que nada somos, e essas criaturas quase divinas, esse limite que nunca os povos ousaram ultrapassar e que chamam a legitimidade, essa palavra brilhante como um farol, e que, até hoje, tem garantido a realeza do naufrágio, essa palavra vai apagar-se com o sopro da misteriosa fatalidade.

A delfina, Chamada à França para perpetuar a raça dos reis pela mistura do sangue imperial, a delfina, casada há um ano com o herdeiro do trono de França… Aproximai-vos, meus senhores, porque receio que o rumor das minhas palavras passe além do nosso círculo.

– Então? – perguntaram com ansiedade os seis chefes.

– Então, senhores, a delfina é ainda virgem!

Um sinistro murmúrio, que teria feito fugir todos os reis do mundo, tanto era o júbilo odiento e o triunfo vingador que encerrava, subiu como um vapor mortal daquele círculo estreito de seis cabeças, que quase se tocavam, dominadas como estavam pela de Bálsamo inclinado sobre elas do alto do seu estrado.

– Neste estado de coisas – prosseguiu Bálsamo – apresentam-se duas hipóteses, ambas igualmente aproveitáveis para a nossa causa:

A primeira é que a delfina fique estéril, e nesse caso extingue-se a raça, e o porvir não deixa aos nossos amigos nem combates, nem dificuldades, nem desordens. Hão-de acontecer a essa raça, já marcada para a morte, o mesmo que aconteceu em França todas as vezes que três irmãos se têm sucedido; o que aconteceu aos filhos de Filipe, o Belo, Luís de Hutin, Filipe, o Longo e Carlos IV, mortos sem posteridade, depois de haverem reinado todos três; o que aconteceu aos filhos de Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, mortos sem posteridade depois de haverem reinado todos três. Como eles, o delfim, o conde de Provença e o conde de Artois hão-de reinar todos três, e todos três hão-de morrer sem filhos, como os outros morreram: é a lei do destino.

E daí, como depois de Carlos IV, o último da raça Capeto, veio Filipe de Valois, colateral dos reis precedentes; como depois de Henrique III, o último da raça dos Valois, veio Henrique IV de Bourbon, colateral da raça precedente; depois do conde de Antois, inscrito no livro da fatalidade como o último dos reis do ramo mais velho, virá talvez algum Cromwell ou algum Guilherme de Orange, estranho, quer à raça, quer à ordem natural de sucessão.

Eis o que a primeira hipótese nos dá.

A segunda, é ,que a delfina não seja estéril. E é nesse laço em que os nossos inimigos vão cair julgando que somos nós os que cairemos. Oh! Se a delfina não fica estéril, se a delfina for mãe, então, quando todos se regozijarem na corte, e julgarem consolidada a realeza em França, poderemos também regozijarmos, porque possuiremos um segredo de tal modo terrível, que nenhum prestígio, nenhum poder, nenhuns esforços poderão suster-se contra os crimes que esse segredo conterá, em vista das desgraças que dessa fecundidade resultarão para a rainha futura; porque esse herdeiro, que ela der ao trono, facilmente o faremos ilegítimo, porque com essa fecundidade facilmente a declararemos adúltera. Tanto que junto dessa fecundidade factícia, que o Céu parecerá ter-lhe concedido, a esterilidade teria sido uma mercê do Céu. Eis aí, meus senhores, o motivo por que me abstenho; eis aí, meus irmãos, o motivo por que espero; eis aí finalmente o motivo por que julgo inútil desenfrear hoje as paixões populares que empregarei eficazmente quando o tempo for chegado.

Agora, meus senhores, sabeis qual foi o trabalho deste ano; vedes o progresso das nossas minas. Ficai portanto persuadidos que só venceremos com o génio e o ânimo de uns, que serão os olhos e a cabeça, a perseverança e o trabalho de outros ainda, que representarão os braços, a fé e a dedicação de outros ainda, que serão o coração.

