A Maçonaria cubana vista de perto

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O imponente Edifício Maçónico, epicentro das atividades da Ordem em Cuba, localizado na Avenida Salvador Allende, no centro de Havana.

Introdução

Durante três semanas em Cuba em Janeiro de 2015, tive contacto com uma Maçonaria detentora de características singulares no mundo, resultantes do desenvolvimento histórico da Ordem Maçónica naquele país e, principalmente, pelos últimos 56 anos de regime socialista e as suas consequências culturais e socioeconómicas. A minha estadia, que coincidiu com a euforia pelos recentes diálogos diplomáticos entre EUA e Cuba e com a visita da delegação americana a Havana, também proporcionou uma nítida visão da expectativa do povo cubano em voltar a receber turistas americanos no seu território. Com o desenvolvimento de tais diálogos diplomáticos, acredita-se que, em breve, o turismo para Cuba crescerá ainda mais. Hoje, dezenas de milhares dos turistas que visitam Cuba são brasileiros e este número tenderá a aumentar, entre eles, muitos maçons. O objectivo deste artigo é oferecer um panorama actual da Maçonaria Cubana aos irmãos interessados em conhecê-la, compreendendo um pouco da sua história, funcionamento e particularidades.

Breve Resumo Histórico da Maçonaria Cubana

A mais antiga menção a Cuba relacionada à Maçonaria Especulativa está na obra de Findel, “Historia de la Francmasonería”, que relata a nomeação na Grande Loja dos Modernos de um Grão Mestre Provincial para Cuba, entre 1751 e 1754 (FINDEL, 1946). Outra menção posterior é da iniciação de Alexander Cockburn em Havana, em 1763, numa Loja Militar de número 218 no Registro da Irlanda. Ao que tudo indica, após este período, no final do Século XVIII, a ilha de Cuba foi alvo de interesse da Maçonaria Francesa, iniciando assim uma disputa entre maçons franceses e ingleses pelo território cubano.

Em 1798 há o registo de quatro Lojas compostas por franceses em Cuba, com cartas emitidas pelo Grande Oriente de França (TORRES-CUERVAS, 2013, p. 67). No entanto, em 1808, tendo a França invadido a Espanha, os maçons franceses que viviam em Cuba emigraram para Louisiana, levando com eles as suas Lojas. Apenas algumas Lojas se mantiveram em funcionamento neste período.

Já em 1820, com o triunfo do movimento liberal na Espanha, as poucas Lojas em funcionamento em Cuba viram a oportunidade de fundarem as suas Grandes Lojas. Duas Grandes Lojas surgiram: a Grande Loja Espanhola de Maçons Antigos e Aceitos de York e o Grande Oriente Territorial Espanhol Americano do Rito dos Escocistas. A Grande Loja de York em Cuba surgiu dos esforços de Joel Robert Poinssett, o mesmo responsável pelo surgir da Grande Loja de York no México, e contou com a simpatia da Grande Loja da Pensilvânia (MARES, 1950). O Grande Oriente dos Escocistas recebeu carta do Grande Oriente de França. Em 1823 as duas organizações tentaram realizar uma união, sem sucesso, visto a queda do regime constitucional espanhol e o retorno do absolutismo. A Maçonaria foi proibida e as duas organizações sucumbiram (VIVANCO, 1958, p. 25).

Apenas em 1857, com o triunfo da União Liberal na Espanha, o ambiente se fez novamente favorável ao surgir de Lojas Maçónicas no território cubano. Em 1859, já com três Lojas constituídas, os maçons cubanos procuraram Albert Pike, então Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho da Jurisdição Sul dos Estados Unidos, pedindo o seu auxílio para a criação de uma Grande Loja regular, o que foi concretizado em 5 de Dezembro de 1859, com a fundação da Grande Loja de Colón, em Santiago de Cuba. No dia 27 do mesmo mês, André Cassard, com a autorização de Albert Pike, fundou, também em Santiago de Cuba, o Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito de Cuba. Os maçons da Grande Loja não digeriram muito bem a fundação do Supremo Conselho em Santiago, sem a sua devida consulta, iniciando daí uma rivalidade entre a Grande Loja e o Supremo Conselho (TORRES-CUERVAS, 2013, p. 79).

Tal rivalidade abriu espaço para o surgir de uma nova organização maçónica na ilha, o Gran Oriente de Cuba y las Antillas, que sobreviveu até Outubro de 1868, quando se dissolveu (ALMEIDA, 1883). Porém, a rivalidade entre a Grande Loja e o Supremo Conselho somente teve fim em 1875, a partir das decisões tomadas na Conferência Mundial dos Supremos Conselhos, em Lausanne, na Suíça. O lema maçónico francês, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, eminentemente político, foi então substituído pelo lema maçónico inglês e americano, de “Amor Fraternal, Socorro e Verdade”, eminentemente filantrópico-fraternal.

