A Justiça do Cavaleiro Eleito dos Nove

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A Maçonaria encontra-se velada em Alegoria, sendo ilustrada por Símbolos. Eis uma verdade insofismável apresentada ao iniciado nesta Escola de Mistérios desde que este coloca o pé no primeiro degrau ascendente da Escada de Jacob.

Raspar e ver o que se encontra por debaixo da superfície é tarefa de todos os maçons, pois a Alegoria e o Símbolo são dados a múltiplas interpretações – algumas de sentido moral, outras de cunho filosófico, literário, religioso, político ou jurídico – e, dependendo da disposição e do conhecimento de quem os observa, podem revelar diferentes verdades. À semelhança dos famosos borrões de Rorschach, essas interpretações dizem mais sobre quem as faz, do que sobre o símbolo que está efetivamente a ser observado.

Mas, para além da interpretação, existe uma outra forma de olhar para os símbolos, que passa pela sua utilização e sã convivência, tornando-os parte integrante de nós, mediante a meditação e a sua associação a emoções, sentimentos e até – em níveis mais avançados – a estados alterados de consciência, pouco dados a uma tradução racional assente em palavras.

O Grau 9, do Mestre ou Cavaleiro Eleito dos Nove é, à semelhança dos demais Graus Inefáveis, um Grau complexo que envolve muitos aspetos místicos, religiosos, lendários e morais, mostrando-se impossível de contemplação num único e simples balaústre. Dos vários aspetos que perpassam pelo significado iniciático do grau, intento fixar-me na atitude irrefletida de Johaben que, num acesso de vindicta, apunhala um dos assassinos do Mestre Hiram e lhe arranca a cabeça para a apresentar a Salomão, após o qual pilaticamente lava as mãos e sacia a sede numa fonte de água. Exposta tal ignomínia ao Rei Salomão este, que a princípio o condena, repudiando pois a vingança, acaba justamente por perdoá-lo em face do arrependimento demonstrado por Johaben e pela interceção dos seus irmãos Mestres.

Na crónica bíblica, Caim mata Abel – ou seja – o mau mata o bom, o espírito é vencido pela matéria, a treva prevalece sobre a luz –, mas, ainda assim, aquele não poderá ser morto pelo próprio Homem, pois Deus assim não o permitirá. Se “(…) alguém matar Caim, sofrerá sete vezes a vingança”. E o Senhor colocou em Caim um sinal, para que ninguém que viesse a encontrá-lo o matasse” (Génesis, capítulo 4: versículo 15).

Por isso Salomão, a princípio e por princípio, submete Johaben a um julgamento pela morte do criminoso, porque a “ vingança pertence ao Senhor”.

O julgamento de Johaben significa pois que a vingança é um sentimento que não pode imperar, nem deve ser admitido na Maçonaria, pois o maçon deve praticar a justiça e não a vingança. Com efeito, esta Missão primeira dos Mestres Eleitos representa uma das obrigações intemporais do maçon, cujo carácter – como se podia ler nos antigos rituais – implica caminhar humilde aos olhos de Deus, praticar a Justiça e amar a Clemência.

Nos dias de hoje, essa missão passa pela identificação e destruição da injustiça e dos vícios múltiplos que assolam a Humanidade, que aniquilam todos os dias o Mestre Hiran, o Homem Virtuoso. Estamos perante uma luta cheia de vicissitudes e de perigos vários pois, na realidade profana, neste mundo em que vivemos, basta atentar e ver como as virtudes, hodiernamente, vêm sendo ofuscadas pelo vício e a virtude obturada pelas trevas.

O combate intemporal entre a luz e as trevas nunca pareceu ser tão encarniçado como nos nossos dias. Hoje, mais do que nunca, há que pôr em prática a lição encerrada na alegoria do “Cavaleiro Eleito dos Nove” e perseguir os algozes do espírito humano que compactuam tolerantemente com o crime, com a destruição dos valores e das virtudes, pregando o relativismo moral, cultural e filosófico, face ao qual nada está certo ou errado, simplesmente é, e deixar que a justiça julgue e puna os violadores, pois estes, como disse Jesus, receberão a devida retribuição, já que “é inevitável que haja escândalos; mas ai daquele que os causa!” (Lucas, capítulo 17: versículo 1).

Enquanto o relativismo imperar e os vícios permanecerem vivos, a tarefa de “construção do templo”, trabalho de aperfeiçoamento moral do indivíduo, através do qual este atinge o conhecimento e a salvação, permanecerá ameaçada.

Esse trabalho, de recuperação moral da Humanidade, constitui a missão iniludível dos Eleitos.

Que os Eleitos da nossa Augusta Ordem permaneçam sempre infundidos de coragem, disciplina e devoção para que possam assumir e cumprir a missão que pelo G∴ A∴ D∴ U∴ lhes – a todos nós – foi confiada.

P. Gonçalves

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