A iniciação simbólica do candidato a Aprendiz Maçom (I)

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iniciação

Considerações preliminares

A cerimónia através da qual são recebidos os candidatos na nossa Ordem, é uma pura fórmula arbitrária ou existe nela um significado e uma importância que escapam à observação superficial, e se revelam a uma consideração mais cuidadosa e a um estudo mais profundo?

Está pergunta cada Maçom tem o privilégio de responder individualmente na proporção do seu entendimento, e a iniciação, assim como a Maçonaria de modo geral, serão para ele o que ele mesmo nelas reconhecer e realizar. Será esta uma sociedade mundana, e aquela uma simples cerimónia exterior, para quem as considerar com espírito profano e mundano. Será uma Instituição Iniciática e uma cerimónia simbólica (cuja compreensão despertará o seu espírito) para quem a estudar e considerar com o propósito de encontrar a verdade: Realidade profunda que constantemente se oculta sob a aparência exterior das coisas.

Para isto é necessário examinar e estudar os diferentes elementos que compõem esta cerimónia, buscando o íntimo significado de cada um deles e o seu valor em termos de vida, para aplicação operativa no místico Caminho da existência ao qual deve ser relacionado, para que a cerimónia possa ser individualmente vivida e realizada, e para que aquele que foi recebido Maçom, de uma forma puramente formal e simbólica, se torne efectivamente isso, transformando-se, com o esforço individual, de pedra bruta em pedra lavrada ou filosófica, do estado de homem escravo dos seus vícios, erros e paixões, em Obreiro Iluminado da Inteligência Criativa que mora no seu coração, e no do mundo exterior.

Por intermédio deste estudo veremos como as duas características fundamentais da nossa Instituição (a iniciática e simbólica) estão perfeitamente expressas na cerimónia de recepção do Aprendiz, e como, neste grau, se resume todo o programa da Maçonaria. Assim, na mesma cerimónia, encontram-se alegoricamente reunidos todos aqueles elementos cuja íntima compreensão e prática realização fazem operativa a cerimónia da iniciação.

Significado da Iniciação

Ao alcançarmos este ponto, a primeira coisa que se faz necessária é compreender o significado da palavra iniciação e como deve ser interpretada.

Iniciação é uma palavra oriunda do latim initiare, que tem a mesma etimologia de initium, “início ou começo”, provindo as duas de interesse, “ingresso em” e de “começo ou princípio de” uma nova coisa. Por outras palavras, iniciação é a porta que conduz a entrar num novo estado moral ou material, no qual se inicia ou começa uma nova maneira de ser ou de viver.

Este novo estado, esta maneira de ser e viver, é que caracterizam o “iniciado” e o distinguem do profano, enquanto o primeiro, tendo nele ingressado, conhece-o por dentro, enquanto fica fora dele, fora do Templo da Sabedoria ou de um real conhecimento da Verdade e da Virtude, das quais reconhece unicamente os aspectos profanos ou exteriores que constituem a moeda corrente do mundo.

Assim pois, esta admissão não é nem pode considerar-se unicamente como material; não é nem ser e somente a recepção ou aceitação de uma determinada associação, ao contrário, deve considerar-se, inicial e fundamentalmente, como o ingresso num novo estado de consciência, e num modo de ser interior, do qual a vida exterior é efeito e consequência.

É necessária, por outros termos, uma palingenesia, um nascimento ou renascimento interior, uma transformação ou transmutação do íntimo estado do nosso ser, para efectivamente iniciar-se, ou ingressar numa nova visão da realidade: aquela nova maneira de pensar, viver, falar e agir que caracteriza o Iniciado e o Maçom verdadeiro.

Por esta razão, o símbolo fundamental da iniciação é o da morte, como preliminar para uma nova vida; a morte simbólica para o mundo ou para o estado “profano” necessário para o renascimento iniciático; ou seja a negação dos vícios, erros e ilusões que constituem os “metais” grosseiros ou qualidades inferiores da personalidade, para a afirmação da Verdade e da Virtude, ou da íntima Realidade, que constitui o ouro puro do Ser, a Perfeição do Espírito que em nós habita e se expressa nos nossos Ideais e nas Nossas Aspirações Mais Elevadas.