Com uma maior concentração de Lojas na Capital, iniciou-se um movimento para a transferência da Grande Loja para Havana, sonho então realizado em 1877. Porém, um grupo de maçons de Santiago de Cuba, discordantes da decisão, mantiveram uma Grande Loja em Santiago. Alguns anos depois, em 1880, os maçons cubanos conseguiram promover a fusão destas duas Grandes Lojas, culminando na Grande Loja Unida de Cólon e Ilha de Cuba. Um ano depois, esta organização, que unificou a Maçonaria Azul em Cuba, contava com mais de 70 Lojas e dezenas de tratados de reconhecimento (TORRES-CUERVAS, 1993).

A Grande Loja Unida de Cólon e Ilha de Cuba, após a independência de Cuba, passou então a se chamar Grande Loja de Cuba, adoptando a data de 5 de Dezembro de 1859, quando da fundação da Grande Loja com o auxílio de Albert Pike, como data oficial da sua fundação. Actualmente, com quase 30 mil membros e mais de 300 Lojas, possui reconhecimento de toda a comunidade maçónica regular no mundo (LIST OF LODGES, 2014).

Recentes Factos Relevantes

Alguns factos ocorridos na Maçonaria Cubana anteriormente chamaram a atenção da comunidade maçónica internacional. Dentre eles, podemos destacar:

A Grande Loja de Cuba no Exterior

Em 1984, muitos maçons cubanos vivendo em Miami reuniram-se para fundar a Grande Loja de Cuba no Exterior, cuja finalidade era de abrigar as Lojas que, nas últimas décadas, tinham sido formadas por cubanos emigrados. Trabalhando com as cerimónias, costumes e regras da Grande Loja de Cuba original, esta Grande Loja, por estar trabalhando no território da Grande Loja da Flórida, não obteve qualquer reconhecimento.

Em Outubro de 2013, o actual Grão Mestre da Grande Loja de Cuba, Evaristo Ruben Gutiérrez Torres, após diálogo com os dirigentes da Grande Loja de Cuba no Exterior, propôs à Grande Loja da Flórida um tratado de “jurisdição funcional”, de forma que esta Grande Loja de Cuba no Exterior, mudando o seu nome para Grande Loja Unida de Cubanos no Exterior, pudesse trabalhar de forma regular e reconhecida, como uma espécie de Grande Loja Distrital da Grande Loja de Cuba, similar às Grandes Lojas Distritais da Grande Loja Unida da Inglaterra (GRAN LOGIA DE CUBA, 2013). O pedido foi negado.

Expulsão de um Grão Mestre

Um Grão-Mestre que era espião, ou, dependendo do ponto de vista, um espião que era Grão-Mestre: José Manuel Collera Vento, cardiologista infantil, conhecido pelo serviço de inteligência cubano como “agente Gerardo”. Tendo sido exposto na rede nacional de televisão como um herói nacional, Collera, enquanto Grão-Mestre, era também um agente da inteligência cubana, e manteve contacto com dissidentes cubanos nos EUA, em especial na Flórida e New Jersey, que eram maçons. Passando-se por simpático ao movimento dissidente, Collera utilizava a sua posição como Grão-Mestre para colectar informações dos “irmãos em exílio” e transmiti-las ao órgão cubano de segurança nacional. Para tanto, realizava visita a Lojas de cubanos em Miami, as quais não detinham reconhecimento, nem da Grande Loja de Cuba, nem da Grande Loja da Flórida. Por conta disso, em 2010 foi expulso da Grande Loja de Cuba por perjúrio, traição e relações com Maçonaria irregular.

Um dos resultados obtidos por Collera enquanto fazia jogo duplo de Grão-Mestre e espião foi um contacto com Alan Gross, que, ao que tudo indica, acreditava estar a encontrar-se em Havana com um líder Maçom contrário ao sistema político cubano. Gross era funcionário de uma agência americana que tinha por objectivo fornecer meios de comunicação a dissidentes internos em Cuba. O encontro com Collera colocou-o no radar da inteligência cubana, resultando na sua prisão, em 2009. Collera foi uma das testemunhas de acusação no julgamento que condenou Gross à prisão cubana, em 2011. Gross foi libertado em Dezembro de 2014, após uma longa negociação de troca pelos cinco prisioneiros cubanos nos EUA, considerados heróis em Cuba. Apesar de a troca ter ocorrido no mesmo dia, ambos os governos declararam que não se tratava de uma troca e que as libertações ocorreram por razões alheias.

