A lenda de Hiram

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Hiram Abiff
Hiram Abiff

Nesta linha da lenda ritualista, é preciso citar a de Hiram. No primeiro livro de Reis fala-se longamente de um personagem chamado Hirão (ou Hiram), rei de Tiro, a quem recorreu Salomão a fim de que ele lhe fornecesse os cedros do Líbano para a construção do Templo de Jerusalém.

Mas o Hiram que se fala em rituais maçónicos está longe de ser o rei de Tiro. Era um operário especializado no trabalho de metais, principalmente do ouro, da prata e do cobre.

O primeiro livro de Reis dá-nos também a sua apresentação. Filho de um operário do bronze, também de Tiro, e de uma viúva da tribo de Neftali, “ele tinha grande habilidade, destreza e inteligência para executar todos os tipos de trabalhos em bronze”. Salomão o fez vir de Tiro para trabalhar na decoração do Templo, e ele executou todos os seus serviços.

No primeiro livro de Reis podemos ver todos os detalhes das obras que ele fez para embelezar o Templo de Jerusalém. Entre outras, são destacadas nas Sagradas Escrituras duas colunas de cobre que tinham cada uma 18 côvados de altura, terminando em capitéis em formato de flores. Hiram colocou as colunas na frente do vestíbulo do santuário e chamou de YAKIN a da direita e de BOAZ a da esquerda.

Segundo a lenda, o arquitecto Hiram tinha sob as suas ordens muitos Obreiros. Ele os dividiu em três categorias, e cada uma delas recebia o salário proporcional ao grau de habilidade que a distinguia. Estas três categorias eram as de Aprendiz, de Companheiro e de Mestre, tendo cada uma delas os seus próprios mistérios e se reconhecendo mutuamente, por meio de palavras, sinais e gestos que lhes eram particulares. O facto do seu assassinato, cometido por três dos seus discípulos aos quais ele não quis revelar o seu segredo de Mestre, serviu à Maçonaria ritualística e simbólica para algumas das suas cerimónias

Mas, na História da Maçonaria, a morte assustadora e impune do arquitecto fenício que ergueu o templo de Salomão devia ser relegada – na expressão de Menéndez y Pelayo – no plano do romance fantástico, assim como as suas conexões com os sacerdotes egípcios, os mistérios de Elêusis e as cavernas de Adonirã. Na mesma linha devem ser incluídos outros “ancestrais” dos  franco-maçons, enumerados por Hello, Jannet e Preclin, dos quais a Maçonaria teria vindo, conforme estes autores, não somente quanto à sua doutrina, mas também pelas suas práticas e os seus ritos.

Estes “ancestrais” seriam deístas ingleses, os sectários do século XVIII, os rosacruzes, os sectários protestantes, os socinianos, as associações de obreiros, os templários, os gnósticos, os maniqueístas e albigenses, e finalmente os judeus.

A corporação de construtores

No fim do século XVIII, o abade Grandidier, de Estrasburgo, que não pertencia à Maçonaria, foi o primeiro a emitir a opinião, fundamentada nos dados existentes nos Arquivos da Catedral dessa cidade, de que existiam factos históricos análogos entre a sociedade [associação] de franco-maçons e a dos arquitectos.

Este mesmo escritor, numa carta particular endereçada a uma senhora em 24 de Novembro de 1778, declarou o seguinte: “Não pretendo recuar a origem da Maçonaria à Arca de Noé, como faz um franco-maçom mui digno. Nem ao templo de Salomão, considerado por algumas pessoas um Maçom muito distinto. Também não a recuarei às Cruzadas, para encontrar os primeiros maçons nos batalhões das cruzes, considerados por alguns como dedicados à obra real e divina da reconstrução do Templo. Eu não a buscarei tampouco entre os antigos soldados da Palestina, chamados de Cavaleiros do Oriente e da Palestina. Nenhuma dessas opiniões ridículas, que nem os próprios maçons ousam emitir, salvo sob a nuvem da ilusão, merece que algum profano a revele.

Eu me orgulho, senhora, de poder garantir, para tal sociedade, a sua origem mais verídica. Não é preciso buscá-la ‘nem no Oriente nem no Ocidente’. E esta frase ‘a Loja está bem guardada’ não me daria de forma alguma a prova de tais suposições. E, ainda, não tive a felicidade de trabalhar da segunda-feira de manhã ao sábado à noite, mas tive nas minhas mãos profanas provas autênticas e verídicas, que datam de três séculos, e nos levam a reconhecer que a sociedade dos franco-maçons não é outra senão uma instituição obreira da antiga e útil corporação de maçons [pedreiros] cujo quartel-general ficava em Estrasburgo”.

Contemporâneo de Grandidier, Joseph de Maistre, depois de ter vivido algum tempo na Ordem, perguntou-se qual seria a origem desses mistérios que não escondem nada, e desses símbolos que não representam nada, admirando-se com o facto de homens de todos os países se reunirem (talvez há vários séculos) para se alinhar em duas fileiras, jurar jamais revelar um segredo que não existia, levar a mão direita ao ombro esquerdo, retorná-la ao ombro direito e sentar-se à mesa. “Por acaso não era possível cometer extravagâncias, comer e beber em excesso sem falar de Hiram, do templo de Salomão ou da Estrela Flamejante…?”.