Penetrai-vos e convencei-vos principalmente da necessidade de uma obediência cega, que faz com que o vosso próprio chefe se imole à vontade dos estatutos da ordem, no dia em que assim o exigirem esses estatutos.

Com isto, meus senhores e amados irmãos, fecharia a sessão, se não tivesse ainda um bem que fazer, um mal que indicar.

O grande escritor que esteve entre nós esta noite, e que seria dos nossos se não fosse o intempestivo zelo de um dos nossos irmãos, que aterrou aquela alma tímida, esse grande escritor, dizia eu, teve razão diante da nossa assembleia, e deploro como grande desgraça que um estranho tenha razão na presença de uma maioria de irmãos que mal conheçam as nossas regras e que não conhecem o nosso fim.

Rousseau, triunfando com os sofismas dos seus livros das verdades da nossa associação, representa um vício fundamental, que eu extirparia a ferro e fogo, se não nutrisse ainda a esperança de o curar pela persuasão. O amor-próprio de um dos nossos irmãos desenvolveu-se desastrosamente. Fez-nos ser vencidos na discussão; nenhum outro caso semelhante se tornará a apresentar, eu o espero, senão ver-me-ei obrigado a recorrer às vias da disciplina.

Agora, meus senhores, propagai a fé pela doçura e a persuasão; insinuai-a, não a imponhais, não a queirais fazer entrar nas almas rebeldes a golpes de malho e de machado, como fazem os inquisidores, por meio dos carrascos. Lembrai-vos que só poderemos ser grandes depois de ser tidos por bons, e só nos considerarão bons se formos melhores do que quanto nos cerca; lembrai-vos ainda que entre nós, os grandes, os bons e os melhores nada são sem a ciência, a arte e a fé; nada, enfim, ao pé daqueles que Deus marcou para dominar os homens e reger um império.

Meus senhores, está fechada a sessão.”

Assim que pronunciou estas palavras, Bálsamo cobriu-se e embuçou-se na sua capa.

Então cada um dos iniciados foi saindo por sua vez, só e silencioso, para não causar suspeitas.

XVIII – O corpo e a alma

O último que não saiu, conservando-se ao pé do mestre, foi Marat, o cirurgião.

Aproximou-se humildemente e muito pálido do terrível orador, cujo poder era ilimitado.

– Mestre – perguntou ele – acaso cometi algum erro?

– Um grande erro, senhor – disse Bálsamo; – e, o que há de pior, é supor não o ter cometido.

– Pois confesso, que não só creio não ter cometido erro, senão que suponho ter falado como cumpria.

– Orgulho! Orgulho! – murmurou Bálsamo; – orgulho, demónio destruidor! Os homens combatem a febre nas veias do enfermo, a peste nas águas e no ar; mas deixam por tal forma arraigar-se-lhes o orgulho nos corações, que lhes não é possível arrancá-lo.

– Oh! Mestre – disse Marat – forma bem triste opinião de mim. Sou eu porventura tão pouca coisa que não me possa contar entre os meus semelhantes? Tão mal colhi eu o fruto dos meus trabalhos, que seja incapaz de dizer uma palavra sem ser tachado de ignorante? Sou eu um adepto tão desastrado que se suspeite da minha convicção? Quando mais não fosse, existo pela minha dedicação à santa causa do povo.

– Senhor – respondeu Bálsamo – é que o princípio do bem luta ainda no seu ânimo contra o princípio do mal, que me parece dever um dia vencê-lo; é por isso, que hei-de tentar emendar esses defeitos. Se tenho de o conseguir, se o orgulho não suplantou já todos os outros sentimentos, há-de ser no breve espaço de uma hora que o consiga.

– Dentro de uma hora? – disse Marat.

– Sim. Quer conceder-me essa hora?

– Certamente.

– Onde poderei encontrá-lo?

– Mestre, é a mim que cabe procurá-lo no lugar que se dignar designar-me.

– Pois então – disse Bálsamo – irei a sua casa.