A Câmara das Reflexões

A Câmara das reflexões não representa unicamente a preparação preliminar do candidato para a sua recepção, mas é principalmente aquele ponto crítico, aquela crise interior, onde começa a palingenesia que conduz à verdadeira iniciação, à realização progressiva, ao mesmo tempo especulativa e operativa, do nosso ser e da Realidade Espiritual que nos anima, simbolizada pelas viagens.

A Câmara das reflexões, com o seu isolamento e com as suas negras paredes, representa um período de obscuridade e de maturação silenciosa da alma, por meio de uma meditação e concentração em si mesma, que prepara o verdadeiro progresso efectivo e consciente que depois tornar-se-á manifesto à Luz do dia. Por esta razão, encontram-se nela os emblemas da morte e uma lâmpada sepulcral, e acham-se sobre as suas paredes, inscrições destinadas a pôr à prova a sua firmeza de propósitos e a vontade de progredir que tem de ser selada num testamento.

Ao ingressar neste quarto (símbolo evidente de um estado de consciência correspondente), o candidato tem de despojar-se dos metais que porta consigo e que o Experto recolhe cuidadosamente. Tem de voltar ao seu estado de pureza original – a nudez adâmica – despojando-se voluntariamente de todas aquelas aquisições que lhe foram úteis para chegar até ao seu estado actual, mas que constituem outros tantos obstáculos para o seu progresso ulterior.

Deve cessar de depositar a sua confiança e cobiça nos valores puramente exteriores do mundo, para poder encontrar em si mesmo, realizar e tornar efectivos os verdadeiros valores, que são os morais e espirituais. Deve cessar de aceitar passivamente as falsas crenças e as opiniões exteriores, com o objectivo de abrir o seu próprio caminho para a verdade.

Isto não significa absolutamente que tem de despojar-se de tudo o que lhe pertence e adquiriu como resultado dos seus esforços e prémio do seu trabalho, mas, unicamente, que deve deixar de dar a estas coisas a importância primária que pode torná-lo escravo ou servidor delas, e que deve pôr, sempre em primeiro lugar, sobre toda a consideração material ou utilitária, a fidelidade aos Princípios e às razões espirituais. Este despojo tem por objectivo conduzir-nos para sermos livres dos laços que de outra forma impediriam todo o nosso progresso futuro. Trata-se, portanto, em essência, do despojo de todo apego às considerações e laços exteriores, com a finalidade de que possamos ligar-nos à nossa íntima Realidade Interior, e abrir-nos à sua mais livre, plena e perfeita expressão.

“Livre e de bons costumes”

Ser “livre e de bons costumes” é a condição preliminar que é pedida ao profano para poder admiti-lo na nossa Ordem, condição necessária tanto de todo progresso moral como espiritual, de toda evolução na senda da Verdadeira Luz, ou ainda, da Verdade e da Virtude.

Livre dos preconceitos e dos erros, dos vícios e das paixões que embrutecem o homem e fazem dele um escravo da fatalidade. De bons costumes por ter orientado a sua vida para aquilo que é mais justo, mais elevado e perfeito. Estas duas condições tornam latente em cada homem a qualidade do Maçom e a possibilidade de fazer-se ou “ser feito” como tal, enquanto na sua plenitude, o caracteriza essa mesma qualidade. Na medida da sua liberdade interior e da orientação ideal da sua vida, o homem é e “se faz” um verdadeiro Maçom, um obreiro da Inteligência Construtora do Universo.

O despojo dos metais é assim, o despojo voluntário da alma, das suas qualidades inferiores, dos seus vícios e paixões, dos apegos materiais que turvam a pura – luz do Espírito; o abandono das qualidades e aquisições que brilham com luz ilusória na inteligência e impedem a visão da Luz Maçónica, a Realidade que sustenta o Universo e o constrói incessantemente.

O intelectual deve igualmente despojar-se das suas crenças e preconceitos, as crenças e prejulgados científicos e filosóficos tanto quanto as superstições e preconceitos religiosos e vulgares, para que diante dos seus olhos possa abrir-se o Caminho da Luz e da Verdade, aonde prepara para assentar os seus pés.

Como o Maçom deve aprender a pensar por si mesmo, atingindo a certeza e o conhecimento directo da Verdade, de nada lhe servem as crenças e prejulgados que constituem a moeda corrente do mundo, as aquisições materiais, como as quais nunca a Verdade pode ser paga ou comprada, e a qual o Maçom deve alcançar pelo seu esforço individual.