Relato Pessoal

A Grande Loja de Cuba

A sede da Grande Loja de Cuba situa-se na Avenida Salvador Allende, anteriormente chamada de Carlos III, no coração de Havana. Um prédio imponente, de 11 andares, que possui no seu ápice um gigantesco globo terrestre coroado com o esquadro e o compasso, foi inaugurado em 1955, mas teve na década de 60 a maioria dos seus andares desapropriada pelo governo cubano em nome dos “melhores interesses do Estado”. Não obstante, a Grande Loja, apertada nos 30% que lhe restou do seu próprio edifício, seguiu a sua trajectória em prol da sociedade, dedicando boa parte do seu espaço a uma biblioteca pública com mais de 45 mil publicações e um museu maçónico.

A realidade do mobiliário da Grande Loja de Cuba não difere do verificado nos imóveis particulares de Havana e até mesmo em alguns órgãos públicos. Os mesmos móveis originais de quando da inauguração, na década de 50, sobrevivem sob o cuidado zeloso dos maçons que compõem a administração da Grande Loja. Aqueles utensílios mais delicados, como cortinas e forro do tecto, infelizmente apresentam elevado grau de deterioração.

Entretanto, a situação material da Grande Loja, que evidencia certo requinte e orgulho de outrora, em nada prejudica a recepção fraterna e calorosa dos maçons ali presentes, após a devida verificação do reconhecimento do visitante. Na ocasião, fui recepcionado pelo Grão Mestre Adjunto, Grande Secretário, Grande Orador e pelo Presidente da Comissão de Relações Exteriores. Após alguns minutos de diálogo, fui convidado a adentrar ao gabinete do Mui Respeitável Grão Mestre, Evaristo Rubén Gutierrez Torres, que, apesar de ter acabado de chegar de viagem a um evento maçónico no Equador, não hesitou em dar-me as boas vindas.

No saguão de entrada do prédio da Grande Loja de Cuba não há uma recepção, o que dificulta o acesso à informação. Utilize um dos elevadores à direita e dirija-se ao 11° andar, onde funciona a Administração da Grande Loja. Não deixe de levar uma identificação maçónica em que possa ser verificada a sua Obediência, a sua Loja e se está regular no ano vigente. Outra opção, mais comum, é levar consigo uma carta de apresentação da sua Obediência. Após a devida verificação no List of Lodges, será emitido um cartão da Grande Secretaria autorizando as Lojas jurisdicionadas a recebê-lo. Daí então você pode aproveitar a sua presença no prédio da Grande Loja para fazer um pequeno tour pelo mesmo, conhecendo a sua biblioteca e museu (há horários restritos para as visitas), ou mesmo o terraço do prédio, que possui vista privilegiada de toda a cidade.

As Lojas Simbólicas

Após a visita à Grande Loja de Cuba e com o cartão da Grande Secretaria que avaliza a sua visitação, você está apto a atender a uma reunião sem maiores dificuldades. Há dezenas de Lojas que funcionam no prédio da Grande Loja, tendo reuniões em todos os dias da semana, inclusive domingos, e várias outras em vários bairros de Havana. Há mais de trezentas Lojas em actividade em todo o país.

Há algumas poucas Lojas na Grande Loja de Cuba que trabalham no Rito de York (York mesmo, não Emulação). São Lojas que datam do final do Século XIX, quando os EUA entraram na luta entre a Espanha e os cubanos, fazendo um acordo com a Espanha e assumindo o domínio da ilha de Cuba. A partir daí, a Grande Loja de Cuba permitiu a fundação da Loja “Havana nº 99”, formada por maçons norte-americanos e inicialmente trabalhando em inglês. Outras foram a Loja “Island”, Loja “Santa Fé” e Loja “Landmark”, todas trabalhando no Rito de York.

A maioria das Lojas de Cuba, assim como ocorre em toda a América Latina, trabalha numa versão do Rito Escocês Antigo e Aceito. A diferença mais visível em comparação com o trabalho numa Loja típica do Brasil que pode ser citada é a presença de duas portas no Ocidente: ao contrário do Brasil, em que no REAA as Lojas têm uma única porta central, nas Lojas do REAA de Cuba há duas portas no Ocidente, como nas Lojas do Rito de York. Isto provavelmente deveu-se à influência americana nos primeiros anos da Grande Loja.

Indumentária e Paramentos

Enquanto que no Brasil os maçons adoptam oficialmente uma vestimenta mais formal, geralmente terno preto e grava preta com camisa branca, Cuba é similar a alguns Estados dos EUA em que se permite uma vestimenta mais informal. Esta informalidade na vestimenta em Loja permite visualizar algo interessante, que são os maçons adeptos da Santeria, uma religião de origem africana em que os seus adeptos se devem, em alguns momentos, vestir totalmente de branco.