– Repare a que se obriga, mestre; moro numa água-furtada na Rua dos Cordoeiros. Uma água-furtada, ouve? – disse Marat com afectação de orgulhosa simplicidade, com uma fanfarronada de miséria, que não escapou a Bálsamo – ao passo que o senhor…

– Ao passo que eu?…

– Ao passo que o senhor, mora, segundo dizem, num palácio.

Bálsamo encolheu os ombros, como faria um gigante, que da sua altura medisse as iras de um anão.

– Pois sim, senhor – respondeu – irei procurá-lo à sua água-furtada.

– Quando, senhor?

– Amanhã.

– A que horas?

– De manhã.

– É que ao despontar do dia vou ao meu anfiteatro, e dali ao hospital.

– É exactamente o que eu preciso. Havia de pedir-lhe para me levar lá, se mo não tivesse proposto.

– Mas há-de ser cedo; eu durmo pouco – disse Marat.

– E eu não durmo – respondeu Bálsamo. – Então ao amanhecer.

– Lá o espero.

E separaram-se, porque tinham chegado à porta da rua, tão sombria e solitária à hora da saída quanto povoada e tumultuosa no momento da entrada.

Bálsamo tomou para a esquerda e desapareceu rapidamente.

Marat imitou-o, dirigindo-se para a direita.

Bálsamo foi exacto: no dia seguinte, às seis horas da manhã, batia à porta do patamar que, dentro de um extenso corredor com seis portas, formava o último pavimento de uma casa antiga da Rua dos Cordoeiros.

Conhecia-se que Marat preparara tudo para receber mais dignamente o seu ilustre visitante. O modesto leito de nogueira e a cómoda brilhavam sob o forte esfregar de uma mulher, que sem descansar ,se afadigava com aquela mobília carunchosa.

Marat prestava activo auxílio à mulher e refrescava num pequeno vaso de louça azul as flores pálidas e estioladas, principal ornamento da humilde trapeira.

Conservava ainda debaixo do braço um pano, o que indicava que só tinha ido tratar das flores depois de ter ajudado à limpeza dos trastes.

Como a chave estava na porta e Bálsamo entrou sem bater, surpreendeu Marat nessa ocupação.

Marat, à vista do mestre, corou muito mais do que era permitido a um estóico verdadeiro.

– Vê, senhor – disse ele atirando disfarçadamente para trás de uma cortina o pano revelador – sou amo e ajudo esta boa criatura. Mas escolho o trabalho, o que se não é de bom plebeu, também não é de fidalgo.

– Isso é próprio de um rapaz pobre e asseado – disse Bálsamo friamente – nada mais. Está pronto, senhor? Sabe que não tenho tempo a perder.

– Vou vestir a minha casaca, senhor… Srª. Grivette, dê-me a minha casaca… Esta mulher é minha porteira; serve-me de aia, de cozinheira, de mordomo, e dou-lhe três francos cada mês.

– Louvo muito a economia – disse Bálsamo; – é a riqueza dos pobres e a prudência dos ricos.

– O meu chapéu e a bengala – pediu Marat.

– Estenda o braço – disse Bálsamo; – está aí o seu chapéu, e a bengala que está ao pé dele deve ser a sua.

– Oh! Perdão, senhor, estou tão confuso…

– Está pronto?

– Estou, sim, senhor; o meu relógio, Srª. Grivette.

A Srª. Grivette voltou-se de um lado para o outro, mas não respondeu.

– Para ir ao anfiteatro e ao hospital, senhor, não precisa de relógio; talvez levem muito tempo antes de o achar e demorar-nos-íamos demasiado.

– Entretanto, senhor, estimo muito o meu relógio, que é excelente e eu comprei muito em conta.

– Durante a nossa ausência a Srª. Grivette o procurará – respondeu Bálsamo sorrindo; – e se procurar bem, quando voltar já o terá achado.

– Oh! Certamente – disse a Srª. Grivette – há-de achar-se, se porventura o senhor não o tiver deixado nalguma parte; aqui nada se perde.

– Ouviu? – disse Bálsamo. – Vamos, senhor, vamos.