Significado da Câmara

A Câmara de reflexões, como o seu nome o indica, representa antes de tudo aquele estado de isolamento do mundo exterior que é necessário para a concentração ou reflexão íntima, com a qual nasce o pensamento independente e é encontrada a Verdade. Aquele mundo interior para o qual devem dirigir-se os nossos esforços e as nossas análises para chegar, pela abstracção, a conhecer o mundo transcendente da Realidade. É o “gnothi seautón” ou “conhece-te a ti mesmo” dos iniciados gregos e hindus, como único meio directo e individual para poder chegar a conhecer o Grande Mistério que nos circunda e envolve o nosso próprio ser.

Isto, e a cor negra do quarto, trazem-nos à mente a antiga fórmula alquímica e hermética do Vitríolo: “Visita Interiora Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem“, Visita ao interior da Terra: rectificando encontrarás a pedra escondida”. Isto é: desce às profundezas da terra, sob a superfície da aparência exterior que esconde a realidade interior das coisas e a revela; rectificando teu ponto de vista e tua visão mental com o esquadro da razão e o discernimento espiritual, encontrarás aquela pedra oculta ou filosofal que constitui o Segredo dos Sábios e a verdadeira Sabedoria.

A representação da Verdade final e fundamental por uma pedra, não demonstra nada de estranho se imaginarmos que deve constituir a base sobre a qual descansa o edifício dos nossos conhecimentos, que transformar-se-á na Igreja ou Templo das nossas aspirações, e o critério ou medida sobre a qual, e a cuja imagem, devem enquadrar-se ou rectificar-se todos os nossos pensamentos.

Os ossos e as imagens da morte que se encontram representadas nas paredes da câmara, além de indicar a morte simbólica que é pedida ao candidato para que complete o seu novo nascimento, mostram os fragmentos esparsos e desunidos da Realidade morta e dividida na aparência exterior, cuja Vida e Unidade ele deverá buscar e encontrar interiormente, reconhecendo-a sob a aparência e dentro dela.

O grão de trigo

O quarto de reflexões constitui a prova da terra – a primeira das quatro provas simbólicas dos elementos – e, através da sua analogia, conduz-nos aos Mistérios de Elêusis, nos quais o iniciado era simbolizado pelo grão de trigo atirado e sepultado no solo, para que germinasse abrisse, pelo seu próprio esforço, um caminho para a luz.

A semente, na qual se encontra em estado latente ou potencial toda a planta, representa muito bem as possibilidades latentes do indivíduo que devem ser despertadas e manifestadas à luz do dia, no mundo dos efeitos. Todo ser humano, é, efectivamente, um potencial espiritual ou divino, idêntico ao potencial latente da semente, que deve ser desenvolvido ou reduzido à sua mais plena e perfeita expressão, e este desenvolvimento é comparável, em todos os sentidos, ao desenvolvimento natural e progressivo de uma planta.

Assim como a semente, para poder germinar e produzir a planta, deve ser abandonada ao solo, onde morre como semente, enquanto o germe da futura planta começa a crescer, assim também, o homem, para manifestar as possibilidades espirituais que nele se encontram em estado latente, deve aprender a concentrar-se no silêncio da sua alma, isolando-se de todas as influências externas, morrendo para os seus defeitos e imperfeições a fim de que o germe da Nova Vida possa crescer e manifestar-se.

Uma vez que o Germe espiritual, a Divina Semente do nosso ser, é imortal e incorruptível, esta morte – como toda forma de morte, sob um ponto de vista mais profundo – é simplesmente o despojo de uma forma imperfeita e a superação de um estado de imperfeição, que foram no passado um degrau indispensável ao nosso progresso, mas que a actualidade transformaram-se numa limitação e ao mesmo tempo numa necessidade; na oportunidade e na base para um novo passo adiante.

Esta imperfeição ou limitação que deve ser superada – os estreitos limites em que se acha enclausurado o nosso pensamento e o nosso ser espiritual pelos erros e falsas crenças assimiladas na educação e na vida profana – é o que simboliza a casca da semente, produzida por esta como protecção necessária no seu período de crescimento, e inteiramente análoga à casca mental do nosso próprio carácter e personalidade.

