Ritos de passagem, iniciação, e iniciação maçónica

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Quando comparamos as Iniciações aos mistérios de Elêusis, na Antiguidade Clássica, com a recepção na sociedade secreta dos Mau-Mau, existente entre os Kikuyu do Quénia, e com a Iniciação Maçónica, o que é que podemos encontrar em comum entre estas diferentes formas rituais ?

A Etnologia responde-nos a esta questão através do conceito de “Ritos de Passagem”, dos quais a Iniciação é, seguramente, um protótipo.

Estes Ritos são realizados para concretizarem as transições de indivíduos, entre dois estados diferenciados.

Sejam estas alterações mudanças de limiar (tais como nos ritos de acolhimento de estrangeiros), de passagem de etapas do ciclo de existência (como por exemplo os ritos de nascimento, puberdade, casamento ou, funerários), ou de admissão num novo grupo (religioso ou não), todos os Ritos de Passagem apresentam sempre uma estrutura sequencial comum.

Esta foi caracterizada em 1909, pelo etnólogo francês Arnold Van Gennep (1873-1957). De acordo com este investigador, o ritual, que não é mais do que um sistema cultural de (Publicado em freemason.pt) comunicação simbólica, constituído por sequências ordenadas e padronizadas de palavras e de actos, assume, nestes Ritos, um desenvolvimento ternário, composto por três fases principais encadeadas entre si.

Estas são:

  • A preliminar, na qual se dá o isolamento do individuo do grupo, ou do seu mundo antigo, e que constitui o rito de separação;
  • A liminar (do latim limen, limiar) na qual se dá o recondicionamento, sendo o participante frequentemente confrontado com a sua própria morte simbólica, ocorrida na fase anterior (rito de margem);
  • A post-liminar na qual se dá a integração do individuo no novo mundo ou estatuto, frequentemente através de um renascimento simbólico, constituindo um rito de agregação.

Nos anos 80 do século passado, o antropólogo britânico Victor Turner (1920-1983) aprofundou os estudos de Van Gennep, incidindo mais especificamente na fase liminar.

Ele concluiu que a mesma corresponde a um estado fronteira entre dois mundos, semelhante aos limbos, caracterizado por grande ambiguidade e incerteza, no qual se verificam a humildade, as provas, a privação de liberdade e, aquilo que ele designou de communitas, uma comunidade desestruturada, onde todos os indivíduos são iguais.

A Iniciação distingue-se, entre os Ritos de Passagem, por operar uma transformação radical dos iniciados, sempre no sentido de uma elevação de estatuto.

Mircea Eliade tipificou as Iniciações, distinguindo-as entre as iniciações tribais, as de sociedades secretas e, as religiosas.

As Iniciações tribais são ritos de passagem à idade adulta, obrigatórios, sexualmente diferenciados e, geralmente colectivos.

As Iniciações ditas às sociedades secretas são, pelo contrário, voluntárias e, em geral, individuais.

Por ultimo as Iniciações religiosas são ritos de acesso a um estatuto de especialista ritual, e de futuro oficiante.

Esta compartimentação revela-se, todavia, na pratica, demasiado rígida, na medida em que muitos casos integram características de vários, ou de todos estes tipos.

No entanto, podemos dizer que os elementos essenciais de (Publicado em freemason.pt) uma Iniciação são: a transformação do iniciado, a ritualização complexa, a importância da liminaridade ritual, a presença de provas, o papel essencial do segredo e, a transmissão de um saber iniciático.

Nos rituais de Iniciação, nomeadamente na Iniciação Maçónica, a mensagem não se encontra no Ritual per si, mas sim na sua vivencia e, interpretação.

Assim, o segredo iniciático consiste nesta experiencia pessoal que é, por natureza, incomunicável, dada a incomunicabilidade do Ser.

Da mesma forma que as sensações não são, integralmente, transmissíveis, a percepção dos símbolos e do rito, que decorre através de um processo interno pessoal, é também incomunicável.