Estas questões – prossegue Joseph de Maistre – “são em todo caso simples e sensatas. Mas infelizmente não vemos a história, nem mesmo a tradição oral, se dignar responder a respeito. A nossa origem foi sempre envolvida em espessas trevas, e todos os esforços de Irmãos bem intencionados para esclarecer um facto tão interessante estão sendo, até o presente, quase que inúteis”. Maistre, ao escrever isso em 1782, pensava principalmente na solução dos templários, para a qual se inclinavam alguns autores: “Há alguns anos estão tentando apresentar-nos, sob a máscara de alegorias maçónicas, as vicissitudes da Ordem dos templários. E a respeito disso, é bom lembrar um axioma que parece incontestável quando se fala em símbolos e alegorias, e que diz que ‘o símbolo que representa muitas coisas não representa nada”.

Praticamente, quase todo o documento de Maistre tende a fazer uma série de reflexões sobre os templários e a Maçonaria, terminando por mostrar a contradição que existe nessa relação e até mesmo a sua impossibilidade, a menos que queira cair em um sofisma popular: post hoc, ergo propter hoc. E, no entanto, uma vez rejeitadas a lenda de Hiram e a dos templários, ele propõe como uma solução que achou digna de interesse a das corporações dos construtores de catedrais.

Assim, Maistre e Grandidier chegaram à mesma conclusão, embora, na verdade, por caminhos diferentes. Grandidier não era Maçom e se baseava em pesquisas e documentos que ele mesmo descobriu. Maistre, da sua parte, o era, e inspirou-se principalmente num livro que acabava de ser publicado sobre a história da Grã-Bretanha e no qual se falava do estado das artes na Inglaterra nos séculos XIII e XIV.

O parágrafo de Robert Henri reproduzido por Maistre é o seguinte: “A opulência do clero e o fervor dos leigos forneciam fundos suficientes para a construção de um número tão grande de igrejas e de monastérios que dificilmente se encontravam os obreiros necessários. Os papas,* interessados em favorecer esses tipos de associações, concederam indulgências às corporações de maçons para aumentar o número deles, o que deu certo principalmente na Inglaterra, onde italianos, refugiados gregos, franceses, alemães, flamengos se reuniram e formaram uma sociedade de arquitectos. Eles obtiveram bulas de Roma e privilégios particulares, e adoptaram o nome de franco-maçons.

Eles passaram de uma nação à outra, onde houvesse igrejas a serem construídas; e, como já dissemos, construíam prodigiosamente. Os maçons seguiam um regulamento fixo. Eles montavam um acampamento perto do edifício a construir. Um intendente ou inspector tinha o comando como chefe; em cada grupo de dez, um superior conduzia os outros nove. Por caridade ou por penitência, os fidalgos da vizinhança forneciam os materiais e veículos. As pessoas que viram os seus registros, nas contas das fábricas das nossas catedrais, feitas há quase 400 anos, só podem admirar-se com a economia e a rapidez com as quais eram construídos os mais vastos edifícios”.

Os talhadores de pedra da Idade Média

Mas aquilo que para Maistre não era mais que intuição, chega a ser evidência para Grandidier. O cónego Grandidier, um dos melhores e dos mais antigos historiadores da catedral de Estrasburgo, no seu Ensaio Histórico e Topográfico da Catedral da Igreja de Estrasburgo, dá um resumo do status dos talhadores [cortadores] de pedra da Idade Média:

“Na frente da Catedral e do Palácio Episcopal, escreveu ele, há um edifício contíguo à capela de Santa Catarina. Este edifício é o Maurer-Hoff, o ateliê dos maçons (obreiros) e dos talhadores de pedra da catedral. A sua origem vem de uma antiga fraternidade de maçons livres da Alemanha”.

“Esta confraternidade, composta de Mestres, Companheiros e Aprendizes, possuía uma jurisdição particular, independente da corporação dos maçons. A sociedade de Estrasburgo compreendia todas as da Alemanha. Ela tinha o seu tribunal dentro da Loja e julgava sem apelação todas as causas que lhe eram submetidas, segundo as regras e os estatutos da confraternidade.”

“Os membros desta Sociedade não tinham nenhum contacto com outros maçons, que só sabiam manejar a argamassa e a colher de pedreiro (Art. 2). O seu principal trabalho era desenhar os edifícios e talhar as pedras, o que eles consideravam como uma arte muito superior à dos outros maçons. O esquadro, o nível e o compasso converteram-se nos seus atributos e símbolos característicos. Decididos a formar um corpo independente da massa de obreiros, imaginaram senhas entre si e toques para se reconhecer.

Chamavam isto de instrução verbal, saudação e senha manual. Os Aprendizes, os Companheiros e os Mestres eram recebidos com cerimónias particulares e secretas. O Aprendiz elevado ao grau de Companheiro jurava jamais divulgar, em palavras ou por escrito, os dizeres secretos de saudação (Art. 55). Era proibido aos Mestres, e também aos Companheiros, ensinar aos estranhos os estatutos constitutivos da Maçonaria (Art. 13).