O pão e a água

Esta semente, que deve morrer na terra para produzir a nova vida da planta, cuja perfeição encerra em estado potencial, morreu efectivamente no pão que está sobre a mesa da câmara de reflexões, para simbolizá-la. Esta pão, representa além disso a substância que constitui o meio pelo qual a vida se manifesta em todas as suas formas, a matéria prima continuamente o mecanismo incessante da renovação orgânica, passando de um a outro estado, de uma a outra forma de existência.

Ao lado do pão, encontra-se um copo com água, ou seja aquele elemento húmido – outro aspecto da própria Substância Mãe – que é factor e condição indispensável de crescimento, germinação, maturação, reprodução e regeneração. Como a Vénus Anadiómera, que se transforma em Vénus Genitrix; a Mãe Universal, também a Vida somente pode nascer do seio das águas, enquanto que a terra mitologicamente simbolizada por Géa e Deméter (às quais estavam consagradas os Mistérios de Elêusis) converte-se na nutris.

Estas duas formas complementares da Substância Una, actuam constantemente uma sobre a outra, como podemos observar em todos os processos biológicos; no seu estado primitivo, o pão representa o carbono que sob a forma de ácido carbónico, é encontrado na atmosfera, e que a vida vegetal transforma nos hidrocarbonatos, substâncias básicas que constituem todas as partes da planta, das quais nascem posteriormente as proteínas. Todas estas produções necessitam como base o elemento húmido, que pode comparar-se à Matriz – Templo e Oficina de toda a actividade orgânica.

Finalmente, o pão e a água possuem moralmente fundamentos de sobriedade e sensibilidades indispensáveis para a vida do iniciado, e juntamente com o despojo dos metais, este demonstra o seu discernimento, que o faz buscar unicamente o essencial – os verdadeiros Valores da existência, que só nos podem dar paz, felicidade e satisfação, fazendo-se factores do nosso progresso interior em Sabedoria e Virtude -, eliminando todas as superfluidades e complicações da vida profana, em cuja busca o homem ordinário perde as suas melhores energias.

O sal e o enxofre

Uma vasilha de sal e uma de enxofre encontram-se também sobre a mesa, junto com o pão e a água. Ainda que o primeiro seja habitualmente conhecido como um condimento, a sua associação simbólica com o segundo não deixa de parecer algo estranho e misterioso. O que significam pois, estes dois novos elementos, este novo casal hermético, que se une ao anterior?

Trata-se de um novo tema de meditação que é apresentado ao candidato, sobre os meios e elementos com os quais deve se preparar para uma nova Vida, iluminada pela Verdade e concebida, activa e fecunda com a prática da Virtude, a que se referem o Enxofre e o Sal na sua mais elevada acepção.

Como tal, indica o primeiro a Energia Activa, que se torna a Força Universal, o princípio criador e a electricidade vital que produzem e animam todo crescimento, expansão, independência e irradiação. Enquanto que o segundo é o princípio atractivo que constitui o magnetismo vital, a força conservadora e fecunda que inclina à estabilidade e produz toda maturação, a capacidade assimilativa que tende para a cristalização, o princípio da resistência e a reacção centrípeta que se opõe à acção activa da força centrífuga.

Assim pois, da mesma maneira que no pão e na água vimos os dois aspectos da Substância cósmica e vital, nestes dois novos elementos temos os dois aspectos ou polaridades da Energia Universal, dirigido o primeiro de dentro para fora, aparecendo exteriormente como direito (ou destro), e o segundo de fora para dentro, manifestando-se como esquerdo (ou sinistro).

São respectivamente, rajas tamas – os dois primeiros gunas (ou qualidades essenciais) da filosofia hindu -, e o impulso altivo que produz toda mudança e variação, e engendra no homem o entusiasmo e o amor à actividade, o desejo e a paixão. A tendência passiva para a inércia e a estabilidade é inimiga de mudanças e variações, produzindo no nosso carácter, firmeza e persistência, e com o seu domínio da mente, a ignorância, a inconsciência e o sentido da materialidade, que nos prendem às necessidades e preocupações exteriores e aos instintos destinados à protecção da vida nas suas primeiras etapas.

O primeiro impele-nos constantemente para cima e para a frente, anima-nos e nos dá firmeza em todos os nossos passos, dá-nos o ardor, a iniciativa, o espírito de conquista, a vontade e a capacidade de satisfazer os nossos desejos e conseguir o objectivo das nossas aspirações; mas, dá-nos também, a inquietude, a inconstância e o amor das mudanças e novidades, a impulsividade que nos inclina para acções inconsideradas, fazendo-nos recolher frutos maduros e perder os melhores e mais desejáveis resultados dos nossos esforços.