Cada iniciado penetrará em maior ou menor profundidade neste segredo, de acordo com as suas possibilidades pessoais de realização, dos seus limites de compreensão e, do seu estado de despertar da consciência.

Esta noção de segredo, ligada à Maçonaria, constitui igualmente um factor de união entre todos os Irmãos, criando simultaneamente uma cumplicidade fraternal e, um sentimento de responsabilidade individual e colectiva, face às exteriorizações.

Existem várias formas de Iniciação Maçónica, que diferem consoante o Rito praticado, mas todas obedecem à estrutura ternária de Van Gennep.

Na Iniciação Escocesa, a fase preliminar consiste na passagem pela Câmara de Reflexões, na qual o postulante, isolado do contacto com o exterior, e com iluminação reduzida, é confrontado com uma série de objectos de carácter simbólico, que lhe sugerem uma morte para a sua vida profana, e a necessidade de viajar ao interior de si próprio.

Este rito de separação enfatiza a rotura com o seu Eu profano, através de uma desconstrução da sua forma anterior de pensar e, de agir, baseada no reforço do seu Autoconhecimento, e no Livre Exame.

Trata-se de um despertar da consciência, sedimentado de agora em diante, num continuo questionamento de si próprio face aos seus deveres, livre dos condicionamentos das paixões, e dos preconceitos, inerentes ao “estado de trevas” em que se encontrava.

Podemos pois considerar que a Iniciação do REAA tem o seu ponto de partida na entrada na Câmara de Reflexões, pois é este o momento em que o postulante, pela primeira vez na sua vida, é colocado perante si próprio.

Para além de a Iniciação Maçónica se tratar de um processo de despertar da consciência constitui, por si só já um acto de consciência, pois ninguém, a menos que esteja apenas motivado pela curiosidade, se disporá a ser Iniciado, se não estiver ciente do facto de não ser positivo o seu “estado tenebroso”, e se não pretender polir as asperezas da sua Pedra Bruta, numa obra na qual será, simultaneamente, material de construção e, obreiro .

A fase liminar da cerimónia decorre entre a preparação do candidato para a entrada no templo e, o momento em que lhe é dada a Luz.

O recipiendário é, então, posto num estado de indeterminação, “border-line” entre dois mundos, que sublinhará algumas partes dos discursos que irá ouvir em Loja.

Torna-se necessário privá-lo do que indica, revela e, simboliza o mundo e os valores profanos, antes de o constituir, receber, e lhe dar o que materializará o mundo no qual será admitido.

Assim, em primeiro lugar, o candidato é privado da vista, situação esta que lhe reduz a liberdade de movimentos, necessitando de ser guiado.

Seguidamente é desprovido das suas riquezas materiais, designadas de “metais”, que no seu mundo servem de meio social de troca.

O candidato é, também, privado da palavra, livre e espontânea, a qual constitui um laço social importante, pois permite a comunicação com o outro.

O estado de indeterminação é ainda acentuado pela perda de liberdade e de equilíbrio com que executa as viagens, no Templo, e pela privação parcial da sua roupa, materializada pelo estado de “nem vestido nem despido” em que é colocado.

As provas físicas a que é submetido, de purificação pelos elementos, acentuam a realização de um processo progressivo, que transmutará o recipiendário, dando-lhe acesso a uma realidade ontologicamente diferente, no caminho do pleno desenvolvimento das suas potencialidades materiais, intelectuais e, espirituais.

Finalmente, ao ser-lhe dada a Luz, o candidato passa a neófito, renascendo para uma nova vida.

A fase pós-liminar concretiza a agregação ao grupo, através do juramento, recepção, investidura dos paramentos do grau, comunicação dos respectivos segredos e, participação do novo Irmão no Encerramento dos Trabalhos.