Já quanto aos aventais e colares, por alguma razão histórica, mesmo as Lojas Simbólicas que praticam o Rito Escocês Antigo e Aceito utilizam aventais e colares típicos do Rito de York, ou seja, orlados em azul escuro, com o Olho da Providência estampado na abeta. As Lojas costumam disponibilizar aventais para os visitantes. No entanto, os aventais de modo geral são poucos e estão em má situação, muitos deles encardidos, descosturados ou rasgados. Por isso, sugere-se que o visitante leve o seu próprio avental.

Filantropia

Além das actividades filantrópicas desenvolvidas pelas Lojas, a Grande Loja de Cuba, em parceria com o Supremo Conselho do Rito Escocês de Cuba, mantém o Asilo Maçónico Nacional. Fundado em 1886, o Asilo foi criado originalmente para abrigar mendigos. Actualmente, o asilo conta com mais de 90 maçons idosos, viúvas de maçons e familiares, mantendo também um panteão no cemitério de uma cidade fronteiriça para o sepultamento dos abrigados falecidos, quando há o consentimento e a necessidade das famílias. O sustento do asilo é proporcionado por uma parcela da anuidade dos maçons cubanos, além das doações espontâneas realizadas a cada reunião de cada Loja do país. Não há qualquer apoio estatal e a ausência de OnGs – Organizações Não Governamentais – em Cuba dificulta uma relação mais concreta com apoiantes não maçons.

Considerações Finais

Senti-me imensamente feliz em ter podido presenciar uma Maçonaria que, apesar de todas as adversidades, serve de exemplo à Maçonaria Latino-americana no cumprimento dos deveres maçónicos de Fraternidade, Caridade e Verdade. Uma Maçonaria com média de mais de 90 membros por Loja, enquanto que a média na América Latina e Caribe é de aproximadamente 30 membros por Loja. Para se ter uma ideia, uma única Loja em Havana conta com mais de 400 obreiros, ou seja, mais maçons do que se tem em países como Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Uma Maçonaria que, mesmo com escassez financeira e material, mantém um Asilo que abriga mais de 90 famílias; uma biblioteca que, provavelmente, tem o maior acervo maçónico da América Latina e Caribe; e uma Academia de Altos Estudos Maçónicos com produção pujante e de qualidade.

Kennyo Ismail

Bibliografia

  • ALMEIDA, Aurelio. El Consultor del Masón: Colección de tratados sobre todas las materias de la Francmasonería. I. Madrid: Puente, Godoy y Loureiro, 1883.
  • ARS QUATUOR CORONATORUM. By Bro. Dr. Wynn Westcott, on behalf of Bro. F. E. Hamel. Vol. XIV, Londres, 1901.
  • DIARIO MASÓNICO. José Manuel Collera Vento alias Agente Gerardo – El “Héroe”, iera realmente masón? Link: http://diariomasonico.blogspot.com.br/2011/04/jose- manuel-collera-vento-alias-agente.html/
  • FINDEL, Joseph Gabriel. Historia de la Francmasonería. Havana: Editorial Acacia, 1946.
  • GRAN LOGIA DE CUBA. Hogar Nacional Masónico “Llansó”. Link: http://www.granlogiacuba.org/asilo/
  • GRAN LOGIA DE CUBA. Mensage nº 6 – A las Potencias Masónicas de Nuestra Amistad. 2013.
  • LAS RAZONES DE CUBA. José Manuel Collera Vento. Link: http://razonesdecuba.cubadebate.cu/categoria/agentes/jose-manuel-collera-vento-gerardo/
  • LIST OF LODGES. Illinois, USA: Ed. Pantagraph, 2014.
  • MARES, José Fuentes. Poinssett, Historia de una gran intriga. Mexico: Editorial Jus, 1950.
  • THE JERUSALEM POST. Cuban document details charges against Alan Gross. Link: http://www.jpost.com/Jewish-World/Jewish-News/Cuban-document-details- charges-against-Alan-Gross/
  • TORRES-CUERVAS, Eduardo. Historia de la Masonería Cubana: seis ensayos. Havana: Imagen Contemporanea, 3th Ed., 2013.
  • TORRES-CUERVAS, Eduardo. Los Cuerpos Masónicos Cubanos durante el siglo XIX. In: V Symposium Internacional de la Historia de la Masonería Espanola. Cáceres, Espanha, 1993.
  • VIVANCO, Julián. José Antonio Miralla, precursor de la independência de Cuba. Havana: El Sol, 1958, p. 25.

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