O segundo é aquele que nos refreia e desalenta; faz com que nos recolhamos em nós mesmos, dá-nos o temor e a reflexão, faz-nos abraçar e estabelecer igualmente o erro e a verdade, os hábitos viciosos e virtuosos faz-nos fiéis e perseverantes, firmes na nossa vontade e tenazes nos nossos esforços; dá-nos a capacidade de atrair aquilo com o que estamos interiormente sintonizados pelos nossos desejos, pensamentos, convicções e aspirações. Dá-nos a desilusão e o discernimento, afasta-nos das mudanças e de toda acção irreflectida, mas também, de todo progresso, esforço e superação.

São as duas colunas ou tendências que se achar constantemente ao nosso lado, em cada um dos nossos passos sobre o caminho da existência, e a nossa felicidade, paz e progresso efectivo baseiam-se na nossa capacidade de manter em cada momento um justo e perfeito equilíbrio entre estas tendências opostas, conservando-nos a igual distância de uma e de outra, sem deixar que nenhuma das duas adquira um predomínio indevido sobre nós, mas que trabalhem em perfeita harmonia, dando-nos, cada uma delas, as suas melhores qualidades: o ardor reflexivo e a paciência iluminada, o entusiasmo perseverante e a serenidade inalterável, o esforço vigilante e a firmeza incansável, que também simbolizam sobre a parede da câmara, o galo e a clepsidra.

O mercúrio vital

A acção e interacção entre estas duas tendências opostas, é pois, destinada a produzir em nós, activando o estado latente que se encontra dentro do nosso Germe Espiritual, o mercúrio vital ou princípio da Inteligência e Sabedoria, que corresponde ao salva da filosofia hindu: o ritmo da natureza, produzido pela lei de Harmonia e Equilíbrio.

O pensamento em todos os seus aspectos, nasce pois, naturalmente no indivíduo, da acção e relação entre as suas tendências activas e passivas, entre o amor e o ódio, a atracção e a repulsão, a simpatia e a antipatia, o desejo e o temor. Cresce e adquire sempre maior força, independência e vigor quando lutam entre si o instinto e a razão, a vontade e a paixão, o entusiasmo e a desilusão. Eleva-se e floresce, sempre mais livre, claro e luminoso, conforme aprende a seguir os seus ideais e aspirações mais elevadas, e quando estas conseguem sobrepor-se à sua ignorância, erros e temores, assim como às demais tendências passionais e instintivas.

Em outros termos, o pensamento nasce, cresce, se eleva e sublima, conseguindo alcançar horizontes sempre mais altos, amplos e iluminados, conforme predomine na mente e em toda a personalidade o elemento ou vibração sátvica, o princípio do equilíbrio e da harmonia, que produz a Música das Esferas e engendra toda a criação e concepção caracterizada por sua genialidade e formosura. Pois este mercúrio sublimado é o único que pode perceber a Verdadeira Luz, que se torna, com o seu reflexo mental luz criadora, simbolizada pela Vénus Celestial, antiga divindade da Luz, e portanto da beleza que a acompanha.

O fogo rajásico, aceso no homem, inicialmente pelos desejos e paixões, e depois pela vontade, o entusiasmo e as suas mais nobres aspirações (que constituem o enxofre nos os seus diferentes aspectos), agindo sobre a substância tamásica dos instintos, temores e tendências conservadoras (o sal da reflexão), que constitui a matéria-prima do nosso carácter, faz fermentar, ferver e sublimar esta massa heterogénea no crisol da vida individual, produzindo finalmente esse mercúrio refinado ou elemento sátvico, ou seja a Sabedoria, nascida da transmutação – por meio da sublimação e refinamento – da ignorância, do erro, do temor e da ilusão.

O testamento

O novo nascimento ou regeneração ideal que indica, em todos os seus aspectos, a câmara de reflexões, tem finalmente o seu selo e concretiza-se por um testamento, que é fundamentalmente um atestado ou reconhecimento dos seus “deveres”, ou seja da sua tríplice relação construtiva, com o princípio interior (individual e universal) da vida, consigo mesmo como expressão individual da Vida Una, e com os seus semelhantes, como expressão exterior da própria Vida Cósmica.