Marat não quis insistir e seguiu Bálsamo resmungando.

Assim que saíram a porta, Bálsamo perguntou:

– Onde vamos nós primeiro?

– Ao anfiteatro, se o mestre não manda outra coisa; vi um exemplar que deve ter morrido esta noite com uma meningite; tenho que lhe fazer algumas observações no cérebro, e não quero que os colegas mo tirem.

– Pois vamos ao anfiteatro.

– E demais, é a dois passos de distância daqui: o anfiteatro fica ao pé do hospital, é só entrar e sair; pode até esperar por mim à porta.

– Pelo contrário, desejo entrar com o senhor; ouvir a sua opinião sobre o exemplar.

– Quando ele era corpo?

– Não, desde que é cadáver.

– Oh! Cuidado – disse Marat sorrindo; – talvez lhe ganhe um ponto, porque conheço essa parte da minha profissão, e dizem que sou hábil bastante em anatomia.

– Orgulho, orgulho e mais orgulho! – murmurou Bálsamo.

– Que diz? – perguntou Marat.

– Digo que vamos ver isso, senhor – respondeu Bálsamo.

– Entremos.

Marat foi o primeiro que entrou no estreito corredor, que conduzia ao anfiteatro situado no fim da Rua Hautefeuille.

Bálsamo seguiu-o sem hesitar até à sala comprida e estreita onde, sobre uma mesa de mármore, se viam estendidos dois cadáveres, um de mulher, outro de homem.

A mulher morrera muito moça. O homem era velho e calvo; um mau sudário lhes cobria o corpo, deixando-lhes os rostos meios descobertos.

Estavam ambos deitados costas com costas sobre aquele leito gelado, eles que talvez nunca em vida se tivessem visto neste mundo, e cujas almas, peregrinando então na eternidade, bem admiradas deviam estar de ver semelhante intimidade entre os seus restos mortais.

Marat levantou e pôs de parte num só movimento a coberta ordinária e grosseira que cobria os dois desgraçados, que a morte tornara iguais perante o escalpelo do cirurgião.

Os dois cadáveres estavam nus.

– A vista dos mortos não lhe repugna? – perguntou Marat com a costumada fanfarronice.

– Entristece-me – respondeu Bálsamo.

– É por falta de costume – disse Marat. – Eu, como todos os dias vejo esse espectáculo, não me causa tristeza nem repugnância. Nós os cirurgiões, como vivemos com os mortos, não interrompemos por causa deles nenhumas das funções ordinárias da nossa vida.

– É esse um dos tristes privilégios da sua profissão, senhor.

– E daí – acrescentou Marat – por que entristeceria eu, por que me repugnaria isto? Para o primeiro caso tenho a reflexão; para o segundo o costume.

– Explique-me as suas ideias – disse Bálsamo – porque não as compreendo bem. Explique-me primeiramente a reflexão.

– Pois sim. Por que havia eu de assustar-me? Por que teria medo de um corpo inerte, de uma estátua que é de carne em lugar de ser de mármore ou de granito?

– E não há efectivamente nada num cadáver?

– Nada, absolutamente.

– Parece-lhe isso?

– Tenho essa certeza.

– E num corpo vivo?

– Há o movimento – disse Marat triunfantemente.

– E a alma, não fala dela, senhor?

– Nunca a vi nos corpos que tenho retalhado com o meu escalpelo.

– Porque só tem retalhado cadáveres.

– Oh! não, senhor, tenho feito muitas operações em corpos vivos.

– E nada mais tem encontrado neles, do que nos cadáveres?

– Sim, encontrei a dor. É porventura à dor que chama a alma?

– Então não crê nela?

– Em quê?

– Na alma.

– Creio, porque estou no meu direito de lhe chamar o movimento, se assim me aprouver.

– Muito bem; crê na alma, é quanto eu queria saber; estimo que tenha essa crença.