O dever de cada Mestre das Lojas era de conservar escrupulosamente os livros da Sociedade a fim de que ninguém pudesse copiar os regulamentos deles (Art. 28). Ele tinha o direito de julgar e punir todos os Mestres, Companheiros e Aprendizes inscritos na sua Loja (Art. 22 e 23). O Aprendiz que quisesse chegar a ser Companheiro era proposto por um Mestre que, como padrinho, testemunhava a respeito da sua vida e dos seus costumes (Art. 65). Ele prestava o juramento de obedecer a todas as regras da Sociedade (Art. 56 e 57). O Companheiro ficava submisso ao Mestre por um período fixado pelos estatutos, e que era de cinco a sete anos (Art. 43 e 45).

Então ele poderia ser admitido na Mestria (Art. 7 e 15). Todos aqueles que não cumpriam os deveres da sua religião e que levavam uma vida libertina ou pouco cristã, ou eram reconhecidos infiéis à sua esposa, não poderiam ser admitidos na Sociedade ou eram dela expulsos”. E “todo Irmão, Mestre ou Companheiro, proibido de manter relações com eles (Art. 16 e 17). Nenhum Companheiro podia sair da Loja ou falar sem permissão do Mestre (Art. 53 e 54). Cada Loja tinha uma caixa: aí se colocava o dinheiro que os Mestres e Companheiros davam nas suas recepções. Este dinheiro era destinado a prover as necessidades dos Irmãos pobres ou doentes (Art. 23 e 24)”.

Após este resumo, cujos elementos lhe foram fornecidos pelos documentos que ele próprio consultou nos arquivos de talhadores de pedra de Estrasburgo, o cónego Grandidier acrescenta:

“Vocês não reconhecem os franco-maçons modernos sob estes traços dos maçons veneráveis, dos maçons perfeitos iniciados nos mistérios dos Santos Nomes? Será que por acaso a analogia não é clara? Nem mesmo, exacta? O mesmo nome de Loja, para designar o lugar das assembleias, a mesma ordem na sua distribuição, a mesma divisão de Mestre, Companheiro e Aprendiz? Uns e outros são presididos por um Grão-Mestre. Eles têm igualmente sinais particulares, leis secretas, estatutos contra os profanos. Uns e outros podem dizer: meus Irmãos e meus companheiros me reconhecem como Maçom.

Mas nos maçons de Estrasburgo, apesar da obscuridade do seu trabalho, provam o seu estado e a sua origem com títulos antigos e autênticos. Eu desafio os franco-maçons franceses, ingleses, alemães, escoceses, mesmo aqueles que alcançaram o grau de perfeito Maçom, de grande Arquitecto, de cavaleiro da espada e de Noaquita, a fazerem o mesmo, apesar de Hiram e do Templo de Salomão… Apesar de Faleg e da torre de Babel”.

A opinião de Grandidier foi acolhida, entre 1785 e 1792, por Vogel e Albrecht,36 embora nenhum dos dois tenha chegado a uma posição definitiva, já que não dispunham, nessa época, de documentos históricos suficientes. Alguns anos mais tarde, Schneider, Altenbourg, Krause, Mossdorf, Lenning, Heldmann, Schröder e Fessler publicaram trabalhos fazendo amplamente a história nessa época de lutas e aspirações segundo a identidade maçónica. Outros publicistas afiliados à Ordem realizaram novas pesquisas, demonstrando com provas dignas de fé que a identidade não tinha de modo algum a finalidade que pretendiam lhe atribuir autores como Ramsay, e também não era mais uma Ordem da cavalaria entre tantas outras, mas sim uma sociedade de uma certa forma análoga às organizações obreiras da Idade Média.

Dentro desta mesma linha, historiadores clássicos da Maçonaria, como Findel, Bernard, E. Jones e Kloss, ao fazer pesquisas nos estatutos da associação dos escavadores [cavouqueiro, cavadores em pedreiras] alemães e dos construtores ingleses de edifícios, chegaram à conclusão de que a Maçonaria actual deriva directamente de uma antiga corporação de talhadores de pedras e de outros agrupamentos profissionais unidos a ela.

Para resolver a questão de saber se os símbolos e os usos actuais da Maçonaria vêm directamente da Idade Média ou se a sua origem é mais antiga, A. Fallou e J. Winzer, nas suas publicações, trouxeram muitos dados interessantes com os quais chegaram a provar que os escavadores alemães e os construtores ingleses não constituíam somente corporações profissionais, mas fraternidades onde se ensinava e se praticava uma ciência secreta dos seus respectivos ofícios e artes. Os dois autores mostraram sem dúvida que os maçons actuais não haviam inventado a sua liturgia e os seus símbolos, e também não os tinham tomado de outras sociedades secretas, mas que os mesmos lhes foram transmitidos, por sucessão directa, dos organismos obreiros mencionados.

Wagner Veneziani Costa

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