A Iniciação Maçónica integra-se, assim, na vasta corrente das Iniciações Tradicionais e, é um exemplo clássico de Rito de Passagem. Poderemos, todavia, questionar qual o seu sentido para o Homem contemporâneo e, o que é que, no aqui e agora, ela pode acrescentar ao Iniciado do século XXI.

Muito embora a Maçonaria seja Universal, não existe um só sentido de prática maçónica, nem um só estereotipo de Maçon.

A Iniciação Maçónica pode ser encarada com diversos objectivos principais, sejam eles de aperfeiçoamento pessoal filosófico e/ou espiritual, de defesa de valores éticos, humanísticos, de laicidade, republicanos, ou até de especulação de ordem esotérica, em busca de uma Tradição primordial.

Em qualquer um destes casos, o percurso iniciático pressupõe sempre um novo olhar sobre si próprio e, sobre as suas relações com os outros, que fundamentará o exercício (Publicado em freemason.pt) do livre arbítrio numa base mais justa e mais fraterna, e que permitirá ao Mestre Maçon reunir o que está disperso, sempre entre o Esquadro e o Compasso.

Será que as actuais Obediências e Lojas conseguem estes desideratos relativamente aos seus membros ? Será que a maior parte dos Maçons se impregnam suficientemente da Luz, para a irradiarem convenientemente no Mundo Profano ?

A Maçonaria é uma instituição humana e, “errare humanum est”. Daí a extrema importância de que se revestem a qualidade do recrutamento e da transmissão, numa época de dissolução de valores éticos como a que atravessamos.

Maus Mestres Maçons recrutam maus profanos que, por sua vez, serão também maus Mestres, transmitindo-se nesta Cadeia Iniciática apenas iniciações virtuais, que só relevam o “parecer em detrimento do ser”.

Porem, a Via Iniciática continua a estar embutida no psiquismo do Homem, constituindo ainda a Iniciação Maçónica, quando plenamente vivida, uma resposta à exaltação do Ego, característica das Sociedades actuais, bem como uma oportunidade única de contribuição para uma obra comum, intemporal, por uma Humanidade melhor.

E, saber donde vimos, quem somos, e para onde vamos são perguntas para as quais não existe uma resposta que seja Verdade absoluta, e que tanto interessaram ao Irmão do século das Luzes, como continuam a importar ao Maçon contemporâneo.

Permanece válida a afirmação de Van Gennep de que “para os grupos, como para os indivíduos, viver é incessantemente desagregar-se e reconstruir-se, mudar de estado e de forma, morrer e renascer”, sendo certo que todo o Ser Humano e toda a Sociedade podem sempre reconstruir-se aperfeiçoando-se, continuando a fazer sentido as palavras do Irmão Oswald Wirth de que “A Franco-Maçonaria é chamada para refazer o Mundo. A tarefa não é superior às suas forças na condição de que ela se torne o que ela deve ser”.

Joaquim G. Santos

Bibliografia

  • Bogdan Henrik “Western Esotericism and Rituals of Initiation”, State University of New York Press, Albany,2007;
  • Bonhomme Julien “Initiation”, Dictionaire des faits religieux, PUF, Paris, 2010;
  • Eliade Mircea “Rites and Symbols of Initiation: The Mysteries of Birth and Rebirth”, New York, 1958;
  • Langlet Philippe “Réflexions sur les dépouillements”, Paris, 2015;
  • Mainguy Iréne “La Symbolique Maçonnique du trosième millénaire”, Dervy, Paris,2003;
  • Mainguy Iréne “Les initiations et l’initiation maçonnique”, Jean-Cyrille Godefroy Editions, Paris, 2008;
  • Turner Victor “The Ritual Process, Structure and Anti-Structure”, Chicago, 1969;
  • Van Gennep Arnold “Les Rites de Passage”, Émile Nourry, Paris, 1909;
  • Wirth Oswald “La Franc-Maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes”, Dervy, Paris,1931;

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One thought on “Ritos de passagem, iniciação, e iniciação maçónica

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    Singela e profunda abordagem da Iniciação. Parabéns!

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