– Espere um pouco, mestre, entendamo-nos, e sobretudo, não exageremos – disse Marat com o seu sorriso de víbora. – Nós cá, os cirurgiões, somos um pouco materialistas.

– Estes corpos estão bem frios – disse Bálsamo pensativo – e esta mulher era bem formosa.

– Sim, sim.

– Uma bela alma teria certamente ficado bem em tão belo corpo.

– Ah! Aí está onde reside o erro do que a criou. Bela bainha, má folha. Este corpo, senhor, era de uma meretriz, que saiu de S. Lázaro para vir morrer de uma inflamação do cérebro no hospital. A sua crónica é longa e sofrivelmente escandalosa. Se chama alma ao movimento, que punha em acção esta criatura, ofende as nossas almas, que devem ser da mesma essência, visto que provêm da mesma origem.

– Alma que se deveria ter curado – disse Bálsamo e que se perdeu por falta do único médico indispensável, o médico da alma.

– Ai, mestre, aí está mais uma das suas teorias! Médicos só há os do corpo – respondeu Marat com um amargo sorriso. – E repare, mestre, que tem neste momento nos lábios uma palavra que Molière empregou muitas vezes nas suas comédias, e é essa palavra que o faz sorrir.

– Não – disse Bálsamo – engana-se, e não pode saber o motivo deste sorriso. Por agora, o que concluímos é que estes cadáveres estão vazios, não é verdade?

– E insensíveis – disse Marat levantando um pouco a cabeça da mulher e deixando-a de novo cair no mármore, sem que o corpo se movesse nem estremecesse.

– Muito bem – disse Bálsamo – vamos agora ao hospital.

– Um momento, mestre, deixe-me primeiro separar do tronco esta cabeça que desejo possuir para certas observações, porque foi a sede de uma enfermidade muito curiosa. Dá licença?

– Pois não – disse Bálsamo.

Marat abriu o seu estojo, tirou dele um bisturi e foi buscar a um canto da casa um grande malho de pau todo cheio de nódoas de sangue.

Então, com mão segura, fez um grande corte circular, que separou toda a carne e todos os músculos do pescoço; e daí, chegado ao osso, meteu o bisturi entre duas juntas da coluna vertebral, e bateu em cima com o malho uma pancada forte.

A cabeça rolou por sobre a mesa e caiu para o chão; Marat viu-se obrigado a ir apanhá-la com as mãos húmidas de sangue.

Bálsamo voltou a cara para o lado para não regozijar o triunfador.

– Algum dia – disse Marat, que julgava apanhar o mestre em fraqueza – algum dia aparecerá algum filósofo que se há-de ocupar da morte como os outros se ocupam da vida; há-de achar uma máquina que há-de assim desligar a cabeça com um só golpe, e que tornará a aniquilação instantânea, o que se não consegue com nenhum dos outros géneros de morte; a roda, o esquartejamento, a forca, são suplícios próprios de bárbaros e não de homens civilizados. Uma nação esclarecida como a França, deve castigar e não vingar-se. Porque a sociedade que roda, enforca ou esquarteja vinga-se do criminoso com o padecimento, antes de o castigar com a morte, o que é de mais, segundo a minha opinião.

– E segundo a minha também, senhor. Mas que espécie de instrumento quer dizer?

– Uma espécie de máquina fria e impassível como a lei; o homem encarregado de castigar, impressiona-se à vista do seu semelhante, e muitas vezes erra o golpe como aconteceu com Chalais e com o duque de Moramouth. Não aconteceria isso com uma máquina formada de dois braços, que fizessem mover um cutelo, por exemplo.

– E o senhor julga que pelo motivo de passar esse cutelo com a rapidez do raio entre a base do occipital e os músculos trapézios, julga que por isso a morte seria instantânea e a dor rápida?

– A morte seria instantânea, não há dúvida, pois que o ferro cortaria com um só golpe os nervos que dão o movimento. A dor seria rápida, porque o ferro separaria o cérebro, que é a sede dos sentimentos, do coração, que é o centro da vida.