Trata-se de um testamento iniciático bem diferente do testamento ordinário ou profano. Enquanto este último é uma preparação para a morte, o testamento simbólico pedido ao recipiendário, antes da sua admissão às provas, é uma preparação para a vida – para a nova vida do Espírito para a qual deve renascer.

Morte e nascimento são na realidade, dois aspectos intimamente entrelaçados e inseparáveis de toda mudança que se verifica na forma expressão, interior e exterior, da Vida Eterna do Ser. Na economia cósmica, e da mesma forma na vida individual, a morte, cessação ou destruição de um aspecto determinado da existência subjectiva e objectiva, é constantemente acompanhada de uma forma de nascimento. Assim pois, só em aparência os consideramos como aspectos opostos da Vida, ou como o seu princípio e fim, enquanto indicar simplesmente, uma alteração ou transformação, e o meio no qual se efectua um progresso sempre necessário, ainda que a destruição da forma não seja sempre a sua condição indispensável.

Como emblema da morte do homem profano, indispensável para o nascimento do iniciado, o testamento que faz o candidato é um testamento do qual ele mesmo será posteriormente chamado a converter-se em executor, um Programa de Vida que deverá realizar com uma compreensão mais luminosa das suas relações com todas as coisas.

A primeira relação ou “dever” do testamento é a do próprio indivíduo com o Princípio Universal da Vida, uma relação que tem de reconhecer-se e estabelecer-se interiormente, e não sobre a base das crenças ou prejuízos, sejam positivos ou negativos. Não se pergunta ao candidato se crê ou não em Deus, nem qual é o seu credo religioso ou filosófico; para a Maçonaria todas as “crenças” são equivalentes, como outras tantas máscaras da Verdade que se encontram atrás ou sob a superfície delas e somente à qual aspira a conduzir-nos.

O que é de importância vital é a nossa íntima e directa relação com o Princípio da Vida (qualquer que seja o nome que lhe dê externamente, e o conceito mental que cada um possa ter formado ou dele venha a formar, uma relação que é estabelecida na consciência, além do plano da inteligência ou mentalidade ordinária, sendo só directamente nela onde pode manifestar-se aquela Luz “que ilumina a todo homem que vem a este mundo”.

A consciência desta relação, que é Unidade e Individualidade, traduz-se no sentido da primeira pergunta do testamento: “Quais são os vossos deveres para com Deus?” A segunda: “Quais são os vossos deveres para vós mesmos?” nada mais é do que a consequência da primeira. Tendo- se reconhecido, no íntimo do seu próprio ser, naquela solidão da consciência que está simbolizada pela câmara de reflexões como uma manifestação ou expressão individual do Princípio Universal da Vida, o candidato é chamado a reconhecer o modo pelo qual a sua vida exterior se encontra intimamente relacionada com o que ele mesmo é interiormente, e como a compreensão desta relação tem em si o poder de dominá-la e dirigi-la construtivamente.

O homem é, como manifestação concreta, o que ele mesmo se fez e faz constantemente, com os seus pensamentos conscientes e subconscientes, a sua maneira de ser e a sua actividade. O seu primeiro dever para consigo mesmo é realizar-se e chegar sempre a ser a mais perfeita expressão do Princípio de Vida que nele busca. E encontra uma especial diferente e necessária manifestação, deduzindo ou fazendo aflorar à luz do dia, as possibilidades latentes do Espírito, aquela Perfeição que existe imanente, mas que só se manifesta no tempo e no espaço, na medida do íntimo reconhecimento individual.

Quanto aos deveres para com a humanidade, estes representam um sucessivo reconhecimento íntimo que é complemento necessário dos dois primeiros: tendo-se reconhecido como a manifestação individual do Princípio Único da Vida, e sabendo que ele é por fora o que realiza por dentro, deve acostumar-se a ver em todos os seres outras tantas manifestações do próprio Princípio. Deste reconhecimento, brota como consequência necessária o seu dever ou relação para com a humanidade, que não pode ser outra coisa que a própria fraternidade.

A compreensão desta tríplice relação é o princípio da iniciação, o início efectivo de uma nova vida, o testamento ou doação que é feita para si próprio, preparando-se para executá-lo. É a preparação necessária para as viagens ou etapas sucessivas do progresso que o aguardam.

Maxell Egens

(Continua na Parte II)

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