– Senhor – disse Bálsamo – o suplício da decapitação existe na Alemanha.

– Sim, mas com a espada, e eu já lhe disse que a mão do homem pode tremer.

– Na Itália existe uma máquina semelhante; uns braços de pau fazem-na mover e chamam-lhe a mannaja.

– E então?

– Então, senhor, vi criminosos decapitados pelo carrasco levantaram-se do banco em que estavam sentados, e cambaleando irem cair a dez passos de distância. Apanhei as cabeças que caíam da mannaja, como ainda há pouco caiu de cima da mesa de mármore essa cabeça que tem segura pelos cabelos, e pronunciando-lhe ao ouvido o nome com que em vida tinha sido baptizada, vi abrirem-se os olhos e revolverem-se nas órbitas, procurando ver quem era que da terra os chamava nessa transição da vida para a eternidade.

– É um movimento nervoso, nada mais.

– Não são os nervos os órgãos da sensibilidade?

– O que pretende concluir daí, senhor?

– Concluo que seria preferível, em lugar de inventar uma máquina que mate para castigar, que o homem inventasse um meio de castigar sem matar. Há-de ser a melhor e a mais ilustrada das sociedades, acredite no que lhe digo, a que descobrir esse meio.

– Utopia! Sempre utopia! – disse Marat.

– Desta vez tem talvez razão – disse Bálsamo; – o tempo nos esclarecerá… Não me tinha falado do hospital?… Vamos lá!

– Vamos! – disse Marat.

E embrulhou cuidadosamente a cabeça da mulher no lenço de assoar, atando-o pelas pontas.

– Agora – disse Marat saindo – tenho a certeza de que os meus condiscípulos só apanharão os caídos.

Dirigiram-se para o hospital, caminhando um a par do outro.

– Cortou essa cabeça com muita frieza e habilidade, senhor – disse Bálsamo; – tem menos comoção quando se trata dos vivos do que com os mortos? O padecimento condói-o mais do que a imobilidade? Tem mais piedade dos corpos que dos cadáveres?

– Não, porque seria uma fraqueza, como a seria no carrasco que se deixasse impressionar. Tanto se mata um homem cortando-lhe mal uma perna, como cortando-lhe mal a cabeça. Um bom cirurgião deve operar com a mão e não com o coração, porque tem a consciência de que por um instante de sofrimento dá anos de vida e saúde, e é esse o lado bom da nossa profissão, senhor.

– Muito bem; mas nos vivos encontra a alma, não é assim?

– Sim, se quer concordar comigo que a alma seja o movimento ou a sensibilidade; sim, decerto que a encontro, e bem incómoda mesmo, porque mata mais doentes do que o meu escalpelo.

Tinham chegado à porta do hospital. Entraram. Pouco depois, guiado por Marat, que não abandonara o sinistro fardo, pôde Bálsamo penetrar na sala das operações, invadida pelo cirurgião em chefe e pelos discípulos de cirurgia.

Os enfermeiros acabavam de trazer um rapaz, que na semana antecedente tinha sido atropelado por uma carruagem, a qual, passando-lhe sobre um pé, lho esmagara.

Uma primeira operação feita à pressa no membro adormecido pela dor não fora bastante, porque o mal desenvolvera-se rapidamente e fora julgada inevitável a amputação da perna.

Aquele desgraçado, estendido no seu leito de angústias, olhava com um terror capaz de abrandar tigres para aquele bando de esfaimados, que esperavam o momento do seu martírio, da sua agonia talvez, para estudar a ciência da vida, fenómeno maravilhoso, por detrás do qual se oculta o sombrio fenómeno da morte.

Parecia pedir a cada cirurgião, a cada discípulo, a cada enfermeiro uma consolação, um sorriso, uma carícia; mas só via por toda a parte a indiferença com o seu coração, o aço com os seus olhos.

Um resto de ânimo e de orgulho conservava-o mudo. Reservava todas as suas forças para os gritos que a dor ia em breve arrancar-lhe.

Entretanto, quando sentiu nos ombros a mão pesadamente amável do enfermeiro, quando sentiu os braços dos ajudantes enroscarem-se em torno do seu corpo como as serpentes de Lacoonte, quando ouviu a voz do operador dizer-lhe: ânimo! atreveu-se o infeliz a interromper o silêncio e a perguntar com voz tímida:

– Padecerei muito?

– Não! Esteja sossegado – respondeu Marat com um sorriso falso, suave para o enfermo, irónico para Bálsamo.

Marat viu que Bálsamo o tinha percebido; aproximou-se dele, e em voz baixa disse-lhe:

– É uma operação terrível; o osso está todo partido é de uma sensibilidade aterradora.  Não morre do mal, mas da dor; e aí está de que serve a alma àquele ser vivo.

– Então por que motivo lhe faz a operação? Por que não o deixa morrer sossegadamente?

– Porque é obrigação tentar a cura, ainda que pareça impossível.

– E diz que há-de padecer?

– Horrivelmente.

 – Por causa da alma?

– Por causa da alma, sim, que tem muita ternura pelo corpo.

– Então por que não opera sobre a alma? O sossego da alma seria talvez a cura do corpo.

– É o que acabo de fazer – disse Marat, enquanto continuavam a ligar o corpo do infeliz.

– Preparou-lhe a alma?

– Sim.

– De que modo?

– Como se faz, com palavras. Falei à alma, à inteligência, à sensibilidade, à coisa que fez dizer ao filósofo grego: “Dor, tu não és um mal” que é a linguagem que convém a essa coisa. Eu disse-lhe: “Não sofrerás”. Depende agora da alma não sofrer, é da sua competência. É este o remédio até hoje conhecido, quanto às questões da alma: mentira! Também não sei porque há-de o diabo da alma andar ligada ao corpo! Há pouco, quando cortei aquela cabeça, o corpo nada disse, e contudo a operação era grave. Mas, como não havia de ser assim! O movimento tinha cessado, tinha-se apagado a sensibilidade, a alma tinha voado, como dizem os espiritualistas. Aí está, porque se não queixou a cabeça que cortei, aí está porque o corpo que há pouco decapitei não me opôs resistência; ao passo que este, em que a alma habita ainda, verdade é que por pouco tempo, mas enfim em que ainda habita, vai, dentro de alguns instantes, soltar gritos terríveis. Tape bem os ouvidos, mestre. Tape-os bem, o senhor, que é sensível a essa conexidade das almas e dos corpos, que há-de matar sempre a sua teoria, até ao dia em que ela tiver conseguido isolar o corpo da alma.

– E julga que nunca se conseguirá esse isolamento?

– Experimente – disse Marat – a ocasião é óptima.

– Pois bem, sim, tem razão – disse Bálsamo – a ocasião é óptima, e eu vou experimentar.

– Pois experimente.

– Experimento, sim.

– E como?

– Não quero que aquele rapaz padeça, interessa-me muito.

– É um ilustre chefe – disse Marat – mas nem é o Deus padre, nem o Deus filho, e não poderá impedir que aquele homem padeça.

– E se ele não padecesse, julga que seria possível curar-se?

– Seria provável, mas não é certo.

Bálsamo lançou sobre Marat um inexplicável olhar de triunfo, e colocando-se diante do jovem enfermo, cujos olhos espantados e já exprimindo angústia e terror se encontraram com os dele, disse-lhe:

– Durma!

Esta ordem não foi dada só com a boca, senão também com o olhar, com a vontade, com todo o calor do seu sangue, com todo o fluido do seu corpo.

Neste momento o cirurgião principal começava a apalpar a perna do doente, e a fazer observar aos discípulos a intensidade do mal.

Mas, à ordem de Bálsamo, o rapaz, que se tinha sentado na cama, oscilou um instante nos braços dos ajudantes, inclinou a cabeça e fechou os olhos.

– Perde os sentidos – disse Marat.

– Não, senhor.

– Pois não vê que perdeu os sentidos?

– Não perdeu, dorme.

– Como, dorme?

– Dorme, sim.

Voltaram-se todos para o estranho médico que tomaram por doido.

Um sorriso de incredulidade passou pelos lábios de Marat.

– É costume falar-se durante um desmaio? – perguntou Bálsamo.

– Não, senhor.

– Pois então, interrogue-o, que ele lhe responderá.

– Eh! Rapaz! – bradou Marat.

– Oh! Não precisa gritar tanto – disse Bálsamo-; fale em tom natural.

– Diga-nos o que tem?

Mandaram-me dormir, e eu durmo – respondeu o enfermo.

A voz era perfeitamente sossegada e fazia contraste com a que pouco antes se tinha ouvido.

Os que estavam presentes olharam uns para os outros.

– Agora – disse Bálsamo – tire-lhe todas as ligaduras.

– Isso não pode ser – disse o cirurgião em chefe – um único movimento que ele faça pode prejudicar a operação.

– Não se há-de mover.

– Quem me dá essa certeza?

– Eu e ele. Perguntem-lho.

– Podem deixá-lo sem ligaduras, meu amigo?

– Podem.

– Promete não fazer movimento algum?

– Prometo, se assim o ordenam.

– Ordeno-o eu.

– Por minha alma – disse o cirurgião em chefe – fala com uma tal certeza, que estou tentado a fazer a experiência.

– Faça, e não receie coisa alguma.

– Tirem as ligaduras – disse o cirurgião em chefe.

Os ajudantes obedeceram.

Bálsamo foi colocar-se à cabeceira do leito.

– A começar deste momento – disse ele – não faça movimento algum sem que eu lho ordene.

Uma estátua deitada sobre um túmulo não seria mais imóvel do que ficou o enfermo depois desta ordem.

– Agora, faça a operação, senhor – disse Bálsamo; – o enfermo está perfeitamente disposto.

O cirurgião pegou no escalpelo; no momento porém de servir-se dele, hesitou.

– Corte, senhor, corte, digo-lho eu – bradou Bálsamo com o modo de um profeta inspirado.

Aquele, dominado como Marat, como o doente, como todos os circunstantes, chegou o aço à carne.

A carne rangeu, mas o enfermo não soltou um suspiro, não fez um movimento.

– De que terra é, meu amigo? – perguntou Bálsamo.

– Sou bretão, senhor – respondeu o rapaz sorrindo.

– E gosta da sua terra?

– Oh! Senhor, a Bretanha é tão formosa!

Durante este tempo o cirurgião dava os golpes circulares por meio dos quais, nas amputações, se começa por descobrir o osso.

– Veio de lá muito novo? – perguntou Bálsamo.

– Tinha dez anos, senhor.

Os golpes estavam dados, o cirurgião aproximava a serra do osso.

– Meu amigo – disse Bálsamo – cante aquela canção que os trabalhadores das marinhas de Batz costumam cantar à noite, quando recolhem a casa. Só me lembro do primeiro verso:

“Meu sal d’escuma coberto.”
A serra mordia o osso.

Mas ao convite que Bálsamo lhe fizera, o enfermo sorriu e começou a cantar melodiosa e lentamente, em êxtase, como um amante ou um poeta:

Meu sal descuma coberto,
Meu lago da cor do céu,
Meu forno ardente aberto;
Meu pão que Deus me deu;

Minha esposa e meu pai,
Meus filhos muito amados;
Os manes de minha mãe
De giestas perfumados;

Eu vos saúdo! Do dia
Terminou a lida, a dor:
Depois da pena, alegria,
Depois da ausência, amor.

Já a perna caía cortada na cama, e ainda o pobre rapaz cantava.

(…)

Fonte

  • Alexandre Dumas – Memórias de um médico – Joseph Bálsamo (Vol. IV)

Um agradecimento ao Irmão Alberto Trovão do Rosário, Antigo Grão-Mestre da GLLP/GLRP, por me ter indicado este excelente texto

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